Crônica escolar

10 de junho de 2018

A discussão na reunião de professores corria animada, todos querendo opinar sobre o melhor meio de despertar o interesse dos alunos pela literatura. Como provocar nos alunos o encanto e o deslumbramento pelo fascinante mundo da leitura era a pauta do dia.

Após se decidirem sobre os projetos que envolveriam os alunos, o coordenador sugere, entusiasmado, que os professores participem da onda literária fazendo um Café Literário, onde seria recitado ou lido algum texto que o professor considerasse interessante para o grupo.

O professor que até então estava apático, ficou empolgado. Pouca coisa despertava seu real interesse nessas discussões pedagógicas, mas a literatura era sua grande paixão. Ao ouvir a proposta do Café Literário já vislumbrou momentos enriquecedores de troca de impressões literárias e da descoberta de novas e interessantes leituras, quem sabe um clássico que ele desconhecia ou um escritor contemporâneo em destaque.

Até que alguém se levanta e pergunta se podia ler trechos da Bíblia.

O homem se entristeceu. Sabia que seu vício literário também podia ser visto como uma fuga da realidade, como a que todos ali buscavam em suas experiências cotidianas e místicas. Entretanto, ele considerava que sua experiência era esteticamente mais rica e profunda, já que dialogava com a experiência criativa humana das palavras. Mas por que esse seu gosto seria melhor que o das outras pessoas daquela sala?

O homem tentou fazer uma defesa de se priorizar, de fato, a literatura nesse momento, mas foi voto vencido. Ele se recolheu novamente ao seu mundo, sentindo-se novamente só e diferente, percebendo-se cada vez mais solitário em seus interesses. Concluiu que não havia nada a ser feito. Cada um oferece o que tem, e a maioria ali só podia oferecer sua dose diária de leitura religiosa ou de autoajuda.

Ele tentava se apegar a essa análise da tolerância e do respeito às diferenças, mas não conseguia deixar de pensar quão pobre é uma sociedade em que seus mestres pedagogos não conhecem outra leitura senão a voltada para a prática devocional. O homem não conseguia compreender como aquele grupo de professores poderia contribuir para a formação de leitores, se eles mesmos não liam.

A tristeza diminuiu quando ele se lembrou de um dos seus poetas preferidos, Baudelaire. Viu um alívio em seu texto. "Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se. Embriaguem-se sem descanso. Com vinho, poesia ou virtude… A escolher." Como o homem não era virtuoso, pegou um vinho e um livro poético e foi se embriagar.