O Retorno à Fiel Amante

26 de maio de 2026

Voltei a ler. Não que eu tenha parado, mas voltei a ler por prazer, pelo desfrute do momento. Voltei a ter a literatura como um momento de refúgio, de afastamento do tédio cotidiano e de recarga de energia para voltar à ação.

A literatura foi minha companhia mais constante desde as primeiras letras. Naquele bairro excluído pelo capital, sem energia elétrica, sem TV, sem brincadeiras na rua por proibição de meu pai, sob o medo da divindade propagada por todos ao meu redor, me fiz solitário e triste. Era um garoto negro tentando se localizar em um mundo em que não se via representado. Os livros se tornaram um refúgio em que eu descobri o mundo e vivenciei outras existências. Eles me fortaleciam ao me apontar possibilidades que me eram negadas pela realidade que eu vivia. De forma incipiente, me alertavam sobre uma desigualdade que era fruto de uma estrutura maior.

Essa amizade com a literatura permaneceu na adolescência, juventude e vida adulta. Como toda relação, modificou-se várias vezes. Intensa no início, quando era minha única amante, mas centrada com o passar do tempo. Teve que ceder espaço para os textos acadêmicos de História na faculdade, para os livros de teologia quando quis me tornar um porta-voz dos deuses e para a filosofia, que quase ocupou o lugar de principal amante.

Mas, sempre que o absurdo da existência batia à porta e o descontentamento com o pouco que a realidade parecia oferecer crescia a ponto de doer a alma, o retorno à fiel amante acontecia. Era interessante como a literatura se apresentava como uma velha confidente, sempre me ouvindo, sem julgamentos, trazendo experiências alheias que me conectavam à história universal. Como diria Schopenhauer, esse momento com a arte me possibilitou, e possibilita, olhar a existência sem ser devorado por ela, pois me levava à pura contemplação. Mas isso resolve o problema fundamental?

A vida adulta chega consumindo nosso tempo e energia. A necessidade de ser produtivo, de ganhar dinheiro para se sustentar e sustentar a família e de atender a todas as demandas sociais nos engole pouco a pouco. Na verdade, sendo mais objetivo, não é a vida adulta que provoca isso; o sistema capitalista é que nos consome e nos absorve, afastando-nos daquilo que dá sentido à vida, como apontam os meus velhos mestres da história e da filosofia.

Um dos textos que me ajudam a compreender essa sensação é Capitalismo Canibal, de Nancy Fraser. Ela diz que o capitalismo explora e expropria toda a energia disponível, devorando esferas da vida que vão muito além dos meios de produção e da mão de obra remunerada. Ele se apropria de nosso tempo, aumenta as demandas de cuidado com o outro — principalmente para as mulheres — e, com o endividamento, consome-nos à exaustão. Assim como os recursos naturais são explorados como se fossem infinitos, o sistema também exige tanto de nós que sobra pouco espaço para aquilo que nos alimenta, como a literatura.

As ideias de Fraser nos mostram que a exploração capitalista não age da mesma forma sobre todos os corpos. Historicamente, recai sobre os corpos negros o maior grau de expropriação. O bairro sem infraestrutura de minha infância não era uma coincidência infeliz. Ao ler Fraser hoje, reconheço que a pobreza tem endereço e cor. Resistir ao capitalismo é também uma forma de resistência ao racismo estrutural que tenta modular nossa existência.

O retorno aos livros não é, dentro deste contexto, apenas nostalgia daquele menino que fui. É, sim, um reencontro com as várias versões de mim que me constituem hoje. É uma ode à minha amante fiel e uma declaração de desejo de que ela continue me acompanhando. Mas é também uma forma de resistência ao mundo material que está colocado. Uma tentativa de não se deixar ser completamente engolido pelas forças do capital.

Gosto de pensar que ler ainda é um ato de liberdade. De parar a corrida sem fim do mundo do trabalho e escolher uma companhia para conversar, dialogar, pensar a existência. Apesar de o pensar não ser sempre agradável — na verdade, como diria Fernando Pessoa, "pensar incomoda como andar à chuva" —, essa é a necessidade que tenho para construir sentidos para a existência. Esse pensar gera desconforto e nos move à ação necessária de intervenção no mundo. A leitura e a escrita não são gestos inocentes. Conceição Evaristo já nos ensinou isso: "a nossa escrevivência não pode ser lida como história de ninar os da casa-grande, e sim para incomodá-los em seus sonos injustos".

Concordo com Fraser que a força exploratória e expropriatória canibal do capital só se encerrará quando ele for derrubado. Mas, enquanto isso, como arma de resistência e sobrevivência, tenho a leitura como um ato de autopreservação à lógica canibal do capitalismo e, ao mesmo tempo, para vislumbrar novas alternativas possíveis.

Márcio Ramos. 26/05/2026

Sugestão de leitura:

EVARISTO, Conceição. Olhos d'água. Rio de Janeiro: Pallas, 2014.

FRASER, Nancy. Capitalismo Canibal. São Paulo: Boitempo, 2023.

PESSOA, Fernando. O Guardador de Rebanhos. [Alberto Caeiro]. São Paulo: Globus, 2011