Citações
Acervo de citações e fragmentos literários selecionados pelo Prof. Márcio Ramos, organizados por autor, livro e tema.
Achille Mbembe
A semelhança de outros tempos, o mundo contemporâneo é modelado e condicionado profundamente por essa forma ancestral da vida cultural, jurídica e política que são a clausura, o cercamento, o muro, o campo, o cerco e, no fim das contas, a fronteira. São recuperados por todo lado processos de diferenciação, classificação e hierarquização para fins de exclusão, expulsão e erradicação. Novas vozes se erguem para proclamar que o universal humano ou não existe ou se limita ao que é comum não a todos os homens, mas apenas a alguns deles.
Produto de um maquinário social e técnico indissociável do capitalismo, de sua emergência e globalização, esse termo (o negro) foi inventado para significar exclusão, embrutecimento e degradação, ou seja, um limite sempre conjurado e abominado. Humilhado e profundamente desonrado, o negro é, na ordem da modernidade, o único de todos os humanos cuja carne foi transformada em coisa e o espírito em mercadoria a cripta viva do capital. Porém esta é sua patente dualidade numa reviravolta espetacular, tornou-se o símbolo de um desejo consciente de vida, força pujante, flutuante e plástica, plenamente engajada no ato de criação e até mesmo no ato de viver em vários tempos e várias histórias simultaneamente.
Adélia Prado
Deus não me dá sossego. É meu aguilhão. Morde meu calcanhar como serpente, faz-se verbo, carne, caco de vidro, pedra contra a qual sangra minha cabeça. Eu não tenho descanso neste amor. Eu não posso dormir sob a luz do seu olho que me fixa. Quero de novo o ventre de minha mãe, sua mão espalmada contra o umbigo estufado, me escondendo de Deus.
Affonso Romano de Sant'Anna
Estava indo, há muito, pra o deserto e não sabia. Antes, ao revés, julgava caminhar das pedras para o bosque lugar de onde o mel e o vinho jorrariam. Bastava fazer a travessia. Em alguma parte passei por algum oásis mas era para este destino de pedra silêncio e pasmo que me dirigia. Os beduínos há muito compreenderam o que eu não compreendia: apenas nos movemos entre pedras, cabras e camelos olhando ternamente o fim do dia. A tenda é provisória. Eterno só o áspero horizonte de pedra e a poesia.
Não é mais fácil nem menos perigoso do que subir — é diverso. Se olhados de fora — os gestos — podem parecer mais lentos. Para quem desce ao contrário, a sensação não é de vertigem — é complemento. Subir foi demorado descer é outra arte. É como se Sísifo do outro lado do monte estivesse. Descer com uma pedra nos ombros — pode ser leve
Houve um tempo em que Deus falava hebraico. Passou depois a falar latim após um rápido estágio pelo grego. Atualmente há quem afirme que optou pelo inglês embora em algumas tribos xamãs se comuniquem com os seus em incompreensíveis dialetos. Isto apenas prova que Deus é poliglota. Se não porque inventaria a Torre de Babel? Só não entendo porque alguns se apresentam como seus tradutores e intérpretes quando ele claramente fala pela voz dos pássaros e das flores ou quando pela boca das bactérias destrói (silencioso) — nossa empáfia verbal
Não é culpa minha se não estou aparelhado para entender certos conceitos e sinais. Conheço o ódio, o amor, a fome a ingratidão e a esperança. (Deus, a eternidade, o átomo e a bactéria me excedem.) O que não significa que os ignore. Ao contrário: por não compreendê-los finjo estar calmo — e desespero
Agostinho Neto
Ainda a minha vida oferecida à Vida ainda o meu desejo Ainda o meu sonho o meu grito o meu braço a sustentar o meu Querer E nas sanzalas nas casas nos subúrbios das cidades para lá das linhas nos recantos escuros das casas ricas onde os negros murmuram: ainda O meu Desejo transformado em força inspirando as consciências desesperadas.
Agostinho Neto, 1949
Não me exijas glórias que ainda transpiro os ais dos feridos nas batalhas Não me exijas glórias que sou eu o soldado desconhecido da humanidade As honras cabem aos generais A minha glória é tudo o que padeço e que sofri Os meus sorrisos tudo o que chorei Nem sorrisos nem glória Apenas um rosto duro de quem constrói a estrada pedra após pedra em terreno difícil Um rosto triste pelo tanto esforço perdido - o esforço dos tenazes que se cansam á tarde depois do trabalho Uma cabeça sem louros porque não me encontro por ora no catálogo das glórias humanas Não me descobri na vida e selvas desbravadas escondem os caminhos por que hei-de passar Mas hei-de encontrá-los e segui-los seja qual for o preço Então num novo catálogo mostrar-te-ei o meu rosto coroado de ramos de palmeira E terei para ti os sorrisos que me pedes.
Ala
Declarar o amor significa passar do evento-encontro para o começo de uma construção de verdade. É fixar o acaso do encontro na forma de um começo. E o que começa a partir daí não raro dura tanto tempo, é tão carregado de novidade e experiência de mundo, que, retrospectivamente, não parece nem um pouco contingente e casual, como no princípio, mas praticamente uma necessidade. Assim o acaso é fixado: a absoluta contingência do encontro com alguém que eu não conhecia passa a assumir os ares de um destino. A declaração de amor é a passagem do acaso para o destino, e é por isso que ela é tão perigosa, tão carregada de uma espécie de terrível nervosismo. A declaração de amor, aliás, não acontece necessariamente uma única vez. Ela pode ser longa, difusa, confusa, complicada, declarada e redeclarada, e fadada a ser redeclarada. É o momento em que o acaso se fixa. O momento em que dizemos: vou declarar ao outro o que aconteceu, o encontro, os episódios desse encontro. Vou declarar que aconteceu aqui, pelo menos para mim, algo que me compromete. É isto: eu te amo.
Albert Camus
Afinal, escrever ou ler um romance são ações insólitas. Construir uma história através de um novo arranjo de fatos verdadeiros não tem nada de inevitável nem de necessário. Se até mesmo a explicação banal – pelo prazer do criador e do leitor – fosse verdadeira, deveríamos nos perguntar qual necessidade faz a maior parte dos homens sentir prazer e se interessar por histórias inventadas. A contradição é a seguinte: o homem recusa o mundo como ele é, sem desejar fugir dele. Na verdade, os homens agarram-se ao mundo e, em sua imensa maioria, não querem deixá-lo. Longe de desejar realmente esquecê-lo, eles sofrem, ao contrário, por não possuí-lo suficientemente, estranhos cidadãos do mundo, exilados em sua própria pátria. Que é o romance, com efeito, senão esse universo em que a ação encontra sua forma, em que as palavras finais são pronunciadas, os seres entregues aos seres, em que a vida passa a ter a cara do destino? O mundo romanesco não é mais que a correção deste nosso mundo, segundo o destino profundo do homem. Pois trata-se efetivamente do mesmo mundo. O sofrimento é o mesmo, a mentira e o amor, os mesmos. Os heróis falam a nossa linguagem, têm as nossas fraquezas e as nossas forças. Seu universo não é mais belo nem mais edificante que o nosso. Mas eles, pelo menos, perseguem até o fim o seu destino, e nunca houve heróis tão perturbadores quanto os que chegaram aos extremos de sua paixão. É aqui que perdemos sua medida, pois eles terminam aquilo que nós nunca consumamos.
"Havia, porém, outros motivos de inquietação, em consequência das dificuldades de abastecimento que cresciam com o tempo. A especulação interviera e oferecia, a preços fabulosos, os géneros de primeira necessidade que faltavam no mercado habitual. As famílias pobres viam-se, assim, numa situação muito difícil, enquanto às ricas não faltava praticamente nada. Enquanto a peste, pela imparcialidade eficaz com que exercia seu ministério, deveria ter reforçado a igualdade entre os nossos concidadãos pelo jogo normal dos egoísmos, ao contrário, tornava mais acentuado no coração dos homens o sentimento da injustiça."
"Digo apenas que há neste mundo flagelos e vítimas e que é necessário, tanto quanto possível, recusarmo-nos a estar com o flagelo. Isto parece a você talvez um pouco simples. Não sei se é simples, mas sei que é verdadeiro. (...)Foi assim que decidi pôr-me do lado das vítimas, em todas as ocasiões, para limitar os prejuízos. No meio delas, posso ao menos procurar saber como se chega à terceira categoria, isto é, à paz. Ao terminar, Tarrou balançava a perna e batia levemente com o pé no terraço. Depois de um silêncio, o médico soergueu-se um pouco e perguntou-lhe se tinha alguma ideia sobre o caminho que era preciso seguir para se chegar à paz. -Tenho. A simpatia. - Em resumo - disse Tarrou com simplicidade, o que me interessa é saber como alguém pode tornar-se um santo. - Mas você não acredita em Deus... - Justamente. Poder ser um santo sem Deus é o único problema concreto que tenho hoje.(...) - Talvez - respondeu o médico -, mas, sabe, sinto-me mais solidário com os vencidos do que com os santos. Creio que não sinto atração pelo heroísmo e pela santidade. O que me interessa é ser um homem. - Sim, buscamos a mesma coisa, mas eu sou menos ambicioso."
A biblioteca compreendia uma maioria de romances, mas muitos eram proibidos aos menores de 15 anos e guardados à parte. E o método puramente intuitivo dos dois meninos não era na verdade uma escolha entre os que sobravam. Mas o acaso não é a pior coisa em matéria de cultura, e, devorando aqui e ali, os dois glutões engoliam o melhor ao mesmo tempo que o pior, sem aliás se preocuparem em guardar nada, e não guardando realmente quase nada, a não ser uma estranha e poderosa emoção que, através das semanas, dos meses e dos anos, fazia nascer e crescer neles todo um universo de imagens e lembranças redutíveis à realidade em que viviam no dia a dia, mas certamente não menos presentes para esses meninos ardentes que viviam seus sonhos tão violentamente quanto suas vidas. O que esses livros continham, no fundo, pouco contava. O que importava era aquilo que sentiam primeiro entrar ao na biblioteca, onde não viam as paredes de livros pretos, mas um espaço e horizontes múltiplos que, assim que transpunham a porta, os tirava da vida restrita do bairro. Depois vinha o momento em que, munidoscada um com os dois livros a que tinham direito, apertando-os com o cotovelo contra o corpo, saíam pela avenida àquela hora já escuraesmagando com os pés as bolotas dos grandes plátanos e imaginando as delícias que iriam saborear com seus livros, comparando-as já com as da semana anterior, até que, chegando à rua principal, começassem a abri-los sob a luz precária do primeiro lampião para recolher uma frase (por ex. "ele era de um vigor pouco comum") que iria reforçar neles a alegre e ávida esperança.
Ela dizia sim, mas talvez fosse não, era preciso voltar no tempo através de uma memória que mergulhara em trevas, nada era certo. A memória dos pobres já é por natureza menos alimentada que a dos ricos, tem menos pontos de referência no espaço, considerando que eles raramente saem do lugar onde vivem, e tem também menos pontos de referência no tempo de uma vida uniforme e sem cor. É claro que existe a memória do coração, que dizem ser a mais segura, mas o coração se desgasta com as dificuldades e o trabalho, esquece mais depressa sob o peso do cansaço. Só os ricos podem reencontrar o tempo perdido. Para os pobres, o tempo marca apenas os vagos vestígios do caminho da morte. E além disso, para poder suportar, não convém se lembrar muito, é preciso ficar muito perto de cada dia, de cada hora, como fazia sua mãe.
"A revolta nasce do espetáculo da desrazão diante de uma condição injusta e incompreensível. Mas seu ímpeto cego reivindica a ordem no meio do caos e a unidade no próprio seio daquilo que foge e desaparece. A revolta clama, ela exige, ela quer que o escândalo termine e que se fixe finalmente aquilo que até então se escrevia sem trégua sobre o mar. Sua preocupação é transformar. (...) Que é um homem revoltado? Um homem que diz não. Mas, se ele recusa, não renuncia: é também um homem que diz sim, desde o seu primeiro movimento. Um escravo, que recebeu ordens durante toda a sua vida, julga subitamente inaceitável um novo comando. Qual é o significado deste 'não'? Significa, por exemplo, 'as coisas já duraram demais', 'até aí, sim; a partir daí, não'; 'assim já é demais', e, ainda, 'há um limite que você quer ultrapassar'. (...) Encontra-se a mesma idéia de limite no sentimento do revoltado de que o outro 'exagera', que estende o seu direito além de uma fronteira a partir da qual um outro direito o enfrenta e o delimita. Desta forma, o movimento de revolta apóia-se ao mesmo tempo na recusa categórica de uma intromissão julgada intolerável e na certeza confusa de um direito efetivo ou, mais exatamente, na impressão do revoltado de que ele 'tem o direito de...'. A revolta não ocorre sem o sentimento de que, de alguma forma e em algum lugar, se tem razão. (...) Ele [o revoltado] demonstra, com obstinação, que traz em si algo que 'vale a pena' e que deve ser levado em conta. De certa maneira, ele contrapõe à ordem que o oprime uma espécie de direito de não ser oprimido além daquilo que pode admitir. O revoltado, no sentido etimológico, é alguém que se rebela. Caminhava sob o chicote do senhor, agora o enfrenta. Contrapõe o que é preferível ao que não o é. Nem todo valor acarreta a revolta, mas todo movimento de revolta invoca tacitamente um valor. (...) Segundo os bons autores, o valor 'representa, na maioria das vezes, uma passagem do fato ao direito, do desejado ao desejável (em geral, por meio do geralmente desejado)' (Lalande, Vocabulário Filosófico). A revolta passa do 'seria necessário que assim fosse' ao 'quero que assim seja', mas talvez, mais ainda, a essa noção de superação do indivíduo para um bem doravante comum. O surgimento do Tudo ou Nada mostra que a revolta, contrariamente à voz corrente, e apesar de oriunda daquilo que o homem tem de mais estritamente individual, questiona a própria noção de indivíduo. Se com efeito o indivíduo aceita morrer, e morre quando surge a ocasião, no movimento de sua revolta, ele mostra com isso que se sacrifica em prol de um bem que julga transcender o seu próprio destino."
Alberto Caeiro
Falas de civilização, e de não dever ser, Ou de não dever ser assim. Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos, Com as cousas humanas postas desta maneira. Dizes que se fossem diferentes, sofreriamos menos. Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor. Escuto sem te ouvir. Para que te quereria eu ouvir? Ouvindo-te nada ficaria sabendo. Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo. Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres. Ai de ti e de todos que levam a vida A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
O pastor amoroso perdeu o cajado, E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta, E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar. Ninguém lhe apareceu ou desapareceu. Nunca mais encontrou o cajado. Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas. Ninguém o tinha amado, afinal. Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo; Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre, As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento, A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem, estão presentes. (E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco nos pulmões) E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito.
Alberto Caeiro / Fernando Pessoa
O essencial é saber ver, mas isso, triste de nós que trazemos a alma vestida, isso exige um estudo profundo, aprendizagem de desaprender. Eu prefiro despir-me do que aprendi, eu procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, desembrulhar-me e ser eu.
Alessandro Uccello
Estranhos São tão estranhos esses adultos que nos pedem silencio gritando impedem-nos de brigar brigando e impõem respeito com insultos São tão estranhos esses adultos que exigem a verdade mentindo que querem nos educar fingindo serem sinceros, calmos e cultos Quando eu crescer quero continuar criança
Aline Bei
sabe, Pai te ver andando com aquela Mulher na praça me fez entender que você saiu de casa porque a nossa casa ou seja a Mãe era um lugar inóspito para você derramar o seu amor uma terra infértil, não chove pelo contrário, o sol torra cada pedaço de vida de um jeito que não sobra nada no horizonte e ainda assim eu nasci.
depois que saiu de casa, meu pai começou a cultivar no rosto a máscara do homem mais jovem que imaginou pra si. muita gente acreditava na tal máscara me diziam: seu pai é bonito, quanta vitalidade. pois eu revirava os olhos pensando puxe a máscara, anda, puxe! e você verá que o verdadeiro pai não passa de um exausto arrependido de um dia ter dito sim para a mulher que me colocou no mundo.
por que será que os estranhos sempre nos pesam menos? talvez por serem terra desconhecida, é o que abre espaço para a nossa imaginação. fulano deve ser ótimo, pensamos e as respostas ficam em suspenso amamos a possibilidade de a pessoa ser exatamente aquilo que projetamos nela. os estranhos não nos doem porque ainda não nos decepcionaram e se mantivermos tudo a uma boa distância: seguirão sendo essa doce incógnita.
talvez o inferno seja isto: uma cena que se repete pelos séculos.
a vida ainda que fosse a nossa maior ruína
Álvaro de Campos
Os mortos - eles nunca me deixam! Nem as pessoas mortas, nem os lugares do passado, nem os dias. E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica Toca-me levemente uma saudade no braço E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga A criança que fui ignorando ao sol quem eu haveria de ser.
Não: devagar. Devagar, porque não sei Onde quero ir. Há entre mim e os meus passos Uma divergência instintiva. Há entre quem sou e estou Uma diferença de verbo Que corresponde à realidade.
"Tu não sabes o que tem sido a minha vida!... Tu não sabes que martírio tem sido o meu... Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas E não ter jeito para procurar senão as outras coisas! Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia Tenho saudades dela como se não estivesse lá... Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas, Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto..."
"Está frio. Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xaile — O xaile que minha tia me punha aos ombros na infância. Mas os ombros da minha infância sumiram-se antes para dentro dos meus ombros. E o meu coração da infância sumiu-se antes para dentro do meu coração. Sim, está frio... Está frio em tudo que sou, está frio... Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha... E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas. Engelho o capote à minha volta... O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!... A multiplicidade da humanidade misturada Sim, aquilo a que chamam a vida, como se só houvesse outros e estrelas... Sim, a vida... Meus ombros descaem tanto que o capote resvala... Querem comentário melhor? Puxo-me para cima o capote. Ah, parte a cara à vida! Levanta-te com estrondo no sossego de ti!"
Esta velha angústia, Esta angústia que trago há séculos em mim, Transbordou da vasilha, Em lágrimas, em grandes imaginações, Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum. Transbordou. Mal sei como conduzir-me na vida Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! Se ao menos endoidecesse deveras
Álvaro de Campos / Fernando Pessoa
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram.
O que há em mim é sobretudo cansaço — Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço. A subtileza das sensações inúteis, As paixões violentas por coisa nenhuma, Os amores intensos por o suposto em alguém, Essas coisas todas — Essas e o que falta nelas eternamente —; Tudo isso faz um cansaço, Este cansaço, Cansaço. Há sem dúvida quem ame o infinito, Há sem dúvida quem deseje o impossível, Há sem dúvida quem não queira nada — Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: Porque eu amo infinitamente o finito, Porque eu desejo impossivelmente o possível, Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser... E o resultado? Para eles a vida vivida ou sonhada, Para eles o sonho sonhado ou vivido, Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... Para mim só um grande, um profundo, E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, Um supremíssimo cansaço, Íssimo, íssimo, íssimo, Cansaço...
André Comte-Sponville
Nada está adquirido nunca, nada está prometido nunca, senão a morte. Por isso só se pode escapar à angústia aceitando isso mesmo que ela percebe, que ela recusa e que a transtorna. O quê? A fragilidade de viver, a certeza de morrer, o fracasso ou o pavor do amor, a solidão, a vacuidade, a eterna impermanência de tudo... Essa é a vida mesma, e não há outra. Solitária sempre. Mortal sempre. Pungente sempre. E tão frágil, tão fraca, tão exposta!
Decepção: desilusão. É a mesma coisa, e o gosto mesmo da verdade. O amor decepciona. A arte decepciona. A filosofia decepciona. Pelo menos decepcionam primeiro e por muito tempo – até o dia em que os amamos pelo que são, pelo que são realmente, pelo que são apesar de tudo, e já não pelo que se tinha sonhado ou esperado deles. Trabalho do luto: trabalho da desilusão. Não se trata de acreditar; trata-se de conhecer e amar. Um escritor que ainda acredita na literatura, que poderá ele ensinar-nos de importante sobre ela ou sobre a vida? E um filósofo, se acredita na filosofia? Um músico, se acredita na música? Um pintor, se acredita na pintura? E como amar verdadeiramente, enquanto se acredita no amor, enquanto se faz dele uma religião, um absoluto, um sonho? Toda esperança é decepcionada sempre, mesmo quando é satisfeita; é no que a satisfação tantas vezes é melosa, como um desejo insosso assim que é saciado... Prefiro o alegre amargor do amor, do sofrimento, da desilusão, do combate, vitórias e derrotas, da resistência, da lucidez, da vida em ato e em verdade. Prefiro a realidade, e a dureza da realidade. Toda esperança é decepcionada, sempre; só existe felicidade inesperada.
Barbara Carine
É uma sensação estranha de não conseguir pensar um futuro, sabe? É assustador eu não conseguir pensar a minha vida daqui a trinta anos, minha mente bloqueia, parece que a gente não é feito pra ter uma noção de futuro. Parece que o que a gente tem é só uma roleta-russa, sabe o que é? Para nós, o futuro é sorte. Queria que a sociedade pensasse mais nisso. A gente tem aula de cidadania, mas que cidadania é essa?
Quilombo é uma organização existencial e política ativa, que reúne pessoas negras que aspiram um sonho de liberdade e de crescimento coletivo. É sobre outro modo de vida, um que passa por uma ideia de liberdade comunitária, saca?
"penduradas" em barrancos, ruas de terreno baldio; como se a desimportância social do cenário refletisse um pouco a desimportância das nossas vidas.
Aprendi ainda que nesse meio progressista de luta, nós, pessoas negras, precisamos ter o máximo de cautela, pois o jovem branco revolucionário é lido pelo Estado como inconsequente, enquanto o negro é lido como criminoso.
Não é bonito ser mártir não. O mártir é da cultura ocidental cristã, nada tem a ver com a ancestralidade africana. A nossa ancestralidade não é de sacrifícios singulares, mas de lutas coletivas. Quem glamorizou o sofrimento negro certamente não era um de nós.
Infelizmente isso é muito comum com as pessoas brancas, esse cuidado que precisa de plateia, precisa ser visto em todo canto, para demonstrar o quanto aquela pessoa é antirracista. Não é sobre a ação em si, é sobre o que aquela ação agrega a ela.
Estudar deveria ser a atividade principal da minha vida, mas infelizmente a sobrevivência ainda é a mais importante.
Acho quase um crime a existência de um professor amargurado em sala de aula. Isso reverbera em uma prática pedagógica desafetuosa, pouco planejada, isenta de abertura para sonhos e de perspectivas emancipatórias para aqueles jovens, que em sua grande maioria só têm o espaço escolar para alimentar os seus desejos de futuro. Entendo que as condições de trabalho muitas vezes são desmotivantes mesmo e tendem a levar os professores para esse lugar, mas tenho certeza de que não é só idealização minha. Sei que assim como aconteceu na Revolta do Buzu, nós precisamos resistir e lutar coletivamente por melhores condições salariais e estruturais. Só assim conseguiremos nos desviar dessa armadilha do desencantamento.
Tornei-me a intelectual negra que não encontrava, e isso se deu a partir de uma lógica de um espelho quebrado, ou talvez até da ausência completa do espelho.
Bárbara Carine
intelecpluralidade.
A intelecpluralidade é uma categoria de descolonização do pensamento que pauta a ruptura com o modelo único de intelectualidade imposto pela óptica brancocêntrica ocidental, prevendo uma ritualística epistêmica e performática para a constituição da pessoa intelectual.
A moral cristã traz uma perspectiva castradora da vida humana em diversos sentidos. Primeiro ela retira a centralidade da vida da própria vida e a coloca no pós- vida, na vida após a morte; vivemos para conquistar o reino dos céus, somos estrangeiros aqui. Depois promoveu ao longo dos tempos uma inversão de valores. Nas sociedades anteriores à era comum ocidental, eram valoradas a força, a coragem, a altivez. A moral cristã chega e transforma tudo isso que era visto como bom, como qualidade, em algo ruim; os antigos valores passam a ser características de pessoas arrogantes do ponto de vista social, e tendências de submissão e humildade se tornam valorizadas.
No século XXI, com os estudos genéticos contemporâneos, essa noção de raça biológica cai por terra. Contudo, o conceito social de raça se tornou fortemente presente no imaginário coletivo, e a ideia sociológica da inferioridade humana de pessoas negras baliza ainda hoje grande parte das relações sociais no Brasil. Desse modo, não adianta afirmar que o racismo não existe por sermos todos humanos; o racismo existe justamente porque a humanidade o criou.
A colonialidade é esse padrão subjetivo de rebaixamento existencial de um grupo social frente àqueles autointitulados colonizadores. Digo isso porque, se indígenas e africanos tivessem a prerrogativa de nomear esses sujeitos, certamente os chamariam de demônios, assassinos, genocidas, ladrões, sequestradores e por aí vai… tudo, menos colonizadores. A relação colonizador e colonizado se estabelece para além do campo objetivo; ela se materializa também na língua, ou melhor, na colonialidade linguística. De modo geral, a colonialidade é uma máquina de impressão de “verdades” monoculturais: só uma história é assumida, só uma beleza é exaltada, só uma religião é a do Deus verdadeiro, só uma epistemologia é a validada, só uma linguagem é assumida. Povos altamente poliglotas, como os africanos e indígenas, são treinados para se embotar intelectualmente como os seus agressores, precisando abrir mão do desenvolvimento sociocognitivo gigantesco que aprender diversas línguas gera e abraçar uma monocultura linguística do seu opressor.
dialetos. O idioma é aquele do colonizador, enquanto os dialetos são as diversas formas de comunicação oral que vieram antes por parte dos povos intitulados colonizados. O idioma do tal colonizador floresce como erva daninha que sufoca os outros, fazendo- os morrer pouco a pouco culturalmente por inanição. Esse idioma é imposto, com a sua norma culta e, obviamente, com o campo performático discursivo do colonizador, e é justamente aqui que as opressões de linguagem e oralidade se cruzam.
Não tenha vergonha de falar. Fale como for, mas fale. Fale na frente do espelho, fale para familiares, fale para seu melhor amigo, fale para seu cachorro, fale para você mesmo andando na rua. Não importa como: fale. Fale até você se sentir confortável com sua fala e ir sentindo, avaliando e direcionando os caminhos de melhoria dela, tanto para a sua finalidade central– a compreensão do outro– quanto para o seu bem- estar com você mesma ou mesmo.
Asseguro que sou formada por cada perspectiva que li e acessei ao longo da minha trajetória, e todas elas compõem o que sou hoje, mas atualmente prefiro não me dizer uma intelectual da teoria X ou Y. Prefiro me dizer uma intelectual que, no exercício da minha intelecpluraridade, reflete o mundo a partir de várias bases, optando por não se filiar paradigmaticamente a nenhuma delas.
Na perspectiva da intelectual negra Conceição Evaristo, é uma questão de escreviver. E não apenas a escrevivência como a mera junção das palavras “escrita” e “vivência”, mas também das experiências emancipadoras que se aglutinam em uma escrita não neutra e apartada das suas emoções e percepções. É uma escrita sobre si que também é sobre todo um coletivo silenciado, destituído de potencialidade literária.
a intelectualidade perpassa pela superação da alienação da especialidade em si, reintegrando esse específico à sua totalidade social percebendo como ela impacta e é impactada pela sociedade, como os outros campos de conhecimento podem se associar a ela, analisando a realidade social inclusive fora dos seus conhecimentos específicos decorrentes da sua pesquisa. Isso para mim é o intelectual
descolonização de saberes, para além de uma perspectiva epistemológica, é uma forma de reprodução existencial pautada na subversão das normativas impostas pelo Norte global, que representa mais que uma localização geográfica e epistêmica; trata- se de uma disputa de narrativa histórica e, portanto, uma disputa de humanidade.
Nós, pessoas negras e indígenas, fomos destituídas de humanidade e, obviamente, de todas as características eminentemente humanas. Sendo o ser humano um animal racional, e pessoas negras e indígenas consideradas não humanas, ou menos humanas, seríamos pessoas desprovidas de racionalidade, portanto, de intelecto.
De acordo com o líder quilombola e escritor piauiense Nego Bispo (2015), precisamos compreender por colonização todos os processos etnocêntricos de invasão, expropriação, etnocídio, subjugação e até mesmo de substituição de uma cultura pela outra, independentemente do território físico- geográfico em que essa cultura se encontra. O escritor e pedagogo Luiz Rufino (2019) nos dirá que colonizar é limitar, despotencializar, controlar, dominar, simplificar, dividir e subtrair as possibilidades de vida fora do eixo normatizador do mundo colonial.
É unicamente a partir do entendimento de que o processo colonial é um saque, um sequestro, e não apenas um apagamento, que podemos iniciar um processo de resgate histórico dos sujeitos que foram silenciados nesse caminho.
A cultura ocidental é fortemente marcada por dicotomias hierárquicas que apresentam implicitamente noções de avanço e retrocesso, como: civilizado e incivilizado ou bárbaro, moderno e tradicional, razão e emoção, alma e corpo, inteligível e sensível, ser humano e natureza, sujeito e objeto, essência e aparência, homem e mulher, negro e branco, cis e trans, homo e hétero etc. Essas dicotomias impõem a possibilidade de separação entre razão e emoção, de modo que vinculam, inclusive, esses conceitos a órgãos do corpo, como se a emoção estivesse vinculada ao coração e a razão ao cérebro, como se o corpo não fosse uno, como se tivesse compartimentos que se responsabilizam por guardar estímulos humanos distintos.
A raça, enquanto categoria colonial moderna, surge para produzir a constituição de humanidade para pessoas brancas a partir da negação da humanidade dos outros. A colonialidade do ser parte da modulação da existência dos indivíduos. A colonialidade do ser é a dimensão ontológica da colonialidade, que se afirma na violência da negação do outro (Carneiro, 2023), sendo inclusive uma premissa basilar para o alterocídio, que, como nos aponta o filósofo, escritor e professor camaronês Achille Mbembe (2018), destitui o outro de sua condição de alteridade, ou melhor, de paridade. É como se fosse tão outro que nem humano é. É a morte ao outro nessa condição de altero.
A escrevivência é essa escrita pautada na própria vida a partir das nossas histórias singulares, mas dialeticamente coletivas de emancipação.
intelecpluralidade é uma categoria decolonial que pauta a ruptura com o modelo único de intelectualidade imposto pela óptica brancocêntrica ocidental, prevendo uma ritualística epistêmica e performática para a constituição do/ da intelectual.
tempo também ganha outros entendimentos. Para algumas delas, o tempo é entidade. O tempo é divindade. O tempo é rei. Muito além de uma grandeza física, o tempo cura males e nos faz lembrar da nossa pequenez diante da sua grandiosidade.
A descolonização da minha perspectiva temporal me fez compreender que o tempo nem sempre é linear e que, às vezes, ele pode ser cíclico, ou melhor, espiralar e tangenciar a linha de algumas dores ou alegrias outrora vividas. No entanto, também entendi que isso não significava retrocesso, apenas que o próprio fluxo temporal não é previsível.
por isso, achava- me uma pessoa difusa, perdida. Levou muito tempo para eu perceber que a minha genialidade estava justamente naquilo que as pessoas preteriam, na minha capacidade, mas sobretudo no meu prazer, em ser uma pessoa de vários acessos pouco aprofundados em campos e temáticas diversas.
Ser mediano não é ruim, do mesmo jeito que ser fora da curva também não é. Ruim mesmo é não aceitar quem se é, é não buscar olhar para as suas potencialidades nem as valorizar.
Talvez pareça um novo tempo de violências objetivas e, sobretudo, simbólicas contra a comunidade negra brasileira. Entretanto, é só mais uma onda de opressão contra nós– que já resistimos aos açoites, à solidão, à desumanização, à indigência, à escassez, ao apagamento das nossas memórias. Resistimos às estratégias científico- políticas de extinção por miscigenação e à indiferença arquitetada para que, olhando nos olhos dos nossos iguais, não nos reconhecêssemos. Mesmo com todos os mecanismos mais brutais de construção de indiferença, sobrevivemos justamente pela coletividade que nos foi negada e pelo autorreconhecimento proveniente dela, nós nos olhamos nos olhos e nos reconhecemos mesmo diante das mais variadas diferenças que os nossos olhos podem apreender. Nós nos olhamos e nos vemos, nos emocionamos e nos fortalecemos.
População negra brasileira, uni- vos! Mas não nos unamos a sós, e sim aos indígenas, aos amarelos, aos brancos que traíram a própria pretensa condição de universalidade e nos enxergaram humanos como eles. A todos os povos que sonham com a liberdade para todos os sujeitos sem distinção de raça, identidade de gênero, classe, sexualidade ou qualquer outro marcador das experiências humanas.
Este é um livro que visa a contribuir com os crescentes debates acerca da identidade racial brasileira, partindo da localização epistêmica e política do acúmulo intelectual e histórico dos movimentos negros organizados. Falarei sobre a noção de raça social como uma construção humana, os sistemas da branquitude e da negritude no Brasil, bem como os ataques às políticas públicas de cotas raciais e, ainda, o movimento NeoPardo como reprodutor de velhos discursos racialistas de atomização para a dominação da comunidade negra brasileira.
A filósofa brasileira Sueli Carneiro, em seu livro Dispositivo de racialidade, não coloca raça como uma categoria biológica, mas como um dispositivo social e político que opera a racialidade por meio de relações de poder, violências e colonialismos, ou seja, para ela raça seria um constructo social produtor de desigualdades. Nesse sentido, raça social– primeiro porque se trata de uma invenção humana, portanto social, segundo porque o conceito se mantém vivo na atualidade, nas relações sociais de poder e nas ciências sociais que a estudam.
Foi assim que surgiu o conceito de raça nas ciências biomédicas. Os cientistas passaram a associar as diferenças estéticas, portanto fenotípicas, às variações genéticas dos diferentes grupos. Em outros termos, a população negra teria genes que propiciaram essa estética, o mesmo para os povos amarelos, brancos e de pele vermelha, ou seja, o genótipo informaria o fenótipo. Com o conceito de raça, surgiu a opressão do racismo. Ou teria sido o contrário? Foi justamente por causa do racismo que as raças foram criadas? O fato é que, com o surgimento dessa noção, rapidamente uma série de cientistas hierarquizou as diferentes raças, colocando o europeu no topo.
cenário, a ciência europeia desenvolveu a noção de raça e, com as hierarquias provenientes dela, justificaram a escravidão ontológica humana.
Tratava- se de um regime escravocrata muito diferente das demais experiências de escravidão do mundo, pois não era por dívida, cujo pagamento garantia liberdade, ou por conflito étnico, de acordo com o qual se sua comunidade fosse escravizada em um dia, mas no dia seguinte vencesse a batalha, os polos dessa relação de poder se invertiam. Era uma escravidão de base ontológica. Eram escravos justamente por serem inumanos, algo como uma marca indelével.
o racismo científico tratou de desumanizar pessoas da raça biológica negra, uma vez que, naquele contexto, por meio de experimentos craniométricos diversos, chegaram à conclusão de que negros não haviam evoluído à condição humana pois não pensavam, eram corpos que performavam desprovidos de racionalidade.
Tudo isso para justificar que pessoas negras foram ontologicamente destituídas de humanidade, fato que sustentou o ideário de uma escravidão ontológica. É escravo porque não é gente. E era escravo mesmo, não escravizado. O escravizado era o sujeito paciente da ação de um agente. O termo remete a uma relação dual, causal e em movimento.
Para Frantz Fanon, no livro Os condenados da Terra, a escravidão e o colonialismo são sistemas de violência indissociáveis, que não apenas subjugam fisicamente os povos colonizados, como também destroem identidades, levando aqueles que compõem esses povos a um profundo sofrimento psíquico.
A abolição da escravatura foi uma conquista social oriunda dos movimentos abolicionistas dentro e fora do Brasil. Entretanto, o dia 13 de maio de 1888 não ficou registrado como um marco na nossa história, pois a liberdade segue sendo uma luta constante, um sonho de toda e qualquer pessoa negra brasileira que aspira dignidade de vida.
“o dia 14 de maio de 1888 é o dia mais longo da nossa história”. 2 Ele dura até hoje.
Mesmo o Brasil tendo sido o último país das Américas a acabar institucionalmente com a escravidão ontológica– digo em esfera institucional, pois sabemos que a escravidão contemporânea ainda é uma realidade clandestina no nosso país–, não houve uma preocupação no sentido de humanizar pessoas negras, em termos de melhores condições de vida.
O racismo científico, o da idealização e da hierarquização da noção de raças, foi o principal legitimador da escravidão nas Américas, tratando de animalizar pessoas negras.
Até os dias de hoje, sempre que uma pessoa negra é chamada de “macaca” em um estádio de futebol, ou em uma discussão qualquer, torna- se evidente que essa memória racialista segue firme como paradigma existencial. Chama- se um negro de “macaco” não para dizer que ele se parece com um (o que já seria bastante ofensivo), mas para informá- lo de que ele não alcançou a condição humana e, portanto, não tem paridade existencial com o racista agressor verbal. Para ele, ambos se distinguem na discussão: o humano e o inumano.
Ninguém sonha mais com o Dia da Consciência Humana do que as pessoas negras e indígenas. O dia em que o sistema da branquitude brasileira vai parar de nos matar de tantas formas: física, intelectual, emocional, religiosa e afetivamente. Sonhamos muito com o dia em que teremos paridade nas oportunidades de emprego, de moradia, de acessos aos espaços de poder. O dia em que o Brasil acordará para a consciência coletiva da nossa humanidade. Até lá, precisamos continuar fazendo barulho, nos impondo, denunciando violências e cobrando justiça e equidade.
A raça humana passou a ser uma só, mas se esqueceram de avisar à polícia, às escolas e universidades, à mídia televisiva, aos centros de saúde, às lideranças empresariais e a todos os espaços de poder na nossa sociedade. Neste país, onde uma pessoa negra ou indígena é violentada por sua condição existencial, a raça está viva como uma categoria subalternizante da sua existência. Não adianta afirmar com uma retórica vazia que o conceito de raça não existe. Raça e racismo são indissociáveis. Se o racismo– uma opressão estrutural que tem o marcador da racialidade como um dispositivo hierarquizador de pessoas– existe, a noção de raça segue mais viva do que nunca entre nós.
há uma grande diferença entre as noções de raça e etnia, comumente confundidas em nosso país. Etnia envolve diversos fatores culturais, como tradições, costumes, línguas e religiões. Podemos entender melhor a partir do exemplo dos povos indígenas no Brasil, que compõem uma única raça social, constituída por cerca de 305 etnias, que, falando em torno de 274 línguas, são responsáveis por grande parte da diversidade cultural do povo brasileiro. Ao passo que a raça tem bases fenotípicas, portanto, físicas, e se estrutura como um constructo social oriundo do racismo científico.
defino “branquitude” como o sistema de manutenção de privilégios de um dado grupo social caracterizado por ter o fenótipo branco. O sistema da branquitude se concretiza/ materializa em toda e qualquer pessoa branca.
Para a branquitude, queremos o extermínio, já a pessoa branca, queremos como aliada na luta antirracista.
Cabe a você integrar a luta antirracista e usar o seu privilégio social para construir condições de oportunidade para que maiorias minorizadas[ 1] acessem direitos outrora negados, democratizando, assim, suas vantagens sociais. Não dá para mudar o passado, mas é possível alterar o curso de suas consequências transformando o presente e o futuro.
Não queremos tirar os benefícios das pessoas brancas, e sim que eles deixem de ser privilégios, pois, quando a vantagem social passa a ser apenas para um grupo em detrimento dos demais, torna- se privilégio– um conceito dialético que apenas existe na relação, visto que alguém é privilegiado diante de outro alguém que não o é.
Todas as pessoas, de algum modo, são atravessadas pelo racismo na nossa sociedade.
A construção do mito da democracia racial decorre de um processo de miscigenação pensado pela esfera governamental visando alcançar o branqueamento da nação e, assim, atingir as suas metas de progresso nacional.
Por mais que hoje as pessoas tenham total direito de fazer as próprias escolhas do ponto de vista afetivo- sexual, não podemos, em hipótese alguma, romantizar o histórico da mestiçagem no Brasil.
Defender a tese da multirracialidade brasileira, nesse sentido, é negar o histórico extremamente violento de construção racista das noções de superioridade e supremacia branca frente aos não brancos.
De acordo com o antropólogo brasileiro- congolês Kabengele Munanga, em sua obra Rediscutindo a mestiçagem no Brasil, a mestiçagem brasileira foi formada a partir de relações de poder desiguais, e a democracia racial é uma farsa na construção da identidade nacional que teve como intuito mascarar a discriminação racial no país.
Porque a estrutura de privilégios sociais conferidas à branquitude segue firme e hackea os indivíduos sociais a partir de sua aproximação ou de seu afastamento do sujeito universal (pessoa branca).
Raça no Brasil é uma característica fenotípica social, não tem a ver com quem são o seu pai e a sua mãe. Inclusive, é recorrente essa indagação em minhas redes sociais: “Meu pai é negro e minha mãe é branca, o que eu sou pra você?”. Minha resposta é: “Não sei, preciso ver você pessoalmente”. Isso porque a experiência racial brasileira é marcada pela identificação visual. O racismo no Brasil é profundamente estético, e o privilégio também.
No Brasil, a sua racialidade é determinada pela leitura social que fazem de você, possibilitando- lhe acessos ou restrições mediante essa leitura. Em uma sociedade estruturalmente racista, ser branco é ser universal.
O corpo branco é o ser genérico. A máxima representação do humano é branca.
que, em geral, ao falarmos de relações étnico- raciais, rapidamente pensamos em negros e indígenas, e não nos estudos da branquitude, justamente em razão dessa pretensa universalidade branca. De acordo com a escritora e doutora em psicologia social, Lia Vainer Schucman, em seu livro Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: branquitude, hierarquia e poder na cidade de São Paulo, a construção da branquitude está relacionada a um lugar de poder no qual se classifica o outro, e não a si mesmo– ou seja, a classificação do outro associada à geopolítica.
Essa universalidade faz com que “o branco simplesmente seja, e não se torne”, tomando aqui como referência a obra magna da psicologia racial brasileira Tornar- se negro, da psicanalista Neusa Santos Souza.
Ninguém se torna branco no Brasil, nasce- se branco e goza- se desse privilégio por toda a vida.
em nosso país existe territorialidade racial,
“Se há territorialidade racial, há apartheid”.
Embora o racismo à brasileira seja bastante explícito, acabamos por nomeá- lo de forma velada apenas por não ter sido oficialmente institucionalizado pelo Estado, mas sempre construído e forjado nas entrelinhas. Por isso, no livro Como ser um educador antirracista, afirmo que todas as pessoas são racistas no Brasil– negros e indígenas reproduzem racismo–, justamente porque o racismo está no imaginário coletivo popular. Essa fala soa agressiva aos ouvidos, pois sabemos que, em relação ao ato individual, racismo é crime e não queremos ser criminosos, mas, no que tange às estruturas coletivas, o racismo permeia o nosso imaginário desde sempre e em todos os complexos sociais, construindo as nossas subjetividades.
A democracia racial brasileira é um mito precisamente porque ela não existe.
O que estou querendo dizer é que, aqui, a raça é uma leitura social e que, mesmo que você seja uma pessoa branca com cabelos cacheados, você é branca.
“Ah, Bárbara, mas fora do Brasil eu não sou lido como uma pessoa branca.” O que eu posso te dizer, meu bem, é que você não mora fora do Brasil. Você mora aqui, onde a racialidade é de estampa e territorial.
as políticas reparatórias no país têm como intuito reverter as desigualdades sociais brasileiras– e não estrangeiras–, tratando os diferentes de modo diferente para equiparar as condições de acesso, permanência e chegada em relação às conquistas sociais. O nome disso é equidade racial, que visa a um dia alcançar a igualdade racial.
que cabe a uma branquitude crítica composta por pessoas brancas que reconhecem os próprios privilégios contemporâneos e históricos, interessadas em ajudar na construção de uma sociedade justa e equânime, é romper com o pacto narcísico da branquitude.
o conceito consiste em um acordo não verbalizado de autopreservação, que atende aos interesses de determinados grupos e perpetua o poder de pessoas brancas. Então, se você for uma pessoa branca, utilize sua condição privilegiada para democratizar vantagens sociais e garantir direitos amplamente distribuídos entre a camada racial de que faz parte e que precisam ser coletivizados.
pacto narcisico
Ser negro no Brasil é uma experiência fenotípica social– não tem a ver com a maneira como você se enxerga no espelho, e sim com o modo como te veem.
O racismo no Brasil é de marca e não de origem, como nos Estados Unidos. Engana- se quem vive de afirmar que os movimentos negros brasileiros querem importar as teorias raciais estadunidenses e aplicá- las aqui sem criticidade. Esta é uma falácia, pois nós sabemos, conforme já dito, que a construção da identidade racial estadunidense é bastante diferente da brasileira.
parte das dissidências que temos hoje dentro das organizações negras vem de um lugar de dor de pessoas que tiveram– gratuitamente– as experiências fenotípicas sociais de negritude negadas.
o colorismo consiste no tratamento diferenciado destinado a pessoas negras de diferentes tons de pele: quanto mais escuro, pior o tratamento, mais escassas as oportunidades, mais restritos os direitos.
Isso é uma decorrência do colorismo, que desde o período colonial no Brasil construiu socialmente uma ideia de que negros mais claros estão mais perto do ideal nacional de brancura, fazendo com que acreditássemos nisso, a despeito dos dados de desigualdade social aproximarem mais pardos de pretos do que de brancos, e introjetou isso no imaginário coletivo brasileiro, promovendo a criação de hierarquias dentro do nosso povo negro. Se pensarmos do ponto de vista interseccional, como nos convida a escritora e ativista baiana Carla Akotirene em seu livro Interseccionalidade, caso essa pessoa preta seja mulher, trans, pobre, gorda, homossexual, uma pessoa com deficiência, ou seja, se adicionarem nela outras identidades sociais depreciadas pelas opressões estruturais, a violência torna- se ainda mais intensa.
teremos momentos de cansaço, mas precisamos ter consciência da força da nossa coletividade, como há décadas salientam os nossos mais velhos do Movimento Negro Unificado: “Povo negro unido, povo negro forte, que não teme a luta, que não teme a morte”.[
delas, as cotas raciais, que se configuram como a maior ameaça construída até aqui à branquitude no nosso país. Isso porque, por meio dessa política, são criadas condições de oportunidade de acesso para as populações negras e indígenas, de modo que podemos aceder a espaços profissionais e educacionais de poder, diminuindo, assim, a universalidade branca em dois aspectos: em quantidade, visto que as vagas deixam de ser somente para pessoas brancas e passam a ser democratizadas; ao acessarmos esses espaços, acabamos com o mito da competência exclusivamente branca, mostrando que somos capazes e competentes e que podemos ser até mais inventivos– uma capacidade desenvolvida em decorrência das nossas condições sociais, que implicam a necessidade de sempre nos reinventarmos, criando inúmeras estratégias de sobrevivência, como as famosas “gambiarras”, fruto da genialidade de pessoas faveladas (majoritariamente negras no Brasil).
Bernardo Soares
"Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas - onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza."
Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim pude esquecer-me na visão do seu movimento. Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumam — quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes de paisagem — uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar. A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. Não alinho hoje nas minhas gavetas carros de linha e peões de xadrez — com um bispo ou um cavalo acaso sobressaindo — mas tenho pena de o não fazer... e alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no Inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas. Alguns passam dificuldades, outros têm uma vida boémia, pitoresca e humilde. Há outros que são caixeiros-viajantes. (Poder sonhar-me caixeiro-viajante foi sempre uma das minhas grandes ambições — irrealizada infelizmente!) Outros moram em aldeias e vilas lá para as fronteiras de um Portugal dentro de mim; vêm à cidade, onde por acaso os encontro e reconheço, abrindo-lhes os braços, numa atracção... E quando sonho isto, passeando no meu quarto, falando alto, gesticulando... quando sonho isto, e me visiono encontrando-os, todo eu me alegro, me realizo, me pulo, brilham-me os olhos, abro os braços e tenho uma felicidade enorme, real. Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram! O que eu sinto quando penso no passado, que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida..., isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos, as próprias figuras secundárias que me recordo de ter visto uma só vez, por acaso, na minha pseudovida, ao virar uma esquina da minha visionação, ao passar por um portão numa rua que subi e percorri por esse sonho fora. A raiva de a saudade não poder reavivar e reerguer nunca é tão lacrimosa contra Deus, que criou impossibilidades, do que quando medito que os meus amigos de sonho, com quem passei tantos detalhes de uma vida suposta, com quem tantas conversas iluminadas, em cafés imaginários, tenho tido, não pertenceram, afinal, a nenhum espaço onde pudessem ser, realmente, independente da minha consciência deles! Oh, o passado morto que eu trago comigo e nunca esteve senão comigo! As flores do jardim da pequena casa de campo e que nunca existiu senão em mim. As hortas, os pomares, o pinhal da quinta que foi só um meu sonho! As minhas vilegiaturas supostas, os meus passeios por um campo que nunca existiu! As árvores de à beira da estrada, os atalhos, as pedras, os camponeses que passam... tudo isto, que nunca passou de um sonho, está guardado em minha memória a fazer de dor e eu, que passei horas a sonhá-los, passo horas depois a recordar tê-los sonhado e é, na verdade, saudade que eu tenho, um passado que eu choro, uma vida real morta que fito, solene, no seu caixão. Há também as paisagens e as vidas que não foram inteiramente interiores. Certos quadros sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes com que convivi muitas horas — passam a realidade dentro de mim. Aqui a sensação era outra, mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar ali, quer eles fossem reais ou não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais, desenhada ao pé daquele bosque ao luar que havia numa pequena gravura dum quarto onde dormi já não em pequeno! Não poder eu pensar que estava ali oculto, no bosque à beira do rio, por aquele luar eterno (embora mal desenhado), vendo o homem que passa num barco por baixo do debruçar-se de um salgueiro! Aqui o não poder sonhar inteiramente doía-me. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero eram diferentes. A impossibilidade que me torturava era de outra ordem de angústia. Ah, não ter tudo isto um sentido em Deus, uma realização conforme o espírito de nossos desejos, não sei onde, por um tempo vertical, consubstanciado com a direcção das minhas saudades e dos meus devaneios! Não haver, pelo menos só para mim, um paraíso feito disto! Não poder eu encontrar os amigos que sonhei, passear pelas ruas que criei, acordar, entre o ruído dos galos e das galinhas e o rumorejar matutino da casa, na casa de campo em que eu me supus... e tudo isto mais perfeitamente arranjado por Deus, posto naquela perfeita ordem para existir, na precisa forma para eu o ter que nem os meus próprios sonhos atingem senão na falta de uma dimensão do espaço íntimo que entretém essas pobres realidades... Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo... É cedo ainda. Mal passa o meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis, alamedas vetustas, inencontráveis de antes, para os isolados no sonhar! Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto, por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas, exprimi-lo sem palavras, sem consciência mesmo, por uma construção de mim próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos olhos só de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encantado, por lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Distante, sem sentido nenhum excepto Deus.
Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis. Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.
Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna. Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de Verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro... Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabe por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, os perigos que penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das coisas... Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no Inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas... Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho — com vontade de lhes dar beijos — os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases — fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste! ... Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De um pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá ideia de nada. Às vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma ideia dele a quem possa amar... Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez não seja nunca esse o pai da minha alma... Quando acabará isto tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para sua casa e me desse calor e afeição... Às vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar... Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio... Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum... E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis para seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos. Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, O Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci... Torna a dar-me ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que dormia...
Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram, daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poetas românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.
Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança. Mas por que deixou que a Vida me batesse e me tirasse os brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com as mãos tão fracas o bibe azul sujo de lágrimas compridas? Se eu não poderia viver senão acarinhado, por que deitaram fora o meu carinho? Ah, cada vez que vejo nas ruas uma criança a chorar, uma criança exilada dos outros, dói-me mais que a tristeza da criança o horror desprevenido do meu coração exausto. Doo-me com toda a estatura da vida sentida, e são minhas as mãos que torcem o canto do bibe, são minhas as bocas tortas das lágrimas verdadeiras, é minha a fraqueza, é minha a solidão, e os risos da vida adulta que passa usam-me como luzes de fósforos riscados no estofo sensível do meu coração.
Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã (no fato cristão) e que criou em si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas da ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram enamorados só da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda, iam buscar a orientes e ocidentes outras formas religiosas com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver. Tudo isso nós perdemos. De todas essas consolações nascemos órfãos. Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim perdê-las a todas. Nós perdemos essa, e às outras também. Ficamos, pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de se sentir viver. Um barco parece ser um objeto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontramo-nos navegando, sem a idéia do porto a que nos deveríamos acolher. Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso. Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuímo-nos, porque o homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma idéia do futuro, também não temos uma idéia de hoje, porque o hoje, para o homem de ação, não é senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta conosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta. Uns de nós estagnaram na conquista alvar do quotidiano, reles e baixos buscando o pão de cada dia, e querendo obtê-lo sem o trabalho sentido, sem a consciência do esforço, sem a nobreza do conseguimento. Outros, de melhor estirpe, abstivemo-nos da cousa pública, nada querendo e nada desejando, e tentando levar até ao calvário do esquecimento a cruz de simplesmente existirmos. Impossível esforço, em quem não tem, como o portador da Cruz, uma origem divina na consciência. Outros entregaram-se, atarefados por fora da alma, ao culto da confusão e do ruído, julgando viver quando se ouviam, crendo amar quando se chocavam contra as exterioridades do amor. Viver doía-nos, porque sabíamos que estávamos vivos; morrer não nos aterrava porque tínhamos perdido a noção normal da morte. Mas outros, Raça do Fim, limite espiritual da Hora Morta, nem tiveram a coragem da negação e do asilo em si próprios, o que viveram foi em negação, em descontentamento e em desconsolo. Mas vivemo-lo de dentro, sem gestos, fechados sempre, pelo menos no gênero de vida, entre as quatro paredes do quarto e os quatro muros de não saber agir.
A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos - vis porque são nossos e vis porque são vis. O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela. O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele. Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso - o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objetivo. Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.
LITANIA Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos — um poço fitando o Céu.
"Dobraram a curva do caminho e eram muitas raparigas. Vinham cantando pela estrada, e o som das suas vozes era felizes. Elas não sei o que seriam. Escutei-as um tempo de longe, sem sentimento próprio. Uma amargura por elas sentiu-me no coração. Pelo futuro delas? Pela inconsciência delas? Não directamente por elas ou, quem sabe? talvez apenas por mim."
Bertold Brecht
De que serve a bondade Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos Aqueles para quem foram bondosos? De que serve a liberdade Quando os livres têm que viver entre os não-livres? De que serve a razão Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa? 2 Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor; A faça supérflua! Em vez de serdes só livres, esforçai-vos Por criar uma situação que a todos liberte E também o amor da liberdade Faça supérfluo! Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos Um mau negócio!
Bertrand Russell
"Homens cruéis acreditam em um Deus cruel, e usam dessa crença para justificar sua crueldade. Só os homens bondosos acreditam em um Deus bondoso, e eles seriam gentis de qualquer forma. Os homens costumam ter crenças que atendam às suas paixões."
Bukowski
"As relações humanas são estranhas. Quer dizer, você passa um tempo com uma pessoa, comendo, dormindo, vivendo e amando, conversando com ela, indo aos lugares – e, um dia, tudo acaba."
Byron, citado por Nietzsche
"O conhecimento é tristeza: aqueles que mais sabem são os que mais profundamente devem lamentar a mais fatal verdade, a árvore do conhecimento não é a da vida."
Byung-Chul Han
No entender de Gadamer, a negatividade é essencial para a arte. E a sua ferida. Opõe- se à positividade do polido.
Hoje, o próprio belo acaba por ser amaciado quando se lhe retira toda a negatividade, toda a forma de comoção e de vulneração. O belo esgota- se no Gosto. A
Por conseguinte, a essência da sexualidade é excesso e transgressão. Dissolve os limites da consciência. Nisso consiste a sua negatividade.
A depilação brasileira deixa o corpo polido. Incama o atual imperativo de higiene. Segundo Bataille, a essência do erotismo é a contaminação. Por conseguinte, o imperativo higiénico seria o fim do erotismo. O erotismo sujo cede o lugar à pornografia limpa. Precisamente, a pele depilada outorga ao corpo um polimento pornográfico que é percebido como puro e limpo. A sociedade atual, obcecãda pela limpeza e a higiene, é uma sociedade positiva que sente repugnância perante qualquer forma de negatividade.
O polido é alguma coisa de que alguém simplesmente gosta. Carece da negatividade do contrário. Deixou de ser um corpo contraposto. Também a comunicação, hoje, se toma lisa. Amacia- se através da transformação de uma troca sem fricção de informações. A comunicação polida carece de toda a negatividade do diferente e do estranho. A comunicação alcança a sua máxima velocidade quando o idêntico comunicação polida do idêntico. A positividade do polido acelera os circuitos de informação, de comunicação e de capital.
No primeiro plano do rosto, o fundo desvanece- se por completo. O que conduz a uma perda do mundo. A estética do primeiro plano reflete uma sociedade que se tornou, ela própria, uma sociedade do primeiro plano. O rosto dá a impressão de ter ficado apanhado em si mesmo, tomando- se autorreferencial.
Deixa de ser um rosto que contenha mundo— ou seja, deixa de ser expressivo. O selfie é, exatamente, esse rosto vazio e inexpressivo. A dependência aditiva do selfie remete para o vazio interior do eu.
Confrontado com o vazio interior, o sujeito do selfie tenta em vão produzir- se a si próprio. O selfie é o si- próprio em formas vazias. Estas reproduzem o vazio. O que gera a adição ao selfie não é um autoenamoramento ou uma vaidade narcísi- cos mas um vazio interior. Não há aqui um eu estável e narcísico que se ame a si mesmo. Encontramo- nos antes frente a um narcisismo negativo.
O liso causa uma sensação completamente livre de dor e de resistência:
Se a lisura— como parece evidente— é uma causa principal de agrado para o tato, o gosto, o olfato e o ouvido, será necessário reconhecê- la também como uma das bases da beleza visual, sobretudo uma vez que mostrámos que tal qualidade se pode encontrar, quase sem exceção, em todos os corpos que unánimemente se consideram belos. É indubitável que os corpos ásperos e angulosos irritam e molestam os órgãos sensitivos, causando uma sensação dolorosa que consiste numa tensão ou contração violenta das fibras musculares4.
A negatividade da dor reduz a sensação do belo.
Na presença do belo, o sujeito agrada- se a si mesmo. O belo é um sentimento autoeróti- co. Não é um sentimento do objeto, mas do sujeito.
A dor dilacera o sujeito ao arrancá- lo da interioridade autoerótica. A dor é a dilace ração através da qual o totalmente diferente se anuncia: “A dor à vista do belo, que não é nunca mais direto do que a experiência da natureza, é igualmente aspiração ao que o belo promete” 41. Em última instância, a nostalgia do belo natural é a nostalgia de outro estado do ser, de uma forma de vida totalmente diferente e sem violência.
O belo natural contrapõe- se ao belo digital. No belo digital, a negatividade do diferente foi por completo eliminada. Por isso, ele é totalmente polido e liso.
A temporalidade do belo natural é o já do ainda não.
A temporalidade do belo digital é, pelo contrário, o presente imediato sem futuro e, além disso, sem história. Está simplesmente perante.
O belo natural mostra ser “a marca do não- idêntico nas coisas sob o feitiço da identidade universal” 46.0 belo digital proscreve toda a negatividade do não- idêntico. Tolera apenas diferenças consumíveis e aproveitáveis. A alteridade cede passagem à diversidade.
controlo. Nesse espaço de visão autoerótico, nessa inferioridade digital, não é possível qualquer espanto. Os homens já só encontram agrado em si mesmos.
O belo é um esconderijo. A ocultação é essencial à beleza. A beleza dá- se mal com a transparência. A beleza transparente é um oxímoro. A beleza é necessariamente uma aparência. É- lhe própria uma opacidade. Opaco significa “sombreado”. O desvelamento desencanta e destrói a beleza. É por isso que o belo, obedecendo à sua essência, é in- desvelável.
As infor- mações obedecem a um princípio totalmente diferente: estão orientadas rumo ao desvelamento, rumo à verdade última. São, em conformidade com a sua essência própria, pornográficas.
A sociedade positiva atual elimina cada vez mais a nega- tividade da ferida. O
Sensibilidade é vulnerabilidade.
Sem ferida, não há poesia nem arte. Do mesmo modo, o pensamento acende- se também com a negatividade da ferida. Sem dor nem vulneração, o que se mantém é o idêntico, o que nos é familiar, o habitual: “Na sua essência, a experiência (...) é a dor em que a alteridade essencial do existente se desvela frente ao habitual”
A fotografia erótica é uma imagem “alterada, fendida” 7. A imagem pornográfica, em contrapartida, não mostra quebras nem fissuras. E lisa e polida. Hoje, todas as imagens são mais ou menos pornográficas. São transparentes. Não mostram vazios no campo de visão. Não têm esconderijo algum.
O consumo voraz de imagens torna impossível fechar os olhos.
O meio digital é um meio de afetações. Estas são mais rápidas do que os sentimentos ou os discursos. Aceleram a comunicação. A afetação não conhece a paciência necessária ao studium nem a suscetibilidade necessária ao punctum. Carece desse silêncio eloquente, desse silêncio cheio de linguagem que constitui o punctum. A afetação grita e excita. Provoca somente excitações e estímulos sem fala que suscitam agrado imediato.
“Duas coisas enchem a alma de admiração e respeito renovados e crescentes, quanto mais reiterada e persistentemente a reflexão delas se ocupa: o céu estrelado que está sobre mim e a lei moral que há dentro de mim”
Kant imuniza- se permanentemente contra o lado de fora, ao qual a interioridade autoeró- tica do sujeito se subtrai. Tudo deve ser conjurado a canalizar- se para o interior do sujeito: assim reza o imperativo categórico do pensamento de Kant.
A estética do desastre opõe- se à estética da complacência, na qual o sujeito goza de si mesmo. É uma estética do acontecimento.
Todos os acontecimentos são belos porque expropriam o eu. O desastre significa a morte do sujeito autoerótico, que se agarra a si mesmo.
A negatividade do terrível constitui a matriz, a camada profunda do belo. O belo é o insuportável que somos ainda capazes de suportar— ou o insuportável tomado suportável. Escuda- nos do terrível. Mas, ao mesmo tempo, através do belo, cintila o terrível. Eis o que constitui a ambivalência do belo. O belo não é uma imagem, mas um escudo.
O saudável é uma forma de expressão do liso e do polido. Paradoxalmente, irradia alguma coisa de mórbido, alguma coisa de morte. Sem a negatividade da morte, a vida anquilosa- se no morto. É amaciada, transformando- se ña- quilo que por carecer de vida, tão- pouco pode morrer. A negatividade é a força vitalizante da vida. Constitui também a essência do belo. Ao belo é inerente uma fraqueza, uma fragilidade, uma quebra. E a esta negatividade que o belo tem de agradecer a sua força de sedução. O saudável, pelo contrário, não seduz. Tem qualquer coisa de pornográfico. A beleza é doença.
A atual calocracia, ou império da beleza, que absolutiza o saudável e o polido, elimina justamente o belo. E a mera vida saudável, que hoje assume a forma de uma sobrevivência histérica, converte- se no morto, naquilo que, à falta de vida, também não pode morrer. É assim que hoje estamos demasiado mortos para viver e demasiado vivos para morrer.
Em Kant, por outro lado, o belo supera o puramente estético. Introduz- se no domínio moral.
A sexualização do corpo não segue univocamente a lógica da emancipação, uma vez que acompanha uma comercialização do corpo. A indústria da beleza explora o corpo sexualizando- o e tornando- o consumível. O consumo e o atrativo sexual implicam- se um ao outro.
O atrativo sexual, ou sexyness, contrapõe- se à beleza moral ou à beleza de caráter. A moral, a virtude ou o caráter têm uma temporalidade peculiar. Fundam- se na duração, na firmeza e na constância.
De acordo com Schmitt, é um “sinal de cisão interior (...) ter- se mais do que um único verdadeiro inimigo”. A firmeza de caráter não permite uma “dualidade de inimigos”. É necessário enfrentar “combatendo” o inimigo único “para se ganhar a medida de si próprio, o limite de si próprio, a figura de si próprio”. Deste modo, o inimigo é “a nossa pergunta própria enquanto forma” 101. Também um único amigo verdadeiro seria prova de firmeza de caráter. Schmitt diria: quanto menos caráter e menos forma se tem, quanto mais liso e polido e mais escorregadio se é, mais friends se têm. O Facebook é um mercado da falta de caráter.
contam- se a vida orientada para o gozo das coisas belas, a vida que gera ações belas na pólis e, por fim, a vida contemplativa dos filósofos, que, investigando o que não perece nunca, permanece no âmbito da beleza perpétua.
As coisas belas são aquelas que não são dominadas pela necessidade nem pela utilidade.
Nenhuma política do belo é possível na atualidade, uma vez que a política atual permanece submetida por completo aos imperativos do sistema. Dispõe apenas de margens. A política do belo é uma política da liberdade. A ausência de alternativas, sob cujo jugo trabalha a política atual, toma impossível a ação autenticamente política.
beleza exige de nós o “renunciar à nossa posição figurada como centro”. (...) Não é que deixemos de estar no centro do próprio mundo, mas, voluntariamente, cedemos o nosso terreno às coisas perante as quais nos achamos121. Na presença do belo, o sujeito assume uma posição lateral, põe- se de lado, em vez de se impor abrindo caminho.
a experiência do belo toma- se hoje fundamentalmente narcísica. Não é a lateralidade {lateralness), mas uma centralidade (centralness) narcísica que a domina. Torna- se consumista. Perante o objeto de consumo, o sujeito assume uma posição central. Esta postura consumista destrói a alteridade do outro, em favor da qual cada um de nós se poria de lado ou se retiraria. Destrói a heterogeneidade do diferente, a alteridade.
O que caracteriza a sociedade atual é a falta de energia de enlace dialógico. Quando o dialógico desaparece do cenário, aparece um teatro das afetações. Estas não são dialogica- mente estruturadas. Implicam uma negação do diferente.
o belo convida à demora. O que obstaculiza a demora contemplativa é a vontade.
O belo desembaraça- me de mim. O eu mergulha no belo. Na presença do belo, desprende- se de si mesmo.
A “eternidade do presente”, que se alcança numa demora em que o curso do tempo é superado, refere- se ao diferente: a “eternidade do presente” é a presença do outro.
“O espírito é eterno na medida em que concebe as coisas na perspetiva da eternidade.” 126
Segundo Nietzsche, a arte original é a arte das festas. As obras de arte são testemunhos materializados desses momentos afortunados de uma cultura em que o tempo habitual, que é o tempo que transcorre, foi superado:
Que importa toda a nossa arte das obras de arte quando perdemos essa arte mais alta, a arte das festas? Anteriormente, todas as obras de arte ocupavam o seu posto na grande álea triunfal do género humano como monumentos comemorativos de instantes elevados e felizes. Hoje, com as obras de arte, quer- se afastar os pobres exaustos e os doentes da grande via de sofrimento da humanidade e proporcionar- lhes um pequeno momento de embriaguez e de loucura128.
A festa começa quando cessa o tempo quotidiano profano (“ profano” significa, etimológicamente, o que está fora do recinto sagrado). Pressupõe uma consagração.
Hoje o tempo superior desapareceu por completo em benefício do tempo de trabalho, que se totaliza.
primeiro, antes de a ele chegarmos. Quando se celebra uma festa, a festa está lá o tempo todo, sempre presente.
As obras de arte, no momento em que se expõem, perdem o seu valor de culto. O valor expositivo desaloja o valor de culto. As obras de arte não se erigem na via festiva, mas são expostas nos museus. As exposições não são festas, mas espetáculos. O museu é o seu ossário. Aí só aparece algum valor nas coisas se forem vistas, se suscitarem atenção— enquanto, por seu turno, os objetos cultuais se mantêm frequentemente ocultos. A ocultação pode até mesmo aumentar o seu valor cultual. O culto nada tem que ver com a atenção. A totalização da atenção destrói o cultuai.
Hoje, o valor especulativo surge como valor supremo. A bolsa é o local de culto do mundo atual. É o lucro absoluto que ocupa o lugar da redenção.
A experiência do belo como recordação subtrai- se ao consumo, que é dominado por uma temporalidade completamente diferente.
O belo não é a presença imediata nem o facto das coisas que estão presentes. São essenciais à beleza as correspondências secretas entre as coisas e a noções, correspondências que acontecem ao longo de amplos períodos temporais.
A beleza acontece lá onde as coisas se voltam umas para as outras e entabulam relações. A beleza narra. Tal como a verdade, é um acontecimento narrativo'.
A tarefa do escritor é metaforizar o mundo, poetizá- lo. O seu olhar poético descobre as relações amorosas ocultas que há entre as coisas. A beleza é o acontecimento de uma rela- ✓ ção.
A beleza é retardatária, diferida. O belo não é um brilho momentâneo, mas um permanecer aceso em silêncio.
A espécie de beleza mais nobre é a que não nos cativa de um só golpe, a que não empreende assaltos tempestuosos e inebriantes (caso em que facilmente se sucede o fastio), mas a que se insinua lentamente, a que se apodera de nós quase sem que nos dêmos conta, (...) em sonhos137.
Enquanto acontecimento da verdade, o belo é generativo, fecundante e ainda, por ñm, poetizante. Dá a ver. E es se dom o belo. O belo não é a obra enquanto produto, mas o sobressair da verdade que resplandece. O belo transcende, do mesmo modo, a complacência desinteressada. O estético, num sentido enfático, não tem acesso algum ao belo. Sendo o sobressair resplandecente da verdade, o belo é inaparente, na medida em que se oculta atrás dos fenómenos. Igualmente, segundo Platão, é necessário um certo desviar a vista das figuras belas para chegarmos vislumbrar o belo em si.
O belo é o que vincula. Fundador de duração. Não é um acaso que o “belo em si”, segundo Platão, “seja eternamente” (aei onf ^ 2. Da mesma maneira, enquanto “nome poético da diferença do ser”, o belo não é alguma coisa que se limite a agradar. O belo é, por excelência, o vinculativo, o normativo, o que dá a medida. Eros é a aspiração ao que vincula. Badiou chamar- lhe- ia “fidelidade”.
A fidelidade e o que vincula implicam- se mutuamente. O que vincula exige fidelidade. A fidelidade pressupõe o que vincula. A fidelidade é incondicional.
transcendência. A estetização créscente da quotidianidade é justamente o que torna impossível a experiência do belo como experiência do que vincula. A estetização em causa é gerada unicamente por objetos que suscitam um agrado passageiro.
Nada tem consistência nem duração. Frente a uma contingência radical surge a aspiração do vinculativo para lá da quotidianidade. Encontramo- nos hoje numa crise do belo, uma vez que este é amaciado e transformado em objeto de agrado, em objeto do Gosto, em qualquer coisa de arbitrário e gratificante. A salvação do belo é a salvação do que vincula.
Carla Madeira
amor tem nome, mas não é nada que a gente possa reconhecer só de olhar. A dor a gente sabe o que é, tem lugar e intensidades que cabem na ciência. A raiva, o medo, o ódio entortam a cara com um jeito provável de se manifestar. Mas e o amor? O que é senão um monte de gostar? Gostar de falar, gostar de tocar, gostar de cheirar, gostar de ouvir, gostar de olhar. Gostar de se abandonar no outro.
O amor não passa de um gostar de muitos verbos ao mesmo tempo.
Perder amores é escurecer por dentro, uma memória do corpo que o entardecer evoca quando tinge o céu de vermelho. Para quem está sozinho depois de ter amado, o fim do dia é muito triste.
Uma antipática felicidade, desumana com a solidão alheia.
felicidade em demasia é dívida que não se pode pagar. A conta viria.
Parte da excitação de Lucy morava na perversão.
Deus estava intervindo.
Sofria a insuportável saudade de ter um pai que nunca teve.
Crescer nunca foi fácil, tem hora que o amor pode doer mais do que a dor.
Um dia feliz tem mais poder que a tristeza de uma vida inteira. Nele moram as reviravoltas.
Muda. Conhece a força de existir.
Não podia desaprender a gostar dele. Ia parar de existir.
A gente não deixa mágoa de filho ressecar.
O amor não é incondicional coisa nenhuma, tem suas fragilidades de matéria orgânica. Estraga, esgarça, rasga, inflama, acaba. E como acaba. É feito gente, depende do que vive.
O que mais existe no mundo são pessoas que nunca vão se conhecer.
É preciso uma coincidência qualquer para que o amor se instale. Existe um certo milagre nos encontros.
Tão irrecusável quanto sua buceta quente.
Na zona, o corpo é a alma do negócio.
cada um só enxerga o que vê da própria janela, foi
O pior de nós tem seus encantos.
Somos feitos do bom e do ruim em porções imprevisíveis.
O corpo pedia intensidade de prazer ou dor.
a dor vicia enquanto mantém a gente vivo.
Desistir de Deus é muita solidão.
O sofrimento é certo como a morte e tão inegociável quanto.
Era a poesia no corpo.
A liberdade é uma conversa fiada, é palavra de efeito, sempre no meio de uma frase para impressionar os desatentos, no fundo estamos presos à incapacidade de ser outra coisa diferente do que somos, do que a história da gente tramou.
Impõe o desespero do definitivo,
O avesso de um homem é, com um pouco de sorte, outro homem.
Por causa desse medo, Custódia fez uma incontável quantidade de absurdos.
reduziu o funcionamento do mundo ao seu
Inverossímil como só a realidade sabe ser.
Ele era o único menino preto da escola. Não gostava de jogar bola, mas acompanhava concentrado todos os lances. Abel se perturbava com a presença dele, sempre que os olhos deles se cruzavam. Era como se dividissem uma mesma falta de
lugar que Abel não queria revelar a ninguém.
Fugia ao padrão do estudioso pálido e deslocado socialmente.
“Não é bom estar sempre certo.”
A memória é um estômago em permanente refluxo, e a culpa é ácida como um suco gástrico.
E, como toda interpretação, carrega um pouco do desejo de quem a faz.
Aceite o que cada um pode oferecer, o que cada um é.
Um aluno, de quem esperamos imaturidade e muito a aprender, não deve chamar um professor de cavalo. Mas sendo burros e cavalos parentes, merecem que os tratemos com equidade, mesmo os cavalos se achando superiores aos burros.
O gesto brusco não nasce de uma intenção. Irrompe, vaza o limite da alma exausta, é um corpo em derrame.
É nossa vontade que se impõe contra nós e age!
se é preciso força para tocar no amor de um homem, melhor deixá- lo. Mil vezes: melhor deixá- lo.
Muita gente desemburreceu em suas mãos.
“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira.”
Tolstói começa seu grande romance Anna Kariênina.
Presos à vida, presos à morte e presos a uma arquitetura arruinada.
gostar é tornar- se vulnerável.
As manhãs têm pela frente o dia e com ele a ilusão de se poder resolver tudo.
Não é pecado tomar gosto pela vida,
Em um acontecimento de alta voltagem, pode- se sentir todas as forças de uma só vez. Mas ao contá- lo, é preciso fatiar, repetir e repetir, para que os fragmentos, as fagulhas desgovernadas, encontrem algum sentido no amontoado indizível.
São sempre enormes as coisas da infância, as maiores que teremos na vida, eu penso. As mais inesquecíveis. Talvez, as mais sentidas como verdadeiras. Passamos o resto do tempo atrás dessa sensação—
Em que momento aquelas tarefas se tornaram um jeito de amar?
Vivia a vida que lhe coubera.
vaidade é um vício terrível.
As pessoas se agarram a ela e ficam comprometidas em manter os elogios em alta, o que é fatal em qualquer área: nas artes, na ciência e principalmente na vida.
Aquelas mãos já se conheciam, já gostavam uma da outra em segredo.
confirmação de uma suspeita é sempre um excesso
de realidade.
tanto fogo só podia ter algo de inferno,
Morrer era mais fácil do que ser livre.
A omissão sangra o amor a conta- gotas e o perde um pouco a cada dia.
Dentro é onde cresce um tipo de vegetação particular, que a um estranho parecerá mato, mas que na família é flor. E pode ser flor aos olhos do visitante o que é espinho entre os que se machucam faz tempo.
Nas famílias, desiste- se muito das palavras para evitar exílios e, assim, nascem desertos.
O puçá da vida, com sua rede inescapável, baila à espreita… Entre gestos, olhares, palavras, vazios, intensidades e, súbito, como se fossem borboletas, recolhe a véspera de uma dor, o desamparo sem palavras, a sutil alegria, a faísca cadente, o assombro fugidio e o desejo… E, assim, aprisiona o tempo e o faz corpo marcado.
A eles dei a misericórdia de um punhado de vésperas.
Castro Alves
Vi de repente o passado Erguer-se em face de mim... Eu - já não tenho mais vida! Tu - já não tens mais amor! Tu - só vives para os risos. Eu - só vivo para a dor.
Cecília Meireles
Herança Eu vim de infinitos caminhos, e os meus sonhos choveram lúcido pranto pelo chão. Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos, essa vida, que era tão viva, tão fecunda, porque vinha de um coração? E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos, do pranto que caiu dos meus olhos passados, que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?
Chimamanda Ngozi Adichie
Para onde foram todos os anos, será que aproveitei a vida ao máximo? Mas qual é a medida absoluta de aproveitamento máximo da vida, e como eu poderia saber?
“Eles não suportam pessoas ricas de países pobres, porque isso significa que não podem sentir pena delas.”
Nossos amigos mais próximos são pequenos vislumbres de nós. Afinal de contas, nós os escolhemos, eles não nos são dados pela natureza, como nossa família,
Omelogor certa vez disse que ficava feliz pela Nigéria não ser um ponto turístico, porque “as pessoas se tornam parte do cenário, e os países deixam de ser lugares e viram performances”. Achei
Quando olho para trás agora, minha fraqueza é tão vívida; vejo como era flexível e dócil em troca de nada. A clareza da percepção tardia é tão absoluta que me deixa tonta. Ah, se conseguíssemos ver nossas falhas enquanto estamos falhando.
era um homem do povo que detestava aquilo de que o povo gosta.
Nós amamos e então não amamos mais. Para onde o amor vai quando deixamos de amar?
Kadiatou aprendeu que a desonestidade tinha matizes, camadas, torções e nós. Às vezes, mentimos porque amamos, e às vezes mentimos para a serventia ou a salvação daqueles que amamos.
Não se deve parar no anseio, e sim usar a força do anseio para tornar real a vida que se quer, ou, pelo menos, tentar fazer isso.
É fácil ser triste, a tristeza é algo que se alcança sem dificuldade. A esperança e a felicidade são mais difíceis de agarrar
A vida às vezes muda por causa do que poderia ter acontecido, mas não aconteceu.
Como assim não dá? O que na genética cultural dos americanos os leva a acreditar que eles podem decidir como o resto do mundo deve pensar? Nunca soube que existia um grupo de pessoas que sente ter um direito tão absoluto sobre a mente dos outros.
Cida Bento
Não temos um problema negro no Brasil, temos um problema nas relações entre negros e brancos. É a supremacia branca incrustada na branquitude, uma relação de dominação de um grupo sobre outro, como tantas que observamos cotidianamente ao nosso redor, na política, na cultura, na economia e que assegura privilégios para um dos grupos e relega péssimas condições de trabalho, de vida, ou até a morte, para o outro.
Descendentes de escravocratas e descendentes de escravizados lidam com heranças acumuladas em histórias de muita dor e violência, que se refletem na vida concreta e simbólica das gerações contemporâneas. Fala- se muito na herança da escravidão e nos seus impactos negativos para as populações negras, mas quase nunca se fala na herança escravocrata e nos seus impactos positivos para as pessoas brancas.
É possível identificar a existência de um pacto narcísico entre coletivos que carregam segredos em relação a seus ancestrais, atos vergonhosos como assassinatos e violações cometidos por antepassados, transmitidos através de gerações e escondidos, dentro dos próprios grupos, numa espécie de sepultura secreta. Assim é que a realidade da supremacia branca nas organizações públicas e privadas da sociedade brasileira é usufruída pelas novas gerações brancas como mérito do seu grupo, ou seja, como se não tivesse nada a ver com os atos anti- humanitários cometidos no período da escravidão, que corresponde a 4/ 5 da história do país,* ou com aqueles que ainda ocorrem na atualidade.
Trata- se da herança inscrita na subjetividade do coletivo, mas que não é reconhecida publicamente. O herdeiro branco se identifica com outros herdeiros brancos e se beneficia dessa herança, seja concreta, seja simbolicamente; em contrapartida, tem que servir ao seu grupo, protegê- lo e fortalecê- lo. Este é o pacto, o acordo tácito, o contrato subjetivo não verbalizado: as novas gerações podem ser beneficiárias de tudo que foi acumulado, mas têm que se comprometer “tacitamente” a aumentar o legado e transmitir para as gerações seguintes, fortalecendo seu grupo no lugar de privilégio, que é transmitido como se fosse exclusivamente mérito. E no mesmo processo excluir os outros grupos “não iguais” ou não suficientemente meritosos.
O pacto é uma aliança que expulsa, reprime, esconde aquilo que é intolerável para ser suportado e recordado pelo coletivo. 7 Gera esquecimento e desloca a memória para lembranças encobridoras comuns. 8O pacto suprime as recordações que trazem sofrimento e vergonha, porque são relacionadas à escravidão.
O discurso europeu sempre destacou o tom da pele como a base principal para distinguir status e valor. 3As noções de “bárbaros”, “pagãos”, “selvagens” e “primitivos” evidenciam a cosmologia que orientou a percepção eurocêntrica do outro nos grandes momentos de expansão territorial da Europa.* Como diz Edward Said, 4 o olhar europeu transformou os não europeus em um diferente e, muitas vezes ameaçador, outro. E esse outro tem muito mais a ver com o europeu do que consigo próprio.
Assim, foi no bojo do processo de colonização que se constituiu a branquitude. Os europeus, brancos, foram criando uma identidade comum que usou os africanos, negros, como principal contraste.
Du Bois nos estudos sobre branquitude, ou seja, mesmo os brancos pobres e a classe trabalhadora se beneficiam do legado da opressão racial.
Essa omissão da resistência negra e indígena na historiografia oficial nos mostra que precisamos entender sobre memória coletiva, mas também sobre amnésia coletiva, como nos ensina Charles W. Mills, 6 intelectual que trabalhou com o conceito de ignorância branca, salientando que o óbvio precisa ser relembrado, já que interesses podem moldar a cognição— e as sociedades escolhem o que querem lembrar e o que querem esquecer. A ignorância moral que implica julgamentos incorretos sobre o que é certo e o que é errado está incluída nessa abordagem, assim como a crença falsa.
Nesse sentido, esses diversos tipos de grupos de jovens, professores, intelectuais e artistas trabalham com o conceito de quilombo como território de memória, de resistência, de fortalecimento cultural e precisam ser apoiados por políticas públicas e programas de diversidade e equidade realizados por organizações.
capitalismo racial elucida como o capitalismo funciona por meio de uma lógica de exploração do trabalho assalariado, ao mesmo tempo que se baseia em lógicas de raça, etnia e de gênero para expropriação, que vão desde a tomada de terras indígenas e quilombolas até o que chamamos de trabalho escravo ou o trabalho reprodutivo de gênero etc.
Na perspectiva da personalidade autoritária está a convicção de que a visão de mundo de seu próprio grupo é o centro de tudo, e os demais são compreendidos a partir de seu modelo, ou seja, o etnocentrismo.
A diferença no tratamento a essas comunidades explicita o conceito de “nós e eles”.
Michel Foucault salientou em sua obra Vigiar e punir que é desta forma— encarcerando ou assassinando— que se lida com os considerados “inimigos do Estado”. A noção de “biopoder” e “biopolítica” fala de técnicas da hierarquia que vigia e as técnicas da sanção que normaliza. Trata- se de “um controle normalizante, uma vigilância que permite qualificar, classificar e punir”.
O racismo permite o exercício do biopoder, “este velho direito soberano de matar”. Na economia do biopoder, a função do racismo é regular a distribuição da morte e tornar possíveis as funções assassinas do Estado. Segundo Foucault, essa é “a condição para aceitabilidade do fazer morrer”.
institucional e supremacia branca formavam a base da sociedade dos Estados Unidos. No famoso Black Reconstruction in America [A reconstrução negra na América], 2 o autor afirma de maneira contundente que a supremacia branca solapou não só a união da classe trabalhadora, mas a própria visão de muitos trabalhadores brancos. Constatou, ainda, que a identificação da classe trabalhadora branca se deu com a elite patronal branca, e não com a classe trabalhadora negra, já que os trabalhadores brancos podiam se apoiar em identidades de “não escravos” e “não negros”.
Numa segunda onda, um grande número de estudiosos, muitos deles negros e negras dos Estados Unidos, continuou a linha de Du Bois de desafiar e visibilizar a supremacia branca e o racismo institucional (por exemplo, E. Franklin Frazier, St. Clair Drake, Horace Cayton, James Baldwin e Ralph Ellison). Escritoras como Toni Morrison ajudaram os estudos a migrarem do foco individual para análises de prática de discurso que tornavam a branquitude invisível.
Na terceira onda, a branquitude aparece sempre muito ligada às reações brancas diante do aumento da presença de negras e negros em lugares antes frequentados só por brancos. A ampliação das vozes negras que denunciam a apropriação dos bem materiais e imateriais da sociedade pelos brancos e clamam por justiça e reparação ameaçam a supremacia branca.
A narrativa da branquitude se apresentava marcada por ressentimento e amargura e ocultava as profundas desigualdades raciais na sociedade, e alguns profissionais da mídia diziam querer viver em um lugar onde brancos não tivessem que se sentir mal por serem brancos. Por um lado, os negros eram representados como povos estrangeiros, menos civilizados, essencialmente inferiores por herança genética. Por outro, os homens brancos se definiram como vítimas de um preconceito racial às avessas.
Para Fanon, ter fobia dos negros é ter medo do biológico, pois os negros só são vistos como seres biológicos.
De fato, branquitude, em sua essência, diz respeito a um conjunto de práticas culturais que são não nomeadas e não marcadas, ou seja, há silêncio e ocultação em torno dessas práticas culturais.
Privilégio branco é entendido como um estado passivo, uma estrutura de facilidades que os brancos têm, queiram eles ou não. Ou seja, a herança está presente na vida de todos os brancos, sejam eles pobres ou antirracistas. Há um lugar simbólico e concreto de privilégio construído socialmente para o grupo branco. Por sua vez, o conceito de prerrogativa branca diz respeito a uma posição ativa, na qual brancos buscam, exercitam e aproveitam a dominação racial e os privilégios da branquitude.
Lia discute a “invisibilidade branca”, que aparece entrelaçada à maneira como esse grupo racial enxerga a si. O estudo enfoca como as pessoas brancas se percebem como “universais”, “o padrão”, ou seja, pessoas brancas se vendo como referência de humanidade. Ao abrir diálogo com a psicologia de Vygotsky e com os estudos da antropóloga France Winddance Twine, Lia oferece caminhos para a desconstrução do racismo.
Ela lembra que nas sociedades marcadas pela colonização europeia e pelo racismo, a condição de branco implica o acesso a uma série de vantagens sociais, econômicas e de status. Porém nem todas as pessoas definidas como brancas tiram proveito da branquitude do mesmo modo, pois ela varia segundo gênero, sexualidade, classe, religião, idade, nacionalidade, que precisam ser levadas em conta na análise etnográfica.
“Ser
branco é viver sem se notar racialmente, numa estranha neutralidade. […] É o outro que é de cor.” Assim, ela destaca que a branquitude pode gerar uma lacuna afetiva e moral.
fica bem nítido como são complexos os processos de inserção de negras e negros no mercado de trabalho, pois a “neutralidade e objetividade” não são características de sociedades marcadas por preconceito e discriminação.
Os negros são vistos como invasores do que os brancos consideram seu espaço privativo, seu território. Os negros estão fora de lugar quando ocupam espaços considerados de prestígio, poder e mando. Quando se colocam em posição de igualdade, são percebidos como concorrentes, como afirmou nossa entrevistada acima.
Quando pessoas ou grupos são colocados fora do limite em que estão em vigência regras e valores morais, podemos entender que a norma da afeição humana foi violada. A exclusão moral é marcada por um distanciamento psicológico e uma ausência de compromisso moral em relação aos que estão sendo expropriados ou excluídos. Eles estão fora do nosso universo moral e “autorizam” o exercício da maldade humana.
Em sociedades desfiguradas pela herança do racismo, a preferência de um mesmo perfil de pessoas para os lugares de comando e decisão nas instituições financeiras, de educação, saúde, segurança etc., precariza a condição de vida da população negra, gerando desemprego e subemprego, a sobrerrepresentação da população negra em situação de pobreza, os altos índices de evasão escolar e mal desempenho do alunado negro e os elevados percentuais de vítimas negras da violência policial.
Esses processos e mecanismos caracterizam o que chamamos de racismo institucional, pois são ações em nível organizacional que independentemente da intenção de discriminar acabam tendo impacto diferencial e negativo em membros de um determinado grupo.
Nas escolas, por exemplo, sempre professoras e gestoras brancas, brinquedos e livros didáticos, planos de aula, projetos político- pedagógicos que dialogam exclusivamente com a branquitude. É na organização da instituição, ao longo da história, que se constrói a estrutura racista.
E nas estatísticas sobre desigualdades no mercado de trabalho se constata uma invariável: mulheres negras ocupam a base da pirâmide, com os menores salários e cargos mais baixos.
O termo “diversidade” pode se transformar em armadilha, pois são abundantes os estudos que mostram que raça e gênero são estruturantes no quadro de desigualdades brasileiras, e, sendo assim, diversidade não pode servir para relativizar “todos sofrem algum tipo de discriminação e vamos combater todas as formas disso”.
Essa irracionalidade de considerar o tipo de cabelo e a vestimenta de uma candidata para definir sua adequação ou não a uma posição de liderança expõe o “sistema meritocrático” que gera preferência por mulheres brancas e exclusão de mulheres negras para funções mais qualificadas.
Uma política de diversidade e equidade exige que se identifique sinais de discriminação nas normas, nos processos e nas ferramentas utilizados para selecionar pessoas para inserção e ascensão profissionais. As situações
fragilidade branca. Essa fragilidade é apontada por ela como um estado inerente à branquitude, no qual o estresse racial se torna intolerável para as pessoas brancas. Quando incitadas ao debate racial, nessa perspectiva, as pessoas tendem a reagir defensivamente e a responder com raiva, medo e culpa. Algumas situações que causam reações de autodefesa nas pessoas brancas e que costumamos constatar em organizações que estão utilizando ação afirmativa são: Dificuldade de as pessoas brancas reconhecerem que o acesso a oportunidades e recursos é diferente para vários grupos raciais. Ou seja, não querem questionar o mito da meritocracia. Deparar- se com pessoas negras em posição de liderança. Isso desafia a autoridade branca. Participar de atividades em que pessoas negras falam de racismo de maneira direta, desnudando os códigos da branquitude. Serem racializadas, já que pessoas brancas se veem e são vistas como universais. Outros fatores reforçam e perpetuam essa fragilidade, entre eles: a autossegregação de pessoas brancas, em seus bairros, escolas, clubes, empresas; e a arrogância racial que as impede de aprender e falar de raça e racismo de maneira mais frequente e aprofundada.
Sempre os entendi como acordos tácitos, como pactos não verbalizados, não formalizados. Pactos feitos para se manter em situação de privilégio, higienizados da usurpação que os constituiu. E que se estruturam nas relações de dominação que podem ser de classe, de gênero, de raça e etnia e de identidade de gênero, dentre outras.
Os pactos narcísicos exigem a cumplicidade silenciosa do conjunto dos membros do grupo racial dominante e que sejam apagados e esquecidos os atos antihumanitários que seus antepassados praticaram. Devem reconstruir a história positivamente e assim usufruir da herança, aumentar os ativos dela e transmiti- los para as próximas gerações.
A destruição de um pacto narcísico não é só individual, mas tem sua âncora em ações coletivas estruturais envolvendo a responsabilidade social das organizações que precisam se posicionar diante de sua herança concreta e simbólica na história do país. Não podem se omitir dos créditos e das dívidas das gerações passadas, como da escravidão ou dos recorrentes períodos ditatoriais, para não cair num mecanismo de repetição do qual as gerações futuras só teriam a sofrer.
vale ressaltar que trabalhar com equidade exige um posicionamento sistêmico, significa reconhecer e enfrentar o racismo entranhado nas diferentes instâncias sociais, seja no interior das organizações, seja no campo em que ela atua enquanto parte de um coletivo de organizações que compõe a sociedade.
Conceição Evaristo
Havia sonhos que não cabiam em barracos, que não se realizavam jamais. Havia a ilusão para se aguentar a viver.
Dahlia Rabikovitch
O final da queda
Dostoiévski
Ouça, primeiro vamos levantar um motim — apressava-se em demasia Vierkhoviénski, a todo instante agarrando Stavróguin pelo braço esquerdo. — Eu já lhe disse: vamos penetrar no seio do próprio povo. Sabe que já agora somos terrivelmente fortes? Os nossos não são apenas aqueles que degolam e ateiam fogo, e ainda fazem disparos clássicos ou mordem. Gente assim só atrapalha. Não concebo nada sem disciplina. Ora, sou um vigarista e não um socialista, eh, eh! Ouça, tenho uma relação de todos eles: o professor de colégio que ri com as crianças do Deus delas e do berço delas, já é dos nossos. O advogado que defende o assassino culto que por essa condição já é mais evoluído do que suas vítimas e que, para conseguir dinheiro, não pode deixar de matar, já é dos nossos. Os colegiais que matam um mujique para experimentar a sensação, são dos nossos. Os jurados que absolvem criminosos a torto e a direito são dos nossos. O promotor que treme no tribunal por não ser suficientemente liberal é dos nossos. Os administradores, os escritores, oh, os nossos são muitos, um horror, e eles mesmos não sabem disso!
"Não precisamos de educação, chega de ciência! Já sem a ciência há material suficiente para mil anos, mas precisamos organizar a obediência. No mundo só falta uma coisa: obediência. A sede de educação já é uma sede aristocrática. Basta haver um mínimo de família ou amor, e já aparece o desejo de propriedade. Vamos eliminar o desejo: vamos espalhar a bebedeira, as bisbilhotices, a delação; vamos espalhar uma depravação inaudita; vamos exterminar todo e qualquer gênio na primeira infância. Tudo será reduzido a um denominador comum, é a plena igualdade. "Aprendemos o ofício, somos gente honesta, não precisamos de mais nada" — é essa a resposta recente dos operários ingleses. Só o indispensável é indispensável — eis a divisa do globo terrestre daqui para a frente. Mas precisamos também da convulsão; disso cuidaremos nós, os governantes. Os escravos devem ter governantes. Plena obediência, ausência total de personalidade(...)".
"Deixei de compreender! Mas será que compreendes, grito para ele, será que compreendes que se vocês põem a guilhotina no primeiro plano e com tamanho entusiasmo é porque cortar cabeças é a coisa mais fácil, ao passo que ter idéias é a coisa mais difícil."
Você passou a acreditar na futura vida eterna? — Não, não na futura vida eterna, mas na vida eterna aqui. Há momentos, você chega a esses momentos, em que de repente o tempo para e acontece a eternidade.
e. e. cummings
(não sei dizer o que há em ti que fecha e abre;só uma parte de mim compreende que a voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas) ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas
Eckhart
O silente deserto que é Deus.
Edgar Allan Poe
Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como outros viam. Minhas paixões eu não podia tirar de fonte igual à deles; e era outra a origem da tristeza, e era outro o canto, que acordava o coração para a alegria. Tudo o que amei, amei sozinho. Assim, na minha infância, na alba da tormentosa vida, ergueu-se, no bem, no mal, de cada abismo, a encadear-me, o meu mistério. Veio dos rios, veio da fonte, da rubra escarpa da montanha, do sol, que todo me envolvia em outonais clarões dourados; e dos relâmpagos vermelhos que o céu inteiro incendiavam; e do trovão, da tempestade, daquela nuvem que se alterava, só, no amplo azul do céu puríssimo, como um demônio, ante meus olhos.
Emil Cioran
"O ser entregue a si mesmo, sem nenhum preconceito de elegância, é um monstro; só encontra em si zonas obscuras, onde rondam, iminentes, o terror e a negação. Saber, com toda sua vitalidade, que se morre e não poder ocultá-lo, é um ato de barbárie. Toda filosofia sincera renega os títulos da civilização, cuja função consiste em velar nossos segredos e disfarçá-los com efeitos rebuscados. Assim, a frivolidade é o antídoto mais eficaz contra o mal de ser o que se é: graças a ela iludimos o mundo e dissimulamos a inconveniência de nossas profundidades. Sem seus artifícios, como não envergonhar-se por ter uma alma? Nossas solidões à flor da pele, que inferno para os outros! Mas é sempre para eles, e às vezes para nós mesmos, que inventamos nossas aparências…"
"Cada um é para si o único ponto fixo no universo. E se alguém morre por uma ideia, é porque é sua ideia, e sua ideia é sua vida."
Idólatras por instinto, convertemos em incondicionados os objetos de nossos sonhos e de nossos interesses. A história não passa de um desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável. Mesmo quando se afasta da religião, o homem permanece submetido a ela; esgotando-se em forjar simulacros de deuses, adota-os depois febrilmente: sua necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre a evidência e o ridículo. Sua capacidade de adorar é responsável por todos os seus crimes: o que ama indevidamente um deus obriga os outros a amá-lo, na espera de exterminá-los se se recusam.
Eugénio de Andrade
Adeus Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já não se passa absolutamente nada. E, no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti Não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus.
Fernando Pessoa
A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida.
Tenho dó das estrelas Luzindo há tanto tempo, Há tanto tempo... Tenho dó delas. Não haverá um cansaço Das coisas, De todas as coisas, Como das pernas ou de um braço? Um cansaço de existir, De ser, Só de ser, O ser triste brilhar ou sorrir... Não haverá, enfim, Para as coisas que são, Não a morte, mas sim Uma outra espécie de fim, Ou uma grande razão — Qualquer coisa assim Como um perdão?
O MENINO DA SUA MÃE No plaino abandonado Que a morna brisa aquece, De balas traspassado — Duas, de lado a lado —, Jaz morto, e arrefece. Raia-lhe a farda o sangue. De braços estendidos, Alvo, louro, exangue, Fita com olhar langue E cego os céus perdidos. Tão jovem! que jovem era! (Agora que idade tem?) Filho único, a mãe lhe dera Um nome e o mantivera: «O menino da sua mãe». Caiu-lhe da algibeira A cigarreira breve. Dera-lha a mãe. Está inteira E boa a cigarreira. Ele é que já não serve. De outra algibeira, alada Ponta a roçar o solo, A brancura embainhada De um lenço... Deu-lho a criada Velha que o trouxe ao colo. Lá longe, em casa, há a prece: «Que volte cedo, e bem!» (Malhas que o Império tece!) Jaz morto, e apodrece, O menino da sua mãe.
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! Gênio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu, E a história não marcará, quem sabe?, nem um, Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Fiódor Dostoiévski
Era tido como um homem inteligente. É assim que, em certos círculos, se denomina a uma espécie peculiar de indivíduos que engordam à custa alheia, que não fazem absolutamente nada, que não querem fazer absolutamente nada, e que, por sua preguiça e ociosidade eternas, têm um pedaço de banha no lugar do coração. A todo instante se pode ouvir deles mesmos que não há nada que possam fazer, devido a certas circunstâncias muito adversas e complexas, que "lhes frustram o gênio", e que por isso são "dignos de pena". Essa é a sua frase pomposa tão habitual, o seu mot d'ordre, a sua senha e o seu lema, a frase que esses senhores saciados e gorduchos ficam o tempo todo prodigalizando por toda parte, de modo que há muito tempo começou a nos enfastiar como um tartufismo rematado e uma conversa fiada. Aliás, alguns desses histriões que não conseguem de modo algum encontrar o que fazer — o que, aliás, nunca sequer procuraram —, justamente por isso pretendem fazer com que todo mundo pense que não é um pedaço de banha que têm no lugar do coração, mas, ao contrário, de modo geral, algo muito profundo, embora o quê, precisamente, nem mesmo o maior cirurgião diria, claro que por cortesia. Esses senhores abrem caminho no mundo concentrando todos os seus instintos num sarcasmo grosseiro, numa reprovação míope e numa altivez desmedida. Como não têm mais nada a fazer a não ser ficar reparando e repisando as fraquezas e os erros alheios, e como seus bons sentimentos são tal qual os que são apanágio de uma ostra, então nem lhes é difícil, mediante tais meios de proteção, conviver com as pessoas com bastante cautela. E disso se vangloriam além da conta. Estão, por exemplo, quase convencidos de que praticamente o mundo todo deve lhes render tributo; de que o mundo é para eles como uma ostra que pegam em caso de necessidade; que todos, com exceção deles, são tolos; que todos se parecem com uma laranja ou com uma esponja, que uma vez ou outra podem espremer quando têm necessidade do suco; que são os donos de tudo, e que toda essa ordem louvável das coisas se deve justamente ao fato de serem eles pessoas tão inteligentes e peculiares. Em sua altivez desmedida não admitem quaisquer defeitos em si mesmos. Eles se parecem com aquela espécie de trapaceiros práticos, Tartufos e Falstaffs congênitos, que de tanto trapacear acabaram convencendo a si mesmos que era assim que devia ser, ou seja, que para viver tinham que trapacear; e insistiam sempre tanto em assegurar a todo mundo que eram pessoas honestas que acabaram por convencer a si próprios, como se realmente fossem pessoas honestas e que sua trapaçaria também era uma coisa honesta. Nunca são capazes de um exame interior consciente, de uma autoavaliação nobre: para certas coisas são rudes demais. Acima de tudo e em primeiro plano está sempre a sua própria e valiosa pessoa, seu Moloch e Baal, seu esplêndido eu. Toda a natureza e o mundo inteiro não são para eles senão um espelho esplêndido, criado para que esse ídolo possa incessantemente admirar a si mesmo e não ver nada nem ninguém além de si; depois disso, não é de se estranhar que veja tudo no mundo sob um aspecto tão disforme. Para tudo ele tem reservada uma frase feita, e, o que é o cúmulo da destreza de sua parte, uma frase da última moda. Inclusive são eles mesmos que contribuem com a moda, difundindo boca a boca por todos os cruzamentos essa ideia na qual farejam sucesso. São justamente eles que têm faro para farejar essa frase da moda e se apoderar dela antes dos outros, de tal modo que é como se ela tivesse saído deles. Eles sobretudo se abastecem de suas frases para exprimir a sua profunda simpatia pela humanidade, para definir qual a forma de filantropia mais correta e justificável racionalmente e, por fim, para punir incansavelmente o romantismo, ou seja, amiúde tudo o que é belo e verdadeiro, que em cada átomo tem mais valor que toda a espécie de moluscos deles. Mas são muito toscos para reconhecer a verdade numa forma anômala, transitória e inacabada, e rejeitam tudo o que ainda não amadureceu, não é estável e está em fermentação. Um homem bem nutrido passou sua vida toda alegremente, teve tudo de mão beijada, ele mesmo não fez nada e não sabe como é difícil fazer qualquer trabalho, e por isso ai daquele que tocar nos seus sentimentos gordurosos com alguma aspereza: ele nunca o perdoará por isso, sempre haverá de se lembrar e se vingar dele com prazer. Em resumo, meu herói não é nada mais nada menos que um saco gigantesco, enfunado a não mais poder, cheio de máximas, de frases da moda e etiquetas de todos os gêneros e espécies.
Indiferença Havia já muito tempo que o pressentira, mas a convicção plena só assentou no meu espírito no último ano e de uma maneira súbita. Senti de um momento para outro que para mim tudo era indiferente, que tanto me fazia que o mundo existisse como não. Pouco a pouco ia vendo e sentindo que não havia nada fora de mim. Parecia-me que, de fato, a princípio tinham existido muitas coisas, mas adivinhei igualmente depois que antes também não tinha havido nada, e que se assim me parecera foi por alguma razão. E, pouco a pouco, fui-me convencendo que daí para diante também não haveria nada. A partir dessa altura até agora deixei de preocupar-me mais com os mortais e quase e quase não voltei a dar-lhes atenção. O que não tardou a refletir- se sobre as coisas mais insignificantes, pois ocorria- me, por exemplo, quando andava pelas ruas, dar encontrões em toda a gente. E não se julgue que era por ir afundando em meditações, isso não podia ser, porque eu já tinha de pensar em tudo, tudo me era indiferente. Ainda se ao menos me tivesse entregue à resolução de problemas! Mas não, nem um só resolvi na minha vida, e, isso, havendo- os aos pontapés. Mas como tanto me fazia, os problemas afastavam-se de mim sozinhos.
Frantz Fanon
A elite europeia dedicou-se a fabricar uma elite indígena; seleccionaram-se adolescentes, marcaram-lhes na fronte, com ferro em brasa, os princípios da cultura ocidental, introduziram-lhes na boca mordaças sonoras, grandes palavras pastosas que se colavam nos dentes; depois de uma breve passagem pela metrópole, regressavam ao seu país falsificados.
Assim, a Europa fomentou as divisões, as oposições, forjou classes e racismos, tentou por todos os meios provocar e aumentar a estratificação das sociedades colonizadas.
Fanon não oculta nada: para lutar contra nós, a antiga colónia deve lutar contra si mesma. Ou melhor, ambas as lutas são apenas uma. No fogo do combate, todas as barreiras interiores devem desaparecer, a impotência burguesa dos negociantes e de compradores, o proletariado urbano, sempre privilegiado, o lumpen-proletariat dos bairros pobres, todos devem alinhar na mesma posição das massas rurais, verdadeira fonte do exército nacional e revolucionário; nessas regiões, cujo desenvolvimento foi sufocado deliberadamente pelo colonialismo, o campesinato, quando se revolta, aparece imediatamente como a classeradical: conhece a verdadeira opressão, sofreu muito mais que os trabalhadores das cidades e, para não morrer de fome, necessita de derrubar todas as estruturas.
temos que encarar um espectáculo inesperado: o striptease do nosso humanismo. Ei-lo aqui nu e nada formoso: não era senão uma ideologia mentirosa, a esquisita justificação da pilhagem; as suas ternuras e o seu preciosismo justificavam as nossas agressões. Eles têm boa cara, os não-violentos: nem vítimas, nem verdugos! Vamos! Se vocês não são vítimas, quando o governo que aceitaram em plebiscito, quando o exército em que serviram os vossos irmãos, sem vacilação nem remorso, empreenderam um «genocídio», vocês são indubitàvelmente os seus verdugos.
A descolonização, que se propõe mudar a ordem do mundo é, como se vê, um programa de desordem absoluta. Mas não pode ser o resultado de uma operação mágica, de uma agitação natural ou de um entendimento amigável. A descolonização, como se sabe, é um processo histórico: quer dizer que não pode ser compreendida e não resulta inteligível, translúcida em si mesma, senão na medida exacta em que se distingue o movimento histórico que lhe dá forma e conteúdo. A descolonização é o encontro de duas forças congènitamente antagónicas que extraem precisamente a sua originalidade dessa espécie de substância que segrega e alimenta a situação colonial. O seu primeiro confronto desenrolou-se debaixo do signo da violência e a sua coabitação— mais precisamente a exploração do colonizado pelo colono— realizou-se com grande reforço de baionetas e de canhões. O colono e o colonizado conhecem-se há muito tempo. E, na realidade, tem razão o colono quando diz conhecê-los. Foi o colono que fez e continua fazendo o colonizado. O colono tira a sua verdade, isto é, os seus bens, do sistema colonial. A descolonização não passa nunca despercebida, dado que afecta o ser, modifica fundamentalmente o ser, transforma os espectadores esmagados pela falta do essencial em actores privilegiados, amarrados de maneira quase grandiosa pelo correr da História. Introduz no ser um ritmo próprio, provocado pelos novos homens, uma nova linguagem, uma nova humanidade. A descolonização é realmente a criação de homens novos. Mas esta criação não recebe a sua legitimidade de nenhuma força sobrenatural: a «coisa» colonizada converte-se, no homem, no próprio processo pelo qual ele se liberta.
O mundo colonial é um mundo compartimentado.
O mundo colonizado é um mundo dividido em dois. A linha divisória, a fronteira, está indicada pelos quartéis e pelos postos da polícia.
Nos países capitalistas, entre o explorado e o poder interpõe-se uma multidão de professores de moral, de conselheiros, de «desorientadores». Nas regiões coloniais, ao contrário, o polícia e o soldado, pelas suas intervenções directas e frequentes, mantêm o contacto com o colonizado e aconselham-no, com golpes de coronha ou incendiando as suas palhotas, que não faça qualquer movimento. O intermediário do poder utiliza uma linguagem de pura violência. O intermediário não mitiga a opressão, nem encobre mais o domínio. Expõe e manifesta esses sinais com a boa consciência das forças da ordem. O intermediário leva a violência à casa e ao cérebro do colonizado.
A cidade do colonizado, a cidade indígena, a cidade negra, o bairro árabe, é um lugar de má fama, povoado por homens também de má fama. Ali, nasce-se em qualquer lado, de qualquer maneira. Morre-se em qualquer parte e não se sabe nunca de quê. É um mundo sem intervalos, os homens estão uns sobre os outros, as cabanas dispõem-se do mesmo modo. A cidade do colonizado é uma cidade esfomeada, por falta de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz.
A cidade do colonizado é uma cidade agachada, de joelhos, a chafurdar. É uma cidade de negros, uma cidade de ruminantes. O olhar que o colonizado lança sobre a cidade do colono é um olhar de luxúria, um olhar de desejo. Sonhos de possessão.
A originalidade do contexto colonial é que as realidades económicas, as desigualdades, a enorme diferença dos modos de vida, não chegam nunca a esconder as realidades humanas. Quando se compreende no seu aspecto imediato o contexto colonial, é evidente que o que divide o mundo é sobretudo o facto de se pertencer ou não a tal espécie, a tal raça. Nas colónias, a infraestrutura é igualmente uma superestrutura. A causa é efeito: se é rico porque é branco, se é branco porque é rico. Por isso, as análises marxistas devem modificar-se ligeiramente sempre que abordam o sistema colonial.
mundo colonial é um mundo maniqueu. Não basta ao colono limitar fisicamente, quer dizer, com a ajuda da sua polícia e dos seus soldados, o espaço do colonizado. Como para ilustrar o carácter totalitário da exploração colonial, o colono faz do colonizado uma espécie de quinta-essência do mal(5).
A Igreja nas colónias é uma igreja de brancos, uma igreja de estrangeiros. Não chama o homem colonizado ao caminho de Deus, mas ao caminho do branco, do amo, do opressor. E, como se sabe, nesta história são muitos os chamados e poucos os eleitos.
Propriamente falando, animaliza-o. E, na realidade, a linguagem do colono, quando fala do colonizado, é uma linguagem zoológica.
O colonizado sabe tudo isso e ri cada vez que se descobre como animal nas palavras do outro. Porque sabe que não é um animal. Ao mesmo tempo que descobre a sua humanidade, começa a polir as suas armas para as fazer triunfar.
O colonizado, portanto, descobre que a sua vida, a sua respiração, as pulsações do seu coração, são as mesmas que as do colono. Descobre que uma pele de colono não vale mais do que uma pele de indígena. Deve dizer-se que essa descoberta introduz uma agitação essencial no mundo. Toda a segurança nova e revolucionária do colonizado dimana disso. Se, com efeito, a minha vida tem a mesma importância que a do colono, o seu olhar já não me fulmina, já não me imobiliza, a sua voz não me petrifica. Já não me perturbo na sua presença. Práticamente, eu aborreço-o. A sua presença não me afecta nada, preparo-lhe tais emboscadas que em breve não terá outra saída a não ser a fuga.
Nas regiões colonizadas, onde se levou a cabo uma verdadeira luta de libertação, onde o sangue do povo correu e a duração da fase armada favoreceu o refluxo dos intelectuais sobre as bases populares, assiste-se a uma verdadeira extirpação da superestrutura sacada por esses intelectuais nos meios burgueses colonialistas.
intelectual colonizado aprendeu pelos seus mestres que o indivíduo deve afirmar-se. A burguesia colonialista introduziu a golpes de pilão, no espírito do colonizado, a ideia de uma sociedade de indivíduos, onde cada qual se encerra na sua subjectividade, onde a riqueza é a do pensamento. Mas o colonizado que tenha a oportunidade de se esconder no povo durante a luta de libertação, vai descobrir a falsidade dessa teoria. As formas de organização da luta vão propor-lhe um vocabulário inabitual.
O intelectual colonizado assiste, numa espécie de auto-de-fé, à destruição de todos os seus ídolos: o egoísmo, a recriminação orgulhosa, a imbecilidade infantil daquele que sempre quer dizer a última palavra. Esse intelectual colonizado, atomizado pela cultura colonialista, descobrirá igualmente a consistência das assembleias das aldeias, a densidade das comissões do povo, a extraordinária fecundidade das reuniões de bairro e de célula. Os assuntos de cada um já não deixarão nunca de ser assuntos de todos, porque, concretamente, todos serão descobertos pelos legionários e assassinados ou todos se salvarão. A «indiferença», essa forma ateia de salvação, está proibida neste contexto.
Isso se comprova pela inaptidão do intelectual para dialogar.
Mundo compartimentado, maniqueu, imóvel, mundo de estátuas: a estátua do general que fez a conquista, a estátua do engenheiro que construiu a ponte. Mundo seguro de si, esmagando com as suas pedras as feridas abertas pelo chicote. Eis aí o mundo colonial. O indígena é um ser encurralado, o apartheid é somente uma modalidade da divisão em compartimentos do mundo colonial. A primeira coisa que o indígena aprende é a colocar-se no seu lugar,
Essa agressividade sedimentada nos seus músculos, o colonizado manifesta-a primeiro contra os seus. É o período em que os negros se colocam entre si e os polícias, os juízes de instrução não sabem o que fazer perante a criminalidade norte-africana.
O colonizado está sempre alerta, decifrando dificilmente os múltiplos signos do mundo colonial; nunca sabe se passou ou não o limite.
o colonizado está sempre em atitude de expectativa. Não pode dizer-se que esteja inquieto, se encontre aterrorizado. Na realidade, está sempre pronto a abandonar o seu papel de presa e a assumir o de caçador. O colonizado é um perseguido que sonha permanentemente transformar-se em perseguidor.
último recurso do colonizado é defender a sua personalidade frente ao seu semelhante.
a vida continua e é através dos mitos terríficos, tão prolixos nas sociedades subdesenvolvidas, que o colonizado extrai as inibições da sua agressividade: génios maléficos intervêm sempre que alguém se move, homens leopardos, homens serpentes, cães de seis patas, toda uma gama inesgotável de formas animais ou de gigantes cria em redor do colonizado um mundo de proibições, de barreiras, de impedimentos, muito mais terrível que o mundo colonialista. Esta superestrutura mágica que impregna a sociedade autóctone cumpre, dentro do dinamismo da economia devassada, funções precisas.
A atmosfera de mito e de magia, ao provocar-me medo, actua como uma realidade indubitável. Ao aterrorizar-me, integra-me nas tradições, na história da minha terra ou da minha tribo, mas ao mesmo tempo assegura-me um estatuto, assinala-me num boletim de registo civil.
Por isso, um estudo do mundo colonial deve tentar compreender, forçosamente, o fenómeno da dança e do transe. O relaxamento do colonizado é precisamente essa orgia muscular no curso da qual a agressividade mais aguda, a violência mais imediata, se canalizam, se transformam, se escamoteiam. O círculo da dança é um círculo permissivo. Protege e autoriza. A horas determinadas, em datas fixas, homens e mulheres encontram-se num determinado lugar e, sob o olhar grave da tribo, lançam-se numa pantomina aparentemente desordenada, mas na realidade muito sistematizada, onde, por múltiplas vias, negações com a cabeça, inclinação da coluna vertebral, inclinação para trás de todo o corpo, se decifra abertamente o esforço grandioso de uma colectividade para se exorcizar, libertar e exprimir. No âmbito da dança... tudo é permitido.
Um passo mais e caímos em pleno transe. Na realidade, são sessões de possessão-despossessão que se organizam: vampirismo, possessão pelos djinns(8), pelos zombis, por Legba, o deus ilustre de Vaudou(9). Estas triturações da personalidade, esses desdobramentos, essas dissoluções, cumprem uma função económica primordial na estabilidade do mundo colonizado. Na ida, os homens e as mulheres estavam impacientes, excitados, «nervosos». No regresso, volta à aldeia a calma, a paz, a imobilidade.
para o homem comprometido é urgente decidir os meios, a táctica, ou melhor, a conduta e a organização. Fora disso, há somente um voluntarismo cego com as eventualidades reaccionárias que suporta.
Os partidários dos partidos nacionalistas são partidários urbanos. Esses operários, esses mestres, esses pequenos artesãos e comerciantes que começaram— num nível menor, bem entendido— a aproveitar a situação colonial, têm interesses particulares. O que esses partidários reclamam é o melhoramento da sua vida, o aumento dos seus salários.
O intelectual colonizado inverteu a sua agressividade na sua vontade, apenas velada, de se assimilar ao mundo colonial. Colocou a sua agressividade ao serviço dos seus próprios interesses, dos seus interesses de indivíduo. Assim, surge fàcilmente uma espécie de classe de escravos forros: o que o intelectual reclama é a possibilidade de multiplicar e de organizar uma autêntica classe de escravos forros.
Os colonizados, na sua grande maioria, querem a solidez do colono. Não se trata de competir com ele. Querem de facto o seu lugar.
O campesinato é abandonado sistematicamente pela propaganda da maioria dos partidos nacionalistas. E é evidente que nos países coloniais somente o campesinato é revolucionário. Não tem nada a perder e tem tudo a ganhar. O camponês, o desclassificado, o esfomeado, é o explorado que depressa descobre apenas importar a violência.
o colonialismo não é uma máquina de pensar, nem um corpo dotado de razão. É a violência em estado primitivo e não pode submeter-se senão perante uma violência maior.
a não- -violência. Na sua forma bruta, essa não-violência significa para as elites intelectuais e económicas colonizadas que a burguesia colonialista tem os mesmos interesses, sendo, pois, necessário e urgente chegar a um acordo em favor da salvação comum. A não-violência é um propósito de ajustar o problema colonial em volta do pano verde de um mesa de jogo, antes de qualquer gesto irrecuperável, qualquer efusão de sangue, qualquer acto lamentável.
A burguesia colonialista é auxiliada no seu trabalho de tranquilizar os colonos pela inevitável religião. Todos os santos que ofereceram a outra face, perdoaram as ofensas, receberam sem estremecer os insultos, são referidos e apontados como exemplos.
O povo utiliza igualmente, para se manter em forma e conservar a sua capacidade revolucionária, certos aspectos da vida da colectividade. O bandido, por exemplo, que se mantém no campo durante alguns dias frente aos polícias lançados em sua perseguição, aquele que, em combate singular, sucumbe depois de matar quatro ou cinco polícias, aquele que se suicida para não denunciar os seus cúmplices, são para o povo os fachos, os modelos de acção, os «heróis». De nada serve dizer, evidentemente, que esse herói é um ladrão, um crápula ou um depravado. Se o acto por que esse homem é perseguido pelas autoridades colonialistas é um acto dirigido exclusivamente contra uma pessoa ou um bem colonial, a demarcação é clara, flagrante. O processo de identificação é automático.
O ressurgimento da nação nova, a demolição das estruturas coloniais, são o resultado de uma luta violenta do povo independente, ou da acção, que separa o regime colonial da violência periférica assumida por outros povos colonizados.
cólera. Mas como passamos da atmosfera da violência à violência em acção? O que é que provoca a explosão da caldeira? Em primeiro lugar, está o motivo de que esse processo não deixa ilesa a tranquilidade do colono. O colono que «conhece» os indígenas, apercebe-se por diversos indícios de que alguma coisa está mudando. Os bons indígenas vão desaparecendo, faz-se silêncio quando o opressor se aproxima. Em certas ocasiões, os olhares endurecem-se, as atitudes e expressões são abertamente agressivas. Os partidos nacionalistas agitam-se, multiplicam os motins e, ao mesmo tempo, aumentam as forças policiais, chegam reforços do exército. Os colonos, os agricultores, sobretudo, isolados nas suas herdades, são os primeiros a alarmar-se. Reclamam medidas enérgicas.
As repressões, longe de quebrarem o ímpeto, favorecem o avanço da consciência nacional. Nas colónias, as hecatombes, a partir de certo estádio do desenvolvimento embrionário da consciência, fortalecem essa consciência, porque indicam que entre opressores e oprimidos tudo se resolve pela força.
hoje, os governos dos países colonialistas sabem perfeitamente que é muito perigoso privar as massas dos seus dirigentes.
Então, o colonialismo libertará esses homens e discutirá com eles. Começou a hora das danças populares.
Que é, portanto, essa violência? Já o temos visto: é a intuição que as massas colonizadas têm de que a sua libertação deve fazer-se e isso não pode acontecer senão pela força. Por que aberração do espírito esses homens sem técnica, esfomeados e debilitados, não conhecendo os métodos de organização, chegam a convencer-se, perante o poderio económico e militar do ocupante, de que apenas a violência poderá libertá-los? Como pode esperar o triunfo?
Mas é inútil comprovar a afirmar que na maioria dos casos, para 95 por cento da população dos países subdesenvolvidos, a independência não conduz a uma transformação imediata. O observador atento dá conta da existência de uma espécie de descontentamento larvar, como essas brasas que, depois da extinção do fogo, ameaçam sempre atear-se novamente.
Fortalecidos pelo apoio incondicional dos países socialistas, os colonizados lançam-se com as armas que possuem contra a cidadela inexpugnável do colonialismo. Se essa cidadela é invulnerável aos cutelos e aos punhos fechados, não continua a sê-lo quando se decide ter em conta o contexto da guerra fria.
Compreende-se, então, por que a violência do colonizado não é desesperada, se não quando se compara in abstracto com o aparato militar dos opressores. Pelo contrário, se a situarmos dentro da dinâmica internacional, compreende-se que constitui uma terrível ameaça para o opressor.
Esta atmosfera de violência, de ameaça, esses foguetões apontados não assustam nem desorientam os colonizados. Temos visto como toda a história recente os predispõe a «compreender» essa situação. Entre a violência colonial e a violência pacífica em que está mergulhado o mundo contemporâneo, há uma espécie de correspondência cúmplice, uma homogeneidade. Os colonizados estão convencidos de que se joga agora o seu destino.
A independência levou certamente aos homens colonizados a reparação moral e consagrou a sua dignidade. Mas não teve ainda tempo de formar uma sociedade, de construir e afirmar novos valores. O facho incandescente em que o cidadão e o homem se revelam e se valorizam em horizontes cada vez mais largos, claro que ainda não existe. Situados numa espécie de indeterminação, esses homens convencem-se facilmente de que tudo se decidirá noutro lado e em todo o mundo ao mesmo tempo. Quanto nos dirigentes, frente a esta conjuntura vacilam e optam pelo neutralismo. Havia
Mas voltemos ao combate singular entre o colonizado e o colono. Trata-se, como se viu, da franca luta armada. Os exemplos históricos são: Indochina, Indonésia e, bem entendido, o norte de África. Mas o que se não deve perder de vista é que poderia ter estalado em qualquer outro lado, na Guiné ou na Somália e, apesar de tudo, pode estalar hoje em qualquer território onde o colonialismo pretende ainda durar. A existência da luta armada indica que o povo confia somente nos meios violentos. O povo, a quem se disse sempre que não entendia outra linguagem que não fosse a da força, resolve expressar-se através da força. Na verdade, o colono ensinou-lhe sempre o caminho que havia de ser o seu, se desejava libertar-se. O argumento escolhido pelo colonizado é o que lhe ensinou o colono e, por irónica inversão das posições, é o colonizado que afirma agora ao colonialista que este não conhece senão a linguagem da força. O regime colonial adquire a sua legitimidade da força e em nenhum momento se engana sobre essa natureza das coisas.
Este raciocínio, que prevê aritmèticamente a destruição do povo colonizado, não enche o colonizado de indignação. Sempre soube que os seus encontros com o colono se efectuariam num campo cerrado. Por isso, o colonizado não perde tempo em lamentações nem espera nunca que se faça justiça dentro do panorama colonial. Na verdade, se a argumentação do colono enfrenta um colonizado inabalável, é porque este
colocou praticamente o problema da sua libertação em idênticos termos. «Devemos formar grupos de duzentos ou de quinhentos e cada grupo se ocupará de um colono». É nesta vontade recíproca que cada um dos protagonistas começa a luta.
O grupo exige que cada indivíduo realize um acto irreversível. Na Argélia, por exemplo, onde a quase totalidade dos homens que chamaram o povo à luta nacional estavam condenados à morte ou eram procurados pela polícia francesa, a confiança era proporcional ao carácter desesperado de cada caso. Um novo militante era «seguro» quando já não podia voltar a integrar-se no sistema colonial. Esse mecanismo existiu, parece, no Quénia, entre os Mau-Mau, que exigiam que cada membro do grupo matasse a vítima. Cada um era desse modo responsável pessoalmente pela morte dessa vítima. Trabalhar é trabalhar pela morte do colono. A violência assumida permite por sua vez, aos extraviados e aos proscritos, voltar, recuperar e integrar-se no seu grupo A violência é entendida assim como a mediação real. O homem colonizado liberta-se em e pela violência.
O REBELDE E a mim o mundo não me perdoa... Não há no mundo um pobre tipo linchado, um pobre homem torturado, em que eu não me sinta assassinado e humilhado.
Compreende-se como nesta atmosfera o quotidiano se torna simplesmente impossível. Já não se pode ser fellah, rufião ou alcoólico como dantes. A violência do regime colonial e a contra-violência do colonizado equilibram-se mutuamente numa homogeneidade recíproca extraordinária. Esse reino da violência será tanto mais terrível quanto maior for a sobreexploração metropolitana. O desenvolvimento da violência no seio do povo colonizado será proporcional à violência exercida pelo regime colonial impugnado.
O trabalho do colono é tornar impossível todos os sonhos de liberdade do colonizado. O trabalho do colonizado é imaginar todas as combinações eventuais para aniquilar o colono. No plano do raciocínio, o maniqueísmo do colono produz o maniqueísmo do colonizado. À teoria do «indígena como mal absoluto», responde a teoria do «colono como mal absoluto».
A aparição do colono significou sensorialmente a morte da sociedade autóctone, letargia cultural, petrificação dos indivíduos. Para o colonizado, a vida pode surgir somente do cadáver em decomposição do colono. Tal é, pois, essa correspondência estrita dos dois raciocínios.
Mas sucede que para o povo colonizado esta violência, como constitui o seu único trabalho, reveste caracteres positivos, formativos. Esta prática violenta é totalizadora, dado que cada um se converte num malho violento da grande cadeia, do grande organismo violento aparecido como reacção à violência primária do colonialista. Os grupos reconhecem-se entre si e a nação futura já é indivisível. A luta armada mobiliza o povo, isto é, lança-o numa mesma direcção, num sentido único.
Assim, a segunda fase, a da construção da nação, facilita-se pela existência dessa mistura feita de sangue e de cólera. Então, compreende-se melhor a originalidade do vocabulário utilizado nos países subdesenvolvidos. Durante o período colonial, convidava-se o povo a lutar contra a opressão. Depois da libertação nacional, convida-se a lutar contra a miséria, o analfabetismo, o subdesenvolvimento. A luta, afirma-se, continua. O povo comprova que a vida é um interminável combate.
A violência do colonizado, temos dito, unifica o povo.
Ao nível dos indivíduos, a violência desintoxica. Alivia o colonizado do seu complexo de inferioridade, das suas atitudes contemplativas ou desesperadas. Torna-o intrépido, reabilita-o perante os seus próprios olhos.
Ainda que a luta armada seja simbólica ou desmobilizada por uma rápida descolonização, o povo tem tempo de se convencer que a libertação foi trabalho de todos e de cada um, que o dirigente não tem mérito especial. A violência eleva o povo à altura do dirigente. Daí essa espécie de reticência agressiva atirada sobre o aparato diplomático e protocolar que os novos governos se apressam a instalar. Quando participaram, através da violência, na libertação nacional, as massas não permitem a ninguém que se apresente como «libertador».
Actualmente, a independência nacional, a formação nacional nas regiões subdesenvolvidas, reveste aspectos totalmente novos. Nessas regiões, com excepção de algumas realizações espectaculares, os diferentes países apresentam a mesma falta de infraestrutura. As massas lutam contra a mesma miséria, debatem-se com os mesmos gestos e desenham com os seus estômagos reduzidos o que poderia chamar-se a geografia da fome. Mundo subdesenvolvido, mundo de miséria e inumano. Mas também um mundo sem médicos, sem engenheiros, sem funcionários. Frente a esse mundo, as nações europeias chafurdam na opulência mais ostentosa. Esta opulência europeia é literalmente escandalosa porque foi construída sobre as costas dos escravos, alimentou-se do sangue dos escravos, vem directamente do solo e do subsolo desse mundo subdesenvolvido. O bem-estar e o progresso da Europa foram construídos com o suor e os cadáveres dos negros, dos árabes, dos índios e dos amarelos. Isso, nós decidimos não esquecer.
Geralmente, pensou-se que havia chegado a hora, para o mundo e principalmente para o Terceiro Mundo, de escolher entre o sistema capitalista e o sistema socialista. Os países subdesenvolvidos, que utilizaram a competição feroz existente entre os dois sistemas, para assegurar o triunfo da sua luta de libertação nacional, devem recusar-se, sem dúvida, a participar nessa competição. O Terceiro Mundo não deve contentar-se em definir a sua posição perante valores prévios. Os países subdesenvolvidos, pelo contrário, devem esforçar-se por descobrir valores próprios, métodos e um estilo específicos. O problema real perante o qual nos encontramos não é da opção entre socialismo e capitalismo, tal como foi definida por homens de continentes e épocas diferentes.
A exploração capitalista, os trusts e monopólios, são os inimigos dos países subdesenvolvidos. Por outro lado, a escolha de um regime dirigido à totalidade do povo, baseado no princípio de que o homem é o bem mais precioso, permitir-nos-á ir mais rápida e harmoniosamente impossibilitar assim essa caricatura de sociedade onde uns tantos possuem todos os poderes económicos e políticos, sujeitando a totalidade nacional.
A verdade é que não devemos aceitar essas condições. Devemos recusar a situação a que querem condenar-nos os países ocidentais. O colonialismo e o imperialismo não saldarão as suas contas connosco quando retirarem dos nossos territórios as suas bandeiras e as suas forças policiais.
As jovens nações, é um facto, atraem pouco os capitais privados. Múltiplas razões legitimam e explicam esta reserva dos monopólios. Quando os capitalistas sabem, e são evidentemente os primeiros a sabê-lo, que o seu governo se dispõe a descolonizar, apressam-se a retirar da colónia a totalidade dos seus capitais. A evasão espectacular de capitais é um dos fenómenos mais constantes da descolonização.
Agitando o Terceiro Mundo como uma maré que ameaçara engolir toda a Europa, não se conseguirá dividir as forças progressistas que procuram conduzir a humanidade à felicidade. O Terceiro Mundo não pretende organizar uma imensa cruzada de fome contra a Europa. O que espera, de quem o manteve na escravidão durante séculos, é que o ajudem a reabilitar o homem, a fazer triunfar o homem em todos os lados, de uma vez por todas.
Mas é claro que a nossa ingenuidade não chega a acreditar que isto poderá fazer-se com a cooperação e a boa vontade dos governos europeus. Esse trabalho colossal, que consiste em reintegrar o homem no mundo, o homem total, far-se-á com a decisiva ajuda das massas europeias que, é necessário que o reconheçam, se aliena ram quanto aos problemas coloniais nas posições de nossos amos comuns. Por isso, será necessário primeiro que as massas europeias despertem, sacudam o cérebro e abandonem o jogo irresponsável da bela dormindo no bosque.
As reflexões sobre a violência levaram-nos a tomar consciência da existência frequente de um desequilíbrio, de uma diferença de ritmo entre os quadros do partido nacionalista e as massas. Em toda a organização política ou sindical existe classicamente um abismo entre as massas que exigem a melhoria imediata e total da sua situação e os quadros que, medindo as dificuldades criadas pelos patrões, limitam e restringem as suas reivindicações. Por isso, se adverte com frequência um descontentamento tenaz das massas a respeito dos quadros. Depois de cada jornada de reivindicação,
O grande erro, o vício congénito da maioria dos partidos políticos nas regiões subdesenvolvidas, foi ter-se dirigido, segundo o esquema clássico, principalmente às elites mais conscientes: o proletariado das cidades, os artesãos e os funcionários, quer dizer, uma ínfima parte da população que não representa muito mais do que um por cento.
Muitas vezes se assinalou: nos territórios coloniais, o proletariado é o núcleo do povo colonizado mais acariciado pelo regime colonial. O proletariado embrionário das cidades é relativamente privilegiado.
Os partidos nacionalistas, na sua grande maioria, sentem uma grande desconfiança pelas massas rurais.
A jovem burguesia nacional, sobretudo comerciante, vai entrar em competição com esses senhores feudais em sectores múltiplos: monstrengos e bruxos que fecham o caminho aos enfermos que poderiam consultar o médico, djemaas que julgam, considerando inúteis os advogados, cadis que utilizam o seu poder político e administrativo para lançar um comércio ou uma linha de transportes, chefes tradicionais que se opõem em nome da religião e da tradição à introdução de negócios e de novos produtos.
É no seio do proletariado embrionário que encontramos, nas colónias, comportamentos individualistas.
O camponês que defende no seu lugar as suas tradições na sociedade colonizada, representa o elemento disciplinado cuja estrutura social continua a ser comunitária. É verdade que esta vida imóvel, situada em pólos rígidos, pode dar origem momentâneamente a movimentos baseados no fanatismo religioso, a guerras tribais. Mas na sua espontaneidade, as massas rurais continuam sendo disciplinadas, altruístas. O indivíduo retrai-se perante a comunidade. Os camponeses desconfiam do homem da cidade. Vestido como um europeu, falando a sua língua, trabalhando com ele, vivendo por vezes no mesmo bairro, é considerado pelos camponeses como um desertor que abandonou tudo o que formava o património nacional. Os habitantes da cidade são «traidores, vendidos», que parecem dar-se bem com o ocupante e tratam de triunfar dentro do sistema colonial. Por isso, ouvimos os camponeses afirmarem frequentemente que a gente da cidade precisa de moral. Encontramo-nos
em presença da clássica oposição entre o campo e a cidade. É a oposição entre o colonizado, excluído das vantagens do colonialismo, e aquele que se ajusta para tirar partido da exploração colonial.
Os partidos políticos não conseguem implantar a sua organização no campo. Em vez de utilizar as estruturas existentes para lhes dar um conteúdo nacionalista ou progressista, tratam de transtornar a realidade tradicional dentro do quadro do sistema colonial. Acreditam na possibilidade de imprimir um impulso à nação, quando reflectem sobre as pesadas malhas do sistema
colonial. Não vão ao encontro das massas. Não colocam os seus conhecimentos teóricos ao serviço do povo, mas tentam enquadrar as massas segundo um esquema a priori.Da capital enviam às aldeias, como paraquedistas, dirigentes desconhecidos ou muito jovens que, investidos pela autoridade central, tratam de manejar o lugar ou a aldeia como uma célula de empresa. Os chefes tradicionais são ignorados, por vezes molestados.
Os partidos nacionalistas não tentam introduzir palavras de ordem nas massas rurais, que nesse momento se encontram inteiramente disponíveis. Não lhes propõem um objectivo, esperam com naturalidade que esse movimento se perpetue indefinidamente e que os bombardeios não acabarão com ele. Nem sequer nesta ocasião, pois, os partidos nacionalistas exploram a possibilidade que se lhes oferece de se integrarem nas massas rurais, de politizá-las, de elevar o nível da sua luta. Mantém-se a posição criminal da desconfiança perante o campo.
A fase decisiva da luta de libertação determina-se quando alguns sindicatos indígenas decidem a criação de sindicatos nacionais. A antiga formação, importada da metrópole, será objecto de uma deserção em massa pelos indígenas. Esta criação sindical é para a população urbana um novo elemento de pressão sobre o colonialismo. Temos dito que o proletariado nas colónias é embrionário e representa a fracção do povo mais favorecida. Os sindicatos nacionais aparecidos na luta organizam-se nas cidades e o seu programa é antes de mais um programa político, um programa nacionalista. Mas esse sindicato nacional nascido no decurso da fase decisiva do combate pela independência é, na verdade, o enquadramento legal dos elementos nacionalistas conscientes e dinâmicos.
A insurreição desorienta os partidos políticos. A sua doutrina, com efeito, afirmou sempre a ineficácia de qualquer prova de força e a sua própria existência é uma constante condenação de toda a insurreição. Secretamente, alguns partidos políticos compartilham do optimismo dos colonos e congratulam-se por se encontrarem além dessa loucura que, segundo se afirma, será reprimida de forma sangrenta. Mas uma vez ateado o fogo, este propaga-se ao resto do país como uma epidemia galopante. Os tanques blindados e os aviões não atingem os êxitos esperados. Frente à amplitude do mal, o colonialismo começa a reflectir. No seio do próprio povo opressor, escutam-se vozes que chamam a atenção para a gravidade da situação. O povo, nas suas choças e nos seus sonhos, põe-se em comunicação com o novo ritmo nacional.
As múltiplas sublevações aparecidas no campo são a prova, onde quer que estalem, oblíqua e geralmente densa da nação. Cada colonizado em armas é um pedaço da nação viva. Essas sublevações camponesas põem em perigo o regime colonial, mobilizam as suas forças e dispersam-nas, ameaçam asfixiá-lo a todo momento. Obedecem a uma doutrina simples: fazem com que a nação exista. Não há programa, não há discursos, não há resoluções, não há tendências. O problema é claro: é necessário que os estrangeiros partam. Deve constituir-se uma frente comum contra o opressor e fortalecer essa frente através da luta armada.
A táctica e a estratégia confundem-se. A arte política transforma-se simplesmente em arte militar. O militante político é o combatente. Fazer a guerra e fazer política é uma e a mesma coisa.
Descobrem que o êxito da luta exige a claridade dos objectivos, a precisão da metodologia e sobretudo o conhecimento pelas massas da dinâmica temporal dos seus esforços. É possível suportar-se três dias ou mesmo três meses utilizando a dose de ressentimento contida nas massas, mas não se triunfa numa guerra nacional, não se decompõe a terrível máquina do inimigo, não se transformam os homens se se esquece de elevar a consciência do combatente.
O colonizado entrega-se à luta com paixão, já o afirmámos, sobretudo se essa luta é armada. Os camponeses lançaram-se na insurreição com mais entusiasmo, porque não deixaram nunca de ter um modo de vida praticamente anticolonial. Desde sempre e como consequência de múltiplas astúcias, de equilíbrios que evocam as proezas do prestidigitador, ou camponeses preservaram relativamente a sua subjectividade da imposição colonial. Chegaram a acreditar que o colonialismo não era realmente vencedor. O orgulho do camponês, a sua relutância para descer às cidades, para se relacionar com o mundo edificado pelo estrangeiro, os seus perpétuos movimentos de retrocesso frente à aproximação dos representantes da administração colonial, não deixavam de significar que opunham à dicotomia do colono a sua própria dicotomia.
O racismo, o ódio, o ressentimento, «o legítimo desejo de vingança», não podem alimentar uma guerra de libertação.
Em todo o caso, o adversário, como temos assinalado, trata de ganhar a simpatia de certos grupos da população, de determinadas regiões, de diversos chefes. No decorrer da luta, dão palavras de ordem aos colonos e às forças de polícia. O comportamento modifica-se, «humaniza-se». Chegará mesmo a introduzir, nas relações entre colono e colonizado, tratamentos tais como Senhor ou Senhora. Multiplicar-se-ão as cortesias, as delicadezas. Concretamente, o colonizado tem a impressão de assistir a uma mudança.
Os dirigentes da insurreição descobrem com receio essa instabilidade do colonizado. Desorientados primeiro, compreendem, por este novo desvio, a necessidade de explicar e de realizar o resgate radical da consciência. Porque a guerra continua, o inimigo organiza-se, fortalece-se, adivinha a estratégia do colonizado. A luta de libertação nacional não consiste em transpor um espaço de uma única pisada. A epopeia é quotidiana,
Alguns exemplos históricos serão evocados e o povo poderá convencer-se de que a máscara da concessão, a aplicação do princípio de concessão a todo o preço, saldou-se em certos países por uma servidão mais discreta, mas mais total. O povo, a totalidade dos militantes, deverão conhecer essa lei histórica que estipula que certas concessões são, na realidade, novas cadeias.
O povo apercebe-no que outros indígenas não perdem quaisquer vantagens, mas, pelo contrário, parecem aproveitar-se da guerra para melhorar a sua posição material e o seu poder nascente. Os indígenas traficam e obtêm verdadeiros benefícios de guerra a expensas do povo que, como sempre, se sacrifica sem restrições e rega com o seu sangue o solo nacional. O militante que enfrenta, com meios rudimentares, a máquina bélica do colonialismo, dá conta do que, ao mesmo tempo que destrói a opressão colonial, contribui para construir outro aparato de exploração. Esta descoberta é desagradável, dolorosa e repugnante.
Estes exemplos mostram o ódio global que o colonizado sentia a respeito da população estrangeira. O colonizado rodeia esses homens de um afecto caloroso e tende, por uma espécie de acentuado afecto, a outorgar-lhes a sua confiança de uma forma absoluta.
O colono não é já simplesmente o homem que é necessário matar. Os membros da massa colonialista mostram-se mais perto, infinitamente mais perto, da luta nacionalista que alguns filhos da nação. O nível racial e racista é superado nos dois sentidos. Já não se entrega uma patente de autenticidade a todos os negros ou a todos os muçulmanos. Já não se procura a espingarda ou o machado ante o aparecimento de qualquer colono.
O militante nacionalista que fugiu da cidade, ferido, pelas manobras demagógicas e reformistas dos dirigentes, decepcionado pela «política», descobre na prática concreta uma nova política que não se parece em nada com a antiga. Esta política é uma política de responsáveis, de dirigentes integrados na História que assumem com os seus músculos e os seus cérebros a direcção da luta da libertação. Esta política é nacional, revolucionária, social. Esta nova realidade que o colonizado vai conhecer agora não pode existir senão pela acção. É a luta que, ao fazer estalar a antiga realidade colonial, revela facetas desconhecidas, faz surgir significações novas e põe o dedo sobre as condições disfarçadas por esta realidade. O povo que luta, o povo que, graças à luta, dispõe desta nova realidade e a conhece, avança, libertado do colonialismo, prevenido para avançar contra todos os propósitos de mistificação, contra todos os hinos à nação. Apenas a violência exercida pelo povo, violência organizada e esclarecida pela direcção, permite às massas decifrar a realidade social, dá-lhe a chave desta. Sem essa luta, sem esse conhecimento na prática, há somente carnaval e estribilhos. Um mínimo de readaptação, algumas reformas por alto, uma bandeira e, lá em baixo, a massa indivisa sempre «medieval», que continua o seu movimento perpétuo.
No sistema colonial, uma burguesia que acumula capital é impossível. Mas, precisamente, parece que a vocação histórica de uma burguesia nacional autêntica num país subdesenvolvido é negar-se como burguesia, negar-se enquanto instrumento do capital e escravizar-se absolutamente ao capital revolucionário que constitui o povo.
O objectivo dos partidos nacionalistas a partir de certa época é, já o temos visto, estritamente nacional. Mobilizam o povo em redor da palavra de ordem de independência e, quanto ao resto, esperam pelo futuro. Quando se interrogam esses partidos sobre o programa económico do estado que defendem, sobre o regime que se propõem instaurar, mostram-se incapazes de responder porque precisamente ignoram em absoluto tudo o que se refere à economia do seu próprio país.
a burguesia nacional não deixa de exigir a nacionalização da economia e dos sectores comerciais. É que, para ela, nacionalizar não significa pôr a totalidade de economia ao serviço da nação, satisfazer todas as necessidades da nação. Para ela, nacionalizar não significa ordenar o estado em função de relações sociais novas, cuja eclosão se deve facilitar. Nacionalização significa exactamente para essa burguesia, transferir para os autóctones os privilégios herdados da fase colonial.
colonos. A burguesia nacional ocupa o lugar da antiga população europeia: médicos, advogados, comerciantes, representantes, agentes gerais, agentes aduaneiros. Deseja ocupar, pela dignidade do país e da sua própria segurança, todos esses postos. De futuro, exigirá que as grandes companhias estrangeiras recorram a ela, quer para se manterem no país ou penetrarem nele. A burguesia nacional descobre a missão histórica de servir de intermediária. Como se vê, não se trata de uma vocação de transformar a nação, mas, prosaicamente, servir de correia de transmissão a um capitalismo disfarçado e que se cobre agora com a máscara neocolonialista. A burguesia nacional vai comprazer-se, sem complexos e com muita dignidade, com o papel de agente de negócios da burguesia ocidental.
No seu aspecto decadente, a burguesia nacional será consideràvelmente ajudada pelas burguesias ocidentais que se apresentam como turistas enamorados do exotismo, da caça, dos casinos. A burguesia nacional organiza centros de repouso e de recreio, curas de prazer para a burguesia ocidental.
A unidade africana, fórmula vaga a que os homens e mulheres de África se haviam ligado emocionalmente e cujo valor funcional consistia em fazer terrível pressão sobre o colonialismo, revela o seu verdadeiro rosto e desmembra-se em regionalismos dentro de uma mesma realidade nacional, A burguesia nacional, como pensa apenas nos seus interesses imediatos, como não vê para lá do seu nariz, mostra-se incapaz de realizar a simples unidade nacional, incapaz de edificar a nação sobre bases sólidas e fecundas. A frente nacional, que havia feito retroceder o colonialismo, desintegra-se e consome a sua derrota. Esta luta implacável que livra as raças e as tribos, esta preocupação agressiva para ocupar os postos que caíram livres com a partida do estrangeiro, vão dar
origem igualmente a competições religiosas. No campo e na selva, as pequenas seitas, as religiões locais, os cultos muçulmanos voltam a possuir vitalidade e reiniciarão o ciclo das excomunhões. Nas grandes cidades, ao nível dos quadros administrativos, assistiremos ao confronto entre as duas grandes religiões reveladas: islamismo e catolicismo.
O colonialismo utiliza sem vergonha todos os seus cordéis, certo de colocar uns contra os outros africanos que ontem se haviam ligado a
Dentro de uma mesma nação, a religião divide o povo e estabelece a discórdia entre ele e as comunidades espirituais mantidas e fortalecidas pelo colonialismo e pelos seus instrumentos.
No plano continental, esta tensão religiosa pode revestir a forma do racismo mais vulgar. Divide-se a África numa parte branca e numa parte negra. Os termos de substituição: África do Sul ou ao norte do Saara, não conseguem dissimular esse racismo latente. Aqui, afirma-se que a África Branca tem uma tradição cultural milenária, que é mediterrânica, prolonga a Europa, participa na cultura greco-latina. Concebe-se a África Negra com uma região inerte, brutal, não civilizada... selvagem.
O racismo da jovem burguesia nacional é um racismo defensivo, um racismo baseado no medo.
Como a burguesia não tem os meios económicos para assegurar o seu domínio e distribuir algumas migalhas por todo o país; como, além disso, está ocupada em encher ràpidamente os bolsos, mas também o mais prosaicamente, o país submerge-se cada vez mais no marasmo. E para esconder esse marasmo, para disfarçar essa regressão, para se tranquilizar e apresentar motivos de orgulho, não resta à burguesia outro recurso senão construir na capital grandiosos edifícios, fazer o que se chama despesas de prestígio.
Como não divide os seus benefícios com o povo e não lhe permite aproveitar as prebendas que lhe outorgam as grandes companhias estrangeiras, descobrirá a necessidade de um dirigente popular ao qual caberá o duplo papel de estabilizar o regime e perpetuar o domínio da burguesia. A ditadura burguesa dos países subdesenvolvidos obtém a sua solidez da existência de um dirigente. Nos países evoluídos, como se sabe, a ditadura burguesa é o produto do poder económico da burguesia. Nos países subdesenvolvidos, pelo contrário, o «leader» representa a força moral ao abrigo da qual a burguesia fraca e desprotegida da jovem nação resolve enriquecer.
A antiga potência colonial multiplica as exigências, acumula concessões e garantias, tomando cada vez menos precauções para disfarçar a sujeição em que mantém o poder nacional. O povo estagna lamentavelmente numa miséria insuportável e pouco a pouco perde consciência da traição inqualificável dos seus dirigentes.
O dirigente apazigua o povo. Anos depois da independência, incapaz de convidar o povo para uma obra concreta, incapaz de abrir realmente o futuro do povo, de lançar o povo pelo caminho da formação da nação, por consequência da sua própria construção, vemos como o dirigente ressuscita a história da independência, recorda a união sagrada da luta de libertação. O dirigente, como se nega a romper com a burguesia nacionalista, solicita ao povo que retroceda até ao passado e se embriague com a epopeia que o conduziu à independência. O dirigente— objectivamente— detém o povo e dedica-se a expulsá-lo da História ou a impedir que penetre nela. Durante a luta de libertação, o dirigente despertava o povo e prometia-lhe uma marcha heróica e radical. Agora, multiplica os esforços para o adormecer e três ou quatro vezes por ano pede-lhe que se recorde da época colonial e aprecie o imenso caminho percorrido.
O partido, actualmente, tem como missão fazer chegar ao povo as instruções que emanam de cima. Já não existe esse vaivém fecundo da base até cima e de cima até à base que funda e garante a democracia num partido. Pelo contrário, o partido constituiu-se um anteparo entre as massas e a direcção. Já não existe a vida de partido.
Nesses países pobres, subdesenvolvidos, onde a maior riqueza, regra geral, se coloca ao lado da maior miséria, o exército e a polícia são os pilares do regime.
É claro que a burguesia nacional não se inquieta com tais acusações. Enraizada na Europa, está firmemente resolvida a aproveitar a situação. Os enormes benefícios que obtém da exploração do povo são exportados para o estrangeiro. A nova burguesia nacional desconfia mais depressa do regime que instaurou do que das companhias estrangeiras. Nega-se a investir no território nacional e comporta-se cara a cara com o estado que a protege e a alimenta com uma ingratidão notável, que vale a pena assinalar.
Nos países subdesenvolvidos, a burguesia não deve encontrar condições para a sua existência e desenvolvimento. Por outras palavras, o esforço conjugado das massas enquadradas num partido e dos intelectuais perfeitamente conscientes e guiados por princípios revolucionários, deve fechar o caminho a essa burguesia prejudicial e inútil.
neutralizar esta classe burguesa dado que ela é, como temos visto, numérica, intelectual e economicamente débil. Nos territórios colonizados, a casta burguesa, depois da independência, obtém a sua força principalmente dos acordos contraídos com a antiga potência colonial. A burguesia nacional terá maiores oportunidades de substituir o opressor colonialista se lhe tiver dado a oportunidade de entabular negociações com a ex-potência colonial. Mas profundas contradições agitam as fileiras dessa burguesia, o que dá ao observador atento uma impressão de instabilidade. Não existe, no entanto, homonogeidade de classe. Muitos intelectuais, por exemplo, condenam esse regime baseado no domínio de uns quantos. Nos países subdesenvolvidos, existem intelectuais, funcionários, elites sinceras, que sentem necessidade de uma planificação da economia, da expulsão dos usufrutuários, de uma proibição rigorosa da mistificação.
Nos países subdesenvolvidos que obtêm a independência, existe quase sempre um pequeno número de intelectuais honestos, sem ideias políticas muito precisas que, instintivamente, desconfiam dessa correria aos postos e às prebendas, sintomática da fase posterior à independência nos países colonizados. A situação particular desses homens (apoios de família numerosa) ou a sua história (experiências difíceis, formação moral rigorosa) explica esse desprezo tão evidente pelos manobreiros e pelos usufrutuários. É preciso saber utilizar esses homens no combate decisivo que se quer empreender para uma orientação sadia da nação. Fechar o caminho à burguesia nacional, a degradação dos costumes, o bloqueio do país pela corrupção, significa que podem evitar-se as contingências dramáticas posteriores à independência, as desventuras da unidade nacional, a degradação dos costumes, a miséria do país através da corrupção, a regressão económica e, a curto prazo,
um regime antidemocrático fundado na força e na intimidação. Mas é também escolher o único meio de avançar.
Esta burguesia que adoptou sem reservas e com entusiasmo os mecanismos de pensamento característicos da metrópole, que alienou maravilhosamente o seu próprio pensamento e fundou a sua consciência em bases tipicamente estranhas, vai aperceber-se, com a garganta seca, de que lhe falta o essencial que faz uma burguesia, isto é, o dinheiro. A burguesia dos países subdesenvolvidos é uma burguesia em espírito. Não é o seu poder económico nem o
dinamismo dos seus quadros, nem a envergadura das suas concepções, que lhe asseguram a sua qualidade de burguesia. Também é em princípio e durante muito tempo uma burguesia de funcionários. São os postos que ocupam na nova administração nacional que lhe darão serenidade e solidez. Se o poder lhe deixa tempo e possibilidades, essa burguesia chegará a acumular pequenos aforros que fortalecerão o seu domínio. Mas mostrar-se-á sempre incapaz de dar origem a uma autêntica sociedade burguesa com todas as consequências económicas e industriais que ela supõe.
O partido não é um instrumento nas mãos do governo. Pelo contrário, o partido é um instrumento nas mãos do povo. É este que determina a política que o governo aplica. O partido não é, não deve ser nunca a simples repartição política onde se encontram . bem instalados todos os membros do governo e os grandes dignitários do regime.
partido deve ser descentralizado até ao extremo. É o único meio de activar as regiões mortas que, todavia, não despertam para a vida.
A hora de uma nova crise nacional não está longe. Pensemos, pelo contrário, que o interior do país deveria ser privilegiado. Em última instância, não haveria nenhum inconveniente em que o governo tivesse a sua sede fora da capital. É necessário desconsagrar a capital e mostrar às massas deserdadas que é para elas que se quer trabalhar. Em certo sentido, foi o que o governo brasileiro procurou fazer em Brasília. A altivez do Rio de Janeiro era um insulto para o povo brasileiro. Mas, desgraçadamente, Brasília é uma nova capital tão monstruosa como a primeira. O único interesse dessa realização é que, hoje, existe já uma estrada através da selva. Não, nenhum motivo sério pode opor-se à eleição doutra capital, à deslocação do governo para uma das regiões mais desfavorecidas. A capital dos países subdesenvolvidos é uma noção comercial herdada do período colonial. Mas nos países subdesenvolvidos, teremos de intensificar os contactos com as massas rurais. Teremos de fazer uma política nacional, quer dizer, antes de mais uma política para as massas. Não se deve perder nunca o contacto com o povo que lutou pela sua independência e pelo melhoramento concreto da sua existência.
Nessas regiões onde pudemos realizar experiências edificantes, onde assistimos à construção do homem pela instituição revolucionária, os camponeses compreenderam muito claramente o princípio que estabelece que se trabalha com mais gosto quando se compromete mais lucidamente no esforço.
Igualmente, nessas regiões libertadas e ao mesmo tempo excluídas do antigo circuito comercial, houve necessidade de modificar a produção, dirigida antes sòmente para as cidades e para exportação. Estabeleceu-se uma produção de consumo para o povo e para as unidades do exército de libertação nacional. Quadruplicou-se a produção de lentilhas e organizou-se o fabrico de carvão.
Na Argélia, compreendemos que as massas estão à altura dos problemas que as preocupam. Num país-subdesenvolvido, a experiência demonstra que o importante não é que trezentas pessoas concebam e realizem, mas que todos, ainda que o tempo dispendido se torne no dobro ou no triplo, compreendam e realizem.
O colono não deixou nunca de afirmar que o indígena é vagaroso. Agora, em alguns países independentes, ouvimos os quadros repetir essa acusação. Na verdade, o colono queria que o escravo fosse entusiasta. Queria, por uma espécie de mistificação que constitui a mais sublime alienação, persuadir o escravo de que a terra que trabalha lhe pertence, que as minas onde perde a sua saúde são sua propriedade. O colono esquecia que ia enriquecendo com a agonia do escravo. Praticamente, o colono dizia ao colonizado: «Mata-te, mas que eu enriqueça». Agora, devemos proceder de outra maneira. Não devemos dizer ao povo: «Mata-te, mas que o país se enriqueça.» Se desejamos aumentar o produto nacional, diminuir a importação de certos produtos inúteis ou nocivos, aumentar a produção agrícola e lutar contra o analfabetismo, temos de explicar. É necessário que o povo compreenda a importância do que está em jogo. A causa pública deve ser a causa
na necessidade de multiplicar as células de base. Com muita frequência, é verdade, instalam-se no cume e sempre na capital organismos nacionais: a União das Mulheres, a União dos Jovens, os sindicatos, etc.... Faz falta uma base, células que dão precisamente o conteúdo e o dinamismo. As massas devem poder reunir-se, discutir, propor, receber instruções. Os cidadãos devem ter a possibilidade de falar, de se expressarem, de inventar. A reunião da célula, a reunião do comité, é um acto litúrgico. É uma oportunidade soberba que o homem tem para ouvir e dizer. Em cada reunião, o cérebro multiplica as suas vias de associação, descobre-se um panorama cada vez mais humanizado.
Em nossa opinião, devem cuidar desta concepção. A juventude de um país subdesenvolvido é habitualmente uma juventude preguiçosa. Primeiro, deve dar-se-lhe ocupação. Por isso, o comissário para a juventude deve depender institucionalmente do ministério do trabalho. Este ministério, que é uma necessidade num país subdesenvolvido, funciona em estreita colaboração com o ministério de planificação, outra necessidade num país subdesenvolvido. A juventude africana não se deve dirigir aos estádios, mas ao campo e às escolas. O estádio não é esse sítio de exibição instalado nas
cidades, mas um espaço no meio das terras que se cultivam, que se trabalha e se oferece à nação.
Mas politizar é abrir o espírito, despertar o espírito, dar luz ao espírito. É, como dizia Césaire: «inventar almas». Politizar as massas não é, não pode ser, fazer apenas um discurso político. É contribuir com todas as forças para a compreensão das massas de que tudo depende delas, que se nós estagnamos é por sua culpa e se avançamos também é por elas, que não" há demiurgo, que não há qualquer homem ilustre responsável por tudo, que o demiurgo é o povo e que as mãos mágicas são unicamente as mãos do povo. Para realizar essas coisas, para as incarnar verdadeiramente, é necessário descentralizar em extremo. A circulação do alto à base e da base ao alto deve ser um princípio rígido, não por preocupação de formalismo, mas porque simplesmente o respeito desse princípio é a garantia da salvação. É da base que sobem as forças que dinamizam o alto e lhe permitem dialècticamente dar um novo passo mais adiante.
As massas devem saber que o governo e o partido estão ao seu serviço.
Ninguém possui a verdade, nem o militante nem o dirigente. A procura da verdade nas situações locais é assunto colectivo. Alguns têm uma experiência mais rica, elaboram mais ràpidamente o seu pensamento, puderam estabelecer no passado um maior número de associações mentais. Mas devem evitar sufocar o povo, porque o êxito da decisão adoptada depende da participação coordenada e consciente de todo o povo. Ninguém pode retirar o seu alfinete do jogo.
«No campo do pensamento, o homem pode pretender ser o cérebro do mundo, mas no plano da vida concreta, onde qualquer intervenção afecta o ser físico e espiritual, o mundo é sempre o cérebro do homem, porque é nesse nível que te encontram a totalização das potências e unidades pensantes, as forças dinâmicas do desenvolvimento e do aperfeiçoamento, é ali onde se opera a fusão das energias «onde se inscreve em definitivo a soma dos valores intelectuais do homem.»
As grandes obras de interesse colectivo deverão ser executadas pelos soldados. É um meio prodigioso para activar as regiões inertes, para dar a conhecer a um maior número de cidadãos as realidades do país.
A direcção burguesa dos países subdesenvolvidos limita a consciência nacional num formalismo esterilizante. Apenas a dedicação maciça dos homens e mulheres em tarefas inteligentes e fecundas dá conteúdo e densidade a esta consciência. Se não for assim, a bandeira e o palácio do governo deixam de ser símbolos da nação. A nação alheia-se desses sítios iluminados e fictícios e refugia-se no campo, onde se reveste de vida e dinamismo. A expressão viva da nação é a consciência dinâmica de todo o povo. É a prática coerente e inteligente de homens e mulheres. A construção colectiva de um destino supõe uma responsabilidade à altura da história.
quase sempre paralelamente a estes, aparecem homens de cultura colonizados. Para estes homens, a reivindicação de uma cultura nacional, a afirmação da existência dessa cultura representa um campo de batalha privilegiado. Enquanto os políticos inscrevem a sua acção na realidade, os homens de cultura situam-se no marco da história.
já o temos afirmado algumas vezes, esta procura apaixonada de uma cultura nacional mais além da fase colonial legitima-se pela preocupação que compartem os intelectuais colonizados de fixar distâncias em relação com a cultura ocidental em que correm o perigo de se submergir. Porque compreendem que estão a ponto de se perderem, de se perderem para o seu povo, esses homens, com raiva no coração e o cérebro enlouquecido, encarniçam-se por restabelecer o contacto com a seiva mais antiga, a mais anticolonial do seu povo.
a reivindicação do intelectual colonizado não é um luxo, mas uma exigência de programa coerente. O intelectual colonizado que situa a sua luta no plano da legitimidade, que quer apresentar provas, que aceita despir-se para exibir melhor a história do seu corpo, está condenado a essa submersão nas entranhas do seu povo. Essa submersão não é especificamente nacional. O intelectual colonizado que decide combater as mentiras colonialistas, procederá à escala continental. O passado é valorizado. A cultura, que é arrancada do passado para ser mostrada em todo o seu esplendor, não é a do seu país. O colonialismo, que não variou os seus esforços, não deixou de afirmar que o negro é um selvagem e o negro não era para ele nem o angolano nem o nigeriano.
A condenação do colonialismo é continental.
Os esforços do colonizado para se reabilitar e escapar à mordedura colonial inscrevem-se, logicamente, na mesma perspectiva que os do colonialismo. O intelectual colonizado que partiu da cultura ocidental e decide proclamar a existência de uma cultura, não o faz nunca em nome de Angola ou do Daomé. A cultura que se afirma é a cultura africana. O negro, que nunca foi tão negro como desde que está dominado pelo branco, quando decide provar a sua cultura, fazer cultura, compreende que a história lhe impõe um terreno preciso, que a história lhe indica uma perspectiva exacta e tem de manifestar uma cultura negra.
também subitamente continental. Em África, a literatura colonizada dos últimos vinte anos não é uma literatura nacional, mas uma literatura de negros. O conceito de «negritude» por exemplo, era a antítese afectiva, senão lógica, desse insulto que o homem branco fazia à humanidade. Essa «negritude» oposta ao desprezo do branco revelou-se em certos sectores como a única capaz de suprimir proibições e maldições.
Os cantores da «negritude» não vacilaram em transcender os limites do continente. Desde a América, vozes negras vão repetir esse hino com uma crescente amplitude. O «mundo negro» surgirá e Busia, do Gana, Birago Diop, do Senegal, Hampaté Ba, do Sudão, Saint-Clair Drake, de Chicago, não temeram em afirmar a existência de laços comuns, de linhas de força idênticas.
Demonstramos que essa atitude era normal e se justificava pela mentira propagada pelos homens de cultura ocidental. Mas a degradação dos fins desta sociedade vai aprofundar-se na elaboração do conceito de «negritude». A Sociedade Africana vai converter-se na sociedade cultural do mundo negro e terá de incluir a diaspora(35) negra, quer dizer, as dezenas de milhões de negros
Os negros que se encontram nos Estados Unidos, na América Central ou na América do Sul, necessitavam, na verdade, de se ligarem a uma matriz cultural. O problema que se lhes colocava não era fundamentalmente diferente do que enfrentavam os africanos. A respeito deles, os brancos da América também não se comportaram de ' maneira distinta à dos que dominavam os africanos.
É que o intelectual colonizado lançou-se com avidez à cultura ocidental. Parecido aos filhos adoptivos, que não abandonam as suas investigações do novo agregado familiar senão no momento em que se cristaliza na sua mentalidade um núcleo mínimo de segurança, o intelectual colonizado procurará tomar sua a cultura europeia.
Numa primeira fase, o intelectual colonizado prova que assimilou a cultura do ocupante. As suas obras correspondem ponto por ponto às dos seus homólogos metropolitanos. A inspiração é europeia e fàcilmente se podem ligar essas obras a uma corrente bem definida na literatura metropolitana.
movimenta-se e procura recordar-se. Este período de criação corresponde aproximadamente à imersão que acabamos de descrever. Mas como o colonizado não está integrado no seu povo, contenta-se somente em recordar. Velhos episódios da infância serão recolhidos do fundo da memória, velhas lendas serão interpretadas em função de uma estética emprestada e de uma concepção do mundo descoberta debaixo de outros céus.
numa terceira fase, chamada de luta, o colonizado— depois de haver tentado colocar-se entre o povo, transforma-se no que desperta o povo. No decorrer contrário, o povo. Em vez de favorecer a letargia do povo, transforma-se no que desperta o povo. No decorrer desta fase, um grande número de homens e mulheres, que antes nunca pensaram em fazer uma obra literária, encontram-se agora em situações especiais, na prisão, na guerrilha ou em vésperas de serem executados, sentem a necessidade de expressar a sua nação, de compor a frase que exprima o povo, de se converterem em porta- -vozes de uma nova realidade em acção.
intelectual colonizado, que regressa ao seu povo através das obras culturais, comporta-se de facto como um estrangeiro. Algumas vezes não vacilará em utilizar os dialectos para manifestar a sua vontade de estar o mais perto possível do povo, mas as ideias que exprime, as preocupações que o dominam, nada têm de comum com a situação concreta que conhecem os homens e as mulheres do seu país.
Esse criador que descreve a verdade nacional, volta-se paradoxalmente para o passado, para o inactual. O que procura na sua profunda intencionalidade são as dejecções do pensamento, as aparências, os cadáveres, o saber definitivamente estabilizado. Mas o intelectual colonizado que quer realizar uma obra autêntica, deve saber que a verdade nacional está primeiro do que a realidade nacional.
Antes da independência, o pintor colonizado era insensível ao panorama nacional. Preferia a arte não-figurativa ou, com maior frequência, especializava-se nas naturezas mortas. Depois da independência, a sua preocupação para se aproximar do povo confiná-lo-á à representação da realidade nacional ponto por ponto. Trata-se de uma representação não ritmada, serena, imóvel, que não evoca a vida, mas a morte. Os meios esclarecidos extasiam-se perante essa verdade bem conseguida, mas temos direito a perguntar se essa verdade real, se realmente não é superada, negada, impugnada pela epopeia através da qual o povo abre o caminho da história.
longe. Nos países colonizados, o colonialismo depois de utilizar os indígenas nos campos de batalha, utiliza-os como ex-combatentes para romper os movimentos de independência.
O homem colonizado que escreve para o seu povo, quando utiliza o passado deve fazê-lo com a intenção de abrir o futuro, de convidar à acção, de criar a esperança. Mas para assegurar a esperança, para lhe dar densidade, é necessário participar na acção, comprometer-se de corpo e alma na luta nacional. Pode falar-se de tudo, mas quando se resolve falar de uma coisa única na vida de um homem que representa de facto o abrir do horizonte, de levar luz à própria terra, de se levantar a si mesmo e ao seu povo, então deve colaborar-se muscularmente.
Não deve contentar-se, portanto, em mergulhar no passado do povo para encontrar nele elementos de coerência para enfrentar as empresas falsificadoras e pejorativas do colonialismo. Deve trabalhar-se, lutar com o mesmo ritmo que o povo para conseguir o futuro, preparar o terreno onde crescem já rebentos poderosos. A cultura nacional não é o folclore, onde um populismo abstracto quis descobrir a verdade do povo. A cultura nacional, nos países subdesenvolvidos, deve situar-se, pois, no centro da própria luta de libertação que esses países realizam.
A cultura negro-africana condensa-se em torno da luta dos povos e não em redor dos cantos, dos poemas ou do folclore;
A adesão à cultura negro-africana, à unidade cultural de África, exige primeiro um apoio incondicional à luta de libertação dos povos. Não pode desejar-se o esplendor da cultura africana, se não se contribui concretamente para a existência de condições dessa cultura, quer dizer, para a libertação do continente. Afirmo que nenhum discurso, nenhuma proclamação sobre a cultura, nos desviarão das nossas tarefas fundamentais, que são a libertação do território nacional, uma luta constante contra as novas formas do colonialismo e uma negação obstinada de não nos deixarmos iludir.
A cultura nacional é, debaixo do domínio colonial, uma cultura destruída de maneira sistemática e muito ràpidamente condenada à clandestinidade.
No fim de um ou dois séculos de exploração, produz-se um verdadeiro empobrecimento do panorama cultural nacional. A cultura nacional converte-se num acervo de hábitos motrizes, de tradições de vestimenta, de instituições despedaçadas. Percebe-se a escassa mobilidade. Não existe verdadeira criatividade, não há efervescência. Miséria do povo, opressão nacional e inibição da cultura, são uma e a mesma coisa. Através de um século de domínio colonial, encontra-se uma cultura rígida em demasia, sedimentada, mineralizada. A deterioração da realidade nacional e a agonia da cultura nacional mantêm relações de dependência recíproca. Por isso, é essencial seguir a evolução dessas relações no decorrer da luta de libertação. A negação cultural, o desprezo pelas manifestações nacionais motrizes ou emocionais, a proscrição de qualquer especialidade de organização, contribuem para engendrar condutas agressivas no colonizado. Mas esses comportamentos são de carácter reflexo, mal diferenciadas, anárquicas, ineficazes. A exploração colonial, a miséria, a fome endémica empurram cada vez mais o colonizado para a luta aberta e organizada. Progressivamente e de maneira imperceptível a necessidade de um afrontamento decisivo torna-se urgente e é experimentada pela grande maioria do povo. As tensões, antes inexistentes, multiplicam-se. Os acontecimentos internacionais, o desmoronamento em grandes pedaços dos impérios coloniais, as contradições inerentes ao sistema
colonialista sustentam e fortalecem a combatividade, promovem e dão força à consciência nacional.
Quando o negro se comprende a si mesmo e concebe o mundo de uma maneira distinta, faz nascer a esperança e impõe um retrocesso ao universo racista, é claro que o seu trompete tende a libertar-se e a sua voz a perder a rouquidão.
Formas de expressão pouco usuais, temas inéditos e dotados de uma força não já de invocação, mas de agrupamento, de convocação «com um fim». Tudo concorre para despertar a sensibilidade do colonizado, para tomar inactuais, inaceitáveis, as atitudes contemplativas ou de fracasso. Ao renovar as intenções e a dinâmica do artesanato, da dança e da música, da literatura e da epopeia oral, o colonizado estrutura de novo a sua percepção. O mundo perde o seu carácter maldito. Criam-se as condições para o inevitável confronto.
num país colonizado, o nacionalismo mais elementar, o mais brutal, o mais indiferenciado, é a forma mais ardente e mais eficaz de defesa da cultura nacional. A cultura é, em primeiro lugar, expressão de uma nação, das suas preferências, dos seus tabus, dos seus modelos. Em todos os níveis da sociedade global constituem-se outros tabus, outros valores, outros modelos. A cultura nacional é a soma de todas essas apreciações, a consequência das tensões internas e externas na sociedade global e nas diferentes camadas dessa sociedade. Na situação colonial, a cultura, privada do duplo apoio da nação e do estado, deteriora-se e agoniza. A condição de existência da cultura é, portanto, a libertação nacional, o renascimento do estado.
Pensamos que a luta organizada e consciente empreendida por um povo colonizado para restabelecer a soberania da nação, constitui a manifestação mais plenamente cultural que existe. Não é unicamente o triunfo da luta que dá validade e vigor à cultura, não existe hibernação da cultura durante o combate. A luta, no seu desenvolvimento, no seu processo interno, faz progredir as diferentes direcções da cultura e esboça outros caminhos. A luta de libertação não restitui à cultura nacional o seu valor e os seus antigos contornos. Esta luta, que tende para uma redistribuição fundamental das relações entre os homens, não pode deixar intactas as formas nem os conteúdos culturais desse povo. Depois da luta não desaparece apenas o colonialismo, mas desaparece também o colonizado.
Se o homem é aquilo que faz, afirmaremos que o mais urgente, neste momento, para o intelectual africano, é a formação da sua nação. Se essa construção é verdadeira, quer dizer, se traduz a vontade evidente do povo, se revela, na sua impaciência, os povos africanos, então a construção nacional vai acompanhada necessàriamente do descobrimento e da promoção de valores universais. Longe de se afastar, pois, das outras nações, é a libertação nacional que a torna presente no cenário da História. É no coração da consciência nacional que se eleva e se aviva a consciência internacional. E esse duplo nascimento não é, definitivamente, senão o núcleo de toda a cultura.
Deve recordar-se, em todo o caso, que um povo colonizado não é apenas um povo dominado. Debaixo da ocupação alemã, os franceses não deixaram de ser homens.
a guerra de libertação nacional que conduz o povo argelino desde há sete anos, por abarcar a totalidade do povo, converteu-se em terreno favorável para a eclosão de perturbações mentais(41).
O caso número 2 da série A, é tipicamente uma psicose reactiva, mas os casos números 1, 2, 4 e 5 da série B admitem uma causalidade muito difusa, sem que possa falar-se realmente de um acontecimento motivador particular. Aqui é a guerra, essa guerra colonial que com muita frequência se manifesta como um autêntico genocídio, esta guerra que perturba e despedaça o mundo é o que constitui o acontecimento motivador. Psicose reactiva, se quer utilizar-se um rótulo já estabelecido, mas dando-lhe aqui uma prioridade singular à guerra concebida na sua totalidade e nas suas particularidades de guerra colonial.
Chamamos patologia psicossomática ao conjunto de desordens orgânicas cuja eclosão é favorecida por uma situação conflituosa(54). Psicossomática, porque a causa é de origem psíquica. Esta patologia é considerada como uma maneira a que tem de responder o organismo, isto é, de adaptar-se ao conflito que enfrenta, sendo a perturbação ao mesmo tempo sintoma e cura.
Não é necessário apenas que se combata pela liberdade do povo. Também é preciso ensinar a esse povo e a nós mesmos, durante o tempo da luta, a dimensão do homem. Deve remontar-se pelos caminhos da história, da história do homem condenado pelos homens e provocar, tornar possível o reencontro com o seu povo e com os outros homens.
Na verdade, o militante que se entregou a uma luta armada, a uma luta nacional, tem a intenção de conhecer todas as degradações infligidas ao homem pela opressão colonial. O militante tem por vezes a impressão fatigada de que deve conduzir a tudo o seu povo, tirá-lo do poço, da caverna. O militante compreende a cada passo
argelino, a trivialidade dos motivos descobertos, o carácter homicida e sempre muito sanguinário das lutas, colocava um sério problema aos observadores. A explicação proposta, que se converteu em matéria de ensino, parece ser, em última análise, a seguinte: a disposição das estruturas cerebrais do norte-africano explica por uma vez a preguiça do indígena, a sua incapacidade intelectual e social e a sua impulsividade quase animal. A impulsividade criminal do norte-africano é a transgressão à ordem do comportamento de certa disposição do sistema nervoso. É uma reacção neurològicamente compreensível, inscrita na natureza das coisas, da coisa biologicamente organizada. A não integração dos lóbulos frontais na dinâmica cerebral explica a preguiça, os crimes, os roubos, as violações, a mentira. E a conclusão deu-me um subprefeito— agora prefeito—: «A esses seres naturais— dizia—, que obedecem cegamente às leis da natureza, devem opor-se quadros estritos e implacáveis. É necessário domesticar a natureza, não a convencer». Disciplinar, domesticar, reduzir e agora pacificar são os vocábulos mais utilizados pelos colonialistas nos territórios ocupados.
No regime colonial, qualquer coisa pode fazer-se por um quilo de pão ou um miserável borrego... As relações do homem com a matéria, com o mundo, com a história, são na fase colonial relações com os alimentos. Para um colonizado num contexto de opressão como o da Argélia, viver não é incarnar valores, inscrever-se no desenvolvimento coerente e fecundo de um mundo. Viver é não morrer. Existir é manter a vida. Cada data é uma vitória. Não um resultado do labor realizado, mas uma vitória concebida como triunfo da vida.
A criminalidade do argelino, a sua impulsividade, a violência dos seus assassinatos, não são, portanto, a consequência de uma organização do sistema nervoso nem de uma originalidade de carácter, mas o produto directo da situação colonial. Que os combatentes argelinos hajam discutido este problema, que não hajam temido pôr em dúvida as crenças que o colonialismo lhes havia inculcado, hajam compreendido que cada qual era o espelho do outro e que, na verdade, cada um se suicidava ao lançar-se sobre o outro, devia ter uma importância primordial na consciência revolucionária. Uma vez mais, o objectivo do colonizado que luta é provocar o fim da dominação.
A libertação total é a que concerne a todos os sectores da personalidade. A emboscada ou o corpo-a-corpo, a tortura ou a matança de seus irmãos, enraízam a determinação de vencer, renovam o subconsciente e alimentam a imaginação. Quando a nação se desamarra totalmente, o homem novo não é um produto a posteriori dessa nação, mas coexiste, desenvolve-se e triunfa com ela. Esta exigência dialéctica explica a reticência perante as colonizações adaptadas e as reformas de fachada. A independência não é uma palavra que deva exorcizar-se, mas uma condição indispensável para a existência de homens e mulheres realmente libertados, quer dizer, donos de todos os meios materiais que tornam possível a transformação radical da sociedade.
"Cheguei ao mundo pretendendo descobrir um sentido nas coisas, minha alma cheia do desejo de estar na origem do mundo, e eis que me descubro objeto em meio a outros objetos. Enclausurado nesta objetividade esmagadora, implorei ao outro. Seu olhar libertador, percorrendo meu corpo subitamente livre de asperezas, me devolveu uma leveza que eu pensava perdida e, extraindo-me do mundo, me entregou ao mundo. Mas, no novo mundo, logo me choquei com a outra vertente, e o outro, através de gestos, atitudes, olhares, fixou-me como se fixa uma solução com um estabilizador. Fiquei furioso, exigi explicações... Não adiantou nada. Explodi. Aqui estão os farelos reunidos por um outro eu."
Friedrich Wilhelm Nietzsche
Os Amigos Como Fantasmas Quando nos transformamos radicalmente, nossos amigos, aqueles que não se transformam, se tornam os fantasmas de nosso próprio passado: sua voz ressoa até nós, como se viesse da região das sombras — como se ouvíssemos a nós mesmos, mais jovens, contudo, mais duros e menos maduros.
Remédio da Alma Ficar deitado sem se mexer e pensar pouco, esse é o remédio menos custoso para todas as doenças da alma e, com boa vontade, seu uso torna-se de hora em hora mais agradável.
Gabriel Nascimento
apesar dessa mesma coletividade tê- lo tornado sujeito, a vergonha que um sujeito sente por um ato cometido por outro membro da sua coletividade paralisa e des- subjetiva.
que todo sujeito é heterogêneo, e, como sujeito, é eticamente execrável quando rejeita ou despreza a diversidade em seu Outro.
É preciso entender, portanto, o signo “negro” como um conceito novo, criado pela branquitude e não como um conceito natural.
Ou seja, os negros africanos, antes de serem colonizados e sequestrados, não se chamavam como “negros” ou reivindicavam para si a identidade “negra” como “naturalmente” deles.
Portanto, se esse interlocutor é a branquitude, como aquela que inviabiliza a minha fala, então o negro teve ainda que adaptar a sua fala durante todo esse processo, apagando aparentemente muitas vezes suas próprias marcas de origem ou traduzindo algumas delas e, assim, modificando a própria língua do colonizador.
conceito de “língua” no ocidente como aquele que deriva do fetiche entre a perfeição prometida pelo projeto de modernidade e sua performance baseada no mundo greco- romano.
Esse projeto não apenas institui um fetiche de estética na linguagem baseado em um projeto de elites locais de cada estado- nação, mas também impõe sua língua aos povos colonizados
O combate às línguas já faladas pelos povos originários negros e indígenas figura como um dos primeiros atos do mito da brasilidade linguística entre nós, gerando, ao mesmo tempo, epistemicídio e linguicídio.
epistemicídio como o extermínio do conhecimento do outro, através da definição do que é saber/ conhecimento válido
A língua, assim, aqui será vista como uma marca de dominação e por onde também se dá a figura estruturante do racismo.
Uma vez que admitimos que o racismo está na estrutura das coisas, precisamos admitir que a língua é uma posição nessa estrutura.
entendo que o racismo é produzido nas condições históricas, econômicas, culturais e políticas, e nelas se firma, mas é a partir da língua que ele materializa suas formas de dominação.
Se, por um lado, o sujeito se submete à língua, por outro, a língua muda por meio do sujeito e das convenções criadas através da língua que não são autoconscientes. Por isso, as línguas têm sujeitos por trás delas. De outra forma, as línguas não são neutras
e sempre são atravessadas por processos de poder, como os próprios sujeitos.
as línguas também são comunidades imaginadas, ou seja, espaço de idealização da construção dos estados modernos.
Assim, não se pode afirmar a língua como um lugar pacífico. A língua é um lugar de muitas dores para muitos de nós.
língua não é só modificada, mas está sempre submetida aos projetos de poder.
Ela própria é um projeto de poder, incluindo suas desigualdades, que funda nas origens nacionais o conceito moderno de língua nacional.
A língua tem cor? Em si, como iniciamos anteriormente a argumentação, nenhuma língua tem cor porque nenhuma língua existe em si. Entretanto, ao serem politizadas, as línguas têm cor, gênero, etnia, orientação sexual e classe porque elas funcionam como lugares de desenhar projetos de poder, dentre os quais o próprio colonialismo fundado a partir de 1492 e a colonialidade que ainda continua entre nós como continuidade dele.
Ou seja, a língua não só tem cor quando politizada nos diversos sistemas de poder, mas ela própria é um espaço de luta da racialidade porque é por meio dela em que se nomeia ese racializa.
história, como quero propor, os agentes oprimidos pela colonialidade e a partir da colonialidade também atuaram e não se mantiveram passivos, muito menos na língua.
Portanto, a língua tem cor e é uma possibilidade de luta e resistência ao projeto de racialização do pensamento moderno, que não só cria a opressão, mas cria a língua como seu processo gerador primordial.
epistemicídio é a extermínio do pensamento do outro.
É o formato pelo qual a colonialidade sequestra, subtrai (tudo o que puder se apropriar) e apaga os saberes e práticas dos povos originários e tradicionais.
O epistemicídio (que lembra o genocídio em sua organização) é o pai das línguas ocidentais ao meu ver. Sobretudo desde o Renascimento, falar uma língua é retomar uma idealização que se tem das línguas francas antigas (o grego e o latim) e aperfeiçoar essa língua em um projeto nacional de expansão. De outra forma, é o epistemicídio (a partir do continente europeu) que decide que as línguas dos brancos são línguas nacionais enquanto as demais não são sequer línguas e são apenas dialetos. 14
Como a escrita é um objeto de poder, ela existe para separar quem escreve de quem não escreve. As chamadas culturas ágrafas não serão somente alvo de dominação racial, mas também lugares que a modernidade vai calar por meio da escrita.
colonialidade fincou em torno de si na modernidade o ponto zero, sendo esse o lugar de partida. Ou seja, o colonizador, ao ser o ponto zero, impõe ao colonizado formas de organização que ele concede a partir de si como ponto zero.
Falar de cordialidade na formação do povo brasileiro, ignorando a insubmissão dos negros é apagar, a partir da linguagem, sobretudo a acadêmica, a possibilidade de os negros serem vistos como heróis do seu próprio povo.
O processo de mímesis na escrita insinua o intelectual como a repetição do Deus cristão, em que o Deus é um humano ideal a ser seguido, e quase nunca alcançado. O intelectual vai sempre alimentando esse instrumental de si, à medida que vai buscando se distanciar dele. O intelectual não só reproduz a linguagem racista do ocidente, como ele a recria em sua escrita falsamente êmica e holística.
ela é o abrigo do sentido da nossa miscigenação. Isso porque o miscigenado, embora forçado a adquirir os valores brancos para receber como recompensa a vantagem de não ser exterminado logo diretamente, também se nega pela língua, silenciando os usos linguísticos sobre sua identidade.
É na língua que a negação passa a primeiro existir. O
língua impele ao sujeito negro uma estranheza sobre a fala de seus ancestrais ou
ainda o faz ter auto- ódio da herança africana nas religiões de matriz africana (ou mesmo nas representações de evangélicos nas próprias religiões evangélicas),
Ao criar esse entendimento, sua obra propõe que o mundo se discursiviza, mas o mundo não é, ele próprio, só discurso. Ou seja, ao pensar racialidade e racialização, é preciso compreender que o mundo se racializa, mas que raça não é uma obra da natureza ou um fenômeno que mereça naturalização sendo pensada apenas como discurso.
racismo não é apenas um discurso, mas
a estrutura de onde se originam os discursos da colonialidade.
“Esta” raça que me deram não é verdadeiramente minha. Ela nunca foi decisão minha, nunca foi construída por mim e eu nunca a quis enquanto ela somente significou opressão. No entanto, ela é sempre tratada pela branquitude como “essa sua raça, de sua responsabilidade”.
Frantz Fanon (2008) chama esse processo como desresponsabilização do branco pelo racismo (ou de repartição racial da culpa pelo branco, como ele prefere denominar, para se referir à culpa que o branco impõe ao próprio negro pelo negro ter sido escravizado), ao passo que ele cria, através da linguagem, no hic- et- nunc discursivo, o outro e sua raça (e, portanto, sua racialidade) e se constitui como o universal, como o ponto- zero
a maior tarefa do movimento negro e dos antirracistas de todas as raças e credos devesse ser desnudar a branquitude.
penso que nenhum branco gera apenas impacto aos negros quando os racializa. Penso, como Aimé- Cesaire, que o surgimento de Adolf Hitler é o ápice de uma era que marca uma crise do humanismo e que desnuda o processo em que séculos de escravidão geram genocidas que, numa esquizofrenia de limpeza étnica, trucidam até os próprios brancos que eles julgam menos brancos num amplo processo de idealização do próprio conceito de branquitude
signo da raça é um signo da mágoa e da dor, da opressão e da penumbra de uma identidade que essencializa todos os povos negros e nações africanas, que subverte e nos transforma em um só povo, desde que não nos unamos para enfrentar a própria colonialidade, e, quanto isso acontece, a própria concessão da raça (que aqui chamo de racialidade) admite que somos todos humanos.
racialização é um processo de construir o sentido da raça e se instaura através da linguagem para tal.
racialização do corpo negro cria o que Achille Mbembe chama de “a manifestação da questão da raça”, em que o negro é racializado para ser dominado e virar signo- objeto
Ela também examina como a racialização do negro é encarada como desresponsabilização por parte do branco, de maneira que, nesses espaços privilegiados, os brancos falam pelos negros, sem se esforçar por dividir com os negros os espaços de enunciação.
negritude é conceituada por Achille Mbembe (2014) como um processo exportado do seio dos corpos negros e globalizado para o mundo através do neoliberalismo, conduzindo a um devir- negro do mundo.
substantivo negro, como chama Mbembe, passa a ser mais usado à medida que a colonialidade impõe sua universalidade moderna sobre suas colônias.
raça é um lugar de muitos sofrimentos discursivos e se impõe através dos discursos no momento em que os corpos são racializados e as dores e mágoas são produzidas.
partir do momento em que há o sepultamento da originalidade cultural de um povo através da colonialidade, cria- se o complexo de inferioridade (que, para Fanon, é responsabilidade do colonizador) e o colonizado é obrigado a tomar posição diante da linguagem da nação que o coloniza.
é esse lugar que ocupa o negro/ pobre que aprende a falar a suposta “norma padrão”, que vem sendo historicamente repetida como única “norma culta” no Brasil. Esse negro, sendo aquele que ocupa o lugar de empregadas domésticas, recepcionistas de hotéis ou atendentes de lojas ao se adequar a essa norma, é premiado, no máximo, à posição de coordenador das funções mais manuais na divisão de trabalho.
que, para além de oportunizarem preconceito linguístico, os compêndios gramaticais e a indústria do bom português são racistas.
segunda pergunta, que aqui trago, baseado no trabalho de Spivak (1987) e de Bakhtin (1997) é: Quem está falando o que está falando fala a partir de que base de conhecimento? Como atua o poder em sua fala e como sua fala se localiza e atua no poder?
A interdisciplinaridade é um compromisso de sobrevivência epistêmica, naquilo que Boaventura de Sousa Santos (2007) tem chamado de ecologia dos saberes (tentando superar a chamada linha abissal, também construído a partir do pensamento de Fanon).
desnudar o racismo que se entrelaça nas políticas linguísticas é uma forma de desbranquear uma Linguística vítima de um branqueamento racista desde que passou a ser vista como ciência, que cega suas próprias estruturas, gerando análises globalizantes e totalizantes, ignorando dados raciais e sociais que geram
Frantz Fanon, ao traduzir a forma de legitimação do racismo pelo colonialismo linguístico, que leva o negro a tentar se branquear através da língua do colonizador; Achille Mbembe ao desvendar a duplicidade do signo da raça, enquanto aquele que é imposto como signo de opressão, gerando sofrimento, e como signo de resistência, gerando o negro enquanto sujeito da própria resistência a um devir- negro do mundo; e Lélia González, enquanto estudiosa que propôs a relação entre o português brasileiro e sua
marca de africanização– entre muitíssimos outros estudiosos.
há pessoas com as quais se fala e de quem se fala no discurso, entendendo que há uma estrutura que não se refere a outro item do próprio discurso mencionado, mas a referentes no mundo.
a racialização é a enunciação que permite formar raça enquanto enunciado nas hierarquias de poder do sistema- mundo.
história do colonialismo e suas interfaces é a principal agenda para a existência de uma racialização enquanto enunciação da história.
língua, sendo arena para a luta de classes, modifica os sujeitos e os sujeitos podem modificar a língua num processo dialógico.
um dos primeiros signos impostos pelo colonialismo foi a assimilação ao homem branco através da linguagem como uma forma de o sujeito negro ser supostamente aceito pela branquitude.
A história da mobilidade social dos negros brasileiros é, neste sentido, a sua de sua assimilação aos padrões brancos de relações sociais. É a história da submissão ideológica de um estoque racial em presença de outro que se lhe faz hegemônico. É a história de uma identidade renunciada, em atenção às circunstâncias que estipulam o preço do reconhecimento ao negro com base na intensidade de sua negação
uma estratégia para sobreviver e buscar espaços melhores na sociedade.
provam que a colonização desumaniza, repito, mesmo o homem mais civilizado; que a ação colonial, a empresa colonial, a conquista colonial, fundada pelo desprezo sobre o homem indígena e justificada por esse desprezo, tende, inevitavelmente, a modificar quem a empreende; que o colonizador, para se dar boa consciência, se habitua a ver no outro o animal, tende, objetivamente, a transformar- se, ele próprio, em animal..(
racismo depende da história colonial (e, para tanto, as marcas fenotípicas que são consideradas inferiores nessas sociedades) para ganhar características tanto políticas quanto linguísticas.
o signo negro é uma criação da branquitude.
quero dizer que o conceito de raça sempre é fruto de violência e não de um processo intrínseco de reivindicação da identidade, como parecem advogar os discursos do multiculturalismo liberal.
Sempre que invocamos a noção raça para projetar uma identidade positiva a fim de enfrentar o racismo, não podemos esquecer ou negligenciar seu papel enquanto signo criado e mantido pelo colonialismo.
mundo ocidental produziu nos “outros” os signos de dominação ao chama- los de raça ao passo que, ao criar essas definições, criou o branco, cristão, civilizado, heterossexual e burguês.
Achille Mbembe, já citado anteriormente, produzir o negro é produzir uma vinculação de submissão dos corpos a uma estrutura perversa de medos e tormentos.
entendo racialidade como a metafísica da raça, que por nós negros vem sendo mudada a partir da resistência.
Negro é uma criação da opressão direta do colonialismo durante séculos de tráfico negreiro e escravização.
Negro é portanto o nome que me foi dado por alguém
colonialismo criou um sistema permanente de signos coloniais (que chamamos de colonialidade) que foram e são responsáveis pela manutenção de um racismo estrutural e suas formas mais diversas, como as formas de racismo linguístico que aqui examinamos.
Essas formas interligam discriminação racial e história, mostrando que negro é uma criação do branco, eurocêntrico, enquanto este também foi criado como signo acima da linha do humano.
só pode existir racismo linguístico quando há epistemicídio ou racismo epistêmico.
Chamo de racismo epistêmico, com base em Grosfoguel (2007) e Mignolo (2007), o poder que impõe e mantém o pensamento ocidental em uma limitação fronteiriça, apagando e silenciando (e com isso também assassinando) todo aquele pensamento que não for eurocêntrico, branco e falocêntrico.
Racismo epistemico
Stuart Hall (2009) chamava atenção: nem tudo é discurso.
o quanto teorizar sem antes conhecer o mundo passa a ser o maior problema moderno.
entendo discurso como o lugar onde o mundo se cria e recria, mas reconheço que há um mundo físico, histórico e social antes do discurso per si.
em primeiro lugar, não se trata de não querer dialogar com o Ocidente. Mas jamais esquecer a colonialidade ainda imposta aos nossos corpos.
fazem crítica à visão europeia advinda de Habermas, de comunicação harmônica entre os dois mundos, de colonizadores e colonizados, para superar as diferenças.
possibilidade de a linguagem atuar como mecanismo de decolonização e comunicação dialógica entre os oprimidos.
identificamos que há uma práxis decolonial na própria luta dos negros brasileiros, muitas vezes não reconhecida.
enquanto os direitos humanos já chegam a uma crise, em termos de seu próprio discurso no mundo ocidental, os negros sequer experimentamos o senso de humanidade e ainda temos que negociar a todo momento para não continuarmos sobre nossos corpos o sentido de animalidade.
a ignorância da heterogeneidade dos não brancos é uma gramática da dominação do branco no mundo.
decolonial é um espírito de resistência que não é invocado de fora para dentro, mas de dentro para dentro (olhando e se utilizando do que for proveitoso de fora), ao se pensar e repensar o fora.
“A linguagem possibilita a construção do mundo social e é a condição para que ele exista” (MOITA LOPES, 1994, p. 331). Ou seja, quando nascemos há um mundo com condições raciais e socioeconômicas imposto aos nossos corpos (condição), mas é possível quebrar esse estado de coisas ao agir no mundo através da linguagem (solução) sendo, assim, possível construir o mundo ao nosso redor.
preciso racializar a branquitude.
Não racializar é evitar o desnudamento dessa identidade branca enquanto identidade. É preciso sempre indicar quais variantes do mundo têm os brancos como principais personagens. Se a língua real falada no Brasil é afro- brasileira, como mostramos, a idealização de língua na boca dos setores mais letrados é uma marca da identidade de branquitude brasileira, que, ao se enxergar, procura se afastar de extratos mais racializados (por ela) da sociedade, ainda que não consiga.
Racializar, portanto, não é praticar racismo reverso (o que é uma improbabilidade histórica). Ao contrário, é uma forma de alertar sempre ao sujeito branco que ele não é universal.
racializar é desinventar um mundo que desmotiva e esvazia a luta negra, ao mostrar sempre às pessoas brancas que elas criam um mundo intangível e supostamente imutável ao redor delas.
racismo cria suas marcas também na branquitude. Um Hitler, um Trump ou um Bolsonaro não nascem à toa. Antes do fascismo, o racismo é a condição estruturante que permite que, nessas sociedades, tanto o colonizador quanto o colonizado enfrentem os fantasmas da raça criados pelo colonizador. A ideia de raça enquanto fantasia política permite entender melhor esse contexto, porque possibilita entender a amplitude do debate de desumanização.
A educação deverá mais do que ser reflexiva. Deverá, assim, conduzir a uma visão que torne a ontologia do sujeito como o seu encontro entre sua identidade e o mundo ao seu redor, que lhe racializa e lhe concede direitos ao passo que ele age no mundo. O sujeito negro será aquele que, por causa das marcas em seu calo, saberá, portanto, compreender ao seu tempo quais armas deverá usar através da linguagem, ao passo em que, como nos diz Veronelli (2016), usa a linguagem para uma perspectiva dialógica decolonial.
George R.R. Martin
Um leitor vive mil vidas antes de morrer. O homem que nunca lê vive apenas uma.
Gislene Aparecida dos Santos
Ser o outro de si mesmo. O sentimento de tornar-se um estranho para si é a vivência mais plena da duplicidade. Quando se nega tão intensamente aquilo que é, a conexão com o ser se perde, a ponto de nós nos tornarmos estrangeiros para nós mesmo. Talvez seja esse o estado de muitas pessoas que reagem espantada quando chamadas de negras, sendo negras. Fato que fez com que Antônio Cândido considerasse o racismo no Brasil como um crime ontológico não só por destruir a possibilidade de os negros construírem uma imagem positiva de si mesmos, mas por destruir a condição de ser negro.
Guimarães Rosa
Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou — amigo — é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.
Guto Amaral
Meus pés estão frios Meus pés estão frios Como podem querer, esperar de mim Que finja que nada me importa. Meus pés estão frios E todo o calor que vejo, no fim Não me atinge, não me conforta. Meus pés estão frios Como gotas de desprezo Como batidas amargas à porta E decerto não vejo Como aquecê-los em tão fria sina. Perdi meu dom Perdi meu calor Não creio no homem, na burocracia Não creio no bom, nem no labor Não creio no tempo, nem no desabafo. Só creio no frio, que geme em meus pés Só ele me toca, só ele me agride Só ele me lembra de tempos melhores Só ele doutrina, educa e conforma Só creio no frio Só ele estará sempre lá.
Itamar Vieira Junior
O rio, caminho sinuoso por onde percorrem seres e saberes, sonhos e mistérios, como contaram certo dia os mais velhos. Rita brinca com os irmãos, e se alguém
As águas, as águas daquele instante, correm para sempre e sem destino.
Suas histórias estão reunidas na casa, no corpo dos filhos, e, sobretudo, nas memórias que carrega consigo.
Seus pés eram os pés de sua mãe, Mazé, de sua avó Carmelita, de sua bisavó, a velha Donana. Eram os pés das mulheres e dos homens sem nome que antecederam sua existência. Seus pés eram primordiais e tão antigos quanto o próprio tempo, e com eles se moveu, se perdeu e se encontrou, e reencontrou os caminhos por onde andou e por onde ainda precisaria caminhar.
Não viajou por escolha, não pôde decidir, é verdade, mas se adaptou pela simples necessidade de continuar a viver.
Optou-se por Rita, a Preta, para demarcar o lugar de sua presença naquela casa, naquele mundo, para fazer jus às suas origens.
quando uma mulher perde o marido para a morte, ela fica viúva; quando uma filha perde o pai ou a mãe, ela fica órfã; mas e quando alguém perde um filho? Não é abandono, se foi um ato involuntário; também não cabe a palavra "desamparo" se nenhuma das partes contribuiu para o distanciamento. Talvez não exista um nome, reflete, depois de tentar encontrar uma palavra para o vazio que sente. E descobre que não há.
Então dirá aos filhos, naqueles dias de grande desconforto e para abrandar sua imensa dor, que a terra, os animais e as pessoas que estiveram à nossa volta revivem quando recontamos suas histórias.
Quem tem o direito de dizer a uma mãe que não deve procurar por aquele que foi gerado para ser amado? Quem pode impedir uma mãe de procurar pelo filho amamentado em seus seios, por quem havia trabalhado, sonhado, por quem se entusiasmou quando o viu aprender as primeiras letras, com quem dividiu o pão, a miséria e a beleza da existência?
Mas o tempo segue em frente, não volta jamais. O que retorna são as memórias, incapazes de modificar o passado.
Sua vida é uma composição única e irreproduzível de frações de muitas outras. Ainda que não consiga conceber, você carrega todas as memórias, toda a terra, toda a atmosfera, todos os sentimentos, todos os tempos da vida humana.
Jeferson Tenório
É necessário preservar o avesso, você me disse. Preservar aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo. E por mais que sua vida seja medida pela cor, por mais que suas atitudes e modos de viver estejam sob esse domínio, você, de alguma forma, tem de preservar algo que não se encaixa nisso, entende? Pois entre músculos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único. E é nesse lugar que estão os afetos. E são esses afetos que nos mantêm vivos.
As perspectivas eram sempre estilhaçadas pela realidade.
Pessoas brancas nunca pensam que um menino negro e pobre possa ter outros problemas além da fome e das drogas.
a literatura é só um meio de dizer que estamos vivos e que um dia vamos morrer. Fiquei
Você ainda vai aprender que a vida não é silenciosa. A vida é sempre barulhenta. Mesmo quando você tapa os ouvidos, mesmo quando a mudez impera, outro tipo de ruído se impõe: o som do corpo. O silêncio é impossível. O coração é barulhento. E você lembra que tem um corpo que se move sem que você perceba. Lembre- se disso quando for escrever.
De algum modo, tornei- me leitor não por causa da leitura em si, mas porque eu gostava daquela imagem: alguém que lê. Era
Quando você se torna leitor, viver de maneira harmônica com o mundo é impossível. A impressão é que estamos em constante desacordo com a realidade.
O que de certo modo ocasionou uma espécie de amputação de uma parte de mim mas que eu não sabia exatamente qual era. Aos poucos fui me dando conta de que as histórias de aprendizagem são sempre as mesmas: antes você não sabe, depois você passa a saber. A diferença entre as pessoas é justamente o que fazemos com o que a gente passou a saber.
E então, pela primeira vez, senti raiva da literatura e dos livros. Sentia- me enganado. A arte havia me passado a perna. Eu estava magoado com a poesia e com tudo que ela me prometera.
João Etienne Filho
Isto é meu O ideal de beleza que eu persigo Isto é meu e morrerá comigo. O que houve, o que há e o que haverá De mim para contigo Isto é meu e morrerá comigo. O remorso de ser joio entre o trigo Isto é meu e morrerá comigo. A mágoa que não conto ao mais direto amigo Isto é meu e morrerá comigo. O que me dilacera e finjo que não ligo Isto é meu e morrerá comigo. O que hei de levar ao derradeiro abrigo Isto é meu e morrerá comigo. E o que eu quero que se escreva em meu jazigo Isto é meu e viverá comigo.
João Guimarães Rosa
"Cada um rema sozinho uma canoa que navega um rio diferente, mesmo parecendo que está pertinho."
"– Adianta querer saber muita coisa? O senhor sabia, lá para cima – me disseram. Mas, de repente, chegou neste sertão, viu tudo diverso diferente, o que nunca tinha visto. Sabença aprendida não adiantou para nada...”
Johann Wolfgang von Goethe
Não quero ficar a remoer o mais pequeno mal que o destino me envia, como sempre tenho feito; quero gozar o presente e esquecer o passado.
A espécie humana é de uma desoladora uniformidade; a sua maioria trabalha durante a maior parte do tempo para ganhar a vida, e, se algumas horas lhe ficam, horas tão preciosas, são- lhe de tal forma pesadas que busca todos os meios para as ver passar. Triste destino o da humanidade!
Mas também, diga- se o que se disser, as regras atrofiam o verdadeiro sentimento e a pura expressão da natureza.
Oh! Meus caros amigos! Porque será que o rio do génio transborda tão raras vezes? Porque também tão raras vezes se ergue em ondas impetuosas para lhes abalar as almas timoratas? É porque nas suas duas margens foram instalar- se os homens sensatos e moderados, cujas casinhas, hortas e canteiros de tulipas poderiam ser inundados e, portanto, evitam o perigo opondo diques à torrente e cavando canais para desviarem o curso.
Quando qualquer acidente súbito ou notícia triste nos vem surpreender em meio do prazer, recebemos naturalmente uma bem mais viva impressão do que noutro qualquer momento, não só em razão do contraste, como porque os nossos sentidos, despertando de súbito, são mais fortemente afetados.
Tudo neste mundo é frívolo e sem valor, e aquele que, só para se tornar agradável a outrem, e sem ser por interesse nem por gosto próprio, martirizar o corpo para ganhar dinheiro, honrarias ou coisa semelhante, é, seguramente, um louco.
Eis o que são os homens sensatos!— exclamei eu, sorrindo.— Paixão, embriaguez, loucura! Uh! Gente morigerada
e de sã moral! Censurais sem piedade o ébrio, afastais- vos horrorizados do louco e seguis o vosso caminho, como o sacerdote, ou agradeceis a Deus, como o fariseu, porque Ele vos não fez semelhante a um desses! Tenho- me embriagado por mais de uma vez e as minhas paixões têm atingido a loucura; mas não me lamento por isso, porque compreendi que todo o homem extraordinário que pratique qualquer ação notável ou aparentemente impossível é logo repelido pela multidão e proclamado como ébrio ou como louco. Mas também na vida comum não é menos insuportável, quando alguém realiza uma empresa arrojada e generosa, ouvir em seguida dizer: «Este homem ou está bêbedo, ou é doido!», «Envergonhai- vos, ó vós que não sois doidos nem bêbedos?»
A nossa imaginação, naturalmente inclinada a exaltar- se pela poesia, cria em si uma série de entes, de que nós ficamos sendo os últimos: tudo o que está fora de nós nos parece magnífico; para o mundo dos nossos sonhos afigura- se- nos muito mais perfeito do que é realmente. E isto é muito simples: como sentimos que nos falta qualquer coisa, quaisquer qualidades, supomo- las existentes nos outros, aos quais, ainda por cima, atribuímos as que nós próprios possuímos e mais um certo estoicismo ideal. Deste modo, esses entes completamente felizes e perfeitos não são mais do que uma criação nossa que nos desanima e desalenta se estabelecermos a comparação.
Mas se, pelo contrário, satisfeitos da nossa fraqueza e imperfeição, continuamos atentamente o nosso trabalho, reparamos muitas vezes que avançámos muito mais bordejando do que os outros a toda a força de remos e velas...
Conta- se que há uma raça de cavalos que, quando perseguidos, abrem por instinto a si próprios uma veia com os dentes, para poderem respirar mais livremente. Era também isso que eu queria: romper uma veia para alcançar a liberdade eterna!
Sim, não há dúvida; eu sou apenas um viajante, um peregrino no mundo. Mas vós? Sereis acaso mais do que isso?
Será então destino do homem só ser feliz antes de possuir o uso da razão e depois de o perder?
Jorge Luis Borges
Não exageres o culto da verdade; não há homem que ao fim de um dia não tenha mentido com razão muitas vezes.
José Eduardo Agualusa
Se, dormindo, sonhamos dormir, podemos, despertos, acordar dentro de uma realidade mais lúcida?
Todos podemos, ao longo de uma vida, conhecer várias existências. Eventualmente, desistências. Aliás, o mais habitual.
Pessoas com uma infância feliz, afirmou, costumam ser difíceis de quebrar.
Pode levar muito tempo até a confusão passar. — Vai passar, camarada. A maldade também precisa descansar.
Tu e os teus amigos enchem a boca com palavras grandes, Justiça Social, Liberdade, Revolução, e entretanto as pessoas definham, adoecem, muitas morrem. Discursos não alimentam. O que o povo precisa é de legumes frescos e de um bom muzonguê, ao menos uma vez por semana. Só me interessam as revoluções que começam por sentar o povo à mesa.
Se ainda tivesse espaço, carvão, e paredes disponíveis, poderia escrever uma teoria geral do esquecimento.
A fraqueza, a vista que se esvai, isso faz com que tropece nas letras, enquanto leio. Leio páginas tantas vezes lidas, mas elas são já outras. Erro, ao ler, e no erro, por vezes, encontro incríveis acertos.
Certas pessoas padecem do medo de ser esquecidas. A essa patologia chama-se atazagorafobia. Com ele sucedia o oposto: vivia no terror de que nunca o esquecessem.
Compreendi ao longo dos últimos anos que, para acreditar em Deus, é forçoso confiar na humanidade. Não existe Deus sem humanidade. Continuo a não acreditar, nem em Deus, nem na humanidade.
Vão para o paraíso as pessoas de quem os outros sentem a falta. O Paraíso é o espaço que ocupamos no coração dos outros.
Um homem com uma boa história é quase um rei.
Morremos sempre de desânimo, ou seja, quando nos falha a alma – então morremos.
Teria sido tão fácil abrires a porta, tão fácil saíres para a rua e abraçares a vida. Vejo-te a espreitar pelas janelas, aterrorizada, como uma criança que se debruça sobre a cama, na expetativa de monstros. Monstros, mostra-me os monstros: essas pessoas nas ruas. A minha gente. Lamento tanto o tanto que perdeste. Lamento tanto. Mas não é idêntica a ti a infeliz humanidade?
José Régio
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali...(...) Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! (...) Não sei por onde vou, Não sei para onde vou Sei que não vou por aí!
Karnal
O luto é o amor com vetor trocado .
Lélia Gonzalez
O lugar em que nos situamos determinará nossa interpretação sobre o duplo fenômeno do racismo e do sexismo. Para nós o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira. Nesse sentido, veremos que sua articulação com o sexismo produz efeitos violentos sobre a mulher negra em particular. Conseqüentemente, o lugar de onde falaremos põe um outro, aquele é que habitualmente nós vínhamos colocando em textos anteriores. E a mudança foi se dando a partir de certas noções que, forçando sua emergência em nosso discurso, nos levaram a retornar a questão da mulher negra numa outra perspectiva. Trata- se das noções de mulata, doméstica e mãe preta.
Dizer mais do que sabe, não saber o que diz, dizer outra coisa que não o que se diz, falar para não dizer nada, não são mais, no campo freudiano, os defeitos da língua que justificam a criação das línguas formais.
E o risco que assumimos aqui é o do ato de falar com todas as implicações. Exatamente porque temos sido falados, infantilizados (infans, é aquele que não tem fala própria, é a criança que se fala na terceira pessoa, porque falada pelos adultos), que neste trabalho assumimos nossa própria fala. Ou seja, o lixo vai falar, e numa boa. A primeira coisa que a gente percebe, nesse papo de racismo é que todo mundo acha que é natural. Que negro tem mais é que viver na miséria. Por que? Ora, porque ele tem umas qualidades que não estão com nada: irresponsabilidade, incapacidade intelectual, criancice, etc. e tal.
Racismo? No Brasil? Quem foi que disse? Isso é coisa de americano. Aqui não tem diferença porque todo mundo é brasileiro acima de tudo, graças a Deus. Preto aqui é bem tratado, tem o mesmo direito que a gente tem.
Como consciência a gente entende o lugar do desconhecimento, do encobrimento, da alienação, do esquecimento e até do saber. É por aí que o discurso ideológico se faz presente. Já a memória, a gente considera como o não- saber que conhece, esse lugar de inscrições que restituem uma história que não foi escrita, o lugar da emergência da verdade, dessa verdade que se estrutura como ficção. Consciência exclui o que memória inclui.
Branqueamento, não importa em que nível, é o que a consciência cobra da gente, prá mal aceitar a presença da gente, prá mal aceitar a presença da gente. Se a gente parte prá alguma crioulice, ela arma logo um esquema prá gente “se comportar como gente”. E tem muita gente da gente que só embarca nessa.
O mito que se trata de reencenar aqui, é o da democracia racial. E é justamente no momento do rito carnavalesco que o mito é atualizado com toda a sua força simbólica. E é nesse instante que a mulher negra transforma- se única e exclusivamente na rainha, na “mulata deusa do meu samba”, “que passa com graça/ fazendo pirraça/ fingindo inocente/ tirando o sossego da gente”. É nos desfiles das escolas de primeiro grupo que a vemos em sua máxima exaltação. Ali,
Numa primeira aproximação, constatamos que exerce sua violência simbólica de maneira especial sobre a mulher negra. Pois o outro lado do endeusamento carnavalesco ocorre no cotidiano dessa mulher, no momento em que ela se transfigura na empregada doméstica. É por aí que a culpabilidade engendrada pelo seu endeusamento se exerce com fortes cargas de agressividade. É por aí, também, que se constata que os termos mulata e doméstica são atribuições de um mesmo sujeito. A nomeação vai depender da situação em que somos vistas (2).
Mucama. (Do quimbumdo mu’kama ‘amásia escrava’) S. f. Bras. A escrava negra moça e de estimação que era escolhida para auxiliar nos serviços caseiros ou acompanhar pessoas da família e que, por vezes era ama- de- leite. (Os grifos são nossos).
constatamos que o engendramento da mulata e da doméstica se fez a partir da figura da mucama. E, pelo visto, não é por acaso que, no Aurélio, a outra função da mucama está entre parênteses. Deve ser ocultada, recalcada, tirada de cena. Mas isso não significa que não esteja aí, com sua malemolência perturbadora. E o momento privilegiado em que sua presença se torna manifesta é justamente o da exaltação mítica da mulata nesse entre parênteses que é o carnaval.
Quanto à doméstica, ela nada mais é do que a mucama permitida, a da prestação de bens e serviços, ou seja, o burro de carga que carrega sua família e a dos outros nas costas. Daí, ela ser o lado oposto da exaltação; porque está no cotidiano.E é nesse cotidiano que podemos constatar que somos vistas como domésticas. Melhor exemplo disso são os casos de discriminação de mulheres negras da classe média, cada vez mais crescentes. Não adianta serem “educadas” ou estarem “bem vestidas” (afinal, “boa aparência”, como vemos nos anúncios de emprego é uma categoria “branca”, unicamente atribuível a “brancas” ou “clarinhas”). Os porteiros dos edifícios obrigam- nos a entrar pela porta de serviço, obedecendo instruções dos síndicos brancos (os mesmos que as “comem com os olhos” no carnaval ou nos oba- oba [...] 2 só pode ser doméstica, logo, entrada
de serviço. E, pensando bem, entrada de serviço é algo meio maroto, ambíguo, pois sem querer remete a gente prá outras entradas (não é “seu” síndico?). É por aí que a gente saca que não dá prá fingir que a outra função da mucama tenha sido esquecida.
As condições de existência material da comunidade negra remetem a condicionamentos psicológicos que têm que ser atacados e desmascarados. Os diferentes índices de dominação das diferentes formas de produção econômica existentes no Brasil parecem coincidir num mesmo ponto: a reinterpretação da teoria do “lugar natural” de Aristóteles. Desde a época colonial aos dias de hoje, percebe- se uma evidente separação quanto ao espaço físico ocupado por dominadores e dominados. O lugar natural do grupo branco dominante são moradias saudáveis, situadas nos mais belos recantos da cidade ou do campo e devidamente protegidas por diferentes formas de policiamento que vão desde os feitores, capitães de mato, capangas, etc, até à polícia formalmente constituída. Desde a casa grande e do sobrado até aos belos edifícios e residências atuais, o critério tem sido o mesmo. Já o lugar natural do negro é o oposto, evidentemente: da senzala às favelas, cortiços, invasões, alagados e conjuntos “habitacionais” (...) dos dias de hoje, o critério tem sido simetricamente o mesmo: a divisão racial do espaço (...) No caso do grupo dominado o que se constata são famílias inteiras amontoadas em cubículos cujas condições de higiene e saúde são as mais precárias. Além disso, aqui também se tem a presença policial; só que não é para proteger, mas para reprimir, violentar e amedrontar. É por aí que se entende porque o outro lugar natural do negro sejam as prisões. A sistemática repressão policial, dado o seu caráter racista, tem por objetivo próximo a instauração da submissão
Acontece que a mucama “permitida”, a empregada doméstica, só faz cutucar a culpabilidade branca porque ela continua sendo a mucama com todas as letras. Por isso ela é violenta e concretamente reprimida. Os exemplos não faltam nesse sentido; se a gente articular divisão racial e sexual de trabalho fica até simples. Por que será que ela só desempenha atividades que não implicam em “lidar com o público”? Ou seja, em atividades onde não pode ser vista? Por que os anúncios de emprego falam tanto em “boa aparência”? Por que será que, nas casas das madames, ela só pode ser cozinheira, arrumadeira ou faxineira e raramente copeira? Por que é “natural” que ela seja a servente nas escolas, supermercados, hospitais, etc e tal?
É por aí que a gente entende porque dizem certas coisas, pensando que estão xingando a gente. Tem uma música antiga chamada “Nêga do cabelo duro” que mostra direitinho porque eles querem que o cabelo da gente fique bom, liso e mole, né? É por isso que dizem que a gente tem beiços em vez de lábios, fornalha em vez de nariz e cabelo ruim (porque é duro). E quando querem elogiar a gente dizem que a gente tem feições finas (e fino se opõe a grosso, né?). E tem gente que acredita tanto nisso que acaba usando creme prá clarear, esticando os cabelos, virando leidi e ficando com vergonha de ser preta. Pura besteira. Se bobear, a gente nem tem que se defender com os xingamentos que se referem diretamente ao fato da gente ser preta. E a gente pode até dar um exemplo que põe os pintos nos is.
É interessante constatar como, através da figura da “mãe- preta”, a verdade surge da equivocação (Lacan, 1979). Exatamente essa figura para a qual se dá uma colher de chá é quem vai dar a rasteira na raça dominante. É através dela que o “obscuro objeto do desejo” (o filme do Buñuel), em português, acaba se transformando na “negra vontade de comer carne” na boca da moçada branca que fala português. O que a gente quer dizer é que ela não é esse exemplo extraordinário de amor e dedicação totais como querem os brancos e nem tampouco essa entreguista, essa traidora da raça como quem alguns negros muito apressados em seu julgamento. Ela, simplesmente, é a mãe. É isso mesmo, é a mãe. Porque a branca, na verdade, é a outra. Se assim não é, a gente pergunta: que é que amamenta, que dá banho, que limpa cocô, que põe prá dormir, que acorda de noite prá cuidar, que ensina a falar, que conta história e por aí afora? É a mãe, não é? Pois então. Ela é a mãe nesse barato doido da cultura brasileira. Enquanto mucama, é a mulher; então “bá”, é a mãe. A branca, a chamada legítima esposa, é justamente a outra que, por impossível que pareça, só serve prá parir os filhos do senhor. Não exerce a função materna. Esta é efetuada pela negra. Por isso a “mãe preta” é a mãe. E quando a gente fala em função materna, a gente tá dizendo que a mãe preta, ao exercê- la, passou todos os valores que lhe diziam respeito prá criança brasileira, como diz Caio Prado Júnior. Essa criança, esse infans, é a dita cultura brasileira, cuja língua é o pretuguês. A função materna diz respeito à internalização de valores, ao ensino da língua materna e a uma série de outras coisas
mais que vão fazer parte do imaginário da gente (Gonzalez, 1979c). Ela passa prá gente esse mundo de coisas que a gente vai chamar de linguagem. E graças a ela, ao que ela passa, a gente entra na ordem da cultura, exatamente porque é ela quem nomeia o pai. Por ao a gente entende porque, hoje, ninguém quer saber mais de babá preta, só vale portuguesa. Só que é um pouco tarde, né? A rasteira já está dada.
M. D. Magno tem um texto que impressionou a gente, exatamente porque ele discute isso Duvida da latinidade brasileira afirmando que este barato chamado Brasil nada mais é do que uma América Africana, ou seja, uma Améfrica Ladina. Prá quem saca de crioulo, o texto aponta prá uma mina de ouro que a boçalidade europeizante faz tudo prá esconder, prá tirar de cena.
Embora falando, a gente, como todo mundo, tá numa de escritura. Por isso a gente vai tentar apontar praquele que tascou sua assinatura, sua marca, seu selo (aparentemente sem sê- lo), seu jamega, seu sobre- nome como pai dessa “adolescente” neurótica que a gente conhece como cultura brasileira. E quando se fala de pai tá se falando de função simbólica por excelência. Já diz o ditado popular que “Filhos de minha filha, meus netos são; filhos do meu filho, serão ou não”. Função paterna é isso aí. É muito mais questão de assumir do que de ter certeza. Ela não é outra coisa senão a função de ausentificação que promove a castração. É por aí, graças a Frege, que a gente pode dizer que, como o zero, ela se caracteriza como a escrita de uma ausência. É o nome de uma ausência. O nome dessa ausência, digamos, é 237 o nome que se atribui à castração.
É por essa via que dá prá entender uma série de falas contra o negro e que são como modos de ocultação, de não assunção da própria castração. Por que será que dizem que preto correndo é ladrão? Ladrão de que? Talvez de uma onipotência fálica. Por que será que
dizem que preto quando não caga na entrada, caga na saída? Por que será que um dos instrumentos de tortura utilizados pela polícia da Baixada é chamado de “mulata assanhada” (cabo de vassoura que introduzem no ânus dos presos?). Por que será que tudo aquilo que o incomoda é chamado de coisa de preto? Por que será que ao ler o Aurélio, no verbete negro, a gente encontra uma polissemia marcada pelo pejorativo e pelo negativo? Por que será que “seu” Bispo fica tão apavorado com a ameaça da africanização do Brasil? Por que será que ele chama isso de regressão? Por que vivem dizendo prá gente se por no lugar da gente? Que lugar é esse? Por que será que o racismo brasileiro tem vergonha de si mesmo? Por que será que se tem “o preconceito de não ter preconceito” e ao mesmo tempo se acha natural que o lugar do negro seja nas favelas, cortiços e alagados? É engraçado como eles gozam a gente quando a gente diz que é Framengo. Chamam a gente de ignorante dizendo que a gente fala errado. E de repente ignoram que a presença desse r no lugar do l, nada mais é que a marca linguística de um idioma africano, no qual o l inexiste. Afinal, quem que é o ignorante? Ao mesmo tempo, acham o maior barato a fala dita brasileira, que corta os erres dos infinitivos verbais, que condensa você em cê, o está em tá e por aí afora. Não sacam que tão falando pretuguês. E por falar em pretuguês, é importante ressaltar que o objeto parcial por excelência da cultura brasileira é a bunda (esse termo provém do quimbundo que, por sua vez, e juntamente com o ambundo, provém do tronco linguístico bantu que “casualmente” se chama bunda). E dizem que significante não marca... Marca bobeira quem pensa assim (6). De repente bunda é língua, é linguagem, é sentido é coisa. De repente é desbundante perceber que o discurso da consciência, o discurso do poder dominante, quer fazer a gente acreditar que a gente é tudo brasileiro, e de ascendência européia, muito civilizado, etc e tal. Só que na hora de mostrar o que eles chamam de “coisas nossas”, é um tal de falar de samba, tutu, maracatu, frevo, candomblé, umbanda, escola de samba e por aí afora. Quando querem falar do
239 charme, da beleza da mulher brasileira, pinta logo a imagem de gente queimada da praia (7), de andar rebolativo, de meneios no olhar, de requebros e faceirices. E culminando, pinta este orgulho besta de dizer que a gente é uma democracia racial. Só que quando a negrada diz que não é, caem de pau em cima da gente, xingando a gente de racista. Contraditório, né? Na verdade, para além de outras razões, reagem dessa forma justamente porque a gente pôs o dedo na ferida deles, a gente diz que o rei tá pelado. E o corpo do rei é preto e o rei é Escravo.
A dialética do Senhor e do Escravo dá prá explicar o barato. E é justamente no carnaval que o reinado desse rei manifestadamente se dá. A gente sabe que carnaval é festa cristã que ocorre num espaço cristão, mas aquilo que chamamos do Carnaval Brasileiro possui, na sua especificidade, um aspecto de subversão, de ultrapassagem de limites permitidos pelo discurso dominante, pela ordem da consciência. Essa subversão na especificidade só tem a ver com o negro. Não é por acaso que nesse momento, a gente sai das colunas policiais e é promovida a capa de revista, a principal focalizada pela tevê, pelo cinema e por aí afora. De repente, a gente deixa de ser marginal prá se transformar no símbolo da alegria, da descontração, do encanto especial do povo dessa terra chamada Brasil. É nesse momento que Oropa, França e Bahia são muito mais Bahia do que outra coisa. É nesse momento que a negrada vai prá rua viver o seu gozo e fazer a sua gozação. Expressões como: botá o bloco na rua, botá prá frevê (que virou nome de dança nas fervuras do carnaval nordestino), botá prá derretê, deixa sangrá, dá um suó, etc são prova disso. É também nesse momento que os não- negros saúdam e abrem passagem para o Mestre- Escravo, para o senhor, no reconhecimento manifesto de sua realeza. É nesse momento que a exaltação da cultura americana se dá através da mulata, desse “produto de exportação”
É também no carnaval que se tem a exaltação do mito da democracia racial, exatamente porque nesse curto período de manifestação do seu reinado o Senhor- Escravo mostra que ele sim, transa e conhece a democracia racial. Exatamente por isso que no resto do ano há reforço do mito enquanto tal, justamente por aqueles que não querem olhar para onde ele aponta. A verdade que nele se oculta, e que só se manifesta durante o reinado do Escravo, tem que ser recalcada, tirada de cena, ficando em seu lugar as ilusões que consciência cria para si mesma. Senão como é que se explciaria, também, o fato dos brancos proibirem a presença da gente nesses lugares que eles chamam de chique e da gente não ter dessas frescuras com eles? E é querendo aprofundar sua sacação que Magno se indaga se Na dialética Senhor- Escravo, porque é a dialética da nossa fundação (...), aonde sempre o senhor se apropria do saber do escravo, a inseminação, por vias desse saber apropriado, como marca que vai dar em relação com o S2, não foi produzida pelo escravo, que na dialética, retoma o lugar do senhor, subrecepticiamente, como todo escravo. (...) quer dizer, o lugar do senhor era de outrem, mas a produção e a apropriação do lugar- tenente de nome do pai veio marcada, afinal, por esse elemento africano. Diferentes lugares da cultura brasileira são caracterizados pela presença desse elemento. No caso da macumba, por exemplo, que se atente para os 31 de dezembro nas praiais do Rio de Janeiro, para os despachos que se multiplicam em cada esquina (ou encruzilhada) de metrópoles como Rio e São Paulo, e isto sem falar de futebol. Que se atente para as festas de largo em Salvador (tão ameaçadoras para o inseguro europocentrista do Bispo de lá). Mas que se atente para os hospícios, as prisões, e as favelas, como lugares privilegiados da culpabilidade enquanto dominação e repressão. Que se atente para as práticas dessa culpabilidade através da chamada ação policial. Só porque o Significante- Mestre foi roubado pelo escravo que se impôs como senhor. Que se atente, por fim, pro samba da Portela quando fala de Macunaíma: “Vou m’embora, vou m’embora/ Eu aqui volto mais não/ Vou morar no infinito e virar constelação”. E o que significa constelação, senão lugar de inscrição, de marcação do 241 Nome do Pai? Se a batalha discursiva, em termos de cultura brasileira, foi ganha pelo negro, que terá ocorrido com aquele que segundo os cálculos deles, ocuparia o lugar do senhor? Estamos falando do europeu, do branco, do dominador. Desbancando do lugar do pai ele só pode ser, como diz o Magno, o tio ou o corno; do mesmo modo que a européia acabou sendo a outra.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.
Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez. A monotonia das vidas vulgares é, aparentemente, pavorosa. Estou almoçando neste restaurante vulgar, e olho, para além do balcão, para a figura do cozinheiro, e, aqui ao pé de mim, para o criado já velho que me serve, como há trinta anos, creio, serve nesta casa. Que vidas são as destes homens? Há quarenta anos que aquela figura de homem vive quase todo o dia numa cozinha; tem umas breves folgas; dorme relativamente poucas horas; vai de vez em quando à terra, de onde volta sem hesitação e sem pena; armazena lentamente dinheiro lento, que se não propõe gastar; adoeceria se tivesse que retirar-se da sua cozinha (definitivamente) para os campos que comprou na Galiza; está em Lisboa há quarenta anos e nunca foi sequer à Rotunda, nem a um teatro, e há um só dia de Coliseu — palhaços nos vestígios interiores da sua vida. Casou não sei como nem porquê, tem quatro filhos e uma filha, e o seu sorriso, ao debruçar-se de lá do balcão em direcção a onde eu estou, exprime uma grande, uma solene, uma contente felicidade. E ele não disfarça, nem que razão para que disfarce. Se a sente é porque verdadeiramente a tem. E o criado velho que me serve, e que acaba de depor ante mim o que deve ser o milionésimo café da sua deposição de café em mesas? Tem a mesma vida que a do cozinheiro, apenas com a diferença de quatro ou cinco metros — os que distam da localização de um na cozinha para a localização do outro na parte de fora da casa de pasto. No resto, tem dois filhos apenas, vai mais vezes à Galiza, já viu mais Lisboa que o outro, e conhece o Porto, onde esteve quatro anos, e é igualmente feliz. Revejo, com um pasmo assustado, o panorama destas vidas, e descubro, ao ir ter horror, pena, revolta delas, que quem não tem nem horror, nem pena, nem revolta, são os próprios que teriam direito a tê-las, são os mesmos que vivem essas vidas. E o erro central da imaginação literária: supor que os outros são nós e que devem sentir como nós. Mas, felizmente para a humanidade, cada homem é só quem é, sendo dado ao génio, apenas, o ser mais alguns outros. Tudo, afinal, é dado em relação àquilo em que é dado. Um pequeno incidente de rua, que chama à porta o cozinheiro desta casa, entretem-no mais que me entretem a mim a contemplação da ideia mais original, a leitura do melhor livro, o mais grato dos sonhos inúteis. E, se a vida é essencialmente monotonia, o facto é que ele escapou à monotonia mais do que eu. E escapa à monotonia mais facilmente do que eu. A verdade não está com ele nem comigo, porque não está com ninguém; mas a felicidade está com ele deveras. Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha. O caçador de leões não tem aventura para além do terceiro leão. Para o meu cozinheiro monótono uma cena de bofetadas na rua tem sempre qualquer coisa de apocalipse modesto. Quem nunca saiu de Lisboa viaja no infinito no carro até Benfica, e, se um dia vai a Sintra, sente que viajou até Marte. O viajante que percorreu toda a terra não encontra de cinco mil milhas em diante novidade, porque encontra só coisas novas; outra vez a novidade, a velhice do eterno novo, mas o conceito abstracto de novidade ficou no mar com a segunda delas. Um homem pode, se tiver a verdadeira sabedoria, gozar o espectáculo inteiro do mundo numa cadeira, sem saber ler, sem falar com alguém, só com o uso dos sentidos e a alma não saber ser triste. Monotonizar a existência, para que ela não seja monótona. Tornar anódino o quotidiano, para que a mais pequena coisa seja uma distracção. No meio do meu trabalho de todos os dias, baço, igual e inútil, surgem-me visões de fuga, vestígios sonhados de ilhas longínquas, festas em áleas de parques de outras eras, outras paisagens, outros sentimentos, outro eu. Mas reconheço, entre dois lançamentos, que se tivesse tudo isso, nada disso seria meu. Mais vale, na verdade, o patrão Vasques que os Reis de Sonho; mais vale, na verdade, o escritório da Rua dos Douradores do que as grandes áleas dos parques impossíveis. Tendo o patrão Vasques, posso gozar o sonho dos Reis de Sonho; tendo o escritório da Rua dos Douradores, posso gozar a visão interior das paisagens que não existem. Mas se tivesse os Reis de Sonho, que me ficaria para sonhar? Se tivesse as paisagens impossíveis, que me restaria de impossível? A monotonia, a igualdade baça dos dias mesmos, a nenhuma diferença de hoje para ontem — isto me fique sempre, com a alma desperta para gozar da mosca que me distrai, passando casual ante meus olhos, da gargalhada que se ergue volúvel da rua incerta, a vasta libertação de serem horas de fechar o escritório, o repouso infinito de um dia feriado. Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar. O ajudante de guarda-livros pode sonhar-se imperador romano; o Rei de Inglaterra não o pode fazer, porque o Rei de Inglaterra está privado de ser, em sonhos, outro rei que não o rei que é. A sua realidade não o deixa sentir.
Manoel de Barros
Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.
A gente só chega ao fim quando o fim chega! Então pra que atropelar?
Mário Quintana
Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.
UM DIA ACORDARÁS Um dia acordarás num quarto novo sem saber como fosse para lá e as vestes que acharás ao pé do leito de tão estranhas te farão pasmar, a janela abrirás, devagarinho: fará nevoeiro e tu nada verás... Hás de tocar, a medo, a campainha e, silenciosa, a porta se abrirá. E um ser, que nunca viste, em um sorriso triste, te abraçará com seu maior carinho e há de dizer-te para o teu assombro: — Não te assustes de mim, que sofro há tanto! Quero chorar — apenas — no teu ombro e devorar teus olhos, meu amor...
OS INTOCÁVEIS A ironia atinge apenas a inteligência. Inútil desperdiçá-la com os que estão longe do seu alcance. Contra estes, ainda não se conseguiu inventar nenhuma arma. A burrice é invencível.
CONFISSÃO Que esta minha paz e este meu amado silêncio Não iludam a ninguém Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios Acho-me relativamente feliz Porque nada de exterior me acontece… Mas, Em mim, na minha alma, Pressinto que vou ter um terremoto!
Michel de Montaigne
Se me obrigassem a dizer porque o amava, sinto que a minha única resposta seria: ''Porque era ele, porque era eu''.
Michel Desmurget
Chegou a hora, por assim dizer, de recolocar o livro em seu devido lugar e demonstrar que a leitura “por prazer”* de maneira alguma constitui uma prática elitista, reservada a alguns privilegiados eruditos, mas sim uma necessidade urgente de desenvolvimento para nossas crianças.
“Razão, sensibilidade, imaginação, a leitura desenvolve todas essas faculdades e, ao mesmo tempo, aguça- as; ela lhes confere ao mesmo tempo mais amplitude e mais sutileza. Devemos a ela tesouros incalculáveis. [...] Leiam, leiam muito, vocês nunca lerão demais. [...] É preciso ler quando se é jovem. É preciso ler quando se envelhece”.
Stephen Krashen
Para esse linguista, “quando as crianças leem por prazer, quando se tornam ‘viciadas em livros’, elas adquirem, involuntariamente e sem esforço consciente, quase todas as chamadas habilidades linguísticas que tanto preocupam as pessoas: elas se tornam leitoras eficazes, adquirem um amplo vocabulário, desenvolvem a capacidade de compreender e usar construções gramaticais complexas, desenvolvem um bom estilo de escrita e se tornam boas em ortografia (mas não necessariamente perfeitas).
Embora a leitura livre e voluntária por si só não garanta os níveis mais altos de alfabetização, ela garante, no mínimo, um nível aceitável. Ela também fornece as habilidades necessárias para abordar textos exigentes. Sem ela, suspeito de que as crianças simplesmente não tenham nenhuma chance”.
pesquisas sugerem que a leitura compartilhada é significativamente mais comum entre as meninas do que entre os meninos.
quadrinhos. 65 Em última análise, podemos afirmar que nossas crianças leem pouco e, quando leem, suas preferências tendem a se voltar para revistas, mangás ou quadrinhos, em vez de livros. Dizer isso não é estabelecer uma hierarquia de valores entre essas atividades; cada um lê o que quiser. É apenas ressaltar que esses conteúdos não têm as mesmas características nem os mesmos impactos: os potenciais benefícios de um romance, uma revista de moda ou um mangá são estruturalmente diferentes.
se basta abrir um livro de receitas ou um dicionário uma vez por ano para ser considerado um “leitor”, então de fato podemos estimar que os jovens são todos (ou quase todos) leitores. Em contrapartida, se dissermos que um leitor é alguém que lê assiduamente (mesmo de forma ampla: livros, quadrinhos, revistas etc.), então precisamos admitir que a porcentagem de adeptos é extremamente minoritária nas novas gerações. Dizer isso não é um clichê “declinista”, é uma realidade trágica.
porque os estudantes de hoje serão os professores de amanhã. Em outras palavras, como destacam os autores de um artigo científico sobre o assunto, “o cenário mais alarmante que emerge da pesquisa talvez se refira à possibilidade de um ciclo vicioso de ensino, produzindo um grande número de estudantes sem inspiração, muitos dos quais se tornarão professores que lutam para despertar nos alunos um amor pela leitura que eles [os professores] nunca conheceram”. 87 Em consonância com esse receio, foi demonstrado que os professores que mais valorizam a literatura também são os mais capazes de ensiná- la e transmitir o gosto pela leitura aos alunos. 88- 90 Além disso, foi estabelecido que o declínio geracional na leitura também afetou a esfera educacional. 91 Para confirmar isso, os pesquisadores compararam os hábitos de dois grupos de professores titulares (com idade média de 40 anos) e estagiários (com idade média de 25 anos). Os resultados indicaram que os professores titulares haviam lido 1,3 vezes mais livros infantojuvenis e 2,7 vezes mais romances de ficção do que seus colegas estagiários.
Este capítulo mostra que crianças e adolescentes gostam de ler por prazer. No entanto, na prática, eles não apenas leem muito pouco como também leem muito menos do que as gerações anteriores. Essa dinâmica resulta principalmente da concorrência inabalável das telas recreativas. Além disso, os usos atuais se concentram menos em livros clássicos e mais em revistas, mangás e quadrinhos. Esse abandono da leitura é tão pronunciado que ecoa até o topo da pirâmide escolar. Até mesmo os estudantes universitários estão lendo menos; a ponto de seus professores estarem cada vez mais inclinados a substituir materiais de aprendizagem escritos por conteúdos de áudio e vídeo. Uma espiral sombria, considerando que os estudantes de hoje se tornarão os professores que, amanhã, terão de transmitir a arte e o gosto da leitura a nossos filhos.
Para aprender a ler, é preciso ler. Mais precisamente, como veremos em detalhes na segunda parte deste livro, para aprender a ler, é necessário ir muito além das obrigações escolares. Uma criança que não lê em casa, durante seu tempo livre, nunca se tornará um verdadeiro leitor. Ela eventualmente dominará a decodificação e a compreensão dos textos mais comuns, mas permanecerá irrevogavelmente incapaz de penetrar na imensa fertilidade dos conteúdos complexos.
Como explica François Dubet, sociólogo e especialista em questões educacionais, é preciso evitar confundir “o nível dos diplomas e sua utilidade”. 96 Em outras palavras, não é porque a população está cada vez mais diplomada que os jovens estão cada vez mais proficientes, especialmente em questões linguísticas.
Primeira, o número de jovens com dificuldades expressivas na leitura é significativo na França continental e totalmente alarmante nos territórios ultramarinos. Segunda, não se pode julgar as habilidades linguísticas (ou intelectuais) de um indivíduo com base nos diplomas que ele possui: um jovem pode estar em situação de quase analfabetismo e ainda assim conseguir um diploma de ensino médio, profissionalizante ou técnico. Terceira, nada nos dados aqui apresentados permite determinar a proporção de leitores verdadeiramente “eficazes”, e é completamente extravagante afirmar que essa proporção seja de 80%.
para três quartos dos adolescentes, a leitura se limita a um exercício de comunicação pragmática. Essa função utilitária é certamente importante; mas como não se preocupar quando sua hegemonia beira o monopólio? Ler também serve, especialmente (!), para refletir e pensar, descobrir e imaginar, compreender e explicar. Nesse sentido, a maioria de nossas crianças são, para citar o título de uma obra magnífica do filósofo François- Xavier Bellamy, “deserdadas”.
“Você não precisa queimar livros para destruir uma cultura, basta as pessoas pararem de lê-
No final, portanto, torna- se evidente que mais de 70% dos estudantes do fim do ensino médio na França têm um nível fraco em leitura, entre os quais 44% têm um nível tristemente baixo. Podemos encontrar consolo dizendo que essas taxas são grosseiramente comparáveis às dos jovens norte- americanos e até um pouco melhores que a média dos países da OCDE. No entanto, também podemos nos preocupar com as consequências culturais, cívicas e econômicas dessas incapacidades. Sabe- se, por exemplo, que as habilidades intelectuais da população têm um impacto positivo e significativo na saúde econômica de um país. 140- 142 Como indicado recentemente em um artigo de síntese: “O crescimento econômico é fortemente afetado pelo capital de conhecimento dos trabalhadores”. 143 Uma conclusão bastante preocupante à luz do triste desempenho de muitos países ocidentais... especialmente quando comparados à concorrência de algumas nações asiáticas, lideradas pela China.
Nossas crianças, como mencionamos, estão lendo cada vez menos, enquanto passam cada vez mais tempo se entretendo com telas. Isso tem consequências significativas, repetimos, em suas habilidades de linguagem, atenção e, portanto, em seu desempenho escolar.
importante destacar que o colapso das habilidades ortográficas dos alunos ao longo dos últimos 35 anos não é de forma alguma insignificante. Ele reflete um comprometimento geral das competências linguísticas.
Assim, quanto mais competente é um leitor, mais rápida é sua velocidade de leitura e mais confiável é sua ortografia. No entanto, ao longo das últimas décadas, essas variáveis, mensuráveis com facilidade e precisão, tiveram uma evolução muito negativa. Em média, nossos filhos leem mais devagar e cometem mais erros de ortografia do que seus predecessores. Esses dados claramente sustentam a tese de uma queda nos níveis de língua e leitura ao longo dos últimos 30 a 50 anos.
O capítulo anterior mostrou que nossas crianças e adolescentes estão lendo cada vez menos. Este capítulo indica, e esta é uma consequência inevitável do primeiro ponto, que elas também estão lendo cada vez pior. Nos últimos cinquenta anos, o nível de leitura de nossos filhos tem incontestavelmente diminuído, chegando a um ponto alarmante nos dias de hoje. A sociedade se adaptou, reduzindo as expectativas escolares, a complexidade dos manuais e a riqueza vocabular dos livros infantojuvenis. Também foram implementados paliativos semânticos para disfarçar a destruição, nomeando, por exemplo, como “eficaz” qualquer leitor que não se enquadre na categoria de quase analfabeto. Essas observações valem para todos os países da OCDE. Algumas nações, incluindo a China, estão se saindo muito melhor. Avaliação após avaliação, os estudantes do Império do Meio ridicularizam seus colegas não asiáticos de maneira espantosa. Essa superioridade reflete, por um lado, a existência de escolhas políticas fortes e autoritárias (como a regulamentação rigorosa do uso recreativo de dispositivos eletrônicos) e, por outro lado, como demonstra a manutenção de um alto nível de desempenho entre as crianças chinesas que emigraram para outros países, a persistência de valores culturais firmemente enraizados na disciplina, na excelência, no trabalho e no sucesso escolar. Valores cada vez mais distantes de nossos estilos de vida ocidentais, hoje voltados para o lazer, o consumo e o lucro (se necessário, em detrimento das crianças e de seu desenvolvimento). Será tarde demais? Será que perdemos definitivamente a batalha da inteligência? Sinceramente, não sei. Mas uma coisa é certa: essa tendência nunca poderá ser revertida se não conseguirmos, em primeiro lugar, fazer recuar a atual orgia de telas recreativas, que destroem à saturação a inteligência de nossas crianças, e, em segundo lugar, reabilitar a leitura, cujos benefícios educacionais são tão profundos quanto insubstituíveis.
“para se tornar um leitor competente, é necessário ter a oportunidade de ler”.
Seu objetivo é simples: demonstrar que, para se tornar um leitor proficiente, é necessário ler; e é necessário ler muito. Nesse campo, milagres não existem, e é inútil esperar que essa habilidade caia subitamente na cabeça da criança, como o Espírito Santo caiu um dia sobre a dos apóstolos.
Um leitor é, acima de tudo, alguém que adquiriu vocabulário e conhecimento suficientes para poder acessar, com fruição, uma ampla gama de livros, textos e artigos escritos para o “homem honesto”.***,
Para ser um bom leitor generalista, seu filho precisa ter um conhecimento do mundo com um milhão de quilômetros de largura e poucos centímetros de profundidade”. 70 Mas o cérebro só pode adquirir essa bagagem ao ser lenta e pacientemente confrontado ao mundo escrito.
enganosas. A decodificação competente não garante de forma alguma um acesso à compreensão precisa,
“Ler”, ele declarou em uma entrevista, “é compreender; aquele que não compreende não lê”. 76
confundir leitura com decodificação não é apenas enganoso; é prejudicial. Isso leva os pais a superestimar a habilidade de seus filhos e a acreditar que a criança sabe ler quando, na verdade, está apenas arranhando os rudimentos do bê- á- bá. Esse sentimento de qualificação leva muitas famílias a diminuir seus esforços de auxílio, acreditando, por exemplo, como mencionamos na primeira parte, que a leitura compartilhada se torne desnecessária a partir do primário, porque supostamente a criança já lê sozinha.
“degringolada do quarto ano”. O princípio é o seguinte: muitos alunos, principalmente aqueles de meios menos privilegiados, têm níveis de leitura razoavelmente satisfatórios e adequados às expectativas até o terceiro ano do ensino fundamental; então, de repente, as coisas saem dos trilhos, e essas crianças começam a demonstrar atrasos significativos que só aumentam com o tempo. 67- 68,77 A explicação mais comum sugere que os primeiros anos escolares são dedicados à aprendizagem da decodificação, enquanto os anos seguintes se concentram cada vez mais na compreensão. Isso significa que, no início, as palavras utilizadas são propositalmente simples, apresentadas isoladamente ou em frases curtas. Depois, aos poucos, as coisas se tornam mais desafiadoras, o vocabulário deixa o campo comum, as frases ficam mais longas e as declarações se tornam mais complexas. 78 No quarto ano, o desafio se torna maior, e as crianças de meios desfavorecidos não têm mais os pré- requisitos culturais e linguísticos necessários para se sair bem. É nesse momento que suas dificuldades se tornam evidentes.
“As palavras usadas a partir do quarto ano são menos familiares. Embora sua linguagem parecesse suficiente para os primeiros três anos, as crianças não estavam preparadas para lidar com o desafio do número maior de palavras abstratas, técnicas e literárias características dos materiais de leitura do quarto ano e posteriores”.
Se a “entrada” visual de decodificação leva a um deserto lexical e cultural, ela se revelará tão útil quanto uma lâmpada para um cego. Parece imperativo, portanto, desde a mais tenra idade, estimular abundantemente as redes da linguagem para prepará- las para as especificidades do mundo escrito. 37,64 É necessário manter essas redes literalmente conectadas e abastecê- las massivamente, por meio da via auditiva das comunicações orais. É preciso (repitamos) ler para a criança, contar- lhe histórias, acompanhá- la quando ela começa a ler sozinha.
escrita é uma linguagem à parte, mais rica, diversificada e sutil do que a oral.
familiares, para permitir a apropriação dessa linguagem. Para atingir esse objetivo, é necessário multiplicar os episódios de leitura compartilhada. É aqui que entra o ambiente familiar.
Os professores se ocupam da decodificação e costumam fazê- lo muito bem... quanto ao resto, ou os pais entram em ação ou a criança fica desamparada. A escola sabe formar decodificadores. Mas é a família, em grande parte, que forma leitores.
se aprender a ler é demorado e difícil, isso se deve em grande parte ao fato de que a evolução humana não teve tempo suficiente para incorporar a leitura ao núcleo duro de transmissões hereditárias. Para remodelar seus padrões neuronais e construir redes adaptadas, o cérebro precisa absorver quantidades industriais de dados.
provérbio ancestral de que somente os ricos conseguem empréstimos.
embora os seres humanos não tenham sido naturalmente feitos para a leitura, eles são capazes de atingir um nível espetacular de habilidade. Isso levanta a questão dos mecanismos envolvidos nesse processo. Em outras palavras, como nosso cérebro consegue ler 280 palavras por minuto com total compreensão de seu significado e, especialmente, como esse estado de especialização se desenvolve?
dentro da área cerebral de reconhecimento de formas, a leitura começa colonizando um subterritório específico, fortemente interconectado com as redes visuais e linguísticas; 153 a seguir, ela transforma esse subterritório em uma área de reconhecimento de letras e palavras.
Decodificar não é gerar conhecimento, é reconhecê- lo. Portanto, cada encontro com o mundo escrito melhora o desempenho, permitindo que a VWFA enriqueça seu algoritmo de identificação de palavras.
O que devemos destacar dessas observações é que a qualidade da decodificação depende da riqueza do modelo estatístico disponível, riqueza que, por sua vez, resulta do volume de prática.
Nesse sentido, podemos considerar a VWFA como uma espécie de grande caixa de correio, construída pacientemente, onde estão armazenados todos os nossos conhecimentos adquiridos sobre os caracteres e suas possíveis combinações ortográficas. Isso permite otimizar a velocidade e a precisão do processo de reconhecimento visual de palavras. Mas isso não é tudo. Com a experiência, a VWFA não apenas aperfeiçoa seu modo operatório como também o transforma, adicionando um novo caminho à sua arquitetura inicial. O leitor qualificado não apenas decodifica as palavras mais rapidamente que o iniciante, ele em grande parte também as decodifica de maneira diferente.
Enfim, simplificar a ortografia não é apenas uma questão complicada. Quando pensamos seriamente sobre isso, é nada menos que impossível; porque, para consegui- lo, seria necessário modificar a língua como um todo. Os “progressistas”, é claro, sempre podem exaltar as virtudes do corretor ortográfico e exigir a abolição da regra de concordância do particípio passado com o verbo auxiliar “ter”... 202 mas não tenho certeza de que isso mude muito, pois, mais uma vez, o problema não está no infeliz esquecimento de uma concordância, mas na íntima ligação da ortografia com a língua e a leitura.
“em questões ortográficas, nada é gratuito. A simplicidade em um campo é compensada pela dificuldade em outro”. 33 As crianças francesas e inglesas levam anos para adquirir um domínio satisfatório da decodificação. Mas, ao contrário do que sugerem todos os entusiastas do menor esforço, esse investimento não é inútil ou absurdo. Ele atesta uma riqueza ortográfica, por certo difícil de assimilar, mas portadora de indicadores estruturais que favorecem muito a compreensão de um texto. As pesquisas mais sólidas confirmam que as línguas opacas complicam a aquisição da decodificação a curto prazo, mas favorecem a fluência da leitura a longo prazo.
O ensino do bê- á- bá cabe à escola, e isso será discutido mais amplamente na próxima parte. No entanto, as famílias podem ajudar. No início, elas podem apoiar a aquisição relendo os textos da escola com os alunos. Em seguida, assim que as primeiras bases forem estabelecidas, elas podem incentivar a criança a ler ou, melhor ainda, podem acompanhá- la na leitura.
quanto mais a criança lê, mais suas habilidades de decodificação se desenvolvem e se automatizam (por meio sobretudo da consolidação de representações ortográficas); o que permite que os recursos cerebrais progressivamente se concentrem na compreensão e no prazer da leitura.
é a compreensão que, em última instância, decide tudo. Ela não é uma prioridade na leitura, ela é seu único objetivo. Ler, como já dissemos, não é apenas decodificar, é compreender; e, para compreender, dois elementos são particularmente importantes: a linguagem e o conhecimento.
Os resultados mostram, de maneira unânime e consensual, que a generosidade linguística dos mundos escritos supera significativamente a dos universos orais.*,
a escrita cria um mundo à parte, saturado de sintaxes complexas, termos raros e conjugações incomuns. Há mais riqueza linguística nos álbuns pré- escolares mais simples do que na maioria dos repertórios verbais comuns, incluindo conversas entre adultos educados, interações pais- filhos, programas de televisão em horário nobre ou até mesmo programas educacionais audiovisuais. Portanto, uma sólida e rica bagagem linguística é essencial para ler e aprender a ler; 39,63- 64,80 uma constatação que torna ainda mais preocupante a existência, discutida na primeira parte, do empobrecimento da linguagem nos livros infantis.
na maioria das vezes, o leitor interpreta o que lê com base no que já leu (ou ouviu). Se ele não leu o suficiente (ou ouviu), sua compreensão inevitavelmente se espatifa contra o muro de suas lacunas.
não importa a área, sem conhecimento suficiente, nenhuma compreensão eficaz é possível.
“Domesticar [...] significa ‘criar vínculos’”, disse Saint- Exupéry em O pequeno príncipe. 260 É exatamente isso que os leitores competentes fazem. Eles domesticam o texto criando vínculos para preencher as entrelinhas. Quando esses vínculos não podem ser formados, o documento não pode ser compreendido. Considere, como última ilustração, o menor romance do mundo. Ele teria sido escrito por Ernest Hemingway, escritor fantástico, laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1954 “por sua maestria na arte da narração [...] e pela influência que exerceu sobre o estilo contemporâneo”. Dizem* que, uma noite, nosso homem apostou com os amigos que conseguiria escrever uma história com seis palavras. 263 Ninguém acreditou. Cada um colocou alguns dólares em cima da mesa. Hemingway escreveu sua produção em um guardanapo de papel, passou- o... e recolheu o prêmio. Ele havia escrito: “À venda, sapatinhos de bebê, nunca usados”.* Considerado no sentido literal, esse enunciado não é muito interessante. No entanto, instruído pelos conhecimentos de fundo, ele se torna uma história extremamente tocante. A versão expandida poderia ser detalhada da seguinte forma: “Um bebê era esperado. Os pais tinham comprado sapatos à espera do nascimento. Se esses sapatos nunca foram usados e os pais os revendem, isso significa que eles são pobres e tiveram de se resignar a vender os sapatos, porque estes se tornaram inúteis devido à morte prematura da criança”. Em uma frase minimalista, Hemingway evoca não apenas um fato comum, mas também um universo social repleto de esperanças frustradas e pobreza extrema. No entanto, para minha grande surpresa, quando mencionei esse exemplo em uma aula na universidade, obtive uma reação morna, que a exclamação de um estudante resume bastante bem: “Que exagero, professor, é como quando você ganha um presente que já tem, você o coloca à venda na OLX, não significa que o bebê morreu”. Difícil ilustrar de forma mais vívida o papel do conhecimento de fundo e os limites do presentismo. A frase de Hemingway está inserida em um contexto social e histórico. Ignorar esse contexto é perder a mensagem. Para capturar o implícito do enunciado, é necessário entender a miséria das classes populares no Ocidente no início do século XX, é necessário compreender quão grande era então a mortalidade infantil nas famílias pobres, 264 é preciso compreender que jamais um burguês, um comerciante ou um rico da época se rebaixaria a vender os sapatos do filho morto. Uma sequência que é manifestamente mais fácil de explorar se o leitor puder se basear em um conhecimento, mesmo distante, das grandes obras naturalistas da época (Os miseráveis, de Victor Hugo; Germinal, de Émile Zola; O povo do abismo, de Jack London; As vinhas da ira, de John Steinbeck etc.) e, possivelmente, da obra de Hemingway, grande parte da qual é atravessada pelo duplo tema da perda e da morte. 265 Mais uma ilustração do famoso ditado de que somente os ricos conseguem empréstimos: quanto mais ampla é a base literária, mais fácil é a integração de materiais fragmentados e desconhecidos.
solidez linguística e riqueza cultural são dois atributos fundamentais do leitor experiente. Tão fundamentais que é tentador considerá- los soberanos. Isso é um erro, pois, para entender, é necessário mais do que linguagem e conhecimento. É preciso também ser capaz de avaliar suas produções, ou seja, quando necessário, entender que não entendemos. Esse ponto pode parecer trivial. Mas não é.
indivíduos menos competentes, em particular, tendem a superestimar suas realizações.
Dunning- Kruger, em homenagem aos dois pesquisadores que relataram o fenômeno pela primeira vez. 271- 273 Segundo os termos desses pioneiros, “as pessoas menos qualificadas em uma área sofrem um duplo prejuízo: não apenas chegam a conclusões errôneas e cometem erros lamentáveis, mas sua incompetência as priva da capacidade de perceber isso”. 271
Além do fato de que lembrar o caminho da informação é sem dúvida mais complicado do que lembrar a própria informação, esse tipo de alegação desafia as leis da lógica e da aprendizagem. Por exemplo, como saber que é preciso consultar o Google (ou qualquer outro mecanismo de pesquisa) quando nem sabemos, por falta de conhecimento, que não entendemos? Mais amplamente, que nível de ignorância tolerar? Se nada for memorizado e se for necessário procurar na internet cada palavra, cada fato e cada omissão, entender o menor dos enunciados logo se torna uma tarefa titânica.
Não importa que uma informação possa ser baixada em 15 milissegundos. O que importa é o tempo necessário para sua apropriação intelectual.
“o que sabemos determina o que vemos e entendemos; não o contrário”. 297
tudo isso confirma que não podemos abordar eficazmente um texto quando não dispomos dos pré- requisitos culturais necessários.
Sem hábito, até mesmo os romances mais simples permanecem inacessíveis. No fundo, algumas palavras são suficientes para resumir tudo
aprendizagem é um fenômeno cumulativo. Nada surge do nada. Cada progresso se baseia em bases já estabelecidas.
tornou- se consenso considerar que, além das habilidades linguísticas, a entrada na leitura se baseia em três pilares fundamentais: conhecimento das convenções do mundo escrito; conhecimento das letras; capacidade de identificar e manipular os sons das palavras.
A escrita é uma construção cultural feita de convenções arbitrárias. Na maioria dos adultos, essas convenções estão tão profundamente internalizadas que parecem “naturais”.
Para aprender a ler, em suma, a criança precisa ter certo número de conhecimentos prévios sobre as convenções da escrita. Alguns são simples e adquiridos rapidamente (por exemplo, ler da esquerda para a direita), enquanto outros, ao contrário, são complexos e exigem o esforço de uma absorção lenta (por exemplo, a natureza simbólica da escrita). Chamar a atenção da criança para todos esses elementos permite estabelecer algumas bases indispensáveis para suas aquisições futuras.
É nesse ponto que o ambiente familiar entra em cena. Novamente, não se trata de transformar os pais em professores e a casa em uma sala de aula, mas sim de utilizar o vasto repertório de interações diárias para acompanhar a aprendizagem alfabética. Nesse âmbito, quanto mais as atividades informais do lar prepararem e apoiarem o que é ensinado na escola, mais eficaz e indolor será o progresso da criança. As pesquisas mostram, com uma bela unanimidade, que o conhecimento das letras na entrada do primeiro ano do ensino fundamental é um fator de previsão fundamental das aquisições posteriores de leitura, especialmente no âmbito da decodificação.
Nesse contexto, a melhor solução é despertar o seu interesse pelo alfabeto e transformar esse interesse em um catalisador de interações e jogos. Onde quer que você esteja, mostre letras para a criança, chame- as pelo nome como se fossem amigos (exemplo: “Oh! Veja, é o bê”), produza seus sons (tanto bê quanto b), utilize exemplos, enfatizando o alvo (“ b de b- olo”– ou “b- om”, “b- arco” etc.), peça à criança para repetir e propor, se possível, outras palavras que “comecem igual”. Em casa, tenha cubos e cartas com letras impressas; tenha quebra- cabeças, ímãs, batatas fritas e macarrão em forma de letras; use embalagens de cereais, sabão em pó, biscoitos ou doces. Na rua, observe as letras em anúncios publicitários, placas de trânsito ou letreiros comerciais.
saber reconhecer as letras pelo nome e pelos seus sons ao entrar no primeiro ano do ensino fundamental favorece significativamente a aprendizagem posterior da leitura. Através da implementação de jogos e atividades simples, o ambiente familiar pode, em complemento à educação pré- escolar, fazer muito para fornecer à criança essa base fundamental. No entanto, os pais que se sentem desconfortáveis com os elementos aqui apresentados podem simplesmente se apoiar na escola e revisar com a criança os exercícios de seu caderno; não como deveres, mas como jogos e momentos de compartilhamento. É essencial garantir que a criança não naufrague logo nas primeiras braçadas e que as bases alfabéticas, nas quais todas as futuras operações de decodificação se apoiarão, sejam sólidas.
Em última análise, a escrita nada mais é do que uma transcrição gráfica dos elementos sonoros da linguagem oral. Para ler, a criança precisa necessariamente tomar consciência desses elementos, ou seja, ela precisa aprender a isolá- los dentro do fluxo verbal. Essa habilidade segue uma evolução hoje bem definida. Ela opera desde as unidades sonoras mais amplas até os segmentos mais curtos.
Tudo começa, portanto, com a manipulação de palavras. Embora não seja elementar, essa habilidade está longe de ser insuperável, provavelmente porque as palavras têm significado. Isso lhes confere uma realidade que as outras unidades fonológicas não têm.
Anexo B5). Tudo isso indica, em suma, que, para aprender a ler, a criança precisa ser capaz de manipular as unidades sonoras da linguagem, ou seja, que ela precisa ser capaz de reconhecer palavras na frase, sílabas nas palavras, ataques e rimas nas sílabas e, por fim, fonemas em cada uma dessas entidades.
brevemente, mesmo indo além do escopo deste livro, que os elementos aqui apresentados apoiam o uso de métodos de aprendizado de leitura chamados “silábicos” (a criança divide a palavra em seus sons fundamentais), em oposição às abordagens chamadas “globais” (a criança aprende a reconhecer as palavras visualmente, sem dividi- las em sons).
a leitura não nasce do nada. Ela se baseia nos três pilares fundamentais do conhecimento da escrita, das letras e dos sons. O ambiente familiar pode contribuir para erigir esses pilares, por meio de atividades simples durante as rotinas diárias. Falar, brincar com palavras, sílabas, letras e sons enriquece o cérebro das crianças e constitui um investimento altamente valioso para o seu futuro escolar. Mais uma vez, não se trata aqui de os pais estabelecerem um programa de apropriação sistemática quase militar. Isso é responsabilidade da escola! Trata- se apenas de aproveitar os momentos cotidianos para direcionar a atenção da criança para materiais escritos e envolvê- la em uma variedade de jogos alfabéticos e fonológicos. Essa contribuição é fundamental; no entanto, é claro que não é suficiente. Também é necessário garantir o desenvolvimento das habilidades lexicais e sintáticas, sem as quais nossos filhos não serão capazes de compreender o que estão decodificando.
Ninguém pode ler sozinho e entender o que lê, repetimos, se não tiver primeiro aprendido a decodificar as palavras com um mínimo de fluência.
para que nossos filhos desenvolvam plenamente suas habilidades linguísticas, é necessário falar com eles, e falar bastante.
A esses elementos se soma uma extensa literatura sobre os efeitos da ordem de nascimento entre os irmãos. Em média, em famílias com vários filhos, as habilidades linguísticas, o QI, o percurso escolar, a carreira profissional e o nível salarial na idade adulta diminuem com a ordem de nascimento. 158- 161 O primogênito se sai melhor do que o segundo, que, por sua vez, se sai melhor do que o terceiro, e assim por diante (ver Figura 11). Como indicado por um amplo estudo recente, essa cascata negativa reflete em parte a diluição gradual do tempo dedicado aos filhos por seus pais. 161 Sendo o centro das atenções, o filho mais velho recebe mais recursos do que seus irmãos mais novos, o que favorece seu desenvolvimento.
Em suma, a contribuição potencial da escola para o desenvolvimento precoce da linguagem é no máximo modesta e no mínimo marginal. Nessa área, mais do que em qualquer outra, é a família que carrega o fardo. Seu papel é tão central quanto insubstituível. Se ela falhar, a linguagem permanecerá ociosa, e a criança verá seu futuro acadêmico comprometido, antes mesmo de entrar na pré- escola; porque, como afirma um artigo de síntese, “a compreensão da leitura, essencial para o sucesso escolar a longo prazo, depende das capacidades linguísticas precoces”.
Inicialmente, o desenvolvimento da linguagem depende fortemente do “alimento” fornecido pelo ambiente familiar. Ao falar com a criança e ler histórias para ela, os pais lançam as bases indispensáveis para o desenvolvimento posterior da leitura, mas também, mais geralmente, para as aprendizagens escolares, intelectuais, emocionais e sociais. Nessa área, excluindo algumas estatísticas excepcionais, aquilo de que o ambiente familiar abdica nem a escola nem o tempo poderão recuperar. Claro, um bom começo não garante uma jornada tranquila; mas, certamente, um mau começo estabelece as bases para uma jornada frustrante e difícil. Para fornecer uma última prova disso, pode ser interessante olhar para os estudos mais abrangentes. Até agora, discutimos separadamente o peso dos diferentes fatores de interesse (consciência fonológica, conhecimento do alfabeto, vocabulário etc.) envolvidos no aprendizado da leitura, mas ignoramos a paisagem geral. No entanto, somente esta revela a importância das condições ambientais precoces. Quando considerados em sua totalidade, os preditores examinados neste capítulo preveem uma parte substancial dos resultados escolares e das habilidades de leitura medidas ao fim do primário, 261 do ensino fundamental262- 263 ou do ensino médio. 110,264 Um estudo recente de grande envergadura mostrou, por exemplo, que as habilidades alfabéticas, fonológicas e lexicais estimadas no final da pré- escola previam quase 30% das variações de compreensão de leitura, avaliadas pelo programa PISA, no final do ensino fundamental. 263 A conclusão dos autores, creio eu, resume todos os dados deste capítulo: “Os pré- requisitos para a leitura, medidos na pré- escola, são grandes fatores de previsão da compreensão da leitura no nono ano”.
Este capítulo mostra, como sugere a citação no início desta parte, que há de fato “alguma coisa nos livros”. 1 “Alguma coisa” que, após a invenção do processo de impressão, permitiu o formidável desenvolvimento das sociedades ocidentais. “Alguma coisa” que, ao longo da história, incitou o ódio dos piores tiranos. “Alguma coisa” da qual nossos filhos, cheios de telas, privam- se. “Alguma coisa” que o próximo capítulo se propõe a definir de maneira mais precisa.
“O meio é a mensagem”. 53 Através desse aforismo, o pesquisador queria dizer que a forma inevitavelmente contamina o conteúdo e, por extensão, a maneira como o cérebro processa as informações recebidas. Em outras palavras, para McLuhan e muitos acadêmicos, como Pierre Bourdieu54 ou Neil Postman, 55 o meio de comunicação modifica a mensagem
131 A tudo isso se soma um último ponto, relacionado à topografia
Embora o livro seja agora considerado por muitos como algo arcaico e empoeirado, ele ainda é o meio de aprendizado mais adequado para o funcionamento cerebral. Sua estrutura linear e pré- organizada, além de sua capacidade de mobilizar a atenção, conferem- lhe uma vantagem significativa sobre as mídias de áudio ou vídeo e os formatos desconexos da internet, especialmente para a assimilação de conhecimentos complexos e exigentes. Essa vantagem é particularmente clara para os livros impressos, que minimizam os riscos de distrações externas e cuja unidade espacial facilita a construção de uma representação mental dos diferentes elementos do texto e suas relações, o que melhora a compreensão e a memorização dos conteúdos apresentados (especialmente, mais uma vez, se eles forem difíceis). O papel também otimiza os benefícios da leitura compartilhada, concentrando as interações adulto- criança não no funcionamento da tela utilizada (geralmente o tablet), mas no material verbal e narrativo do texto. Isso não significa, é claro, que as fontes digitais devam ser banidas cegamente. Audiolivros, podcasts e vídeos educativos ainda são interessantes para conteúdos menos complexos e podem certamente ser usados como complemento à leitura. Além disso, é melhor para nossos filhos ouvirem audiolivros, assistirem a vídeos educativos ou lerem livros digitais do que passarem os anos mais decisivos de seu desenvolvimento na Netflix, no TikTok ou no videogame. Apesar de tudo, se tivermos de escolher, os livros impressos continuam sendo a opção mais eficaz para ligar o cérebro de uma criança. Como escreveu Umberto Eco, um grande erudito, “um livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados”. 150
Portanto, sim, é possível viver sem ler; isso é certo. Mas isso é o essencial? Porque, no fundo, pouco importa se a vida pode dispensar os livros; o que realmente importa é o custo dessa abstinência. Em outras palavras, perdemos algo fundamental quando renunciamos à leitura? Se sim, o que exatamente? E, se não perdemos nada, o tempo dedicado à leitura não deveria ser gasto em atividades mais proveitosas?
a leitura parece oferecer um solo não apenas propício, mas também insubstituível para a construção da linguagem, dos conhecimentos gerais e, em última instância, do pensamento.
Em primeiro lugar, a leitura torna nossas crianças mais inteligentes,
a leitura aumenta a inteligência ao desenvolver nosso QI, especialmente em sua dimensão verbal.
Além do vocabulário, a escrita também abriga um alto nível de complexidade gramatical.
quanto mais a criança lê, mais ela tem chances de adquirir uma ortografia eficaz.
todos esses dados indicam que a leitura pessoal melhora significativamente a qualidade das produções escritas e orais de nossas crianças. Em outras palavras, crianças que leem escrevem e falam melhor do que seus colegas menos assíduos.
“Quanto mais você lê, menos você corre o risco de fazer papel de bobo com sua caneta ou seu processador de texto”.
os livros, especialmente os de ficção, são de longe o meio mais eficaz de alimentar a linguagem e as habilidades de leitura dos alunos, independentemente de sua idade. Os jornais também têm um efeito modestamente positivo. Por outro lado, revistas, quadrinhos, blogs, sites da internet, sistemas de mensagens e redes sociais exercem uma influência nula ou até negativa.
Uma das magias da leitura é que ela permite adquirir muitas dessas palavras de forma “incidental”, ou seja, sem esforço ou projeto consciente. 95- 96 A criança lê e, sem perceber, gradualmente incorpora todo tipo de riqueza lexical e sintática. Ela aprende, de certa forma, a contragosto, por meio de um mecanismo que a ajuda a adivinhar o significado de novas palavras com base no contexto e a refinar progressivamente sua interpretação
todas essas evidências demonstram inequivocamente o impacto positivo da leitura no desenvolvimento dos conhecimentos gerais.
A partir de todos esses elementos, fica claro que a leitura torna as crianças mais inteligentes, mais cultas, mais criativas, mais aptas a se comunicar, a estruturar seu pensamento e a organizar suas declarações. Esses benefícios são observados tanto na escrita quanto na fala.
Uma criança que não lê livros está irrevogavelmente condenada à superficialidade das elocuções comuns. Ela nunca poderá construir os pilares lexicais, sintáticos e ortográficos das linguagens avançadas, tão necessários para o funcionamento ideal do pensamento.
Ainda que a contribuição da leitura para o desenvolvimento intelectual seja a mais visível e estudada, ela não é a única. Muitos estudos mostram que a literatura e, mais amplamente, as obras de ficção também enriquecem o desenvolvimento socioemocional.
a leitura melhora nossa capacidade de interagir com nossos mundos internos e externos. Viver mil vidas
Por meio dos livros, o leitor experimenta uma miríade de vidas, graças às quais, imperceptivelmente, ele consegue ampliar e iluminar a sua própria.
assim como alguns treinam suas habilidades de pilotagem em simuladores de voo, outros aprimoram suas habilidades sociais lendo obras de ficção, de modo que estas últimas poderiam ser vistas como “o simulador de voo da mente”.
tudo isso nos leva a concluir que a literatura é uma interface privilegiada de aprendizado socioemocional, porque permite descrições psicológicas e contextuais notavelmente detalhadas. Nenhum outro meio permite expor tão minuciosamente os pensamentos dos outros.
a exposição contínua a obras de ficção literária fortalece a empatia.
Esses estudos mostram, portanto, que a literatura nos ajuda a perceber e sentir o mundo a nosso redor através dos olhos dos outros.
Todos esses elementos destacam que a leitura nos torna melhores, por sua capacidade de enriquecer todos os aspectos fundamentais do nosso funcionamento socioemocional. Nenhum outro suporte nos permite dissecar e penetrar com tanta perspicácia a psique dos outros. Mais uma vez, as obras de ficção desempenham um papel crucial. Elas são verdadeiros “simuladores sociais”, que permitem ao leitor ser, por um tempo, o que ele não é e nunca será. Através dos livros, a mente não apenas se coloca no lugar do outro; ela pode literalmente se tornar o outro, o que, de romance em romance, permite que ela experimente intimamente, como se fossem suas, as emoções, os pensamentos e as dificuldades de uma grande variedade de personagens distintos. Essa pluralidade tem influências profundas em nossa capacidade de entender nossos semelhantes, de um ponto de vista emocional (empatia) ou intelectual (teoria da mente).
A leitura é como a matemática, a inteligência e o sucesso escolar. Quando uma criança parece mostrar sinais de dificuldade ou relutância, muitos pais dizem que ela “não tem o dom”, que aquilo “não é para ela”, que o caçula “não consegue, embora tenha sido criado exatamente como a irmã, que adora ler” etc. Este capítulo aborda essas crenças em três grandes seções. A primeira mostra que devemos desconfiar muito dos números frequentemente citados para afirmar que as habilidades de leitura, os resultados escolares ou a inteligência são de 60% a 70% “hereditários”. Os genes não são fixos; sua ação depende das características do ambiente. Um DNA “comum” em um mundo estimulante oferecerá resultados muito mais significativos do que um DNA “genial” em um ambiente amorfo. O que nos leva à segunda seção, que busca estabelecer que é o volume de prática, muito mais do que o DNA, que prevê a longo prazo as habilidades de leitura da criança. Uma constatação que a terceira seção torna particularmente crucial, ao destacar o papel essencial desempenhado pelas habilidades de leitura no sucesso escolar.
importante não é tanto compreender o que é a herdabilidade, mas sim compreender o que ela não é. O primeiro ponto que vem à mente é que ela não é uma medida de inevitabilidade genética, no sentido de que não diz nada sobre o possível peso do ambiente.
tempo dedicado à leitura é que forma os leitores
Alunos que cresceram em um lar com uma grande biblioteca têm três anos de estudo suplementar quando comparados com indivíduos socioeconomicamente equivalentes criados em uma casa sem livros. 68 Esse impacto é da mesma magnitude que o nível de educação dos pais. Em outras palavras, para o futuro de uma criança, ter livros é tão importante quanto ter pais instruídos. Claro, isso não significa que a simples posse de um grande número de livros aumentará o QI de nossos filhos. Significa que uma biblioteca ampla revela a importância que os pais atribuem à cultura literária e à sua transmissão. 68 Quanto mais a criança viver rodeada de livros, mais ela será incentivada a ler, tanto diretamente, em resposta às orientações dos pais, quanto indiretamente, por meio de um mecanismo de aprendizado social, favorável à reprodução dos comportamentos familiares. 269 Em outras palavras, quanto mais a criança estiver cercada por livros e leitores, mais chances ela terá de ler, de ler precocemente, de ler muito e, em última análise, de ler eficazmente.
porta. Para resumir, em matéria de leitura, nada substitui a persistência. Um envolvimento relativamente modesto de 20 a 30 minutos por dia acaba gerando benefícios significativos ao longo do tempo. Alguns podem afirmar que meia hora é muito. Para esses observadores rigorosos do cronômetro, podemos lembrar que isso representa apenas um terço do tempo que alunos dos anos finais do ensino fundamental dedicam diariamente a seus jogos eletrônicos.
Todos esses elementos indicam que a herdabilidade é um conceito estatístico preciso ao qual é fácil, por ideologia ou incompetência, atribuir muito mais significado do que se deveria. Afirmar que a leitura é herdável de maneira alguma significa que ela seja inata. A esmagadora maioria das crianças com dificuldades de leitura não sofre de falta de inteligência ou de uma patologia intratável, mas de falta de prática e estímulo. Um genoma favorável por certo facilita o aprendizado. No entanto, em nenhum caso ele garante o sucesso. Se a criança não lê o suficiente, seu patrimônio genético não será de nenhuma ajuda. Assim como ratos geneticamente “brilhantes” permanecem “idiotas” quando seu ambiente é insuficientemente estimulante, 238 crianças supostamente “talentosas” só podem permanecer fracas se nunca abrirem um livro. O oposto também é verdadeiro. Um DNA potencialmente menos favorável não condena ao fracasso. Assim como ratos geneticamente “estúpidos” atingem níveis notáveis de desempenho quando o ambiente é rico o suficiente para compensar a dívida hereditária, 238 crianças supostamente “pouco talentosas” verão suas habilidades melhorarem significativamente com a prática.
Esse consenso, amplamente aceito hoje, 2,57,89 não é nada novo. Há quase 30 anos, um artigo de síntese já concluía que “a exposição à leitura é eficaz independentemente das habilidades intelectuais e de compreensão da criança [...]. Costumamos nos desesperar por não podermos mudar as ‘aptidões’ das crianças, mas há pelo menos um hábito parcialmente maleável que desenvolverá essas ‘aptidões’: a leitura”. 109 Essa notícia é ainda mais encorajadora porque não estamos falando de uma carga literária pesada, mas de um investimento moderado, cerca de 30 minutos por dia.
Isso é muito pouco em comparação com o tempo que nossas crianças passam todos os dias em seus dispositivos recreativos; 92 mas é enorme em termos dos benefícios concretos colhidos no campo do sucesso escolar. Afinal, somando todas as melhorias acumuladas (linguagem, conhecimento, criatividade, habilidades socioemocionais etc.), o tempo dedicado à leitura pessoal acaba afetando grandemente a trajetória escolar das pessoas e, consequentemente, a forma de seu percurso profissional. Uma criança que lê não apenas amplia seu presente, ela também constrói seu futuro.
Nós nos tornamos leitores por aculturação, ou seja, por “adaptação à cultura circundante”.
No primeiro nível, é preciso valorizar a leitura, ou seja, apresentá- la como uma atividade crucial e distintiva, no sentido de “nós somos uma família de leitores; nem todas as famílias são assim, mas aqui a leitura é importante, é uma das coisas que nos define”.
que nos leva ao segundo ponto: o prazer. Ele é o principal ingrediente da receita. Sem ele, nada é possível. Tudo começa com a leitura compartilhada. É ela que estabelece o cenário e desperta, ou não, a vontade de ler. 23- 25 Para acender a chama, é importante não desmotivar a criança, mas alegrá- la.
a questão não é realmente como desenvolver o gosto pela leitura, mas sim entender como evitar que ele se perca.
Para que a criança leia, não há outra solução senão limitar drasticamente esse tempo; no entanto, em hipótese alguma essa limitação deve estar ligada ao tempo de leitura, caso contrário, a leitura será percebida como um tipo de purgatório que abre as portas do paraíso digital.
Em outras palavras, ao limitar o tempo de telas recreativas, o que em si é uma ótima ideia, liberamos espaço para a leitura, o que se revela uma ideia ainda melhor.*
A longo prazo, essa tendência nos custará muito mais do que alguns autores, editores, bibliotecários, livreiros e eruditos. Ela nos custará uma parte valiosa de nossa alma, 48 de nossa história, 49 de nossa capacidade de entender o mundo50 e, de maneira mais prosaica, do sacrossanto crescimento econômico supostamente responsável por garantir nossa felicidade e nosso padrão de vida.
Quanto mais entregamos à máquina uma parte importante de nossas atividades cognitivas, menos nossos neurônios encontram matéria com a qual se estruturar, organizar e conectar.
“Apesar dos investimentos consideráveis em computadores, conexões à Internet e softwares para fins educativos, há pouca evidência sólida de que o uso mais amplo de computadores pelos alunos conduza a melhores notas em matemática e leitura”.
“A tecnologia pode permitir a otimização de um ensino de excelente qualidade, mas nunca poderá, por mais avançada que seja, atenuar um ensino de baixa qualidade”.
um impacto expressivamente positivo, representando, para os alunos, uma melhora de desempenho de pouco mais de 20%. Isso significa que se um aluno se revela “médio” e for colocado diante de qualquer software “educativo”, no melhor dos casos, ele continuará médio; no pior, sua performance será fragilizada. Agora, se você colocar este mesmo aluno diante de professores competentes, com sólida formação, ele progredirá significativamente e terminará entre os primeiros de sua sala.
“professores são o mais importante recurso nas escolas de hoje [...]. Ao contrário do que se supõe com frequência, sistemas de alta performance não desfrutam de um privilégio natural simplesmente por conta de um respeito tradicional pelos professores; eles também erigiram uma força de ensino de alta qualidade, resultante de escolhas políticas deliberadas, cuidadosamente implementadas com o tempo”.
Um número cada vez maior de estudos mostra que a introdução do digital nas salas de aula é antes de tudo uma fonte de distração para os alunos e, consequentemente, um fator significativo de dificuldades escolares.
todo derivativo digital (SMS, redes sociais, e- mails, etc.) se traduz em uma baixa significativa do nível de compreensão e de memorização dos elementos apresentados.
mensagem é simples: se você desviar sua atenção do ensino ministrado, você perde informações e, no final, obviamente, compreende menos o que foi explicado.
Portanto, para resumir, os estudos disponíveis mostram, no melhor dos casos, a inaptidão e, no pior, a nocividade pedagógica das políticas de digitalização do sistema escolar. A partir deste ponto, uma questão simplíssima se coloca: Por quê? Por que tamanho frenesi? Por que tanto ardor em querer tornar o sistema escolar digital, da pré- escola até a universidade, quando os resultados se confirmam pouco convincentes?
Existe apenas uma explicação racional para esse absurdo. Ela é de ordem econômica: substituindo, de maneira mais ou menos parcial, o ser humano pelo digital, será possível, com algum prazo, contemplar uma bela redução dos custos do ensino.
esses programas MOOC reforçam perigosamente as desigualdades sociais ao favorecerem os alunos oriundos das classes mais privilegiadas.
em termos pedagógicos, não se trata de saber se os elementos de conhecimento estão disponíveis. Trata- se de determinar se a informação é apresentada de modo a poder ser compreendida e assimilada. Um professor qualificado é bem mais eficaz, pois é exatamente esta a função do “professor”, ordenar e ajustar seu campo de conhecimento de modo a torná- lo acessível ao aluno. É porque o professor conhece sua matéria (e as ferramentas pedagógicas de sua transmissão) que ele pode guiar alguém, organizando de forma metódica a sucessão das aulas, exercícios e atividades que vão permitir a aquisição progressiva dos conhecimentos e competências desejados. Nesse contexto, deve ficar claro, contrariamente a uma crença tenaz do conformismo midiático, que todos os saberes não têm valor igual. Aqueles de um aluno em formação não podem em caso algum ser comparados aos de um professor qualificado. Os primeiros são feitos de ilhotas dispersas, inconsistentes e lacônicas, ao passo que os outros constroem um universo ordenado, coerente e estruturado.
O primeiro trata das telas digitais domésticas. Neste terreno, excetuando alguns estudos iconoclastas (no mais das vezes, deficientes), as conclusões da literatura científica não poderiam ser mais claras, coerentes e indiscutíveis: quanto mais os alunos assistem à televisão, jogam videogames, utilizam o smartphone, mais eles são ativos nas redes sociais e mais suas notas despencam. Mesmo o computador doméstico, cuja potência educativa nos proclamam sem cessar, não exerce nenhuma ação positiva sobre a performance escolar. Isso não significa que a ferramenta seja desprovida de virtudes potenciais. Isso significa simplesmente que, quando você oferece um computador a uma criança (ou um adolescente), as utilizações lúdicas desfavoráveis devoram as utilizações educativas formativas.
O segundo diz respeito às telas digitais usadas na escola. Aí também, a literatura científica é inapelável. Quanto mais os Estados investem nas “tecnologias da informação e da comunicação para o ensino” (as famosas TIC), mais o desempenho dos alunos cai. Paralelamente, quanto mais os alunos passam tempo com as tecnologias, mais suas notas caem. De modo coletivo, esses dados sugerem que o movimento atual de digitalização do sistema escolar se baseia numa lógica mais econômica do que pedagógica. Na verdade, contrariando o juízo oficial, o “digital” não é um simples recurso educativo posto à disposição de professores qualificados e utilizável por estes, se eles o considerarem pertinente, dentro do contexto de projetos pedagógicos direcionados (ninguém poderia contradizer isso, e o único eixo possível de divergência diria respeito então, eventualmente, à possibilidade de utilizar com maior eficácia os subsídios investidos). Não; na verdade, o digital é, antes de tudo, um meio de reduzir as despesas educativas, substituindo, de modo mais ou menos parcial, o homem pela máquina. Essa transferência lança o professor qualificado para a longa lista de espécies ameaçadas. De fato, esse professor custa caro, muito caro, caro demais(?). Além disso, sua formação é difícil e, por conta da concorrência de setores econômicos mais favorecidos, é bem mais complicado recrutá- los. O digital traz para o problema uma solução bem elegante. Evidentemente, o fato de essa solução se fazer em detrimento da qualidade educativa torna a questão inflamável e, portanto, difícil de ser admitida.
“Sem você”, assim escrevia Albert Camus a seu antigo professor, após ter recebido o prêmio Nobel de literatura, “sem sua mão afetuosa estendida para a criança pobre que eu fui, sem seus ensinamentos, seu exemplo, nada disso teria me acontecido. Eu não faço alarde desta honraria, mas agora tenho pelo menos a oportunidade de dizer o que você foi, e ainda é para mim, e de assegurar que seus esforços, seu trabalho e o sentimento generoso que o acompanharam ainda estão vivos num de seus pequenos alunos que, apesar da idade, não deixou de ser seu aluno agradecido”.
A bagagem primordial do recém- nascido, porém, não é uma montagem ecumênica. Ela é metódica e obsessivamente orientada no sentido do humano. Desde sua concepção, a criança é equipada para desenvolver interações sociais.
“ao nascimento, as crianças exibem uma quantidade de tendências que, preferencialmente, as orientam no sentido de estímulos socialmente relevantes. Em particular, tem sido demonstrado que os recém- nascidos preferem os rostos a outros tipos de estímulos visuais, vozes a outras espécies de estímulos auditivos e movimento biológico a outros tipos de movimentos”.
O bebê elabora progressivamente esse equipamento primitivo em resposta às solicitações de seu ambiente, em especial o intrafamiliar. As interações promovidas (ou obstruídas) irão então moldar, de maneira decisiva, o conjunto do desenvolvimento, desde o cognitivo até o emocional, passando pelo social.
em média, nas famílias com várias crianças, o mais velho se sai melhor que seus irmãos mais jovens em termos de QI, desempenho escolar, salário e problemas com a justiça.
A fim de que a magia relacional se produza, um elemento se revela fundamental: é preciso que “o outro” esteja fisicamente presente. Para nosso cérebro, um humano “de verdade” não é de modo algum a mesma coisa que um humano “em vídeo”.
Isso confirma, caso ainda seja necessário, que somos animais sociais e que nosso cérebro reage com muito mais acuidade à presença real de um humano que à imagem indireta desse humano no vídeo.
para favorecer o desenvolvimento de uma criança, o melhor é dedicar tempo às interações humanas, em particular intrafamiliares, e não às telas.
Dessa forma, como escrevem os autores, “os pais absorvidos pelos aparelhos frequentemente ignoravam o comportamento da criança por um instante e depois reagiam com um tom de voz desdenhoso, dando instruções repetidas de uma maneira um tanto robótica
Essa potência distrativa, por sinal, explica em grande parte a notável capacidade dos smartphones de provocar densos conflitos quando são manipulados dentro de casa (entre pais e filhos e entre os pais47,50,72-
centenas de estudos realizados há mais de um século mostram que, no homem e no animal, as redes cerebrais precisam ser demandadas para se organizarem. A partir daí, toda carência de estímulo funcional se traduz por um déficit de maturação biológica. 102- 104 E é exatamente este o grande problema das telas digitais: elas empobrecem brutalmente a quantidade e a qualidade das interações verbais. Dito de outra forma, quanto mais os membros de um lar passam o tempo com suas bugigangas digitais, menos eles trocam palavras.
Em outras palavras, mesmo quando as crianças pareciam aprender alguma coisa, elas aprendiam com mais dificuldade e menos profundidade com a tela. Constatação que confirma o fenômeno, já amplamente evocado, do “vídeo déficit” e que poderíamos resumir da seguinte forma: em matéria de aprendizagem linguística, é melhor colocar a criança diante de uma aplicação dita “educativa” do que abandoná- la a um vácuo relacional; mas a excelência ainda consiste (com vasta vantagem) em conversar com ela, ensinar- lhe o nome das coisas, contar ou ler uma história para ela, solicitar sua palavra, etc.
tudo isso para dizer que além da base fundamental, oralmente construída ao longo dos primeiros anos de vida, é nos livros e somente neles que a criança vai poder enriquecer e desenvolver plenamente sua linguagem.
é, portanto, possível (e sem dúvida provável, 236 mesmo que o caso ainda seja discutido237) que os videogames de ação melhorem, não nossa atenção ou nossas capacidades decisórias em geral, mas certas características de nossa atenção visual. O problema é que essas melhoras permanecem “locais” na esmagadora maioria dos casos; elas não se estendem às situações da “vida real”. Isso quer dizer, claramente, que jogar um videogame de ação nos ensina essencialmente... a jogar esse jogo e outros semelhantes. É evidente, certas generalizações positivas sobrevêm por vezes, quando o real impõe as mesmas exigências que o jogo.
as telas minam os três pilares mais essenciais do desenvolvimento infantil.
O primeiro diz respeito às interações humanas. Quanto mais tempo a criança passa com seu smartphone, sua televisão, seu computador, seu tablet ou seu console de videogame, mais as trocas intrafamiliares enfraquecem em quantidade e em qualidade.
O segundo é a linguagem. Neste campo, a ação das telas opera segundo dois eixos complementares. De início, alterando o volume e a qualidade das primeiras trocas verbais. Em seguida, impedindo a entrada no mundo da escrita.
O terceiro ponto refere- se à concentração. Sem ela, não há meios de mobilizar o pensamento para um objetivo. No entanto, as jovens gerações estão imersas num ambiente digital perigosamente distrativo. A influência dos videogames, portanto, não é menos nociva que a da TV, ou de outras ferramentas digitais.
convém lembrar que a mecânica humana não foi concebida para que fiquemos sentados de maneira crônica por longas horas. O sedentarismo danifica nosso organismo. Pior, ele acaba por nos matar prematuramente.
Em resumo, depreende- se desses dados que o sedentarismo ocasionado pelos consumos digitais é, por si só, um importante fator de risco sanitário e (potencialmente) uma fonte de patologias emocionais e neurovegetativas.
Em resumo, nossa memória não é um simples órgão de armazenamento, mas uma máquina de criar associações. Para tanto, ela utiliza em especial as regras de contiguidade temporal. Assim, estas últimas às vezes carecem de clarividência no sentido de que sua automaticidade favorece a formação de conexões artificiais potencialmente nocivas, que, uma vez estabelecidas, influenciam de forma expressiva nossas percepções, representações, decisões e ações.
que parece, o mundo digital das crianças e dos adolescentes está saturado de imagens impregnadas de fumo: televisão, videogames, redes sociais, sites de streaming, etc.; Nenhum espaço escapa dessa imensa onda. Isso não seria um problema, naturalmente, se o impacto do cigarro sobre a saúde fosse apresentado com honestidade.
onipresença das imagens alcoólicas dentro do mundo digital apresenta duplo interesse para as indústrias: (1) reduz substancialmente a idade da primeira iniciação; (2) aumenta convenientemente o volume dos consumos crônicos.
analisados em seu conjunto, esses elementos mostram que o marketing alimentar, onipresente na televisão e em todos os suportes digitais, aumenta seriamente o risco de obesidade na criança e no adolescente.
tomados em seu conjunto, esses dados mostram que os conteúdos audiovisuais e digitais são poderosos prescritores de padrões sociais. Ao modificar nossa visão do mundo, esses prescritores afetam nosso modo de agir; e na maioria das vezes, eles fazem isso na surdina, sem despertar o radar das defesas conscientes.
exposição a estímulos e comportamentos violentos favorece a hostilidade comportamental ativando as redes mnésicas da agressividade. Dezenas
Do presente capítulo, convém reter que o consumo de telas recreativas tem um impacto muito negativo sobre a saúde de nossas crianças e adolescentes. Três expedientes se revelam, assim, particularmente prejudiciais. Em primeiro lugar, as telas afetam intensamente o sono. Ora, este é um pilar essencial, para não dizer vital, do desenvolvimento. Quando ele sai dos trilhos, é toda a integridade individual que é afetada, em suas dimensões físicas, emocionais e intelectuais. É bastante surpreendente (e inquietante) ver a que ponto esse problema é hoje subestimado.
Em segundo lugar, as telas aumentam expressivamente o grau de sedentarismo, ao mesmo tempo em que reduz de maneira significativa o nível de atividade física. Ora, para evoluir perfeitamente e se manter em boa saúde, o organismo precisa ser solicitado de forma intensa e ativa. Ficar sentado mata! Fazer exercício nos constrói!; e não apenas em nossas dimensões físicas. O movimento tem um impacto importante sobre os funcionamentos emocional e intelectual. Aí também, o problema é inexplicavelmente ignorado nos debates relativos às utilizações de ferramentas digitais pelos nossos filhos. Por fim, em terceiro lugar, os conteúdos ditos “de risco” (sexuais, tabagistas, alcoólicos, hipercalóricos, violentos, etc.) abundam no universo digital. Todos os suportes incluídos. Pois bem, para a criança e o adolescente, esses conteúdos são importantes prescritores de normas (com frequência inconscientemente). Eles dizem o que se deve ser (por exemplo, um estudante “normal” fuma e faz sexo– sem se preocupar com o uso de preservativos). Uma vez assimiladas, essas normas têm um efeito considerável sobre o comportamento (por exemplo, a probabilidade de um estudante do ensino médio começar a fumar ou ter relações sexuais desprotegido).
em termos de utilização de ferramentas digitais, a informação oferecida ao grande público carece singularmente de rigor e confiabilidade.
consumo digital recreativo das jovens gerações não é apenas “excessivo” ou “exagerado”; ele é extravagante e está fora de controle.
frenesi digital que tudo consome prejudica gravemente o desenvolvimento intelectual, emocional e físico de nossas crianças.
o efeito das telas recreativas é tão nocivo, isso se deve em grande parte ao fato de nosso cérebro não ser adaptado à fúria digital que nos assola.
Miguel de Unamuno
Ouve meus rogos Tu, Deus que não existes, e em Teu nada recolhe estas minhas queixas; Tu, que aos pobres homens nunca deixas sem consolo de engano. Não resistes ao nosso rogo, e nosso anelo viste, quando mais Te afastas de minha mente; mas recordo os doces conselhos somente com que minh’alma acalentou noites tão tristes. Quão grande és, meu Deus! Tu és tão grande, que não és senão Idéia; é muito estreita a realidade por muito que se expande para abarcar-te. Sofro eu por tua causa, Deus não existente, pois se tu fosses realidade, eu também existiria de verdade.
Nancy Fraser
“Canibalismo” tem diversos significados. O mais familiar e mais concreto é o ritual de um ser humano comer a carne de outro. Carregado de um longo histórico racista, o termo foi aplicado, por meio de uma lógica intervertida, às populações negras africanas afetadas pela predação imperial europeia.
O verbo “canibalizar” significa privar um estabelecimento ou empreendimento de um elemento essencial para seu funcionamento a fim de criar ou sustentar outro. Como veremos, isso se assemelha, de forma plausível, à relação entre a economia capitalista e os territórios não econômicos do sistema: famílias e comunidades, habitats e ecossistemas, capacidades estatais e poderes públicos que têm sua substância consumida pela economia para inflar o próprio sistema.
o capital atrai para sua órbita a riqueza natural e social de zonas periféricas do sistema- mundo.
a metáfora do canibalismo oferece diversos caminhos promissores para uma análise da sociedade capitalista. Ela nos convida a ver essa sociedade como um grande banquete institucionalizado, onde o prato principal somos nós. O termo “capitalismo” também pede explanação. A palavra é utilizada, em geral, para referir um sistema econômico baseado na propriedade privada e em trocas comerciais, no trabalho assalariado e na produção que visa o lucro.
“Capitalismo”, como argumentarei aqui, designa melhor algo maior, uma ordem social que autoriza uma economia movida pelo lucro a predar os apoios extraeconômicos de que necessita para funcionar: a riqueza expropriada da natureza e dos povos sujeitados; as múltiplas formas do trabalho de cuidado, que enfrenta uma desvalorização crônica— isso quando não é inteiramente rejeitado—; os bens e os poderes públicos que o capital exige e, ao mesmo tempo, tenta restringir; a energia e a criatividade do povo trabalhador.
neste livro, “capitalismo” se refere não a um tipo de economia, mas a um tipo de sociedade: uma sociedade que autoriza uma economia oficialmente designada a acumular valor monetarizado para investidores e proprietários ao mesmo tempo em que devora a riqueza não economicizada de todos os demais.
que deve ser reinventado, assim, é a relação entre produção e reprodução, poder público e privado, sociedade humana e natureza não humana.
O resultado disso é que estamos passando por uma crise capitalista de imensa gravidade sem uma teoria crítica que a elucide, muito menos nos aponte uma resolução emancipatória.
Defendo que o capitalismo canibal é essa concepção.
Aqui, portanto, minha estratégia será olhar primeiro para Marx e, depois, por trás de Marx na esperança de lançar nova luz a algumas questões antigas: o que exatamente é o capitalismo e como conceituá- lo da melhor forma? Devemos pensar nele como um sistema econômico, uma forma de vida ética ou uma ordem social institucionalizada? Como devemos caracterizar suas “tendências a crises” e onde devemos localizá- las?
Para Marx, a primeira característica definidora do capitalismo é a propriedade privada dos meios de produção, que pressupõe uma divisão de classe entre proprietários e produtores.
Isso leva diretamente à segunda característica central do capitalismo apontada por Marx: o livre- mercado de trabalho. Uma vez separada dos meios de produção, a imensa maioria das pessoas teve que passar por essa instituição peculiar para trabalhar e receber o necessário para continuar vivendo e criar seus filhos e filhas.
Assim, o capitalismo é definido, em parte, por sua constituição e pelo uso do trabalho assalariado (duplamente) livre, embora, como veremos, também se apoie em um imenso contingente de trabalho não livre ou dependente, não reconhecido ou não remunerado.
O capitalismo é peculiar por ter um impulso sistêmico objetivo: a saber, a acumulação de capital. Desse modo, tudo o que os proprietários fazem, na condição de capitalistas, tem o objetivo de expandir o próprio capital.
A quarta característica especifica o papel distintivo dos mercados na sociedade capitalista. Os mercados existiram ao longo de toda a história humana, incluindo em sociedades não capitalistas. No entanto, seu funcionamento no capitalismo se distingue por duas características mais. Primeiro, na sociedade capitalista os mercados servem para alocar os grandes insumos na produção de mercadorias. Compreendidos pela economia política burguesa como “fatores de produção”, esses insumos eram originalmente terra, trabalho e capital. Além de utilizar os mercados para alocar o trabalho, o capitalismo também os utiliza para alocar bens imóveis, bens de capital, matérias- primas e crédito. Na medida em que aloca esses insumos produtivos por meio de mecanismos de mercado, o capitalismo os transforma em mercadorias. Nas palavras notáveis do economista Piero Sraffa, de Cambridge, trata- se de um sistema para “a produção de mercadorias por meio de mercadorias”, ainda que dependa, como veremos, de um pano de fundo de não mercadorias.
Mas há também uma segunda função crucial que os mercados assumem em uma sociedade capitalista: eles determinam como o excedente da sociedade será investido. “Excedente”, para Marx, é o fundo coletivo das energias sociais que excedem aquelas necessárias para reproduzir determinada forma de vida ou repor o que foi consumido no processo de vivê-
A questão, então, é que os aspectos mercadorizados das sociedades capitalistas coexistem com os aspectos não mercadorizados. Isso não é um golpe de sorte, nem uma contingência empírica, mas uma característica inerente ao dna do capitalismo. Na verdade, o termo “coexistência” não dá conta de captar a relação entre aspectos mercadorizados e não mercadorizados de uma sociedade capitalista. Termos melhores seriam “dependência” ou “imbricação funcional”, mas essas expressões também não transmitem a perversidade dessa relação. 9 Esse aspecto, que logo ficará mais compreensível, é melhor expresso por “canibalização”.
Minha argumentação é de que a explicação de Marx sobre a produção capitalista só faz sentido quando começamos a dar forma a suas condições de possibilidade de fundo que a caracterizam. A próxima pergunta será, então: o que deve existir por trás dessas características centrais para que elas sejam possíveis?
Ainda que não oficial, a expropriação é um mecanismo contínuo de acumulação que segue ao lado do mecanismo oficial da exploração— a “história visível” de Marx, por assim dizer.
a expansão do capital não acontece pela troca de equivalentes, como sugere a perspectiva de mercado, mas precisamente pelo seu oposto: pela não remuneração de uma parte do tempo de trabalho dos trabalhadores.
Uma virada epistêmica essencial é aquela da produção para a reprodução social— as formas de provimento, cuidado e interação que produzem e sustentam os seres humanos e os vínculos sociais. Chamada por diversos nomes, como “cuidado”, “trabalho afetivo” ou “subjetivação”, essa atividade forma os sujeitos humanos do capitalismo sustentando- os como seres naturais corporificados ao mesmo tempo em que os constitui como seres sociais, formando seu habitus e a substância socioética, ou Sittlichkeit, 12 na qual eles se movimentam.
a atividade de reprodução social é absolutamente necessária para a existência do trabalho assalariado, a acumulação de mais- valor e o funcionamento do capitalismo como tal. O trabalho assalariado não poderia existir na ausência do trabalho doméstico, da criação dos filhos, da educação, do cuidado afetivo e de diversas outras atividades que ajudam a produzir novas gerações de trabalhadores e trabalhadoras e a repor as existentes, além de manter os vínculos sociais e os entendimentos compartilhados. Portanto, assim como a “acumulação original”, a reprodução social é uma condição de fundo indispensável para a produção de mercadorias.
a reprodução associada às mulheres e a produção aos homens.
Com o capitalismo, em contraste, o trabalho reprodutivo é cindido, relegado a uma esfera doméstica “privada” e separada, onde sua importância social fica obscurecida. Neste novo mundo, onde o dinheiro é o meio primordial do poder, o fato de não ser remunerado ou ser mal remunerado confirma a questão: aquelas que realizam esse trabalho ficam estruturalmente subordinadas àqueles que ganham os salários na “produção”, mesmo que seu trabalho “reprodutivo” também forneça as precondições necessárias para o trabalho assalariado.
Devemos considerar, também, uma segunda virada igualmente relevante na perspectiva epistêmica, que nos direciona a outro terreno oculto. Esta é melhor exemplificada no trabalho de pensadores e pensadoras ecossocialistas que estão hoje escrevendo outra história de fundo, focalizando a canibalização da natureza pelo capitalismo. Essa história se refere à anexação da natureza— que Rosa Luxemburgo chamou de Landnahme— pelo capital, tanto como fonte de “insumos” para a produção quanto como “escoadouro” para absorver seus resíduos. A natureza, aqui, é transformada em recurso para o capital, com valor ao mesmo tempo pressuposto e denegado.
condições políticas de possibilidade do capitalismo: sua dependência dos poderes públicos para estabelecer e impor suas normas constitutivas. Afinal, na ausência de uma estrutura legal que sustente a empresa privada e a troca mercadológica, o capitalismo é inconcebível.
Pode- se dizer que, historicamente, o Estado “constituiu” a economia capitalista.
Ao longo de sua trajetória, a história de frente do capitalismo dependeu das capacidades militares e organizativas de uma sucessão de hegemonias globais que, como argumentou o sociólogo histórico braudeliano Giovanni Arrighi, buscaram promover a acumulação em uma escala cada vez mais expansiva dentro da estrutura do sistema de múltiplos Estados. 17
necessidade oculta aqui é a expropriação: a captura forçada e contínua da riqueza de povos subjugados e minorizados. Embora seja geralmente vista como a antítese do processo característico de exploração do capitalismo, a expropriação é mais bem concebida como a condição que possibilita esse sistema.
A exploração transfere valor para o capital sob o pretexto de uma troca contratual livre: em troca do uso da força de trabalho, os trabalhadores recebem salários que (supostamente) cobririam seu custo de vida— enquanto o capital se apropria de seu “tempo de trabalho excedente”, ao menos remunera- os (supostamente) pelo “tempo de trabalho necessário”. Na expropriação, em contrapartida, os capitalistas dispensam todas essas gentilezas em favor do confisco bruto dos bens de outras pessoas, pelos quais pagam pouco ou nada— ao direcionar o trabalho, a terra, os minerais e/ ou a energia recrutada para as operações de suas empresas, reduzem os custos de produção e aumentam os lucros. Assim,
Além disso, assim como as outras divisões, esta reforça um modo específico de dominação na sociedade capitalista: a saber, a opressão racial e imperial. Como veremos no capítulo 2, na maioria esmagadora das vezes são as populações racializadas que têm a proteção política negada na sociedade capitalista, sendo submetidas a reiteradas violações.
podemos conceituar com precisão o capitalismo mercantil, o colonial liberal, o monopolista administrado pelo Estado e o neoliberal globalizante nestes termos: como quatro formas historicamente específicas de demarcar os diversos campos que compreendem o capitalismo.
a configuração precisa da ordem capitalista em qualquer lugar e tempo depende de contestação— do equilíbrio do poder social e do resultado das lutas políticas.
uma análise adequada sobre as relações entre a camada visível e o plano de fundo do capitalismo deve reunir três ideias distintas. Primeiro, os campos “não econômicos” do capitalismo servem como condições de fundo possibilitadoras de sua economia; a própria existência desta depende dos valores e recursos daqueles. Em segundo lugar, no entanto, os campos “não econômicos” do capitalismo têm peso e caráter próprios que podem fornecer recursos para a luta anticapitalista em determinadas circunstâncias. Não obstante— e este é o terceiro ponto—, esses campos são elementos essenciais da sociedade capitalista, historicamente constituídos em conjunto com sua economia e marcados pela simbiose com ela.
produção capitalista não é autossustentável, mas se beneficia da reprodução social, da natureza, do poder político e da expropriação. Ainda assim, orientada pela acumulação infinita, ameaça desestabilizar suas próprias condições de possibilidade.
sistema abriga uma tendência inerente de autodesestabilização. Ao não conseguir repor ou reparar seus terrenos ocultos, o capital devora de forma persistente os próprios apoios de que depende. Como uma serpente que come a própria cauda, canibaliza suas próprias condições de possibilidade.
O capitalismo sempre teve entrelaçamentos profundos com a opressão racial.
Apesar das diferenças inequívocas, não houve, uma forma do capitalismo que “de fato existiu” sem o componente racial. Em todas as suas encarnações até hoje, a sociedade capitalista sempre esteve entrelaçada com a opressão racial. Qual é a natureza desse entrelaçamento? É contingente ou estrutural? Será que a conexão entre capitalismo e racismo surgiu por acaso e as coisas poderiam ter sido, em princípio, diferentes? O capitalismo já estaria preparado, desde o início, para dividir as populações por raça? Como isso se dá hoje? Estaria o racismo inculcado no capitalismo contemporâneo ou seria finalmente possível haver um capitalismo não racial hoje, no século xxi?
urgente: seria o capitalismo necessariamente racista? É possível superar a opressão racial dentro da sociedade capitalista?
Ao contrário dos proponentes da contingência, que argumentam que o racismo não é necessário ao capitalismo, defendo que existe, sim, uma base estrutural para o entrelaçamento persistente do sistema com a opressão racial. Essa base reside, como vimos, na dependência que o sistema tem de dois processos analiticamente distintos, mas imbricados, na prática da acumulação de capital: a exploração e a expropriação. É a separação dessas duas “ex” e sua atribuição a duas populações diferentes que sustentam a opressão racial na sociedade capitalista.
Na primeira, defendo a tese de que o capitalismo abriga uma base estrutural de opressão racial, dado que depende da expropriação como condição necessária para a exploração. Em seguida, historicizo essa estrutura, delineando as configurações mutáveis dessas duas “ex” nas principais fases da história do capitalismo. Por fim, considero as perspectivas de superação da opressão racial em uma nova forma de sociedade capitalista que ainda se baseia na exploração e na expropriação, mas não as atribui a duas populações nitidamente demarcadas. Ao longo da explanação, exponho a tendência inerente do sistema de racializar populações para melhor canibalizá- las— e, portanto, porque devemos entender o capitalismo como um glutão que quer empurrá- las goela abaixo.
Meu argumento é que a expropriação é de fato constitutiva da sociedade capitalista e de seu entrelaçamento com o racismo. Em suma, como explicarei, a sujeição daqueles e daquelas que o capital expropria é uma condição oculta que possibilita a liberdade das pessoas que o sistema explora. Sem uma elaboração sobre a primeira condição, não é possível compreender totalmente a segunda, nem entrever a base estrutural do entrelaçamento histórico do capitalismo com a opressão racial.
expropriação é a acumulação por outros meios— outros, isto é, que não a exploração. Dispensando a relação contratual pela qual o capital compra “força de trabalho” em troca de salários, a expropriação funciona confiscando capacidades humanas e recursos naturais e convocando- os para circuitos de expansão do capital. O confisco pode ser escancarado e violento, como na escravização no Novo Mundo, ou velado sob o manto do comércio, como nos empréstimos predatórios e nas execuções de dívidas da era atual.
Por definição, um sistema dedicado à expansão ilimitada e à apropriação privada do valor excedente faz com que os proprietários do capital tenham um interesse profundo em confiscar o trabalho e os meios de produção das populações sujeitadas. A expropriação aumenta seus lucros ao reduzir os custos de produção de duas formas: por um lado, ao fornecer insumos baratos, como energia e matéria- prima; e, por outro, ao oferecer meios de subsistência de baixo custo, como alimentos e produtos têxteis, que permitem o pagamento de baixos salários. Assim, ao confiscar recursos e capacidades de sujeitos dependentes ou não livres, os capitalistas conseguem explorar de forma mais lucrativa os trabalhadores (duplamente) livres. Desse modo, as duas “ex” se entrelaçam. Por trás de Manchester está o Mississippi.
Dito tudo isso, a expropriação dos “outros” racializados constitui uma condição de fundo necessária para a exploração dos “trabalhadores”.
Primeiro, “acumulação primitiva” denota o processo sangrento pelo qual o capital se acumulou nos primórdios do sistema. 30 A expropriação, em contraste, designa um processo confiscatório continuado, essencial para sustentar a acumulação em um sistema propenso a crises. Em segundo lugar, Marx introduz a acumulação primitiva para explicar a gênese histórica da divisão de classes entre os trabalhadores desprovidos de propriedade e os proprietários capitalistas dos meios de produção.
Minha tese é de que as dinâmicas racializantes da sociedade capitalista estão cristalizadas no “marco” estrutural que distingue os alvos livres da exploração dos alvos dependentes da expropriação. Mas defender esse argumento exige uma mudança do foco “econômico” para o “político”, uma vez que apenas ao tematizar as ordens políticas da sociedade capitalista será possível compreender a constituição dessa distinção e, com ela, a invenção de “raça”.
A distinção entre expropriação e exploração é, ao mesmo tempo, econômica e política. Vistos pelo ponto de vista econômico, esses termos dão nome a mecanismos de acumulação de capital, formas analiticamente distintas, porém entrelaçadas, da expansão do valor. Vistos pela perspectiva política, os termos referem os modos de dominação— sobretudo com hierarquias de status que distinguem cidadãos e indivíduos detentores de direitos de povos sujeitados, escravos sem liberdade e membros dependentes de grupos subordinados.
a invenção política de sujeitos dependentes dentro do capitalismo sempre ultrapassou, no entanto, as fronteiras dos Estados. Por razões sistêmicas enraizadas nas lógicas entrelaçadas de rivalidade geopolítica e expansionismo econômico, Estados poderosos se mobilizaram para constituir sujeitos expropriáveis ainda mais longe, em zonas periféricas do sistema- mundo capitalista. Saqueando os rincões mais distantes do planeta, as potências coloniais europeias, e depois o Estado imperialista estadunidense, transformaram bilhões de pessoas nesses alvos podados de proteção política, prontos e disponíveis para o confisco. O número de sujeitos expropriáveis que esses Estados criaram excede e muito o número de trabalhadores- cidadãos que foram “emancipados” para a exploração.
a relação entre capitalismo e racismo não é apenas estrutural, como também histórica.
o capitalismo comercial ou mercantil entre o século xvi e o xviii. Trata- se da era que Marx tinha em mente quando cunhou o termo “acumulação primitiva”. Com essa expressão, o autor sinalizava que a principal força motriz da acumulação nessa fase do capitalismo não era a exploração, mas a expropriação. O mote era o confisco, expresso tanto nos cercamentos de terras no centro quanto na conquista, pilhagem e “caça comercial de peles negras” em toda a periferia, 33— ambos precedentes a ascensão da indústria moderna.
capitalismo mercantil deu lugar, no século xix, ao capitalismo colonial liberal. Nesse novo regime, as duas “ex” se tornaram mais equilibradas e interconectadas. Decerto, o confisco de terra e trabalho continuava acelerado, com a consolidação do domínio colonial ultramarino dos Estados europeus, enquanto os Estados Unidos expropriavam as populações originárias no próprio país e perpetuavam a “colônia interna” primeiro pelo prolongamento da escravidão racializada e, após a abolição, pela transformação de homens livres em escravos endividados através do sistema de meação de terras agrícolas. Agora, no entanto, a expropriação continuada na periferia se entrelaçou com a lucrativíssima exploração no centro. A novidade foi a ascensão da produção fabril em larga escala, que forjou o proletariado imaginado por Marx, subvertendo formas de vida tradicionais e desencadeando uma luta de classes generalizada.
A racialização se fortaleceu ainda mais com a aparente separação entre expropriação e exploração no regime colonial liberal. Nessa fase, as duas “ex” pareciam estar situadas em regiões distintas e atribuídas a populações diferentes— uma escravizada ou colonizada, outra (duplamente) livre. No entanto, na realidade, a divisão nunca foi tão delimitada assim, pois algumas indústrias extrativas empregavam pessoas sujeitadas no trabalho assalariado nas colônias, e somente uma minoria de trabalhadores explorados no centro capitalista conseguiu escapar totalmente da expropriação contínua.
O endividamento é o maior culpado aqui, pois as instituições financeiras globais pressionam os Estados a tramarem com investidores na canibalização da riqueza de populações indefesas.
encontramos no atual regime um novo entrelaçamento entre exploração e expropriação, e uma nova lógica de subjetivação política. No lugar da antiga separação nítida entre as pessoas sujeitadas e dependentes expropriáveis e os trabalhadores livres exploráveis, aparece um continuum. De um lado está a massa crescente de pessoas sujeitadas e expropriáveis indefesas; do outro, um número cada vez menor de cidadãos- trabalhadores, sujeitos “apenas” à exploração. No centro disso está uma nova figura, antes livre, mas profundamente vulnerável: o cidadão- trabalhador explorado e expropriado. Não mais restrito às populações periféricas e minorias raciais, essa nova figura está se tornando a regra.
Não obstante, o continuum entre expropriação e exploração permanece racializado. As pessoas não brancas ainda representam uma parcela desproporcional na ponta expropriativa do espectro, como observamos nos Estados Unidos. As populações negras, indígenas, latinas e asiáticas do país— a quem durante muito tempo foi negado crédito, mantendo- as confinadas em condições inferiores e segregadas de moradia, bem como recebendo remuneração insuficiente para conseguir constituir poupança— foram alvo sistemático de fornecedores de empréstimos de segunda linha [subprime loans] e, consequentemente, sofreram com os maiores índices de execuções de dívidas imobiliárias no país. Do mesmo modo, cidades e bairros onde residem minorias que passaram anos privadas de recursos públicos sofrem os maiores impactos do encerramento de atividades que geram empregos, afetando não só o mercado de trabalho, mas também a receita tributária e, portanto, o financiamento de escolas, hospitais e manutenção de infraestrutura básica— algo que, no limite, levou a desastres em lugares nos Estados Unidos como Flint, no estado de Michigan, e o bairro de Lower Ninth Ward, em Nova Orleans. Por fim, os homens negros, historicamente sujeitos a discriminação na aplicação de sentenças e penas mais duras de prisão, trabalhos forçados e violência tolerada socialmente (inclusive pelas mãos da política), são levados massivamente ao que teóricos críticos raciais chamaram de complexo industrial- prisional ao serem enjaulados em instituições carcerárias lotadas pela “guerra contra as drogas”, que mira na posse de pequenas quantidades de crack, e pelas taxas desproporcionais de desemprego. Apesar da mudança na articulação “ex- ex”, o racismo está vivo e passa bem no capitalismo financeirizado, que é um verdadeiro glutão enfiando castigos goela abaixo.
devemos perguntar qual poderia ser exatamente o sentido de capitalismo não racial nas atuais condições. Em uma interpretação, seria um regime em que, por um lado, as pessoas não brancas estariam representadas de modo proporcional nos altos comandos do sistema financeiro global e do poder político e, por outro, entre suas vítimas exploradas e expropriadas. Contemplar essa possibilidade não deve confortar muito as pessoas antirracistas, pois significaria a piora contínua das condições de vida da imensa maioria das populações não brancas, entre outras. Direcionado para a paridade dentro de uma desigualdade cada vez mais inflada, um capitalismo não racial desse tipo levaria, na melhor das hipóteses, a oportunidades iguais de canibalização em meio ao aumento da animosidade racial.
análise desenvolvida aqui sugere a urgência de uma transformação mais radical. Apesar das alegações dos neoliberais progressistas, não é possível derrotar o racismo com oportunidades iguais de canibalização nem, contrariando os liberais comuns, com reformas jurídicas. Do mesmo modo, em discordância com os nacionalistas negros, o antídoto não está nas zonas de empreendimento, no controle comunitário nem na autodeterminação. Também não é possível, como afirmam os socialistas tradicionais, emancipar as pessoas racializadas— e, com efeito, a população trabalhadora de qualquer cor— com um foco exclusivo na exploração. Pelo contrário, como vimos aqui, também é necessário mirar na expropriação com a qual a exploração está sistematicamente atrelada. É necessário, de fato, superar a articulação obstinada entre expropriação e exploração do capitalismo para transformar a matriz como um todo, erradicar as duas “ex” do capitalismo abolindo o sistema mais amplo que gera essa simbiose. Superar o racismo hoje exige a construção de alianças inter- raciais que tenham o objetivo de alcançar essa transformação. Embora estabelecê- las não seja um processo automático, resultado de uma mudança estrutural, elas podem ser construídas com esforço político permanente. A condição sine qua non para isso é uma perspectiva que destaque a simbiose entre exploração e expropriação no capitalismo financeirizado. Ao expor esse imbricamento mútuo, essa perspectiva sugere que nenhuma das “ex” pode ser superada de forma isolada. O destino das duas está atrelado, assim como o das populações que foram divididas de modo tão explícito no passado e agora se aproximam de modo tão incômodo. Hoje, quando os explorados são também os expropriados e vice- versa, talvez seja possível, finalmente, vislumbrar uma aliança entre eles. Talvez ao nublar a linha entre as duas “ex”, o capitalismo financeirizado esteja criando a base material para a abolição conjunta delas. Não obstante, cabe a nós agarrar a oportunidade e transformar uma possibilidade histórica em força histórica real de emancipação.
Enquanto o capital se alimenta da riqueza de populações racializadas, ele é também um devorador de cuidados. 38 Esse aspecto de sua natureza canibal se manifesta hoje na pobreza de tempo e exaustão social generalizada— experiências que têm uma base estrutural na realidade social. O fato é que nosso sistema social está exaurindo as energias necessárias para cuidar das famílias, manter as casas, sustentar comunidades, nutrir amizades, construir redes políticas e estabelecer solidariedades. Tratada com frequência como trabalho de cuidado, essas atividades são indispensáveis para a sociedade: elas repõem os seres humanos, tanto no cotidiano quanto no âmbito geracional, e ainda mantêm os vínculos sociais. Além disso, nas sociedades capitalistas, garantem o fornecimento de força de trabalho mercantilizada de onde o capital suga mais- valor. Sem esse trabalho de reprodução social, como vou denominá- lo, não haveria produção, nem lucro, nem capital; não haveria economia, nem cultura, nem Estado. Com efeito, é justo afirmar que nenhuma sociedade— capitalista ou não— que canibaliza sistematicamente a reprodução social consegue durar muito tempo. Ainda assim, é exatamente isto que a atual forma de capitalismo está fazendo: desviando os recursos emocionais e materiais que deveriam ser dedicados ao trabalho de cuidado para outras atividades não essenciais que engordam os cofres corporativos enquanto nos deixam à míngua. Disso resulta uma imensa crise, não apenas do cuidado, mas da reprodução social em seu sentido mais amplo.
O componente do “cuidado” é tão central para a crise mais ampla que nenhum outro pode ser bem compreendido se abstraído dele. No entanto, o inverso também se dá: a crise da reprodução social não existe em isolamento e não pode ser entendida por si só.
Proponho interpretar o atual estado de “calamidade do cuidado” como uma expressão aguda de uma contradição reprodutiva social inerente ao capitalismo. Essa formulação sugere duas ideias. Primeiro, as atuais tensões sobre o cuidado não são acidentais, mas têm raízes estruturais profundas em nossa atual ordem social, às quais me referi nos capítulos anteriores como capitalismo financeirizado. Não obstante— e esta é a segunda questão—, a presente crise da reprodução social indica que há algo podre não só na atual forma do sistema, como na sociedade capitalista per se. Não só o neoliberalismo, mas o próprio capitalismo precisa ser transformado. Meu argumento, portanto, é que cada forma da sociedade capitalista abriga uma profunda contradição social ou tendência à crise: por um lado, a reprodução social é uma condição de fundo necessária para a acumulação sustentada de capital; por outro, o ímpeto de acumulação ilimitada do capitalismo o leva a canibalizar as próprias atividades reprodutivas sociais de que depende. Essa contradição social do capitalismo está na raiz da nossa chamada crise do cuidado. Embora seja inerente ao capitalismo como tal, ela assume uma aparência diferente e distintiva em cada forma historicamente específica da sociedade capitalista. Os déficits do cuidado que vivenciamos hoje são a forma que essa contradição assume na atual fase financeirizada do desenvolvimento capitalista.
economia capitalista depende— pode- se dizer, vive à custa— de atividades de provimento, cuidado e interação que produzem e mantêm vínculos sociais, embora não atribua a elas valor monetizado e as trate como se fossem gratuitas. Chamada por diversos nomes, como “cuidado”, “trabalho afetivo” ou “subjetivação”, essa atividade forma os sujeitos humanos do capitalismo sustentando- os como seres naturais encarnados e, ao mesmo tempo, constituindo- os como seres sociais, formando o habitus e o ethos cultural no qual se movimentam. O trabalho de dar à luz e socializar a juventude é central para esse processo, assim como cuidar das pessoas idosas, manter as casas, construir comunidades e sustentar sentidos compartilhados, disposições afetivas e horizontes de valor que sustentam a cooperação social.
Nem o trabalho assalariado considerado produtivo nem o mais- valor extraído dele poderiam existir na ausência do trabalho de cuidado. É apenas graças ao trabalho doméstico, à criação dos filhos, à educação, ao cuidado afetivo e a uma variedade de atividades relacionadas que o capital obtém uma força de trabalho com qualidade e em quantidade adequada a suas necessidades. A reprodução social é precondição indispensável para a produção econômica em uma sociedade capitalista. 39
geral, as sociedades capitalistas separam a reprodução social da produção econômica, associando aquela às mulheres e ofuscando sua importância e valor. Contudo, paradoxalmente tornam suas economias oficiais dependentes dos mesmos processos de reprodução social cujo valor denegam. Essa relação peculiar de divisão- dependência- denegação é a receita para a desestabilização. Com efeito, essas quatro palavras iniciadas em D sintetizam uma contradição: por um lado, a produção econômica capitalista não é autossustentável, mas depende da reprodução social; por outro, seu ímpeto por acumulação ilimitada ameaça desestabilizar as próprias capacidades e os processos reprodutivos de que o capital— e o resto de nós— precisa. O efeito disso ao longo do tempo, como veremos, é o comprometimento periódico das condições sociais necessárias da economia capitalista.
Assim como as contradições econômicas destacadas por marxistas, tal contradição também fundamenta uma tendência à crise. Neste caso, contudo, o problema não está localizado “dentro” da economia capitalista, mas na margem que separa (e conecta) produção e reprodução.
assegurado. A separação das esferas se provou igualmente problemática.
Um estrato das elites esclarecidas passou a acreditar que o interesse do capital de extrair o máximo de lucro a curto prazo deveria ser subordinado às exigências de longo prazo para a acumulação sustentada ao longo do tempo. A criação do regime administrado pelo Estado foi uma questão de salvar o sistema capitalista de suas próprias propensões à autodesestabilização— e do espectro da revolução em uma era de mobilizações de massa. Produtividade e lucratividade exigiam o cultivo biopolítico de uma força de trabalho saudável e instruída, que tivesse interesse direto no sistema, em oposição a uma plebe maltrapilha e revolucionária. 53 O investimento público em saúde, educação, creches e aposentadorias, complementado pelo provimento corporativo, foi percebido como necessidade em um momento em que as relações capitalistas haviam penetrado a vida social a tal ponto que as classes trabalhadoras não possuíam mais os meios para se reproduzir por conta própria. Nessa conjuntura, a reprodução social precisou ser internalizada, trazida para dentro do domínio oficialmente administrado da ordem capitalista. Esse projeto se encaixou com a nova problemática da “demanda” econômica. Com o objetivo de mitigar os ciclos endêmicos de expansão e quebra do capitalismo, os reformistas econômicos buscaram garantir o crescimento contínuo permitindo que os trabalhadores do centro do capitalismo cumprissem uma dupla função como consumidores. Aceitando a sindicalização (que levou a salários mais altos) e gastos no setor público (que geraram empregos), os formuladores de políticas agora reiventavam a casa como um espaço privado para o consumo doméstico de objetos de uso cotidiano produzidos em massa. 54 Relacionando, de um lado, a linha de montagem ao consumo familiar da classe trabalhadora e, de outro, à reprodução apoiada pelo Estado, esse modelo fordista forjou uma nova síntese de mercadorização e proteção social— projetos que Polanyi havia considerado antitéticos. Mas foram sobretudo as classes trabalhadoras— mulheres e homens— que lideraram a luta pelo provimento público, e havia motivos para isso. Para elas, a questão era alcançar a participação plena na sociedade enquanto cidadãs democráticas e, portanto, com dignidade, direitos e respeitabilidade, além de segurança e bem- estar material— coisas que, compreendia- se, exigiam uma vida familiar estável. Assim, ao acolher a social- democracia, as classes trabalhadoras estavam também valorando a reprodução social contra o dinamismo desmedido da produção econômica. Com efeito, estavam elegendo a família, o país e a subjetividade contra a fábrica, o sistema e a máquina. Ao contrário da legislação protetiva do regime anterior, o arranjo capitalista de Estado foi resultado de uma conciliação de classes e representou um avanço democrático.
aspectos. Em todos esses sentidos, a social- democracia sacrificou a emancipação por uma aliança de proteção social e mercadorização, mesmo mitigando a contradição social do capitalismo durante várias décadas. Mas o regime do capitalismo de Estado começou a desmoronar— primeiro, politicamente, na década de 1960, quando a Nova Esquerda global irrompeu para contestar as exclusões imperiais, raciais e de gênero e o paternalismo burocrático promovidas em nome da emancipação. Depois, economicamente, nos anos 1970, quando a estagflação, a “crise da produtividade” e a queda das taxas de lucro na indústria estimularam os esforços neoliberais de soltar as amarras da mercadorização. Se essas duas partes unissem forças, o que seria sacrificado seria a proteção social.
Assim como no regime colonial liberal anterior, a ordem capitalista administrada pelo Estado se dissolveu em uma crise prolongada. Nos anos 1980, quem observasse com boa projeção de futuro poderia identificar o surgimento das linhas gerais de um novo regime, que se tornaria o capitalismo financeirizado da atualidade. Globalizante e neoliberal, esse regime promove o desinvestimento estatal e corporativo no bem- estar social e, ao mesmo tempo, recruta um imenso contingente de mulheres para a força de trabalho remunerado, externalizando o trabalho de cuidado para as famílias e comunidades e reduzindo sua capacidade de realizá- lo. Disso resulta uma nova organização dualizada da reprodução social, mercantilizada para quem tem condições de pagar por ela e privatizada para quem não tem, pois algumas das pessoas na segunda categoria oferecem trabalho de cuidado em troca de salários (baixos) para quem faz parte da primeira. Enquanto isso, o duplo golpe da crítica feminista e da desindustrialização tirou definitivamente toda a credibilidade do salário familiar. Aquele ideal social- democrata deu lugar à atual norma neoliberal da “família de dois provedores”. A maior força motriz desses desdobramentos— e característica definidora desse regime— é a nova centralidade do endividamento. Como veremos no capítulo 5, a dívida é o instrumento pelo qual as instituições financeiras globais pressionam os Estados para cortar gastos sociais, impor medidas de austeridade e, em geral, conspirar com investidores para extrair valor de populações indefesas.
é cada vez mais pelo endividamento que o capital agora canibaliza o trabalho, disciplina os Estados, transfere a riqueza da periferia para o centro e suga o valor dos lares, das famílias, das comunidades e da natureza. O efeito disso é a intensificação da contradição, inerente ao capitalismo, entre produção econômica e reprodução social. Enquanto o regime anterior fortaleceu os Estados para subordinarem os interesses de curto prazo das empresas privadas ao objetivo de longo prazo da acumulação sustentada, em parte ao estabilizar a reprodução por meio do provimento público, este regime autoriza o capital financeiro a disciplinar os Estados de acordo com os interesses imediatos de investidores privados, exigindo sobretudo desinvestimento público na área da reprodução social. E enquanto o regime anterior aliou mercadorização e proteção social contra a emancipação, este produziu uma configuração ainda mais perversa, na qual a emancipação se une à mercadorização para solapar a proteção social.
Um deles colocou uma parte ascendente dos defensores do livre- mercado determinados a promover a liberalização e globalização da economia capitalista contra os movimentos de trabalhadores e trabalhadoras em declínio nos países do centro.
outro conjunto de lutas colocou os “novos movimentos sociais” progressistas, que desafiavam as hierarquias de gênero, sexo, “raça”, etnia e religião, contra populações que buscavam defender mundos da vida estabelecidos e privilégios (modestos) agora ameaçados pelo “cosmopolitismo” da nova economia. Da colisão desses dois conjuntos de lutas surgiu um resultado surpreendente: um neoliberalismo progressista, que celebra a “diversidade”, a meritocracia e a “emancipação” enquanto desmantela proteções sociais e re- externaliza a reprodução social. Disso decorre não só o abandono de populações indefesas às predações do capital, como também a redefinição da emancipação em termos mercadológicos. 61
o imaginário dominante aqui é individualista liberal e igualitário de gênero: as mulheres devem ser iguais aos homens em todas as esferas, merecedoras de oportunidades iguais para concretizar seus talentos, incluindo— talvez especialmente— na esfera da produção. A reprodução, em contrapartida, aparece como um resíduo retrógrado,
Apesar ou talvez por causa de sua aura feminista, essa ideologia liberal sintetiza a forma atual da contradição social do capitalismo, que assume nova intensidade. Além de diminuir o provimento público e recrutar as mulheres para o trabalho assalariado, o capitalismo financeirizado reduziu os salários reais, aumentando as jornadas de trabalho remunerado necessárias para sustentar uma família e levando a uma corrida desesperada para transferir o trabalho de cuidado para outras pessoas. 62 Para suprir a escassez de cuidado, o regime importa trabalhadoras migrantes dos países mais pobres para os mais ricos. Tipicamente, são as mulheres racializadas, muitas vezes de zonas rurais de regiões pobres, que assumem o trabalho reprodutivo e de cuidado antes realizado pelas mulheres mais privilegiadas. Mas, para isso, as migrantes precisam transferir suas próprias responsabilidades familiares e comunitárias para outras cuidadoras ainda mais pobres que, por sua vez, precisam fazer o mesmo— e assim por diante, em cadeias globais de cuidado cada vez maiores.
As lutas de fronteira em torno da reprodução social são tão centrais para a atual conjuntura quanto as lutas de classes (definidas de forma estrita) em torno da produção econômica. Elas respondem, acima de tudo, a uma “crise do cuidado” enraizada na dinâmica estrutural do capitalismo financeirizado. Globalizado e impulsionado pelo endividamento, esse capitalismo canibaliza sistematicamente as capacidades disponíveis para a sustentação de conexões sociais. Proclamando o novo ideal da família com dois provedores de renda, recupera movimentos por emancipação que se unem aos proponentes da mercadorização para se opor a quem toma partido da proteção social, agora de forma cada vez mais ressentida e chauvinista.
Mas ao preparar o terreno que nos permite fazê- las, busquei elucidar os alicerces estruturais e históricos da atual conjuntura. Sugeri, especificamente, que as raízes da “crise do cuidado” da atualidade estão na contradição social inerente do capitalismo— ou melhor, na forma aguda que essa contradição assume hoje, no capitalismo financeirizado. Se essa análise estiver correta, essa crise não será resolvida mexendo- se na política social. O caminho para sua resolução só pode passar por uma profunda transformação estrutural dessa ordem social. É necessário, acima de tudo, superar a subjugação gananciosa da reprodução à produção no capitalismo financeirizado— mas, desta vez, sem sacrificar nem a emancipação e nem a proteção social. E isso significa reinventar a distinção produção- reprodução e reimaginar a ordem de gênero.
resta saber se e como conseguiremos vislumbrar uma nova ordem social que cultive a reprodução social sem canibalizar a natureza.
Nessa conjuntura, proteger o planeta exige a construção de uma contra- hegemonia. Em outras palavras, é necessário solucionar a atual cacofonia de opiniões para chegar a uma lógica que possa orientar um projeto de transformação amplamente compartilhado.
Mas a nova lógica deve evitar o “ecologismo” reducionista. Longe de tratar o aquecimento global como um trunfo que passa por cima de todo o resto, é preciso localizar as dinâmicas sociais subjacentes a essa ameaça que também impulsionam outras partes da crise da atualidade. Será apenas enfrentando todas as grandes facetas dessa crise— tanto “ambientais” quanto “não ambientais”— e expondo as conexões entre elas que poderemos vislumbrar um bloco contra- hegemônico que apoie um projeto comum e tenha peso político para efetivamente levá- lo adiante.
caminhos levam a uma ideia— a saber, ao capitalismo. O capitalismo, no sentido definido nos capítulos anteriores e ampliado neste, representa o fator sócio- histórico que impulsiona as mudanças climáticas e, logo, a principal dinâmica institucionalizada que deve ser desmantelada para combatê- las. Mas o capitalismo, assim definido, também está profundamente implicado em formas de injustiça social de aparência não ecológica, da exploração de classe à opressão racial- imperial e à dominação de gênero e sexo. E o capitalismo também é central nos impasses sociais que aparentam não ser ecológicos: nas crises do cuidado e da reprodução social; do setor financeiro, das cadeias de suprimento, dos salários e do trabalho; da governança e da desdemocratização.
anticapitalismo pode— e com efeito deve— se tornar o motivo organizador central de uma nova lógica. Expondo as relações entre diversos aspectos da injustiça e da irracionalidade, ele representa a chave para o desenvolvimento de um poderoso projeto contra- hegemônico de transformação ecossocial.
O que significa afirmar que o capitalismo é o principal fator sócio- histórico que impulsiona o aquecimento global? Em um nível, esse argumento é empírico, uma afirmação de causa e efeito. Ao contrário das usuais referências vagas a “mudanças climáticas antropogênicas”, a culpa é atribuída não à “humanidade” em geral, mas à classe de empresários que, movidos pelo lucro, arquitetaram o sistema de produção e transporte por combustíveis fósseis liberando uma enxurrada de gases do efeito estufa na atmosfera. Trata- se de um argumento que defenderei empiricamente mais adiante, quando passar à parte histórica de minha argumentação.
dizer o mesmo de sociedades capitalistas. Elas são distintas dos outros sistemas sociais conhecidos por imbuírem uma profunda tendência à crise ecológica em seu próprio cerne.
precisamos revisitar o conceito de capitalismo. Como vimos nos capítulos anteriores, o capitalismo não é um sistema econômico, mas algo maior. Mais do que uma forma de organizar a produção e a troca econômica, é também uma forma de organizar a relação de produção e troca com suas condições não econômicas de possibilidade. Compreende- se bem em muitos setores que as sociedades capitalistas institucionalizam um campo econômico dedicado— o campo de uma abstração conhecida como “valor”—, onde as mercadorias são produzidas em meios de produção privados com a exploração de trabalhadores e trabalhadoras
devemos entender o capitalismo de modo mais amplo: como uma ordem social institucionalizada que compreende não somente a “economia”, mas também as atividades, as relações e os processos definidos como não econômicos que possibilitam a economia.
expropriação também serviu como método para o capital acessar energia e matéria- prima a baixo custo, quando não de graça. O sistema se desenvolve, em parte, anexando fatias da natureza sem pagar por sua reprodução. No entanto, ao se apropriar da natureza, o capital expropria, ao mesmo tempo, as comunidades humanas para as quais a matéria confiscada e as cercanias conspurcadas constituem habitat, meios de vida e matéria base de sua reprodução social.
Começo pelo capitalismo mercantil e a questão energética. Nessa fase, assim como antes dela, o vento movia veleiros enquanto moinhos de vento e água moíam grãos em algumas localidades. Mas a agricultura e a manufatura funcionavam principalmente graças ao músculo animal— humano e não humano (bovino, equino, etc.), como já acontecia há milênios. Sendo nesse sentido uma continuação das sociedades pré- capitalistas, o capitalismo mercantil era o que o historiador ambiental j. r. McNeill chama de regime “somático”: a conversão de energia química em mecânica ocorria sobretudo dentro do corpo de seres vivos ao digerirem alimentos, originados na biomassa. 72 E isso significava que, assim como em eras anteriores, a principal forma de aumentar a energia disponível era por meio da conquista. Apenas pela anexação de terras e convocação de mais ofertas de mão de obra os poderes capitalistas mercantis podiam aumentar suas forças de produção.
Só agora o estudo teórico e histórico do ecoimperialismo começa a estimar a dimensão dessa transferência de custo82, revelando, ao mesmo tempo, a conexão próxima entre anticolonialismo e protoambientalismo. As lutas rurais contra a predação colonial liberal eram também “ecologismos dos pobres”, lutas por justiça ambiental avant la lettre. 83 Eram também lutas pelo sentido e valor da natureza, pois os imperialistas europeus criados em concepções científicas distanciadas buscavam subjugar comunidades que não faziam uma distinção nítida entre natureza e cultura.
É claro que o principal legado do capitalismo colonial liberal não foi o ambientalismo, mas, sem dúvida, a fatídica guinada para a energia exossomática, que transformou o mundo e “liberou” os estoques fossilizados de carbono que tinham passado milênios sendo sequestrados em segurança para debaixo da crosta terrestre. Esse legado, que nos trouxe o aquecimento global, foi acolhido e ampliado na era seguinte do capitalismo administrado pelo Estado, conforme uma nova hegemonia global arquitetava uma ampla expansão das emissões de gases do efeito estufa. Os Estados Unidos, tendo suplantado o Reino Unido, construíram um novo complexo industrial exossomático em torno do motor de combustão interna e do petróleo refinado. O resultado disso foi a era do automóvel: ícone da liberdade consumista, catalisadora da construção de rodovias, possibilitadora da suburbanização, despejadora de dióxido de carbono e remodeladora da geopolítica. Assim, a “democracia do carbono” alimentada a carvão deu lugar a uma variante alimentada pelo petróleo, cortesia estadunidense. 86
Até aqui, apresentei argumentos estruturais e reflexões históricas para apoiar duas proposições: a primeira, de que o capitalismo abriga uma contradição ecológica profunda que o inclina, de forma não acidental, à crise ambiental; a segunda, de que essas dinâmicas estão intricadas com outras tendências a crises “não ambientais” e não podem ser resolvidas se isoladas delas. As implicações políticas são conceitualmente simples, ainda que desafiadoras na prática: uma ecopolítica capaz de salvar o planeta deve ser tanto anticapitalista quanto transambiental.
um impasse socioecológico originado no centro provoca uma rodada de pilhagem na periferia (incluindo na periferia do centro), que mira na riqueza natural de populações privadas dos meios políticos para se defender. Em cada caso, também, a solução envolve a conjuração e apropriação de uma nova natureza histórica, antes uma impureza que, de repente, torna- se ouro— uma mercadoria mundial indispensável, convenientemente vista como algo sem dono, disponível e pronta para ser tomada. O que se segue em cada caso, por fim, são efeitos descontrolados que desencadeiam novos impasses socioecológicos, provocando mais iterações do ciclo. E assim por diante.
Falar de uma crise histórica não é, no entanto, proclamar um colapso iminente. Também não se descarta o advento de um novo regime de acumulação que pode administrar provisoriamente ou adiar temporariamente a crise atual. A verdade é que não podemos saber, com certeza, se o capitalismo tem mais cartas na sua engenhosíssima manga capazes de protelar o aquecimento global, ao menos por algum tempo; nem, se for o caso, por quanto tempo. Também não sabemos se os partidários do sistema poderiam inventar, vender e implantar esses truques com agilidade suficiente, considerando que eles— e nós— estão em uma corrida pelo tempo com a Natureza i. Mas o seguinte é bem nítido: qualquer coisa mais que um quebra- galho temporário exigiria uma reordenação profunda da articulação entre economia e natureza com uma imensa restrição— ou abolição total— das prerrogativas do capital.
uma ecopolítica que busque evitar a catástrofe precisa ser anticapitalista e transambiental. Se o raciocínio para o primeiro desses adjetivos já está evidente, a justificativa para o segundo está na relação próxima, demonstrada aqui, entre depredação ecológica e outras formas de disfunção e dominação inerentes à sociedade capitalista. Considere, primeiro, as ligações internas entre espoliação natural e expropriação racial/ imperial. Ao contrário das alegações de terra nullius, as parcelas de natureza que o capital apropria são quase sempre as condições de vida de algum grupo humano: seu habitat e espaço de interação social carregado de sentido; seus meios de vida e a base material de sua reprodução social. Além disso, os grupos humanos na mira do capital são quase sempre aqueles que foram privados do poder de se defender e muitas vezes aqueles relegados ao lado errado da linha de cor global. Esse aspecto foi evidenciado inúmeras vezes ao longo da sequência de regimes e mostra, por um lado, que as questões ecológicas não podem ser separadas das questões de poder político e, por outro, daquelas que se referem a opressão racial, dominação imperial e despossessão e genocídio indígena.
elucidar de onde vieram e para onde podem ir juntas. O anticapitalismo é a peça que dá direção política e força crítica para o transambientalismo. Enquanto este último abre a ecopolítica para um mundo mais amplo, o primeiro treina o foco contra o principal inimigo. O anticapitalismo é, desse modo, o que determina a linha necessária para cada bloco histórico entre “nós” e “eles”. Desmascarando o comércio de carbono como o golpe que é, impulsiona cada corrente potencialmente emancipatória da ecopolítica a se desfiliar publicamente do “capitalismo verde”. Impulsiona cada corrente também a prestar atenção ao seu próprio calcanhar de Aquiles— sua inclinação a evitar confrontar o capital—, seja buscando uma desvinculação (ilusória), uma conciliação de classes (assimétrica) ou uma paridade (trágica) na extrema vulnerabilidade. Além disso, ao insistir no inimigo comum, a peça do anticapitalismo no quebra- cabeça indica um caminho que partidários e partidárias do decrescimento, da justiça ambiental e do Green New Deal podem percorrer juntos, mesmo que agora não consigam vislumbrar— quanto mais chegar a um acordo sobre— seu destino exato. Ainda resta saber, naturalmente, se algum destino será de fato alcançado, ou se o planeta continuará aquecendo até o ponto de ebulição. O melhor que podemos esperar para evitar esse destino é, repito, construir um bloco contra- hegemônico que seja transambiental e transcapitalista. Para onde esse bloco deve apontar para nos guiar ainda é uma questão obscura. Mas se eu tivesse que dar um nome ao objetivo, optaria por “ecossocialismo”.
Um exemplo, explorado no capítulo 3, é a contradição da reprodução social da sociedade capitalista. O segredo da acumulação já foi localizado corretamente por marxistas como o “terreno oculto” da produção da mercadoria, onde o capital explora o trabalho assalariado. Mas nem sempre esses autores tiveram uma compreensão completa de que esse processo depende do terreno ainda mais oculto do trabalho de cuidado não assalariado, em geral realizado por mulheres, que forma e repõe os sujeitos humanos que constituem a “mão de obra”. Mesmo tendo uma dependência profunda dessas atividades de reprodução social, o capital ainda assim não concede a elas nenhum valor (monetizado), tratando- as como gratuitas, de disponibilidade infinita e fazendo pouco ou nenhum esforço para sustentá- las. Sem controle, portanto, e dado seu ímpeto implacável de acumulação ilimitada, o capitalismo corre sempre o risco de desestabilizar os mesmos processos de reprodução social de que depende. Outro exemplo, formulado no capítulo 4, é a sua contradição ecológica. Por um lado, a acumulação do capital depende da natureza— tanto como “fonte”, que fornece os insumos materiais e energéticos para a produção de mercadorias, quanto como “escoadouro” para absorver os resíduos desta última. Por outro lado, o capital denega os custos ecológicos que gera, presumindo, com efeito, que a natureza pode se repor de forma autônoma e infinita. Também nessas circunstâncias a serpente tende a devorar a própria cauda, canibalizando as condições naturais de que depende. Nos dois casos, uma contradição entre campos sustenta uma predisposição a um tipo de crise capitalista que transcende a econômica: a crise da reprodução social, no primeiro, e crise ecológica, no segundo.
entre os imperativos da acumulação de capital e a manutenção dos poderes públicos de que a acumulação também depende. O nó do problema pode ser colocado da seguinte forma: o poder público legítimo e eficaz é uma condição de possibilidade para a acumulação sustentada do capital; no entanto, o ímpeto de acumulação infinita do capital tende, ao longo do tempo, a desestabilizar os mesmos poderes públicos de que depende. Essa contradição, como argumentarei aqui, está na raiz de nossa atual crise democrática. Mas, como também sustentarei, essa crise está inextricavelmente intricada com os outros impasses do sistema e não pode ser resolvida por si só.
capital depende de poderes públicos para estabelecer e fazer valer suas normas constitutivas. Afinal, a acumulação seria inconcebível na ausência de um marco legal que sustentasse a iniciativa privada e a troca mercadológica. Ela tem uma dependência crucial dos poderes públicos para garantir direitos de propriedade, fazer cumprir contratos e julgar controvérsias; reprimir rebeliões, manter a ordem e administrar a divergência; sustentar os regimes monetários que constituem a força vital do capital; realizar esforços para prevenir ou gerir crises; e sistematizar e impor tanto hierarquias de status oficiais, como aquelas que distinguem cidadãos de “estrangeiros”, quanto aquelas não oficiais, como as que distinguem trabalhadores livres explorados, autorizados a vender sua força de trabalho dos “outros” dependentes expropriáveis, cujos ativos e pessoas podem simplesmente ser confiscados.
Constitutiva do capitalismo como ordem social institucionalizada, essa separação impõe limitações severas ao escopo do político dentro dessa ordem. Delegando amplos aspectos da vida social ao domínio do “mercado” (na verdade, de grandes corporações), tal separação declara que esses aspectos estão fora dos limites da tomada de decisões democráticas, da ação coletiva e do controle público. O arranjo nos priva da capacidade de decidir coletivamente o que e quanto queremos produzir, com qual base energética e por meio de quais tipos de relações sociais. Também nos priva da capacidade de determinar como queremos utilizar o excedente social que produzimos coletivamente; como queremos nos relacionar com a natureza e as futuras gerações; como queremos organizar o trabalho da reprodução social e sua relação com aquela da produção. Assim, graças a sua estrutura inerente, o capitalismo é fundamentalmente antidemocrático. Mesmo no melhor dos casos, a democracia em uma sociedade capitalista deve ser forçosamente fraca e limitada.
praticamente desde seu início esse regime foi assolado pela instabilidade, tanto econômica quanto política. Nos países democratizantes do centro, a igualdade política manteve uma relação tensa com a desigualdade socioeconômica; e os direitos políticos ampliados ali incomodavam as mentes de alguns com a sujeição brutal que acontecia na periferia. Igualmente corrosiva foi a contradição, diagnosticada pela pensadora política Hannah Arendt, entre o impulso ilimitado e transterritorializante da lógica do capitalismo colonial liberal e o caráter limitado e territorialmente restrito de suas políticas democráticas. 104 Portanto, não surpreende, como destacou Karl Polanyi em A grande transformação, que essa configuração economia- política tenha provado ser dominada por crises crônicas. Pelo lado econômico, o capitalismo “liberal” enfrentou crises, colapsos e pânicos periódicos; pelo lado político, gerou intensas lutas de classes, lutas de fronteira e revoluções— tudo incitando e sendo incitado pelo caos financeiro internacional, por rebeliões anticoloniais e guerras anti- imperialistas.
o capitalismo administrado pelo Estado também enfrentou suas próprias contradições, tanto econômicas quanto políticas. O aumento dos salários e a generalização dos ganhos de produtividade se combinaram com uma redução nas taxas de lucro da produção no centro, provocando novos esforços por parte do capital para libertar as forças do mercado da regulação política.
De modo geral, o capitalismo financeirizado é a era da “governança sem governo”— ou seja, a era da dominação sem a dissimulação do consentimento. Nesse regime, não são os Estados, mas as estruturas transnacionais de governança, como a União Europeia, a Organização Mundial do Comércio, o nafta e os trips, que criam a maioria das regras levadas a cabo à força e que hoje regem imensas parcelas da interação social em todo o mundo. Sem responder a ninguém e atuando de forma descomunal pelos interesses do capital, esses órgãos estão “constitucionalizando” as noções neoliberais de “livre- comércio” e “propriedade intelectual”, inculcando- as no regime global e se antecipando para suplantar a legislação trabalhista e ambiental democrática. Por fim, esse regime promoveu a captura do poder público pelo poder privado (corporativo) com uma variedade de meios ao mesmo tempo em que colonizou o anterior internamente, moldando seu modus operandi a partir daquele das empresas privadas.
É certo que essa dinâmica deverá se intensificar até alguém puxar a cortina e expor a farsa. E é exatamente isso que a oposição progressista convencional não conseguiu fazer. Longe de desmascarar os poderes atrás da cortina, as correntes dominantes da “resistência” estão há muito entrelaçadas com eles. Esse é o caso das alas meritocráticas liberais de movimentos sociais de popularidade, como o feminismo, o antirracismo, os direitos lgbtq + e o ambientalismo. Operando na hegemonia liberal, há anos esses grupos funcionam como sócios minoritários de um bloco progressista neoliberal que também inclui setores “de pensamento vanguardista” do capital global (ti, setor financeiro, mídia, entretenimento). Assim, os progressistas também serviram como frontmen, embora de modo diferente: lançando uma aparência de carisma emancipatório sobre a economia política predatória do neoliberalismo. O resultado disso— que não haja dúvida— ficou longe de ser emancipatório. Não foi “só” que essa aliança profana arruinou as condições de vida da imensa maioria e, assim, criou o solo que cultivou a direita. Além disso, ela associou o feminismo, o antirracismo etc. ao neoliberalismo, garantindo que, quando a barragem finalmente rompesse e as massas da população rejeitassem este último, grande parte dela também rejeitaria aqueles primeiros. E é por isso que o principal beneficiário, ao menos até aqui, foi o populismo da direita reacionária. Também é por isso que estamos agora em um impasse político, como presas de uma batalha de distração fraudulenta entre dois grupos de frontmen rivais, um retrógrado, outro progressista, enquanto os poderes atrás da cortina riem no caminho até o banco.
Longe de desmascarar os poderes atrás da cortina, as correntes dominantes da “resistência” estão há muito entrelaçadas com eles. Esse é o caso das alas meritocráticas liberais de movimentos sociais de popularidade, como o feminismo, o antirracismo, os direitos lgbtq + e o ambientalismo. Operando na hegemonia liberal, há anos esses grupos funcionam como sócios minoritários de um bloco progressista neoliberal que também inclui setores “de pensamento vanguardista” do capital global (ti, setor financeiro, mídia, entretenimento). Assim, os progressistas também serviram como frontmen, embora de modo diferente: lançando uma aparência de carisma emancipatório sobre a economia política predatória do neoliberalismo. O resultado disso— que não haja dúvida— ficou longe de ser emancipatório. Não foi “só” que essa aliança profana arruinou as condições de vida da imensa maioria e, assim, criou o solo que cultivou a direita. Além disso, ela associou o feminismo, o antirracismo etc. ao neoliberalismo, garantindo que, quando a barragem finalmente rompesse e as massas da população rejeitassem este último, grande parte dela também rejeitaria aqueles primeiros. E é por isso que o principal beneficiário, ao menos até aqui, foi o populismo da direita reacionária. Também é por isso que estamos agora em um impasse político, como presas de uma batalha de distração fraudulenta entre dois grupos de frontmen rivais, um retrógrado, outro progressista, enquanto os poderes atrás da cortina riem no caminho até o banco.
Na ausência de novos realinhamentos, enfrentamos um terreno agitado sem bloco dominante hegemônico de ampla legitimidade nem qualquer adversário contra- hegemônico plausível evidente. Nessa situação, o cenário mais provável a curto prazo apresenta uma série de movimentos pendulares, em que os governos oscilam de um lado a outro entre o abertamente neoliberal (progressista ou retrógrado, favorável à diversidade ou excludente, liberal democrático ou protofascista) e o dito antineoliberal (populista de esquerda ou de direita, social- democrata ou comunitarista), e onde a combinação precisa será determinada em cada caso por especificidades nacionais.
quem o sucederá na construção de uma contra- hegemonia viável, e com qual base? Quem, em outras palavras, guiará o processo de transformação social, no interesse de quem e para qual finalidade?
resposta depende, em parte, de como compreendemos a crise atual. Se ficarmos nas interpretações politicistas conhecidas, faremos uma leitura das agruras da democracia como uma espécie isolada de problema político. Atribuiremos valores morais à necessidade de civilidade, bipartidarismo e respeito à verdade e, ao mesmo tempo, ignoraremos as profundas fontes estruturais do problema. Navegaremos magnânimos sobre as preocupações dos “deploráveis” incivilizados, desconsideraremos as reivindicações daquelas massas críticas ao redor do planeta que estão rejeitando o neoliberalismo e exigindo mudanças fundamentais. Ao não reconhecer suas queixas legítimas (por mais equivocadas que sejam suas interpretações e orientações), nós nos tornaremos irrelevantes na construção de uma contra- hegemonia na luta
A alternativa, como esbocei aqui, é ver as agruras atuais da democracia como expressões de contradições profundas inculcadas na estrutura institucional do capitalismo financeirizado— ou seja, como um componente de uma crise geral turbulenta de nossa ordem social. Afora suas forças substantivas, essa interpretação tem ainda o mérito de oferecer algum direcionamento prático. Apontando a direção correta para nós, ela nos desafia a arrancar a cortina, identificar o verdadeiro culpado e desmantelar a ordem antidemocrática disfuncional que é o capitalismo.
o “socialismo” também está de volta!
A concepção ampliada de capitalismo delineada neles implica que precisamos de uma concepção ampliada de socialismo também. Afinal, uma vez abandonada a visão de capitalismo como uma economia, não podemos mais compreender o socialismo como um sistema econômico alternativo. Se o capital está programado para canibalizar os apoios “não econômicos” da produção de mercadorias, então uma alternativa desejável deve ir além de socializar a propriedade dos meios de produção. Para além desse desiderato— que eu apoio de todo o coração—, ela também deve transformar a relação da produção com suas condições de possibilidade de fundo: a saber, a reprodução social, o poder público, a natureza não humana e as formas de riqueza que estão fora dos circuitos oficiais do capital, mas ainda a seu alcance. Em outras palavras, como explicarei, um socialismo para nosso tempo deve superar não apenas a exploração do trabalho assalariado pelo capital, mas também seu parasitismo sobre o trabalho de cuidado não remunerado, os poderes públicos e as riquezas expropriadas dos povos sujeitados e racializados e da natureza não humana.
O socialismo, afinal, não deve ser um “mero dever” ou sonho utópico. Se vale a pena discuti- lo agora, é porque ele sintetiza possibilidades reais historicamente emergentes: potenciais para a liberdade, o bem- estar e a felicidade humana que o capitalismo trouxe para perto do alcance, mas não pode realizar.
o capitalismo como uma ordem social institucionalizada que inclui quatro condições não econômicas para a possibilidade de uma economia capitalista. A primeira, formulada no capítulo 2, é um grande fundo de riqueza expropriada de povos subjugados, sobretudo racializados, consistindo, acima de tudo, em terra, recursos naturais e trabalho dependente mal remunerado ou não remunerado.
Uma segunda precondição não econômica para uma economia capitalista foi exposta no capítulo 3: a saber, um fundo considerável de trabalho não remunerado e mal remunerado dedicado à reprodução social, em sua maioria realizado por mulheres. Esse trabalho de cuidado, que “faz” seres humanos, é indispensável para o que o sistema chama de produção, que faz coisas para produzir lucro.
Uma terceira precondição não econômica para a economia capitalista, discutida no capítulo 4, é um grande fundo de insumos gratuitos ou muito baratos advindos da natureza não humana.
capital trata a natureza como um depósito de tesouros de que pode se servir livremente ad infinitum e que não precisa repor nem reparar.
resposta heterodoxa para nossa pergunta inicial— o que é o capitalismo? O capitalismo não é uma economia, mas um tipo de sociedade em que uma arena de atividades e relações economicizadas é demarcada e separada de outras zonas não economicizadas, das quais aquelas primeiras dependem, mas denegam.
Primeiro, identificam a injustiça central do sistema na exploração, pelo capital, da classe de trabalhadores e trabalhadoras livres sem propriedade.
segundo lugar, na visão estreita a principal irracionalidade do capitalismo é sua tendência intrínseca à crise econômica. Um sistema econômico orientado à acumulação ilimitada de mais- valor, apropriado de forma privada por empresas que visam o lucro é inerentemente autodesestabilizante.
visão estreita propõe que o capitalismo é profunda e constitutivamente antidemocrático.
a visão do capitalismo como canibal revela um catálogo ampliado de injustiças. Longe de habitar exclusivamente dentro da economia do sistema, elas estão enraizadas nas relações entre a economia capitalista e suas condições não econômicas de possibilidade.
as sociedades capitalistas instituem uma divisão estrutural entre trabalhadores e trabalhadoras (duplamente) livres, que podem trocar sua força de trabalho pelos custos de sua reprodução, e os “outros” dependentes, cujos indivíduos,
as sociedades capitalistas instituem uma divisão profunda entre seres humanos e natureza não humana, que deixam de pertencer ao mesmo universo ontológico. Reduzida a fonte e escoadouro, a natureza não humana fica aberta à brutalidade do extrativismo e da instrumentalização.
Assim, de modo geral, uma visão ampliada de sociedade capitalista visibiliza um catálogo ampliado de injustiças estruturais, que inclui a exploração de classe, mas vai muito além dela. Uma alternativa socialista deve corrigir essas outras injustiças também. Longe de “simplesmente” transformar a organização da produção econômica, deve também transformar a relação desta com a reprodução social e, com ela, as ordens sexual e de gênero. Do mesmo modo, deve também eliminar o parasitismo do capital contra a natureza e sua expropriação da riqueza de povos subjugados e, com isso, a opressão racial- imperial. Em suma, se é para o socialismo corrigir as injustiças do capitalismo, deve- se transformar não “apenas” a economia capitalista, mas toda a ordem institucionalizada que constitui a sociedade capitalista.
Há, primeiro, uma tendência sistêmica de canibalizar a reprodução social e, portanto, provocar crises do cuidado.
A atual forma financeirizada da sociedade capitalista está gerando exatamente uma crise dessas hoje, ao exigir a redução dos custos da provisão pública de serviços sociais e, ao mesmo tempo, o aumento das jornadas de trabalho assalariado por família, incluindo das mulheres.
visão ampliada do capitalismo expõe uma tendência estrutural à crise política.
a visão ampliada nos mostra que o capitalismo abriga múltiplas tendências à crise para além da econômica. Como explicado no capítulo 5, acompanho Karl Polanyi (e James O’Connor) na compreensão dessas tendências como contradições “entre campos”, alojadas nas juntas que separam— e conectam— a economia capitalista e suas condições não econômicas de possibilidade de fundo. Atrelado à lógica dos quatro Ds, que expliquei nos capítulos anteriores, o capital apresenta uma tendência intrínseca de corroer, destruir e exaurir— mas, de qualquer modo, desestabilizar— suas próprias pressuposições. Assim como o Ouroboros, devora a própria cauda. A autocanibalização também faz parte do que há de errado na sociedade capitalista e do que o socialismo precisa superar.
Os investidores determinados a alcançar a acumulação máxima tomam essas decisões pelas nossas costas. Assim, longe de se canibalizar sozinho, o capitalismo também nos canibaliza devorando nossa liberdade coletiva de decidir em conjunto como vamos viver. Para superar essa forma de canibalização, o socialismo deve ampliar o escopo do autogoverno político democrático para muito além de seus atuais limites esquálidos.
Se o socialismo tem o objetivo de corrigir todos os males do capitalismo, a empreitada é grande. É preciso inventar uma nova ordem social que supere não “apenas” a dominação de classe, mas também as assimetrias de sexo e gênero, a opressão imperial, étnica, racial e a dominação política em todos os sentidos. Do mesmo modo, deve desinstitucionalizar múltiplas tendências de crise: não “só” a econômica e financeira, mas também a ecológica, a da reprodução social e a política. Por fim, um socialismo para o século xxi deve alargar amplamente o alcance da democracia— e não “só” democratizando a tomada de decisões dentro da zona “política” predefinida. Mais fundamentalmente, deve democratizar a própria definição e demarcação, os próprios enquadramentos que constituem “o político”.
Em vez de se concentrar apenas de um lado, na organização interna da economia (ou, enfim, da natureza, da família ou do Estado), as pessoas socialistas precisam pensar sobre a relação da economia com suas condições de possibilidade de fundo: a reprodução social, a natureza não humana, as formas não capitalizadas de riqueza e o poder público. Se o socialismo deve superar todas as formas institucionalizadas da irracionalidade, da injustiça e da ausência de liberdade capitalista, deve reimaginar as relações entre produção e reprodução, sociedade e natureza, entre o econômico e o político.
Ao passo que as sociedades capitalistas subordinam os imperativos da reprodução ecológica, política e social àqueles da produção de mercadorias— ela em si orientada à acumulação—, os e as socialistas precisam colocar as coisas do lado certo: estabelecer o cuidado das pessoas, a proteção da natureza e o autogoverno democrático como as maiores prioridades da sociedade, acima da eficiência e do crescimento. Com efeito, o socialismo deve colocar diretamente em primeiro plano essas questões que o capital relega a seu plano de fundo denegado.
o que o capitalismo decidiu para nós pelas nossas costas deve agora ser decidido por nós em decisões democráticas tomadas pelo coletivo. Portanto, nós é que devemos nos engajar no que teóricos e teóricas do direito chamam de “reconfiguração de domínios” (“ redomaining”): redesenhar as fronteiras que demarcam as arenas sociais e decidir o que incluir dentro de seus limites.
Pode chamar de “esquema pré- pago”. Evitando todas as formas de parasitismo e da chamada acumulação primitiva, o socialismo do século xxi deve garantir a sustentabilidade de todas aquelas condições de produção que o capitalismo destruiu de forma tão insensível. Em outras palavras: uma sociedade socialista deve se encarregar de reabastecer, reparar e repor toda a riqueza que utiliza na produção e na reprodução. Primeiro, deve reabastecer o trabalho que produz valores de uso (incluindo o trabalho de cuidado que sustenta as pessoas), bem como o trabalho que produz mercadorias. Além disso, deve repor toda a riqueza que toma “de fora”— dos povos e sociedades periféricos e também da natureza não humana. Por fim, deve reabastecer as capacidades políticas e os bens públicos de que se vale para atender outras necessidades. Em outras palavras: não deve haver parasitismo do tipo que o capitalismo ao mesmo tempo incentiva e denega.
Uma sociedade socialista deve democratizar o controle sobre o excedente social. Deve distribuir o excedente democraticamente, decidindo, de forma coletiva, exatamente o que fazer com as capacidades e recursos que existem em excesso— assim como quanta capacidade em excesso deseja produzir no futuro e, de fato, se deseja produzir algum excedente diante do aquecimento global. Assim, o socialismo deve desinstitucionalizar o imperativo do crescimento incutido na sociedade capitalista.
nenhum mercado no topo, nenhum mercado na base, mas possivelmente alguns mercados no meio.
Assim, de modo geral, a Covid é uma verdadeira orgia de irracionalidade e injustiça capitalista. Ao amplificar os defeitos inerentes do sistema até o ponto da ruptura, ilumina com um raio intenso todos os terrenos ocultos de nossa sociedade.
Ortega y Gasset
Deus é aquele que é presente precisamente como ausente, é o imenso ausente que brilha em todo presente - brilha por sua ausência.
O homem e os outros Quando os homens não têm nada claro a dizer sobre uma coisa, em vez de se calarem, costumam fazer o contrário: dizem no superlativo, isto é, gritam. E o grito é o preâmbulo sonoro da agressão, do combate, da matança. Dove si grida non è vera scienza, dizia Leonardo. Onde se grita não há bom conhecimento. P. 33 "O animal é pura alteração. Se define pelo mundo exterior. A capacidade de ensimesmar-se é própria do homem." Resumo meu. Sendo assim, não se pode falar de ação a não ser na medida em que esteja rejida por uma prévia contemplação; e, vice-versa, o ensimesmamento não é senão um projetar a ação futura. P. 42 Hoje há no mundo uma grande coisa que está moribunda, e é a verdade. Sem certa margem de tranquilidade, a verdade sucumbe. P. 55 Eu sou eu e minhas circunstâncias
Pablo Neruda
Se Me Esqueceres Quero que saibas uma coisa. Sabes como é: se olho a lua de cristal, o ramo vermelho do lento outono à minha janela, se toco junto do lume a impalpável cinza ou o enrugado corpo da lenha, tudo me leva para ti, como se tudo o que existe, aromas, luz, metais, fosse pequenos barcos que navegam até às tuas ilhas que me esperam. Mas agora, se pouco a pouco me deixas de amar deixarei de te amar pouco a pouco. Se de súbito me esqueceres não me procures, porque já te terei esquecido. Se julgas que é vasto e louco o vento de bandeiras que passa pela minha vida e te resolves a deixar-me na margem do coração em que tenho raízes, pensa que nesse dia, a essa hora levantarei os braços e as minhas raízes sairão em busca de outra terra. Porém se todos os dias, a toda a hora, te sentes destinada a mim com doçura implacável, se todos os dias uma flor uma flor te sobe aos lábios à minha procura, ai meu amor, ai minha amada, em mim todo esse fogo se repete, em mim nada se apaga nem se esquece, o meu amor alimenta-se do teu amor, e enquanto viveres estará nos teus braços sem sair dos meus.
Paulo Freire
A educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.
A leitura do mundo precede a leitura da palavra.
Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.
Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.
Renato Noguera
As deusas são representações coletivas do passado que retratam as ambiguidades e disputas humanas protagonizadas pelas mulheres em contextos sociais e culturais diferentes, mas que se mantêm atuais.
Héstia é o arquétipo da mulher que assumiu ou introduziu visão e perspectiva femininas do cuidado do espaço. Por isso, Héstia rege a arquitetura.
Héstia é a naturalização de que o caráter de gestão doméstica e a organização do lar pertencem à mulher.
O mito de Héstia é um símbolo de um estereótipo de gênero, uma ideia padronizada que circula com frequência nas mais diversas instâncias da sociedade: a ideia de que as mulheres são naturalmente donas de casa.
Ora, existe em Héstia, patrona da arquitetura, a capacidade de construir um lar em que a casa seja vivenciada por todas as pessoas e em que os homens deixem de ser hóspedes de sua própria casa.
Ártemis é um arquétipo feminino. Ela é um tipo de “mulher- maravilha”, uma guerreira, uma caçadora fenomenal que maneja arco e flecha com habilidade extraordinária. Uma mulher atlética que se relaciona com firmeza, amiga de outras mulheres e do tipo que não leva desaforo para casa.
Hera nos revela a mulher que, mesmo poderosa, se submete ao homem abusador. Hera e Zeus formam um casal que sintetiza um modelo de casamento que ainda parece válido para as mentalidades mais conservadoras. O homem é quem pode tudo no mundo exterior; a mulher é a dona de casa, isto é, a senhora do mundo privado. Denominamos essa construção de gênero por duas expressões complementares: masculinidade tóxica e feminilidade em desvalia.
Inferno é a face oculta de Perséfone, que, sem passar por essa dimensão, não estaria consciente de seus desejos. Daí se infere que só é possível que uma mulher floresça com a doçura da primavera e o vigor do verão após mergulhar no outono e no inverno de si mesma, banhados sempre por seus infernos mais inconfessáveis.
capacidade de modificar situações graves e desagradáveis começam cultivando o solo mais óbvio: elas mesmas. Talvez seja este o ensinamento mais precioso de Deméter: cultiva- se a terra ao mesmo tempo que se promove uma “agricultura” de si mesma.
Orixás são as forças da natureza, potências vivas e divinas que simbolizam a tempestade, a cachoeira, o trovão, o entardecer, o amanhecer, a lua, o sol, a mata, a floresta e todos os inúmeros fenômenos do meio ambiente. Os orixás também simbolizam atributos humanos: a maternidade, a paternidade, a vaidade, a capacidade de fazer guerra, a habilidade de firmar e manter a paz, o desejo de amar, o ciúme, a perspicácia, a inteligência, a inveja, a malícia, a astúcia e a sabedoria, entre outros. O povo iorubá classifica os quatrocentos
Existe uma perspectiva interessante neste mito. Iara renasce como mulher-peixe, uma imagem similar à sereia dos europeus. Neste ponto, é preciso uma ressalva: apesar das mais diversas leituras que apontam Iara como uma releitura dos mitos ocidentais de sereias, há outra via de interpretação alicerçada por escritos indígenas, como os de Sandra Benite Ara Ete (guarani), Daniel Munduruku (munduruku) e Davi Kopenawa (yanomami), entre outros. Essa via é do conceito de animalismo. Ou, simplesmente, Iara é aquela que salva os homens de sua humanidade. O que isso significa? Os homens tenderiam a se distanciar de sua condição, separando razão de emoção. À primeira vista, os homens atraídos por Iara são levados pela sedução ao inescapável labirinto de um rio sem fundo. Uma leitura mais enriquecedora apresenta, entretanto, outra perspectiva: a mulher-peixe resgata o homem, recolocando-o em contato consigo mesmo. Iara funciona como uma salvadora, o que está distante da interpretação corrente das sereias dos mitos gregos, as quais arrastam os navegantes para o esquecimento. Em certa medida, o mito guarani coloca a mulher e todo o universo feminino em uma potência bem distinta: a mulher-peixe é justamente o reconhecimento de que somos natureza. O mito diz que a natureza não é algo dissociado da cultura. Por isso, Iara torna-se metade humana e metade peixe.
O mito de Iara traz uma novidade. O aparente afogamento é justamente a possibilidade que o homem e a mulher têm de mergulhar em sua própria alma. Por isso, o rabo de peixe é a assunção de que a humanidade faz parte do reino animal. A “salvação” humana está em mergulhar naquilo que esquecemos e queremos eliminar, algo que só a mulher pode acessar sem mediação e, invariavelmente, mediar para o homem. Esse mito consagra certa supremacia feminina que já estaria impressa na própria natureza.
O que o mito de Jaci e Naiá diz a respeito das mulheres? Seria o caso de uma relação afetiva entre duas mulheres? Sim, uma vez que a lua é uma deusa. Existem versões que descrevem Jaci como uma divindade masculina, mas isso não é consenso e, na maioria dos casos, nas narrativas mais populares, o sol é masculino e a lua, feminina. A beleza do encontro entre Jaci e Naiá produz uma “novidade”, a vitória-régia. O que essa flor significa? Como já dissemos, ela dança com os corpos celestes, o que quer dizer uma ligação radical e profunda. Por um lado, o poder lunar, visto como feminino, pode ser compreendido como uma dimensão que caracteriza um encontro privilegiado entre duas mulheres. Mais que um castigo ou morte, o episódio de Naiá simboliza o arquétipo de uma relação amorosa equânime, preservando diferenças e sem dominações. Os papéis são diferentes, o status de uma das amantes é divino e da outra, mortal. Mas ambas brilham, reconhecem seu valor e são reconhecidas por assim dizer publicamente como igualmente importantes. O arquétipo alforria e liberta do que seria um tabu: a relação afetivo-sexual entre duas mulheres. O pecado é uma categoria que passa ao largo da cosmossensação guarani. Por isso, o mito de Naiá parece ensinar algo que, no mundo contemporâneo, com as conquistas de direitos, é irreversível. O direito de amar é irrestrito e não é reduzível a critérios como atração pelo sexo oposto. Interessante notar que o povo guarani traz esse retrato isento de discriminação em uma narrativa que, à primeira vista, parece um encontro entre a lua e uma flor, mas se trata somente de mais uma história de amor. Uma metáfora para um encontro entre duas mulheres. Afinal, o amor não tem gênero.
Mais do que a mitologia de uma cultura em si, o que interessa são os usos que podemos fazer dos mitos. Por exemplo, em um dado momento da guerra entre orixás femininos e masculinos, narrada pela mitologia iorubá, Exu e Orunmilá tramam juntos um roteiro para que as deusas sejam incitadas a lutar, usando a beleza como arma. Os dois colocam Oxum para disputar a atenção de Xangô com Obá e Iansã. Já o povo grego tem a Guerra de Troia como pano de fundo para um “concurso de beleza” em que Afrodite vence Hera e Atena. A intenção de recontar as narrativas não foi fazer um estudo comparado entre os mitos, embora, entre outros temas comuns, a hipervalorização da beleza seja um ponto que atravessa todo o livro como uma arma contra as mulheres. O concurso de beleza no mito grego tratado no primeiro capítulo tem semelhanças com a estratégia dos deuses masculinos africanos no segundo capítulo: a beleza feminina como forma de controle e dominação. A beleza pode ser uma armadilha. No caso de Medusa, a górgona, a beleza é um perigo. Ela despertou o desejo de Hades e, depois de violada, ainda foi alvo da vingança de Atena. Por isso, a sororidade parece ser a resposta buscada pelas mulheres. A palavra “sororidade”, tal como “fraternidade”, vem do latim: frater (“irmão”) e soror (“irmã”). Daí o significado de que sororidade é um tipo de “fraternidade” entre mulheres. Em geral, na cultura contemporânea ocidental só circula a ideia de fraternidade. O elemento masculino embutido no conceito de fraternidade dá margem aos ditados populares de que mulheres não nutrem entre si amizade verdadeira porque estão sempre disputando. Como se só os homens pudessem erguer confrarias, disputar, divergir e, ainda assim, se manter amigos. Só a sororidade poderia reconciliar as deusas Afrodite, Hera e Atena no Olimpo ou unir Oxum, Iansã e Obá no Orun. Pela sororidade, Eva poderia ter resgatado Lilith. Pela sororidade, a mãe de Iara poderia combater filhos e esposo em nome da filha. Nesse sentido, os mitos são exemplos de como a ausência de sororidade prejudica as mulheres e, aparentemente, favorece os homens.
Sororidade é justamente o desenvolvimento dessa capacidade de colaborar. Não significa que uma mulher precisa ser amiga de todas as mulheres, mas que o respeito vai organizar as relações. A sororidade fortalece a empatia mesmo diante das diferenças — existem mulheres heterossexuais, lésbicas, transgênero, negras, pardas, indígenas, brancas, amarelas, ricas, pobres, de classe média, com deficiências físicas, intelectuais, jovens e velhas, entre uma infinidade de tipos. O mais importante é procurar a conciliação por meio de agendas comuns. A sororidade é uma maneira eficaz de recusar que o homem seja visto como símbolo universal da humanidade, recusando a supremacia e a centralidade masculina. Também nos convida a compreender que a mulher não é responsável pelo pecado, pela malícia, pela inveja e pela mentira. Tampouco Pandora, a personagem mítica grega, foi a culpada por prender a esperança. A sororidade reinventa esse mito ao dizer que foi por causa de Pandora que a esperança não se afastou de nós e permanece guardada em sua caixa — o coração de todas as pessoas do mundo —, enquanto os males foram embora.
Robert M. Sapolsky
A abordagem deste livro consiste em mostrar como funciona o determinismo, em explorar como a biologia sobre a qual você não tem controle algum, interagindo com o ambiente sobre o qual você não tem controle algum, fez de você o que você é. E quando as pessoas alegam que existem causas sem causa para seu comportamento, que elas chamam de “livre- arbítrio”, é porque: (a) não conseguiram reconhecer o determinismo que espreita sob a superfície ou não aprenderam a respeito deste e/ ou (b) concluíram, de forma incorreta, que os aspectos rarefeitos do universo que funcionam de forma não determinista podem explicar seu caráter, sua moralidade e seu comportamento.
Por que esse comportamento ocorreu? Por causa de interações biológicas e ambientais, numa série que não acaba nunca.[
somos nada mais nada menos do que nossa sorte biológica e ambiental cumulativa, sobre a qual não temos controle, que nos trouxe a este ou a qualquer outro momento.
São ideias boas, sensatas, que deveriam ser instituídas se decidirmos que algumas pessoas têm bem menos autocontrole e capacidade de escolher livremente suas ações do que a média, e que às vezes todos nós temos muito menos do que supomos. Nisso podemos estar todos de acordo. No entanto, estamos entrando em terreno muito diferente— terreno no qual, imagino, nem todos os leitores estão de acordo—, que é concluir que simplesmente não temos livre- arbítrio.
Que ninguém merece ou tem direito a ser tratado de maneira melhor ou pior do que ninguém. E que faz tão pouco sentido odiar alguém quanto odiar um tornado porque este supostamente resolveu despedaçar nossa casa, ou amar um lilás porque ele supostamente resolveu produzir um perfume maravilhoso.
Este livro tem dois objetivos. O primeiro é convencer você de que não existe livre- arbítrio,[ 5] ou pelo menos de que existe bem menos livre- arbítrio do que se costuma supor, quando isso de fato importa.
se juntarmos todos os resultados científicos, de todas as disciplinas científicas relevantes, não haverá espaço para o livre- arbítrio.[ 7] Por quê? Alguma coisa mais profunda do que a ideia de que, se examinar uma quantidade suficiente de diferentes disciplinas, umas dessas “logias” após a outra, você vai acabar encontrando uma que ofereça prova conclusiva, refutando por si só o livre- arbítrio. É também mais profunda do que a ideia de que, embora cada disciplina tenha um furo qualquer que a impede de refutar o livre- arbítrio, pelo menos uma das outras disciplinas compensa isso.
Não existe livre- arbítrio, e, portanto, responsabilizar moralmente as pessoas por seus atos é errado. É assim que vejo.
Portanto, minha posição é que, sendo o mundo determinista, não pode haver livre- arbítrio, e nesse caso responsabilizar moralmente as pessoas por seus atos não é correto (conclusão descrita como “lamentável” por um destacado filósofo, cujo pensamento dissecaremos em detalhes). Esse incompatibilismo será contrastado com mais frequência com a visão compatibilista de que, embora o mundo seja determinista, existe livre- arbítrio, e, portanto, responsabilizar moralmente as pessoas por seus atos é justo.
embora às vezes pareça que somos livres para fazer o que pretendemos, jamais somos livres para pretender o que pretendemos.
Portanto, três técnicas diferentes, monitorando a atividade de centenas de milhões de neurônios até chegar a neurônios individuais, mostram que, quando julgamos estar consciente e livremente decidindo fazer uma coisa, o curso da ação neurobiológica já foi iniciado. Aquela sensação de intenção consciente é uma interpretação tardia e irrelevante.
A literatura libetiana é construída em torno de pessoas que decidem de maneira espontânea fazer alguma coisa. Na opinião de Manuel Vargas, o livre- arbítrio gira em torno de ser ele mesmo orientado para o futuro, sofrendo um custo imediato em nome de um objetivo de longo prazo, e, assim, “o experimento de Libet insistia numa ação puramente imediata, impulsiva— o que é o
exato oposto da finalidade do livre- arbítrio”.
Roskies ressalta a diferença entre intenção consciente e consciência da intenção.
O que podemos concluir da análise desses debates? Para os libetianos, esses estudos mostram que o cérebro decide executar um comportamento antes de acharmos que o fizemos de modo livre e consciente. Mas, diante das críticas levantadas, acho que tudo que podemos concluir é que, em algumas circunstâncias bastante artificiais, certas medidas de função cerebral são moderadamente preditivas de um comportamento subsequente.
Outro aspecto é que o campo jurídico distingue entre intenção geral e intenção específica. A primeira diz respeito a pretender cometer um crime, ao passo que a última diz respeito a pretender cometer um crime bem como pretender alcançar uma consequência específica; a última é uma acusação bem mais grave do que a primeira.
De onde vem a intenção? Sim, da biologia interagindo com o ambiente um segundo antes de sua ams se aquecer. Mas também de um minuto antes, uma hora antes, um milênio antes— a principal música, a principal dança deste livro.
Por que você ignoraria o que veio antes do momento atual quando analisa o comportamento da pessoa? Porque você não quer nem saber por que motivo alguém acabou sendo bem diferente de você.
Achar que basta saber sobre intenção no momento presente é muito pior do que cegueira intelectual, muito pior do que acreditar que a primeira tartaruga da série de tartarugas é a que flutua no ar. Num mundo como este de que dispomos, é profundamente errado também do ponto de vista ético.
Este capítulo mostra que você, em última análise, não tem controle sobre a intenção que forma. Você deseja fazer alguma coisa, tem a intenção de fazê- la e então a faz. Mas por mais fervoroso, por mais desesperado que esteja, você não consegue desejar ter uma intenção diferente. E você não consegue desejar as ferramentas (digamos, mais autodisciplina) que o tornarão mais apto a conseguir desejar o que quer. Nenhum de nós consegue.
Para entender de onde sua intenção vem, tudo que precisamos saber é o que acontece com você nos segundos ou minutos antes de você formar a intenção de apertar o botão escolhido. Bem como o que aconteceu com você nas horas ou dias anteriores. E nos anos e nas décadas anteriores. E durante a adolescência, a infância, a vida fetal. E o que aconteceu quando o esperma e o óvulo destinados a ser você se fundiram, formando seu genoma. E o que aconteceu a seus antepassados séculos atrás, quando formavam a cultura em que você foi criado, e à sua espécie milhões de anos atrás.
Como um cheiro ou uma sensação tátil desagradável podem alterar julgamentos morais? O fenômeno envolve uma região cerebral chamada ínsula (também conhecida como córtex insular). Nos mamíferos, ela é ativada pelo cheiro ou pelo sabor de alimento rançoso, deflagrando de maneira automática o gesto de cuspir a comida e a versão de vômito da espécie. Assim, a ínsula faz a mediação entre o nojo olfativo e o nojo gustativo e protege contra a intoxicação alimentar, coisa muito útil do ponto de vista evolutivo.
a beleza também pode. Durante milênios, sábios proclamaram que a beleza exterior reflete a bondade interior. Embora não se possa mais dizer isso às claras, a ideia de que beleza é bondade ainda tem muita força em termos inconscientes; pessoas atraentes são tidas como mais honestas, inteligentes e competentes; têm maior probabilidade de serem eleitas ou empregadas, e com salários mais altos; têm menor probabilidade de serem condenadas por crimes e recebem penas mais curtas.
Um estudo muito conhecido sugeriu que a fome nos torna menos tolerantes.
palavras, enquanto nos sentamos ali, decidindo que botão apertar com uma suposta intenção livremente escolhida, estamos sendo influenciados por nosso ambiente sensorial— um cheiro ruim, um rosto lindo, o toque no ensopado de vômito, o estômago embrulhado, o coração aos pulos.
é raro que T gere novos padrões de agressividade; em vez disso, aumenta a probabilidade de padrões preexistentes acontecerem. Aumente os níveis de testosterona de um macaco e ele se torna mais agressivo com macacos já em posição inferior à sua na hierarquia da dominação, ao mesmo tempo que bajula os superiores sociais, como de hábito. A testosterona torna a amígdala cerebral mais reativa, mas só se os neurônios ali já estiverem sendo estimulados por olhar, digamos, para o rosto de um estranho.
O hormônio também distorce o julgamento, tornando- nos mais propensos a interpretar como ameaça uma expressão facial neutra. Elevar nossos níveis de testosterona aumenta a probabilidade de nos tornarmos confiantes demais num jogo econômico, e como resultado disso ficamos menos cooperativos— quem precisa de alguém quando acha que está muito bem sozinho?[ 9] Além disso, a testosterona nos inclina a comportamentos mais arriscados e impulsivos, fortalecendo a capacidade da amígdala cerebral de ativar diretamente o comportamento (e enfraquecendo a capacidade do córtex frontal de controlá- lo— aguarde o próximo capítulo).[ 10] Por fim, a testosterona nos torna menos generosos e mais egocêntricos em, por exemplo, jogos econômicos, e bem menos empáticos e confiantes no trato com estranhos.
O hormônio relacionado vasopressina torna os machos mais paternais nas raras espécies em que os machos ajudam na criação. Essas espécies também tendem a formar laços monogâmicos entre pares; a oxitocina e a vasopressina fortalecem o vínculo em fêmeas e machos, respectivamente. Qual é a biologia básica que explica o fato de os machos em algumas espécies de roedores serem monógamos e em outras não? Espécies monogâmicas são, em termos genéticos, propensas a concentrações mais altas de receptores de vasopressina na parte dopaminérgica de “recompensa” do cérebro (núcleo accumbens). O hormônio é liberado durante o sexo, a experiência com essa fêmea é realmente, realmente prazerosa, por causa do número maior de receptores, e o macho não sai mais de perto.
A oxitocina e a vasopressina têm efeitos que são o polo oposto dos efeitos da testosterona. Elas diminuem a excitabilidade na amígdala, tornando os roedores menos agressivos e as pessoas, mais calmas.
Uma particularidade muitíssimo interessante é que a oxitocina não nos torna calorosos e pró- sociais com todo mundo. Só com membros do grupo, gente que consideramos “nós”.
o hormônio nos torna mais legais, generosos, empáticos, confiantes, amorosos… com pessoas que consideramos “nós”. Mas se for um “eles”, que tem outra aparência, que fala, come, reza, ama de um jeito diferente do nosso, nem pensar em cantar a união, a paz, a harmonia.[
hormônios podem alterar o cérebro no decurso de minutos a horas. Nesses casos, “alterar o cérebro” não é uma abstração. Como resultado das ações de um hormônio, os neurônios podem liberar pacotes de neurotransmissores, quando em geral não o fariam; específicos canais de íons podem abrir ou fechar; o número de receptores para algum mensageiro pode mudar numa região cerebral específica. O cérebro, em termos estruturais e funcionais, é maleável, e seu padrão de exposição hormonal nesta manhã terá alterado seu cérebro agora, enquanto contempla os dois botões. A ideia desta seção é que essa “neuroplasticidade” é insignificante em comparação com a forma como o cérebro pode mudar em resposta a experiências durante períodos mais longos.
E existe o hipocampo, região do cérebro essencial para a aprendizagem e para a memória. Sofra de depressão severa por décadas e o hipocampo encolhe, comprometendo a aprendizagem e a memória.
Tornar- se pai reduz os níveis de testosterona; quanto mais carinhoso o pai, maior a queda. 26 E
Como funcionará seu cérebro enquanto você contempla os dois botões? Vai depender em parte de acontecimentos das semanas aos anos anteriores. Você mal tem conseguido pagar o aluguel? Está sentindo a emoção de encontrar o amor ou de ser pai? Sofrendo de depressão debilitante? Trabalhando bem num emprego estimulante? Recuperando- se depois de um trauma de combate ou de uma agressão sexual? Fazendo uma mudança drástica de dieta? Tudo isso mudará seu cérebro e seu comportamento, sem que você tenha controle, quase sempre sem que sequer se dê conta. Além disso, haverá um metanível de diferenças fora de seu controle, uma vez que seus genes e sua infância terão regulado a facilidade com que seu cérebro muda em resposta a experiências específicas da vida adulta— há uma plasticidade relativa a quanto e a que tipo de neuroplasticidade o cérebro de cada um é capaz de gerenciar.
No começo da adolescência, o cérebro já está muito próximo de sua versão adulta, com densidades adultas de neurônios e sinapses, e o processo de mielinização do cérebro já concluído. À exceção de uma região cerebral que, pasme, só amadurecerá por completo dentro de mais uma década. Que região? O córtex frontal, claro. A maturação dessa região é mais lenta do que o restante do córtex— até certo ponto, em todos os mamíferos, e de maneira acentuada nos primatas.
No início da adolescência, o córtex frontal tem mais sinapses do que no adulto. A adolescência e o começo da vida adulta consistem na poda de sinapses que se revelam supérfluas, apertadas ou apenas incorretas, à medida que a região vai ficando cada vez mais enxuta e precisa. Como grande demonstração disso, embora um adolescente de treze anos e um jovem de vinte possam se sair igualmente bem num teste de função frontal, o adolescente precisa mobilizar uma parte maior da região para tal.
Assim, o córtex frontal— com seus papéis na função executiva, no planejamento, no adiamento da gratificação, no controle de impulsos, na regulação emocional— ainda não funciona em plenitude na adolescência.
fato de que a adolescência e o começo da idade adulta envolvem um gigantesco projeto de construção na parte mais interessante do cérebro. As implicações são evidentes. Se você é adulto, suas experiências adolescentes de trauma, excitação, amor, fracasso, rejeição, felicidade, desespero, espinhas— toda essa tralha— terão desempenhado um papel desproporcional na construção do córtex frontal com que você trabalha enquanto contempla aqueles botões. Claro, a imensa variedade de experiências adolescentes ajudará a produzir córtex frontais muitíssimo variados na idade adulta.
genes. Por definição, o córtex frontal, se é a última parte do cérebro a se desenvolver, é também a região do cérebro menos afetada pelos genes e mais afetada pelo ambiente. Isso nos leva a querer saber por que o córtex frontal amadurece tão devagar.
Portanto, a maturação atrasada não é inevitável, dada a complexidade da construção frontal, durante a qual o córtex frontal, se pudesse, se desenvolveria mais depressa. Em vez disso, o atraso foi ativamente desenvolvido, selecionado. Se essa é a região do cérebro essencial para que se faça o que deve ser feito quando isso é o que há de mais difícil, nenhum gene pode especificar o que deve ser feito. Isso tem que ser aprendido da maneira mais demorada e difícil, por experiência. É assim para qualquer primata, que passa por complexidades sociais tendo que decidir se cria problemas para alguém, se se submete a alguém, se se alinha com alguém ou se apunhala alguém pelas costas.
Temos que aprender as racionalizações e as hipocrisias de nossa cultura— não matarás, a menos que seja um deles, e nesse caso aqui está uma medalha. Não mentirás, a não ser que haja uma grande recompensa, ou que seja um ato profundamente bom (“ Não, não há refugiados escondidos em meu sótão, de jeito nenhum”). As leis a serem seguidas à risca, as leis a serem ignoradas, as leis a serem desafiadas. Conciliar a ideia de agir como se cada dia fosse o último com a ideia de que hoje é o primeiro dia do resto de sua vida. E assim por diante.
Assim, a adolescência é a fase final da construção do córtex frontal, com o processo profundamente influenciado pelo ambiente e pela experiência.
No que tange a nossos interesses, é preciso perguntar de onde vêm as diferenças individuais em maturação, que controle temos sobre esse processo e como ele ajuda a gerar o você que é você, ao contemplar os botões. Que tipos de influência afetam a maturação?
parentalidade autoritária
Socialização entre pares, com diferentes pares influenciando diferentes comportamentos com diferente poder de atração.
Crenças e valores culturais,
a benignidade do clima influencia o tipo de cérebro que você está construindo e que levará para a vida adulta.
a experiência do começo da vida provoca mudanças de longa duração na expressão genética em determinadas regiões cerebrais.
Para cada uma dessas experiências vividas, você ganha um ponto na lista de verificação, em que os menos afortunados têm pontuações beirando um inimaginável dez e os mais afortunados se deliciam em torno de zero.
Assim, em suma, cada aspecto de sua infância— bom, ruim ou no meio—, em outras palavras, fatores sobre os quais você não teve controle nenhum, esculpiram o cérebro adulto que você tem enquanto contempla esses botões.
Cada tipo de proteína é construído segundo uma sequência distinta de diferentes tipos de elementos aminoácidos; a sequência determina a forma da proteína; a forma determina a função. Um “gene” é o trecho do dna que especifica a sequência/ forma/ função de determinada proteína. Cada um de nossos cerca de 20 mil genes codifica a produção de uma proteína específica.[
Genes codificam proteínas que são burros de carga; genes não decidem quando estão ativos, mas são, em vez disso, regulados por sinais ambientais; a evolução do dna diz respeito, de maneira desproporcional, à regulação genética, mais do que aos genes.
A maioria dos genes vem em várias versões, com pessoas herdando dos pais suas variantes particulares. Essas variantes genéticas codificam versões um pouco diferentes de suas proteínas, sendo algumas delas melhores no desempenho de suas funções do que outras.[
como pode o ambiente fazer os genes funcionarem de maneiras tão diferentes, até opostas? Só para começar a juntar as peças, é porque diferentes ambientes produzem diferentes tipos de alterações epigenéticas no mesmo gene ou no mesmo interruptor genético. Dessa maneira, as pessoas têm todas essas diferentes versões de todas essas coisas, e essas diferentes versões funcionam de maneira diferente, dependendo do ambiente na infância.
que sua cultura tem a ver com a intenção que você vai pôr em prática? Muitíssimas coisas. Desde o momento em que nasceu, você foi submetido a um universal— todos os valores de uma cultura incluem maneiras de fazer com que seus herdeiros recapitulem esses valores, para que você se torne “o tipo de gente que deu origem a você”. Como resultado, seu cérebro reflete quem seus antepassados foram e que circunstâncias históricas e ecológicas os levaram a inventar os valores que cercam você. Se um neurobiólogo de visão bastante específica viesse a ser ditador do mundo, a antropologia seria definida como “o estudo das maneiras como diferentes grupos de pessoas tentam influenciar a construção do cérebro dos filhos”.
Isso ocorre porque evoluir significa mudanças nas variantes de genes encontradas nos organismos e, por conseguinte, nos tipos de influência que exercem na construção do cérebro.
Esse fluxo contínuo mostra por que a falta de sorte não é compensada depois e, em vez disso, até se agrava. Se tiver uma variante genética muito azarada, você infelizmente será sensível aos efeitos da adversidade na infância. Sofrer adversidade no começo da vida é um preditor de que você passará o resto da vida em ambientes que apresentam para você menos oportunidades do que para a maioria, e essa sensibilidade ambiental aumentada infelizmente o tornará menos capaz de aproveitar essas raras oportunidades— você talvez não as entenda, talvez não as reconheça como oportunidades, talvez não tenha as ferramentas para fazer uso delas ou para evitar que, de maneira impulsiva, as desperdice. Menos benefícios desse tipo resultam numa vida adulta estressante, que transformará seu cérebro num cérebro infelizmente ruim em persistência, controle emocional, reflexão, cognição… A má sorte não é compensada pela boa sorte. Costuma ser amplificada de tal maneira que não adianta sequer criar igualdades de condições, porque você não estará mais no páreo.
quando você reconhece que isso é tudo que existe para explicar quem você é, conclui ele, “não é a ontologia que exclui o livre- arbítrio, é a sorte (grifo dele)”.[ 42] Em sua opinião, além de não fazer sentido nos responsabilizarem por nossas ações, não tivemos controle sobre a formação de nossas crenças a respeito da retidão e das consequências daquela ação ou da disponibilidade de alternativas. Você não consegue acreditar em alguma coisa diferente daquilo em que você acredita.[ 43]
Por que esse momento acaba de ocorrer? “Por causa do que veio antes.” E por que esse outro momento ocorreu? “Por causa do que veio antes”, e assim para sempre,[ 44] não é absurdo; na verdade, é como o universo funciona. O absurdo em meio a essa continuidade toda é achar que temos livre- arbítrio e que ele existe porque, a certa altura, o estado do mundo (ou do córtex frontal, ou neurônio, ou molécula de serotonina…) que “veio antes disso” aconteceu do nada.
o conceituado filósofo compatibilista Alfred Mele achava que esse requisito do livre- arbítrio estabelecia um critério “absurdamente alto”. Uma sutileza semântica entra em jogo; o que Levy chama de sorte “constitutiva” é a sorte “remota” para Mele, “remota” no sentido de tão distante no tempo— 1 milhão de anos antes de você decidir, um minuto antes de você decidir— que não exclui o livre- arbítrio e a responsabilidade. Isso ocorre, supostamente, porque o remoto é tão remoto que não é remotamente relevante, ou porque as consequências dessa remota sorte biológica e ambiental no fim ainda são filtradas por um tipo de “você” imaterial, escolhendo e selecionando entre as influências, ou porque a má sorte remota, à Dennett, será equilibrada pela boa sorte no longo prazo e pode, portanto, ser ignorada. É assim que alguns compatibilistas chegam à conclusão de que a história de alguém é irrelevante. A formulação de sorte “constitutiva” por Levy sugere uma coisa bem diferente, ou seja, que não só a história é irrelevante, mas, em suas palavras, “o problema da história é um problema de sorte”. É por isso que não significa nem de longe elevar demais o critério quando se diz que o livre- arbítrio só pode existir se as ações dos neurônios forem completamente não influenciadas por todos os fatores incontroláveis que vieram antes. É o único requisito que pode existir, porque tudo que veio antes, com seus vários tipos de sorte incontrolável, é o que acabou formando você. É assim que você se tornou você.
Em primeiro lugar, não é livre- arbítrio e responsabilidade só porque todo mundo diz que é no nível social— este é um argumento central deste livro. Em segundo lugar, socialidade, interações sociais, organismos sendo sociais entre si são tanto um produto final da biologia interagindo com o ambiente como a forma de nosso nariz.
temos tão pouco controle sobre o lado direito como sobre o lado esquerdo da tabela. Ambos os lados são igualmente resultado de uma biologia incontrolável interagindo com um ambiente incontrolável.
O cpf, mais que tudo, lida com tomar decisões difíceis em face da tentação— adiamento da gratificação, planejamento de longo prazo, controle de impulsos, regulação emocional. Ele é indispensável para que você faça o que deve ser feito quando isso é o que há de mais difícil.
É o cpf que impede você de fazer uma coisa do jeito habitual quando deveria fazê- la de um jeito novo.
cpf serve para aprender uma nova regra, ou uma nova variante de uma regra. Está implícito nisso que o funcionamento do cpf pode mudar. Quando a nova regra persiste e deixa de ser nova, ela se torna a tarefa de outros circuitos cerebrais, mais automáticos.
sociabilidade aumenta o cpf, ou um cpf grande é que impulsiona a sociabilidade?
o córtex frontal não é apenas essa região cerebral, intelectual, pesando prós e contras de cada decisão e enviando lindos comandos racionais libetanos para o córtex motor— ou seja, uma função excitatória. É também um moralistazinho inibitório, apegado às regras, dizendo às partes mais emocionais do cérebro que não façam isto ou aquilo porque vão se arrepender.
primeira é o cpf dorsolateral (cpfdl), o decisor racional definitivo no córtex frontal.
O cpfdl é a última parte do cpf a amadurecer por completo. Ele é a essência do cpf como superego excessivamente rigoroso.
Ative o cpfdl desse jeito e os participantes se tornam mais utilitários ao decidir sacrificar um para salvar muitos. Desative o cpfdl e os participantes ficam mais impulsivos— eles consideram injusta uma oferta ruim num jogo econômico, mas não têm o autocontrole necessário para aguardar uma recompensa melhor.
A outra sub- região essencial do cpf é chamada de córtex pré- frontal ventromedial (cpfvm), e, simplificando ao extremo as coisas, ela é o oposto do cpfdl. O cpfdl está sobretudo recebendo inputs de outras regiões corticais, pesquisando os distritos externos para descobrir seus pensamentos bem ponderados. Mas o cpfvm traz informações do sistema límbico, aquela região do cérebro desfalecente e sobrecarregada de emoção— o cpfvm é como o cpf descobre o que você está sentindo.[ 15]
Portanto, o cpf faz a coisa mais difícil quando isso é o que deve ser feito. Mas, como ponto crucial, deve ser feito é usado num sentido neurobiológico e instrumental, e não num sentido moral.
a) garra, caráter, espinha dorsal, tenacidade, fortes princípios morais, espírito decidido prevalecendo sobre a carne fraca, tudo isso é produzido pelo cpf; b) o cpf é feito de material biológico idêntico ao resto do cérebro; c) seu cpf atual é o resultado de toda essa biologia incontrolável interagindo com todo esse ambiente incontrolável.
Quando você tenta fazer o que deve fazer, que é a coisa mais difícil, o cpf se torna a parte mais dispendiosa do cérebro.
quando não tem energia suficiente a bordo, o cpf não funciona direito.
A função e a autorregulação do cpf vão por água abaixo se você estiver aterrorizado ou sentindo dores— o cpf usa energia para lidar com o estresse.
A fadiga também esgota os recursos frontais.
Num estudo bastante perturbador de médicos de pronto- socorro, quanto mais exigente, em termos cognitivos, for a jornada de trabalho (medida pela carga de pacientes), mais altos são os níveis de preconceito racial implícito no fim do dia. 27
Como lembrete dos últimos capítulos, elevações de testosterona durante esse período de tempo tornam as pessoas mais impulsivas, mais confiantes e mais dispostas a se arriscar, mais egocêntricas, menos generosas ou empáticas e mais propensas a reagir com agressividade a uma provocação. Os glicocorticoides e o estresse tornam as pessoas mais incompetentes em função executiva e controle de impulso e mais propensas a perseverar numa resposta corriqueira a um desafio que não está funcionando, em vez de mudar de estratégia. E existe a oxitocina, que melhora a confiança, a sociabilidade e o reconhecimento social. O estrogênio aprimora a função executiva, a memória operacional e o controle de impulsos e torna as pessoas mais aptas na troca rápida de tarefas quando necessário.
quando você tenta fazer a coisa mais difícil que é a melhor, o cpf com o qual você está trabalhando exibirá as consequências do que quer que os anos anteriores lhe tenham trazido.
a experiência social adolescente, por exemplo, vai alterar a forma como o cpf regula o comportamento social nos adultos. De que maneira? Procure os suspeitos de sempre. Muitos glicocorticoides, muito estresse (físico, psicológico, social) durante a adolescência e seu cpf não será o melhor que poderia ser na vida adulta. Haverá menos sinapses e ramificações dendríticas menos complexas no cpfvm e no córtex orbitofrontal, além de mudanças permanentes no modo como os neurônios do cpf respondem ao neurotransmissor excitatório glutamato (devido a persistentes mudanças na estrutura de um dos principais receptores de glutamato). O cpf adulto será menos eficaz para inibir a amígdala, tornando mais difícil desaprender o medo condicionado, e menos eficaz para impedir o sistema nervoso automático de reagir com exagero a um susto. Controle de impulsos prejudicado, tarefas cognitivas dependentes do cpf prejudicadas. O de sempre. 40 Por outro lado, um ambiente enriquecido e estimulante durante a adolescência tem grandes efeitos no cpf adulto resultante e pode reverter alguns efeitos da adversidade na infância. Por exemplo, um ambiente enriquecido durante a adolescência provoca mudanças permanentes na regulação genética no cpf, produzindo níveis adultos mais elevados de fatores de crescimento neuronal, como o bdnf. Além disso, embora o estresse pré- natal cause reduções nos níveis de bdnf (fique atento), o enriquecimento adolescente pode reverter esse efeito. Todas as mudanças que prejudicam a capacidade do cpf de controlar impulsos e adiar a gratificação. Portanto, se quiser ter melhor desempenho nas coisas mais difíceis quando adulto, certifique- se de escolher a adolescência certa.
o tipo de infância que você teve define a construção do cpf na época e o tipo de cpf que terá na vida adulta.[
Maus- tratos na infância produzem um cpf adulto menor, mais fino e com menos massa cinzenta, com atividade alterada em resposta a estímulos emocionais, níveis alterados de receptores para vários neurotransmissores, interação enfraquecida entre ele e regiões dopaminérgicas de “recompensa” (predizendo risco maior de depressão) e interação enfraquecida com a amígdala também, predizendo maior tendência a responder a frustrações com raiva (“ traço de raiva”). E, mais uma vez, todas essas mudanças estão associadas a um cpf adulto não tão bom quanto poderia ser.
Não surpreende que o status socioeconômico da família de uma criança prediga o tamanho, o volume e o conteúdo de massa cinzenta do cpf em crianças do jardim de infância. O mesmo é válido para crianças pequenas. Para bebês de seis meses. De quatro semanas de idade. A vida é tão injusta que dá vontade de gritar. 45
Aos seis anos, o baixo status já prediz elevados níveis de glicocorticoides; quanto mais altos os níveis, menos atividade no cpf em média.[ 30] Além disso, os níveis de glicocorticoides em crianças são influenciados não apenas pelo status socioeconômico da família, mas também pelo dos vizinhos.[ 31] O aumento do estresse medeia a relação entre baixo status e menos ativação do cpf em crianças. Como tema relacionado, o status socioeconômico mais baixo prediz um ambiente menos estimulante para a criança— todas essas atividades extracurriculares enriquecedoras que não podem ser bancadas, o mundo de mães solteiras trabalhando em múltiplos empregos, tão cansadas quando chegam em casa que não conseguem ler para o filho. Uma manifestação chocante disso é que até os três anos uma criança de status socioeconômico elevado ouviu cerca de 30 milhões de palavras a mais em casa do que uma criança pobre, e num estudo a relação entre status socioeconômico e a atividade do cpf da criança foi em parte mediada pela complexidade do uso da linguagem em casa. 47
Baixo status socioeconômico de uma mulher grávida ou um bairro com altas taxas de criminalidade predizem menos desenvolvimento cortical na época do nascimento da criança. Mesmo antes, quando a criança ainda vivia no útero.[ 32] E, claro, altos níveis de estresse maternal durante a gravidez (por exemplo, perda de cônjuge, desastres naturais, ou problemas médicos maternos que necessitem de tratamento com muito glicocorticoide sintético) predizem comprometimento cognitivo numa ampla gama de medições, função executiva mais fraca, diminuição do volume de massa cinzenta no cpfdl, uma amígdala hiper- reativa e uma resposta hiper- reativa ao estresse de glicocorticoides quando esses fetos se tornarem adultos.[ 33] 50 Pontuação eai, pontuação de adversidade fetal, pontuação de Experiências de Infância Ridiculamente Afortunadas— tudo isso nos diz a mesma coisa. Requer certo tipo de audácia e indiferença olhar para essas descobertas e insistir em que a prontidão com que alguém enfrenta as coisas mais difíceis da vida justifica a culpa, a punição, o elogio ou a recompensa. Basta perguntar a esses fetos no útero de uma mulher de baixo status socioeconômico, já pagando um preço neurobiológico.
os asiáticos têm em média atividade mais alta no cpfdl do que os ocidentais (junto com a ativação de uma região cerebral chamada junção temporoparietal, que é indispensável para a teoria da mente); isso é em essência um cérebro trabalhando mais ativamente na regulação de emoções e na compreensão das perspectivas de outras pessoas. Já os ocidentais apresentam uma imagem de mais intensidade emocional, autorreferência, capacidade de forte repulsa ou empatia emocional— níveis mais altos de atividade no cpfvm, na ínsula e no cingulado anterior.
Em geral, indivíduos de culturas coletivistas preferem e executam melhor tarefas cognitivas dependentes de contexto, enquanto indivíduos de culturas individualistas preferem tarefas independentes de contexto. E em ambas as populações, o cpf tem que trabalhar com mais afinco quando os participantes se esforçam no tipo de tarefa menos favorecido por sua cultura.
Pessoas espetacularmente bem- sucedidas em expressar os valores de sua cultura tendem a legar cópias de seus genes. Já as que deixam de aparecer com o restante da aldeia no dia da colheita do arroz porque resolveram praticar snowboard, ou que atrapalham o Super Bowl tentando convencer os times a cooperar em vez de competir— bem, esses dissidentes culturais, esses elementos do contra, esses excêntricos têm menos probabilidade de passar adiante seus genes.
há coevolução de frequências genéticas, valores culturais, práticas de desenvolvimento infantil, reforçando uns aos outros através de gerações, definindo como será seu cpf.
Somos muito bons em reconhecer que não temos controle sobre os atributos com que a vida nos presenteou ou nos amaldiçoou. Mas o que fazemos com esses atributos nas encruzilhadas de certo e errado nos convida poderosamente, toxicamente, a concluir, com a mais forte das intuições, que assistimos ali ao livre- arbítrio em plena ação. Mas a realidade é que se você exibe admirável determinação, se desperdiça oportunidades num turvo clima de dissipação, se encara com imponência a tentação ou nela mergulha de cabeça— tudo isso resulta do funcionamento do cpf e das regiões cerebrais às quais está conectado. E esse funcionamento do cpf é resultado do segundo anterior, dos minutos anteriores, do milênio anterior. O mesmo desfecho do capítulo relativo ao cérebro inteiro. E, invocando a mesma palavra crítica— sem emendas. Como vimos, fale sobre a evolução do cpf e estará falando também dos genes que evoluíram, das proteínas que eles codificam no cérebro e de como a infância alterou a regulação desses genes e proteínas. Um arco contínuo, sem emendas, de influências que trouxeram seu cpf a este momento, sem uma brecha onde o livre- arbítrio pudesse se alojar.
que significa isso? Nesse cenário, o cpfvm está codificando o quanto preferimos situações que recompensem a autodisciplina. Portanto, essa é a parte do cérebro que codifica o quanto julgamos estar exercendo com sabedoria o livre- arbítrio.
Este capítulo e o próximo se concentram na teoria do caos, o campo que pode tornar inútil o estudo das partes componentes de coisas complexas. Depois de apresentar uma cartilha sobre o tópico neste capítulo, o próximo cobrirá duas maneiras de as pessoas acharem, de maneira enganosa, que encontraram livre- arbítrio em sistemas caóticos. A primeira é a ideia de que se começarmos com uma coisa simples em biologia e, inesperadamente, surgir um comportamento por demais complexo, é porque o livre- arbítrio acaba de ocorrer. A segunda é a crença de que, se tivermos um comportamento complexo que possa ter decorrido de qualquer um de dois diferentes estados biológicos precedentes, e não houver como sabermos qual dos dois, então é possível alegar que ele não foi causado por nada, que o evento estava livre de determinismo.
Essa relação entre estados iniciais e estados maduros ajudou a dar origem ao que tem sido o conceito central da ciência há séculos. É o reducionismo, a ideia de que para compreender alguma coisa complicada você deve separar as partes que a compõem, estudá- las, acrescentar seus insights sobre cada parte e acabará compreendendo o todo complicado. E se uma dessas partes for complicada demais para entender, estude suas minúsculas partes subcomponentes e acabará entendendo- as.
Lembre- se, uma abordagem redutiva não serve para qualquer coisa. Se houver uma seca, com o céu pontilhado de nuvens inchadas que há um ano não trazem chuva, você não isola primeiro uma nuvem, estuda sua metade esquerda, depois a metade direita, depois metade de cada metade e assim por diante, até descobrir no centro a minúscula engrenagem com um dente quebrado. Apesar disso, uma abordagem redutiva tem sido há muito tempo o padrão- ouro para explorar de maneira científica um assunto complexo.
Até que, a partir do começo dos anos 1960, surgiu uma revolução científica que veio a ser chamada de caoticismo, ou teoria do caos. A ideia central é que coisas de fato interessantes e complicadas muitas vezes não são bem compreendidas, não podem ser compreendidas, num nível redutivo. Para entender, digamos, um ser humano cujo comportamento é anormal, encare o problema como se fosse uma nuvem que não traz chuva, em vez de um relógio que não funciona. E, é claro, homens- como- nuvens geram impulsos quase irresistíveis para você concluir que está observando o livre- arbítrio em ação.
O meteorologista Edward Lorenz, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (mit), começou a usar um computador antediluviano para criar um padrão de tempo numa tentativa de tornar as previsões mais precisas. Inclua variáveis como temperatura e umidade no modelo e verifique se as previsões ficam mais exatas. Veja se variáveis adicionais, se outras variáveis, se ponderar variáveis[ 4] melhoram a previsibilidade.
respeito aos padrões de estrutura escondidos na desordem aparente.
Mas eis o erro essencial que perpassa tudo isso: determinismo e previsibilidade são coisas muito diferentes. Ainda que seja imprevisível, o caoticismo continua sendo determinista. A diferença pode ser formulada de várias maneiras. Uma delas é que o determinismo lhe permite explicar por que uma coisa aconteceu, ao passo que a previsibilidade lhe permite dizer o que acontece em seguida. Outra é o nebuloso contraste entre ontologia e epistemologia; a primeira se refere ao que está acontecendo, uma questão de determinismo, ao passo que a última lida com o que é cognoscível, uma questão de previsibilidade. Outra, ainda, é a diferença entre “determinismo” e “determinável” (dando origem ao título pesado de um artigo pesado, “Determinism Is Ontic, Determinability Is Epistemic” [Determinismo é ôntico, determinabilidade é epistêmica], do filósofo Harald Atmanspacher).
Há qualquer coisa de errado se um caso de livre- arbítrio só existe até que nossa ignorância diminua. Como ponto crucial, nossas intuições de livre- arbítrio decerto funcionam assim, mas o livre- arbítrio, em si, não pode.
Fazemos uma coisa, adotamos um comportamento e temos a sensação de fazer uma escolha, de que existe um Eu lá dentro, separado de todos aqueles neurônios, que agência e volição lá residem. Nossas intuições gritam isso, porque não conhecemos, não conseguimos imaginar, as forças subterrâneas de nossa história biológica que o trouxeram à tona. É um imenso desafio superar essas intuições enquanto esperamos que a ciência consiga predizer esse comportamento com exatidão. Mas a tentação de equiparar caoticismo a livre- arbítrio mostra como é difícil superar essas intuições quando a ciência jamais será capaz de predizer com precisão os resultados de um sistema determinista.
Esse é o fenômeno da convergência. É um termo que costuma ser usado em biologia evolutiva. Nesse caso, não é tanto o fato de você não poder dizer de qual de dois possíveis ancestrais diferentes surgiu uma espécie particular (por exemplo, “O ancestral dos elefantes tinha três ou cinco pernas? Quem sabe dizer?”). É mais o fato de que duas espécies muito diferentes convergiram para a mesma solução do mesmo tipo de desafio seletivo.[ 6] Entre os filósofos analíticos, o fenômeno é chamado de superdeterminação— quando duas vias diferentes podem, em separado, determinar a progressão para o mesmo resultado. Está implícita nessa convergência uma perda de informações. Instale- se numa fileira no meio de um autômato celular e, além de não conseguir predizer o que vai acontecer, você não terá também como saber o que aconteceu, que possível caminho conduziu ao estado atual.
Ao esmagamento do reducionismo automático, à demonstração de que o caoticismo mostra o exato oposto do caos, ao fato de que existe menos aleatoriedade do que se costuma supor e, em vez disso, estrutura inesperada e determinismo— tudo isso é maravilhoso. Idem para as asas de borboleta, para a geração de padrões nas conchas do mar e para Will Darling. Mas partir daí e chegar ao livre- arbítrio requer que você confunda uma falha do reducionismo que torna impossível descrever com precisão o passado e prever o futuro como prova de indeterminismo. Diante de coisas complicadas, nossas intuições nos imploram para preencher o que não entendemos, e mesmo o que jamais poderemos entender, com atribuições equivocadas.
O reducionismo do tipo “separe as partes que o compõem” não funciona para entendermos algumas coisas bastante interessantes a nosso próprio respeito. Na verdade, nesses sistemas caóticos, diferenças minúsculas nos estados iniciais ampliam muitíssimo suas consequências.— Essa não linearidade contribui para uma imprevisibilidade fundamental, sugerindo para muita gente que existe um essencialismo que desafia o determinismo redutivo, fazendo com que a posição de que “não pode haver livre- arbítrio porque o mundo é determinista” vá por água abaixo.— Nada disso. Imprevisível não é a mesma coisa que indeterminado; determinismo redutivo não é o único tipo de determinismo; sistemas caóticos são puramente deterministas, eliminando essa perspectiva específica de proclamar a existência do livre- arbítrio.
A partir dos fenômenos imensamente complicados que isso pode produzir surgem propriedades irredutíveis que só existem no nível coletivo (por exemplo, uma única molécula de água não pode ser úmida; a “umidade” surge apenas da coletividade de moléculas de água e o estudo de moléculas de água individuais não prediz muita coisa acerca da umidade) e que são autônomas em seu nível de complexidade (ou seja, é possível fazer predições precisas sobre o comportamento do nível coletivo sem saber muita coisa sobre as partes componentes). Como resumiu o físico e prêmio Nobel Philip Anderson, “Mais é diferente”.[
nos sistemas emergentes a estrada que você percorre está sendo construída ao mesmo tempo e, na verdade, por estar nela você influencia o processo de construção constituindo um feedback no processo de construção da estrada.[ 6] Além disso, o objetivo em direção ao qual você viaja talvez ainda nem exista— você está destinado a interagir com um ponto- alvo que pode não existir ainda, mas que, com sorte, será construído a tempo. E, ao contrário dos autômatos celulares do último capítulo, os sistemas emergentes também estão sujeitos a aleatoriedade (no jargão, “eventos estocásticos”), nos quais a sequência de eventos aleatórios faz diferença.[ 7]
Muitas vezes as propriedades emergentes podem ser surpreendentemente adaptativas, e, apesar disso, não haver plano nem planejador.
Não há necessidade de coletar dados sobre a extensão de cada rota possível e de ter uma autoridade central que compare as rotas e depois direcione todo mundo para a melhor solução. Na verdade, uma coisa que se aproxima da solução ideal emerge por conta própria.[
Neurônios recém- nascidos perambulam na base do córtex até topar com uma glia radial. Então migram para cima, ao longo do trilho guia glial, deixando para trás mensagens quimioatratantes, que recrutam mais novatos para se juntarem à futura minicoluna.[ 20] 17 Batedores, transmissão dependente de qualidade e recrutamento do tipo “os mais ricos ficam mais ricos”, de insetos e bolores limosos a nosso cérebro. Tudo sem um plano mestre, ou sem que as partes constituintes saibam alguma coisa além de sua vizinhança imediata, ou sem qualquer componente comparando opções e escolhendo a melhor. Com notável clarividência sobre essas ideias, em 1874 o biólogo Thomas Huxley escreveu a respeito da natureza mecanicista dos organismos, de tal maneira que eles “apenas simulam inteligência, como a abelha simula um matemático”.
O que esta seção nos trouxe? Os mesmos temas da seção anterior sobre formigas, neurônios e bolores limosos que encontram caminhos— regras simples de interação local de elementos de um sistema, quando repetidas numerosas vezes com números imensos desses elementos, fazem emergir uma complexidade otimizada. Tudo isso sem autoridades centrais que comparem as opções e tomem decisões por sua livre escolha.[ 28]
Essa é a regra 80/ 20— cerca de 80% das interações ocorrem entre cerca de 20% da população. No mundo comercial, afirma- se sarcasticamente que 80% das reclamações vêm de 20% dos clientes. Oitenta por cento dos crimes são cometidos por 20% dos criminosos. Oitenta por cento do trabalho da empresa resulta dos esforços de 20% dos empregados.
O descritor 80/ 20 captura o espírito daquilo que é conhecido como distribuição de Pareto, de um tipo que os matemáticos chamam de “lei de potência”. Embora seja formalmente definida pelas características da curva, é mais fácil de entender em bom português: uma distribuição de lei de potência ocorre quando há predominância substancial de interações locais, com uma queda acentuada depois disso, e quanto mais você se afasta, mais raras se tornam as interações.
O que essa viagem nos mostrou? A) De moléculas a populações de organismos, sistemas biológicos geram complexidade e otimização equiparáveis ao que cientistas da computação, matemáticos e planejadores urbanos conseguem alcançar (e de onde roboticistas tomam explicitamente emprestadas de insetos estratégias de inteligência de enxame). 37 B) Esses sistemas adaptativos emergem de simples elementos constitutivos que têm interações locais, tudo sem autoridade centralizada, sem comparações explícitas para tomar decisões, sem plano e sem planejador.[ 43] C) Esses sistemas têm características que só existem no nível emergente— um único neurônio não pode ter traços relacionados a circuitaria— e cujo comportamento pode ser previsto sem necessidade de recorrermos ao conhecimento redutivo dos elementos constitutivos. D) Isso não só explica a complexidade emergente em nosso cérebro, mas mostra também que nosso sistema nervoso usa alguns dos mesmos truques usados por coisas como proteínas individuais, formigueiros e bolores limosos. Tudo sem ilusionismo. Muito legal, não? E onde entra o livre-
próximo erro é mais abrangente— a ideia de que emergência significa que os elementos redutivos com que você começou podem dar origem a estados emergentes capazes, então, de fazer o que bem quiserem.
Isso causa uma importante dicotomia. Filósofos com esse interesse discutem a “emergência fraca”, na qual o estado emergente, por mais interessante, ornamentado, inesperado e adaptativo que seja, ainda é limitado pelo que seus elementos redutivos podem e não podem fazer. Isso é contrastado com a “emergência forte”, na qual o estado emergente que surge do micro já não pode ser explicado por ela, mesmo no sentido caótico de forma gradual.
emergência fraca, que, nas palavras de Bedau, “não é um solvente universal”. Você pode estar fora de si, mas não fora de cérebro; por mais legais que sejam como emergência, as colônias de formigas ainda são formadas por formigas, limitadas pelo que uma formiga individual pode e não pode fazer, e os cérebros ainda são feitos de células cerebrais que funcionam como células cerebrais.
A causalidade descendente não faz com que elementos constitutivos individuais adquiram complexas habilidades; na verdade, ela determina os contextos nos quais os elementos fazem suas coisas idiotamente simples.
dicotomia. Há a causalidade descendente fraca, na qual alguma coisa emergente, como o conformismo, pode fazer um neurônio disparar da mesma maneira que o faria em resposta a fótons de luz— o funcionamento dessa parte constitutiva não mudou. E há a causalidade descendente forte, na qual pode mudar. A opinião comum entre quase todos os filósofos e neurobiólogos que pensam sobre isso é a de que a causalidade descendente forte, se existe, é irrelevante para o ponto central deste livro.
a complexidade emergente, apesar de muitíssimo interessante, não é onde o livre- arbítrio existe, por três razões: a. Por causa das lições do caoticismo— não se pode simplesmente seguir a convenção e dizer que duas coisas são iguais quando são diferentes, e de um jeito que importa, por mais que essa diferença pareça minúscula; imprevisível não significa indeterminado. b. Mesmo que um sistema seja emergente, não significa que pode escolher fazer o que quiser; ele ainda é feito e limitado pelas partes que o constituem, com todos os seus limites e fraquezas mortais. c. Sistemas emergentes não podem fazer os elementos que os construíram deixarem de ser elementares.[
esse é o movimento browniano, partículas que esbarram umas nas outras de maneira aleatória.
Heisenberg.[ 7] A incapacidade de saber a localização e a velocidade, o fato da superposição e de as coisas estarem em múltiplos lugares ao mesmo tempo, a impossibilidade de saber por qual das fendas o elétron vai passar depois que uma onda entra em colapso tornando- se partícula— tudo isso introduz um indeterminismo fundamental no universo.
Quando pessoas sugerem que indeterminações fundamentais na forma como o universo funciona podem ser a base do livre- arbítrio, da responsabilidade e de nosso sagrado senso de agência, só os esquisitos estão se referindo ao movimento browniano de partículas de pó. A indeterminação quântica é para lá de estranha, e, nas lendárias palavras do deus da física Richard Feynman, “Se você acha que entende mecânica quântica é porque você não entende mecânica quântica”.[ 25] É bem plausível, talvez até inevitável, que haja efeitos quânticos na maneira como coisas como íons interagem com coisas como canais iônicos ou receptores no sistema nervoso. No entanto, não há provas de que esses efeitos quânticos se propaguem para cima a ponto de alterar o comportamento, e a maioria dos especialistas acha que isso é, a rigor, impossível— a estranheza quântica não é tão estranha assim, e os efeitos quânticos são eliminados em meio ao ruído descoerente tépido e úmido do cérebro à medida que se aumenta a escala.
Mesmo que a indeterminação quântica de fato se propague para cima até o comportamento, há o problema inevitável de que tudo que ela produziria é aleatoriedade. Você quer mesmo afirmar que o livre- arbítrio pelo qual você ora merece castigo, ora merece recompensa se baseia na aleatoriedade? As supostas maneiras que nos permitem explorar, filtrar, agitar ou interferir na aleatoriedade a ponto de produzir livre- arbítrio parecem muito pouco convincentes. Se o indeterminismo determinado é um elemento constitutivo do livre- arbítrio, então ter aulas de teatro de improvisação é um elemento constitutivo válido para, à maneira de Sartre, acreditarmos que estamos condenados a ser livres.
Essa rejeição do reducionismo traz implicações subversivas e libertadoras de todos os tipos. Que a coletividade de baixo para cima construída sobre interações entre vizinhos e encontros casuais tem o potencial de esfarelar o controle autoritário de cima para baixo. Que nessas circunstâncias, os generalistas, mais do que os especialistas, são mais valiosos. Que o que parece ser a norma, quando examinado mais de perto, jamais é de fato alcançado por ninguém; a rigor, é a realidade oscilando de maneira estranha e não periódica em torno de um ideal platônico. Que esse negócio de normas se aplica à ideia de ser normal, não importa o que digam os meninos descolados; não existem formas reais de perfeição que não conseguimos alcançar— normal é um descritor não tão preciso, e sem dúvida não é uma receita. E que, como detalhe que sempre ressalto para meus alunos sem nenhuma sutileza, se você consegue explicar uma coisa de complexidade, adaptabilidade e até mesmo beleza espantosas sem invocar um projeto original, também não vai precisar invocar um projetista.
Mas apesar do comovente poder dessas revoluções não redutivas, elas não são o leite materno que nutre o livre- arbítrio. Não reducionismo não significa inexistência de partes componentes. Ou que partes componentes funcionem de maneira diferente quando há muitas delas, ou que coisas complexas possam se desprender de suas partes componentes para sair voando livremente. O fato de um sistema ser imprevisível não significa que seja encantado, e explicações mágicas para coisas não são de fato explicações.
A mensagem mais importante foi que não se trata de campos separados, terminados em “- logia”, produzindo comportamento. Todos eles se fundem numa coisa só— a evolução produz genes marcados pela epigenética do ambiente inicial, que produzem proteínas que, facilitadas por hormônios num contexto específico, trabalham no cérebro para produzir você. Um continuum perfeito que não deixa brechas entre as disciplinas onde algum livre- arbítrio possa se introduzir.
não importa quando a intenção ocorreu. Tudo que importa é como essa intenção surgiu. Não podemos desejar não desejar o que desejamos; não podemos anunciar que a sorte e o azar se equilibrem com o passar do tempo, uma vez que é muito mais provável que divirjam cada vez mais. Não se pode ignorar a história de alguém, porque nossa história é tudo que somos.
É por isso que, por mais que nos esforcemos, não conseguimos nos obrigar a ter mais força de vontade do que temos.
coisas realmente indeterministas parecem acontecer lá embaixo, no nível subatômico. No entanto, não é possível que esse nível de estranheza vá se infiltrando para cima até chegar a influenciar comportamento, e, além disso, caso sua noção de ser um agente livre e persistente se baseie na aleatoriedade, você vai ter problemas.
Como mostrado na vida diária, nos júris, nas salas de aula, nas cerimônias de premiação, nos discursos laudatórios e na obra de filósofos experimentais, as pessoas se apegam à noção de livre- arbítrio com feroz tenacidade. A tendência a atribuir motivos e a julgar, aos outros ou a nós mesmos, é enorme e demonstrável (em graus variados) em todas as culturas do mundo.
Uma série de estudos iniciados pela economista comportamental Katherine Vohs, da Universidade de Minnesota, mostra que os céticos quanto ao livre- arbítrio se tornam mais antissociais em seu comportamento.
Diminuir a crença das pessoas no livre- arbítrio talvez tenha implicações negativas até no combate à adicção.
As pessoas em geral percebem a adicção como algo que envolve uma perda de livre- arbítrio; além disso, muitos especialistas em dependência química acreditam que os adictos muitas vezes adotam uma visão determinista da adicção como uma característica destrutiva que lhes permite arranjar desculpas para si mesmos.
mine a crença da pessoa no livre- arbítrio e ela terá menos senso de agência, de significado, ou de autoconhecimento, menos gratidão para com a bondade alheia. E, o que é mais importante para nossos objetivos, ela se torna menos ética em seu comportamento, menos prestativa e mais agressiva.
A crença no livre- arbítrio em geral está incrustada em nós desde quando aprendemos a respeito dos pecados da gula ao ler Uma lagarta muito comilona. 10
a literatura mostra que é praticamente impossível usar uma breve manipulação experimental para transformar alguém num descrente convicto no livre- arbítrio; além disso, mesmo que você diminua em alguém a aceitação geral do livre- arbítrio, não há na verdade o efeito consistente de comprometer seu comportamento ético em ambiente de laboratório.
Só quando os humanos começaram a viver em comunidades maiores as religiões com deuses moralistas começaram a surgir. Quando os humanos fizeram a transição para aldeias, cidades e proto- estados, a socialidade humana passou a incluir encontros frequentes, transitórios e anônimos com estranhos. O que gerou a necessidade de inventar olhos que lá do céu tudo veem, os deuses moralistas que dominam as religiões do mundo. 12
Os ateus por acaso enlouqueceram? A maioria das pessoas sem dúvida tem essa opinião e o preconceito contra os ateus é grande e profundo. Há 52 países em que o ateísmo é punido com morte ou prisão. A maior parte dos americanos tem sentimentos negativos com relação a ateus e o preconceito contra estes é mais forte do que a antipatia contra muçulmanos (a qual vem em segundo lugar), afro- americanos, indivíduos lgbt +, judeus ou mórmons. Essa negatividade tem sérias consequências. Júris simulados dão a ateus sentenças de prisão mais longas; advogados de defesa aumentam a probabilidade de êxito quando ressaltam o teísmo de seus clientes; pessoas põem o nome de supostos ateístas mais para o fim de uma lista hipotética de transplante de órgãos; a custódia de crianças tem sido negada a pais por causa do ateísmo destes. Em alguns estados ainda vigoram leis que proíbem ateus de ocupar cargos públicos; em cantões mais esclarecidos, eleitores têm menor probabilidade de eleger pessoas em virtude do ateísmo delas. Nos Estados Unidos, ateus têm taxas de depressão clínica mais altas do que pessoas religiosas, e é provável que parte disso reflita o status marginalizado e minoritário deles (que são cerca de 5% dos americanos, segundo pesquisas).[
Por que a implicância contra ateus? Não é por serem vistos como menos calorosos ou competentes do que as pessoas religiosas. Na verdade, sempre tem a ver com moralidade— a crença generalizada de que acreditar num deus é essencial para a moralidade, tida pela maioria dos americanos e por mais de 90% das pessoas
Quando você presta atenção no que as pessoas de fato fazem, em vez de escutar o que dizem, não há diferença entre teístas e ateus nas taxas de doação de sangue, na quantidade de gorjetas ou no respeito aos pagamentos no “sistema de honra”; também não há diferença em ser altruísta, compreensivo ou grato. Além disso, não há diferença em ser agressivo ou vingativo em ambientes experimentais onde os participantes podem revidar uma violação de norma (por exemplo, aplicar o que acreditam ser um choque em alguém). 20
lembretes, incluindo lembretes implícitos, das posturas éticas, dos princípios morais e dos valores de alguém produzem o mesmo grau de decência em teístas e em ateus. A diferença está só no fato de que a pró- socialidade dos dois grupos está ancorada em valores e princípios diferentes e é estimulada em contextos diferentes.
Num vasto número de países, taxas médias mais baixas de religiosidade predizem taxas mais altas de todos esses resultados salutares. Tem mais: globalmente, taxas mais baixas de religiosidade num país predizem níveis mais baixos de corrupção, mais tolerância para com minorias raciais e étnicas, taxas mais altas de alfabetização, taxas mais baixas de criminalidade em geral e de homicídios e guerras menos frequentes.
Eis nosso motivo vitalmente importante para sermos otimistas, sobre por que o céu não vai necessariamente desabar em nós se as pessoas deixarem de acreditar no livre- arbítrio. Há gente que pensou muito e com afinco acerca, digamos, do efeito dos privilégios ou das adversidades no começo da vida no desenvolvimento do córtex frontal e sua conclusão foi: “Não existe livre- arbítrio, e eis o motivo”. Essa gente é um espelho daquela que pensou muito e com afinco sobre o mesmo assunto e concluiu: “Ainda assim existe livre- arbítrio, e eis o motivo”. As similaridades entre os dois grupos são, em última análise, maiores do que as diferenças, e o verdadeiro contraste está entre eles e as pessoas cuja reação às perguntas sobre as raízes da nossa decência moral é “Ah, tanto faz”.
A resposta é que não mudamos nossa mente. Nossa mente, que é o produto final de todos os momentos biológicos anteriores, é mudada pelas circunstâncias que nos rodeiam.
acabamos de esmagar qualquer filósofo cuja obra da vida inteira se baseie na noção de que temos livre- arbítrio porque podemos ser condicionados a piscar os olhos. Sim, sim, este não é um posto avançado do comportamento humano que se destaque pela sofisticação.
as adversidades no começo da vida prejudicam esse circuito tornando um neurônio- chave do circuito mais suscetível ao estresse.[
Existe a imagem clássica de nós num dilema moral: um anjo num ombro, um demônio no outro.[ 14] Temos um output motor, o neurônio ou os neurônios que acionam nossos músculos para pressionar o acelerador. E, num nível metafórico, há a circuitaria neural cujo output líquido é estimular aquele neurônio, uma mensagem de “Faça”, enquanto um circuito diferente provoca um inibitório “Não faça; ao contrário, desacelere”.
E é onde os acontecimentos a nossa volta alteram a força de várias sinapses— outro tirano assume o controle num país que avançava, rastejando, para a democracia, e uma rede como esta última é enfraquecida por esse contraexemplo.
A mudança ocorre, efetuada com as mesmas moléculas que permitem a uma Aplysia aprender, e sem invocar o tipo de agência voluntária e de liberdade às quais intuitivamente atribuímos a mudança. Você aprende que a experiência muda o sistema nervoso de uma Aplysia e, como resultado, seu próprio sistema nervoso muda. Não escolhemos mudar, mas é bem possível sermos mudados, inclusive para melhor.
capítulo anterior abordou o equívoco comum sobre o resultado de um mundo determinista sem livre- arbítrio. Se tudo está determinado, por que alguma coisa pode mudar? E por que nos preocuparmos? Afinal, mudança, mesmo mudança gigantesca, acontece o tempo todo, o que parece nos levar de volta ao ponto de partida da crença no papel fundamental do livre- arbítrio no mundo. De acordo com o argumento do último capítulo, embora a mudança ocorra, nós não escolhemos livremente mudar; na verdade, somos mudados pelo mundo a nossa volta, e uma consequência disso é que mudamos também quanto às subsequentes fontes de mudança que procuramos. Ei, aqui você está lendo o próximo capítulo.[
“ter convulsões” e “resolver dirigir mesmo sem ter tomado seus remédios” são atos igualmente biológicos, igualmente produtos de um sistema nervoso esculpido por fatores sobre os quais você não teve controle algum.
Sinto- me idiota, envergonhado, tentando desenvolver o argumento ancorado na ciência do último parágrafo e no capítulo 4 de que uma pessoa não merece ser responsabilizada ou castigada por ter convulsões, porque também é injusto e cientificamente injustificável transformar a vida de alguém num inferno só porque a pessoa em questão dirigiu sem ter tomado seus remédios. Mesmo que tenha feito isso para que os medicamentos não interferissem em seu prazer de sentir os efeitos do álcool. Mas é isso que devemos fazer, se quisermos viver as consequências do que a ciência nos ensina— que o cérebro que leva alguém a dirigir sem tomar seus remédios é produto final de todas as coisas além de seu controle acontecidas um segundo, um minuto, um milênio antes. E o mesmo é válido para o caso de o cérebro de alguém ter sido esculpido para torná- lo bondoso, inteligente, determinado. 13
Esse arco multicentenário da mudança de percepção da epilepsia é um modelo para o que precisamos fazer no futuro. Antigamente, ter uma convulsão estava embasado na percepção de agência, de autonomia e de liberdade de escolha para se juntar aos asseclas de Satanás. Hoje aceitamos sem dificuldade que nenhum desses termos faz qualquer sentido. E o céu não desabou sobre nós. Acho que a maioria de nós está de acordo que o mundo é um lugar melhor agora, porque os portadores dessa doença já não são queimados na fogueira. E ainda que eu hesite em continuar escrevendo aqui— ah, não, vou alienar o leitor fazendo- o pensar que tudo isso é inusitado demais—, o mundo será um lugar ainda mais justo se mudarmos também de atitude na atribuição de responsabilidade a essas pessoas que dirigiram mesmo sem ter tomado seus remédios. Aqui também não há espaço para queimar na fogueira.[
esquizofrenia é uma doença do pensamento desordenado.
cultura, gênero, etnia ou status socioeconômico. Uma faceta notável da doença é que o pensamento caótico tem alguns traços consistentes. Há pensamento tangencial e associações soltas, em que uma sequência lógica de A para B e para C se extravia em todas as direções, com a pessoa se movendo de forma errática, influenciada pelo som das palavras, por seus homônimos, com tentativas de conexão vagamente compreensíveis. Tangenciamento solto, com elementos de delírio, de perseguição paranoica. Acrescentem- se a isso alucinações, muitas vezes auditivas, assumindo a forma de ouvir vozes— incessantes, às vezes provocativas, ameaçadoras, exigentes, humilhantes.
Uma característica de notável consistência da esquizofrenia é que ela começa no fim da adolescência ou começo da idade adulta. No entanto, olhando para trás, houve anomalias mais leves que remontavam à infância. Indivíduos destinados a um diagnóstico de esquizofrenia têm níveis mais altos de sinais “neurológicos leves” no começo da vida, como demorar a ficar de pé e andar, atraso no treinamento esfincteriano, problemas persistentes de controle da vontade de urinar à noite. Além disso, há anomalias comportamentais no começo da infância.
Assim, a doença surge de riscos genéticos que levam o cérebro de alguém à beira do precipício, somado a um ambiente estressante, que então o empurra para o abismo.
A esquizofrenia é um transtorno do pensamento, como se diz, de “saliência aberrante”.
Acredita- se que a saliência aberrante também contribua para outra característica definidora da doença, ou seja, para as alucinações. A maioria das pessoas tem uma voz interna na cabeça, narrando acontecimentos, lembrando- as de coisas, intrometendo- se com pensamentos que nada têm a ver.
Portanto, essas alterações cerebrais precediam e prediziam a doença. A mudança mais dramática é que o córtex é anormalmente fino, comprimido (daí a preocupação com esmagamento). Há diferenças lógicas também nos ventrículos, aquelas cavidades cheias de líquido dentro do cérebro; especificamente, se o córtex é fino, comprimido, os ventrículos se dilatam, exercendo pressão para fora. Isso levanta a questão de saber se o problema são os ventrículos dilatados que esmagam o córtex a partir de dentro ou um córtex adelgaçado que deixa os ventrículos preencherem o espaço vazio. Na verdade, o afinamento cortical vem primeiro. 25
se alguém fosse obrigado a apresentar uma grande síntese da doença, com base no conhecimento atual, o resultado seria mais ou menos este: na esquizofrenia, uma série de variantes genéticas constitui um risco da doença e certas épocas de grande estresse no começo da vida regulam esses genes de tal maneira que as coisas se desviam para o caminho que leva à esquizofrenia. Essas manifestações incluem um excesso de dopamina e esparsas conexões entre neurônios no córtex frontal. Por que o início da doença ocorre em geral no fim da adolescência/ início da vida adulta? Porque é quando o córtex frontal tem sua explosão final de crescimento maturacional (e, com isso, é prejudicado na esquizofrenia).
Coisas erradas com genes, neurotransmissores, a quantidade de fiação axonal conectando neurônios. O objetivo de repassar essa visão geral de nosso entendimento atual da doença é insistir neste ponto— é um problema biológico, é um problema biológico. É o mundo das pessoas de jaleco com tubos de ensaio, e não de psicanalistas vienenses cujo modus operandi seria dizer à mãe que ela é péssima como mãe. Um universo de distância da ideia de que se você for um adolescente que sofre a maldição de ter uma mãe esquizofrenogênica, um mergulho na loucura esquizofrênica é sua rota de fuga. Em outras palavras, esse é outro domínio onde conseguimos subtrair da doença a noção de culpa (e, ao mesmo tempo, nos tornarmos muitíssimo mais eficazes no tratamento dela do que quando as mães eram estigmatizadas).
Tipos dissociativos orgânicos eram em geral pessoas de classe baixa, menos instruídas, para quem “é um distúrbio bioquímico” era o mesmo que continuar acreditando em mau- olhado, uma explicação fácil, equivocada, para quem não tinha inteligência suficiente para entender Freud.[ 30] A esquizofrenia ainda resultava de péssima criação e nada mudaria no pensamento convencional por décadas.
E em meio a tudo isso, morreu o mito das mães, dos pais e das famílias esquizofrenogênicos. Nenhum psiquiatra de respeito explicaria mais a alguém que sua toxidade provocara a esquizofrenia de um ente querido, ou conduziria o paciente esquizofrênico numa jornada psicanalítica de associação livre para descobrir os pecados da mãe. Nenhuma faculdade de medicina ensina isso. Praticamente ninguém mais, no grande público, acredita nisso.
O autismo passou por uma mudança bastante parecida. Outrora vagamente denominado “esquizofrenia infantil”, foi formalizado no diagnóstico de “autismo infantil precoce” pelo psiquiatra Leo Kanner. Depois de considerar a possibilidade de causas biológicas, especificamente genéticas, da doença, ele se conformou com o pensamento da época, que mais uma vez consistia, claro, em acusar a mãe. Nesse caso, a suposta toxicidade materna era uma frieza e uma incapacidade de amar; o slogan de Kanner que assombrou gerações de pais era “mães- geladeira”. Seguiu- se a história de sempre: décadas de vergonha e culpa. Crescente insight científico mostrando que há comprovação zero do conceito de “maternidade geladeira”. Primeiros indícios de defesa e de resistência à acusação. O aumento da conscientização pública sobre a prevalência da doença, tornando a acusação de geladeira mais difícil de sustentar, com alguma celebridade aplicada entrando em jogo. E o papel da culpa no autismo desapareceu, pois agora sabemos que se trata de um transtorno do neurodesenvolvimento alarmantemente comum. Além disso, muitos, com versões mais suaves de autismo (o que já foi nomeado de síndrome de Asperger agora é chamado de algo como transtorno do espectro autista [tea] de alto funcionamento), se opõem a serem patologizados com o conceito de “transtorno”. Em vez disso, sustentam que o tea deveria ser visto simplesmente como um extremo na variação normal da socialidade humana, e que ele traz muitas características cognitivas que se comparam, de maneira favorável, às dos “neurotípicos” (ou seja, todas as outras pessoas).[ 37]
O que fazer, então, com criminosos? Tem havido abordagens que, apesar de excelentes, ainda aceitam a premissa do livre- arbítrio, mas pelo menos mostram que pessoas realmente inteligentes e sérias estão pensando em alternativas radicais a nossas respostas a pessoas causadoras de danos. Uma possibilidade é o modelo “comissão de verdade e reconciliação”, de início imposto na África do Sul pós- apartheid e desde então utilizado em países que se recuperam de uma guerra civil ou de uma ditadura violenta.
Outro modelo, com algumas semelhanças e a mesma irrelevância final, surge do movimento de “justiça restaurativa”, que trata das relações entre criminoso e vítima, mais do que entre criminoso e Estado. Como no caso das comissões de verdade e reconciliação, espera- se que o criminoso se responsabilize por todos os detalhes de suas ações. A ênfase então recai na compreensão entre as partes. Para o perpetrador, é reconhecer a dor e o sofrimento causados— compreender, sentir, a ponto de ter remorso. E, para a vítima, o objetivo é compreender as circunstâncias, quase sempre terríveis e totalmente estranhas, que fizeram do criminoso a pessoa nociva que ele é. E, a partir daí, o objetivo para ambas as partes (em geral com um mediador) passa a ser descobrir o que podem fazer para que uma elimine um pouco da dor da outra e encontrar maneiras de diminuir a probabilidade de aquilo voltar a acontecer. A justiça restaurativa parece funcionar, diminuindo as taxas de reincidência. Dito isso, existe a possibilidade de viés de autosseleção— é quase certo que o criminoso que decide enfrentar a vítima nesses termos não é o prisioneiro comum e já está caminhando na direção certa.
A abordagem que faz mais sentido para mim é a ideia da “quarentena”. Do ponto de vista intelectual, é clara como o dia e cem por cento compatível com a inexistência de livre- arbítrio. Também de imediato tira o sono de muita gente.
Tal como delineado pelo filósofo incompatibilista Derk Pereboom, da Universidade Cornell, essa abordagem surge diretamente dos quatro princípios do modelo médico de quarentena: A) É possível alguém ter uma enfermidade médica que o torne contagioso, perigoso ou nocivo para as pessoas à sua volta. B) Não é culpa dele. C) Para proteger dele todos os demais, numa medida que se parece a um ato coletivo de legítima defesa, é aceitável prejudicá- lo restringindo sua liberdade. D) Devemos restringir a liberdade dessa pessoa o mínimo necessário para proteger a todos, nem um centímetro a mais.
A extensão disso para a criminologia no pensamento de Pereboom é óbvia: A) Algumas pessoas são perigosas devido a problemas como controle de impulso, propensão à violência, ou incapacidade de empatia. B) Se você de fato aceita que não existe livre- arbítrio, elas não têm culpa— é resultado dos genes, da vida fetal, dos níveis de hormônio, o de sempre. C) Apesar disso, o público precisa se proteger contra elas até que sejam reabilitadas, se possível, justificando as restrições a sua liberdade. D) Mas sua “quarentena” deve ser aplicada de uma forma que restrinja o mínimo possível— fazer o que for necessário para torná- las seguras e em tudo o mais deixá- las livres. O sistema de justiça retributiva é construído com base numa proporcionalidade retrógrada, na qual quanto mais danos causados, mais severo o castigo. O modelo de quarentena da criminalidade mostra uma proporcionalidade progressista, na qual quanto maior o perigo representado no futuro, mais restrições são necessárias.
O modelo de quarentena de Pereboom foi estendido pelo filósofo Gregg Caruso, da Universidade Estadual de Nova York, outro incompatibilista de destaque. Cientistas de saúde pública não se limitam a descobrir, por exemplo, que o cérebro de filhos de trabalhadores agrícolas migrantes é danificado por resíduos de pesticidas. Também têm o imperativo moral de trabalhar para impedir que isso aconteça (digamos, testemunhando em processos contra fabricantes de pesticidas). Caruso estende esse pensamento à criminologia— sim, a pessoa é perigosa por razões que ela não pôde controlar e não sabemos como reabilitá- la, portanto vamos restringi- la o mínimo possível para manter todos em segurança.[ 10] Mas vamos atacar também as causas profundas, em geral nos colocando no campo da justiça social. Assim como os profissionais de saúde pública pensam nos determinantes sociais da saúde, um modelo de quarentena orientado para a saúde pública que substitua o sistema de justiça criminal exige atenção aos determinantes sociais do comportamento criminoso. Na verdade, isso implica que, embora um criminoso possa ser perigoso, a pobreza, o preconceito, as desvantagens sistêmicas etc. que produzem criminosos são ainda mais perigosos. 10
A questão da detenção por tempo indeterminado. Com
A questão da restrição preventiva.
Tudo que posso dizer é que qualquer versão de restrição preventiva teria que estar no contexto de um mundo no qual as pessoas de fato entendessem e aceitassem que indivíduos horríveis são produzidos por circunstâncias horríveis (um minuto antes, uma hora antes…). Temos mesmo um longo caminho pela frente.
A questão dessa diversão potencial.
Gosto dos modelos de quarentena como meio de conciliar a inexistência de livre- arbítrio com a proteção da sociedade contra indivíduos perigosos. Parece uma abordagem lógica e moralmente aceitável. Apesar disso, há um problema inusitado, em geral formulado estritamente como a questão dos “direitos da vítima”. Isso é na verdade a ponta do iceberg de um problema gigantesco, capaz de levar a pique qualquer abordagem que consista em subtrair o livre- arbítrio no trato com indivíduos perigosos. Refiro- me aos sentimentos intensos, complexos, quase sempre compensadores que tomam conta de nós quando temos oportunidade de punir alguém.
a punição em suas versões de teoria dos jogos desestimula a trapaça e facilita a cooperação.
Essas são soluções distais para o problema dos custos da punição. Como foi dito no capítulo 2, há o “distal” (níveis de explicação panorâmica e de longo prazo), em contraste com o “proximal” (ênfase em motivações e explicações do momento). Por que os animais se acasalam, gastando esforço e calorias, muitas vezes arriscando a vida? Explicação distal: porque isso permite que eles deixem cópias de seus genes na geração seguinte. Explicação proximal: porque é bom. Por que punir trapaceiros, se isso custa caro? A explicação distal é o que temos discutido— porque compartilhar os custos de maneira confiável e em conjunto beneficia a todos. Mas quando buscamos uma explicação proximal fica claro que será dificílimo convencer as pessoas a proclamarem a ausência de livre- arbítrio e se limitarem a colocar os elementos perigosos em quarentena. Por que punir trapaceiros quando isso é dispendioso? Proximalmente, porque gostamos de punir malfeitores. É muito bom.
Pagamos por coisas que nos dão prazer— um filme de terror assustador (se você for esse tipo de pessoa paradoxal), cocaína, bananas, uma chance de ler textos ou ver imagens sexualmente excitantes.[ 28] E eis crianças e chimpanzés pagando pelo prazer de ver o malvado receber sua merecida recompensa. 27
O tema da segunda metade deste livro é o seguinte: já fizemos isso. Repetidas vezes, em várias esferas, mostramos que é possível subtrair a crença de que atos são escolhidos de maneira livre e deliberada, enquanto nos tornamos mais informados, mais reflexivos, mais modernos. E o teto não desabou; a sociedade pode funcionar sem acharmos que pessoas com epilepsia estão mancomunadas com Satanás e que as mães de pessoas com esquizofrenia causaram a doença porque odiavam os filhos.
O que a ciência deste livro ensina, em última análise, é que não existe significado algum. Não há resposta para “Por quê?” além de “Isso aconteceu por causa do que veio pouco antes, que aconteceu por causa do que veio pouco antes”. Nada existe além de um universo vazio e indiferente no qual, de vez em quando, átomos se juntam temporariamente para formar uma coisa que cada um de nós chama de Eu.
A verdade pode até ser fatal. Alguém à beira da morte numa sala de emergência, com 90% do corpo com queimaduras de terceiro grau, reúne forças para perguntar se o resto da família está bem. E a maioria dos médicos ficaria muito indecisa sobre contar à pessoa a verdade arrasadora. Como biólogos evolucionistas ressaltaram, os seres humanos só sobrevivem e conseguem entender verdades acerca da vida porque desenvolveram uma robusta capacidade de se iludir.[ 3] E isso sem dúvida inclui a crença no livre- arbítrio. 4
rejeição do livre- arbítrio não o condena a se tornar mau, se você tiver sido devidamente instruído sobre as raízes de nosso comportamento. O problema é que isso requer instrução. E nem mesmo instrução garante um resultado bom, moral. Afinal, a maioria dos americanos foi instruída a acreditar no livre- arbítrio e refletir que isso gera responsabilidade por nossas ações.
Rejeitar o livre- arbítrio tem outro inconveniente. Se ele não existe, você não merece aplausos por suas realizações, você não ganhou nada, não tem direito a nada.
Talvez você fique um pouco desalentado ao perceber que parte de seu sucesso na vida se deve ao fato de ter um rosto atraente. Ou que sua louvável autodisciplina tem tudo a ver com a forma como seu córtex foi construído quando você era feto. Que alguém ama você por causa, digamos, da maneira como os receptores de oxitocina desse alguém funcionam. Que você e as outras máquinas não têm significado.
É privilegiado o bastante para ter sucesso na vida que não foi obra sua e se cobrir do mito de que fez escolhas voluntárias.
Essa verdade científica teve impacto zero no grande público. Estudos encorajadores mostram que os níveis médios de preconceitos implícitos, inconscientes, contra pessoas por causa de raça, idade ou orientação sexual diminuíram bastante na última década. Mas não os preconceitos implícitos contra indivíduos obesos. Eles até se agravaram. De maneira significativa, estão presentes entre estudantes de medicina, em especial entre os magros, brancos e do sexo masculino. Mesmo o indivíduo obeso médio mostra preconceitos implícitos contra a obesidade, inconscientemente associando- a a preguiça; esse tipo de aversão a si mesmo é raro entre grupos estigmatizados.
Há também uma das fontes mais profundas de dor. Certa vez fiz uma palestra sobre outros primatas numa escola de ensino fundamental. Depois da aula, uma criança bastante feia veio me perguntar se os babuínos se importavam se algum deles não era bonito. Cantando sobre um menino capaz de fazer alguém se sentir amado e desejado, Elphaba, a verde excluída de Wicked, conclui: “Ele poderia ser esse menino. Mas eu não sou essa menina”. E toda vez que uma pessoa menos atraente tem menos probabilidade de ser contratada, de receber um aumento, de ser votada, de ser absolvida por um júri expressa- se a crença implícita de que a falta de beleza exterior corresponde à falta de beleza interior.
Aí está nosso país, com o culto da meritocracia, que julga seu valor pelo qi e pela quantidade de diplomas que tem. Um país que vomita asneiras sobre potencial econômico igual, quando, em 2021, o 1% do topo detém 32% da riqueza, e a metade inferior menos de 3%, onde é possível encontrar uma seção de conselhos intitulada “Não é culpa sua ter nascido pobre, mas é culpa sua morrer pobre”, que conclui afirmando que, se esse for seu lamentável fim, “vou dizer que você foi um esperma desperdiçado”. 18 Ser portador de um distúrbio neuropsiquiátrico, ter nascido numa família pobre, ter o rosto ou a cor da pele errados, ter os ovários errados, amar o gênero errado. Não ser inteligente o bastante, bonito o bastante, bem- sucedido o bastante, extrovertido o bastante, adorável o bastante. Ódio, desprezo, decepção, os desfavorecidos convencidos a acreditar que merecem estar onde estão, por causa do defeito no rosto ou no cérebro. Tudo isso embrulhado na mentira de um mundo justo.
Onde descanso Não me procure onde tudo é verde Pois ali não vai me encontrar. Onde máquinas desperdiçam vidas É aí que descanso, minha querida. Não me procure onde pássaros cantam Lindas canções não me chegam aos ouvidos Em minha escravidão o tilintar de correntes É toda a música que escuto. Nem onde os riachos da vida correm Nessas fontes claras não me sacio. Mas onde se colhe o que a ganância semeia Dentes famintos e lágrimas caindo. Se seu coração de verdade me ama Junte- o ao meu e me aperte firme. E que este mundo de suor e crueldade Morra aqui no parto do Éden.[
É o que aconteceu um segundo antes, ou 1 milhão de anos antes, que determina se sua vida e seus amores decorrem ao lado de riachos borbulhantes ou de máquinas que o sufocam com fuligem. Se em cerimônias de formatura você usa o capelo e a beca ou arrasta o saco de lixo. Se você é tido como merecedor de uma longa vida de realizações ou de uma longa sentença de prisão. Não existe “merecimento” justificável. A única conclusão moral possível é que você não tem mais direito de ter suas necessidades e seus desejos atendidos do que qualquer outro ser humano. Que não existe nenhum ser humano menos digno do que você de ter seu bem- estar levado em conta.[ 15] Você pode pensar de outra forma, porque não consegue conceber os fios de causalidade por baixo da superfície que fizeram de você você, porque pode se dar ao luxo de decidir que esforço e autodisciplina não são feitos de biologia, porque se cercou de pessoas que pensam da mesma maneira. Mas foi aqui que a ciência nos trouxe. E precisamos aceitar o absurdo de odiar alguém por alguma coisa que fez. Em última análise, esse ódio é mais triste do que odiar o céu por formar tempestades, odiar a terra quando ela treme, odiar o vírus porque ele é muito bom em penetrar nas células pulmonares. Aqui também foi onde a ciência nos trouxe.
Nem todos concordam. Há quem sugira que a ciência que enche estas páginas diz respeito a propriedades estatísticas de populações, sendo incapaz de predizer o suficiente sobre o indivíduo. Há quem sugira que ainda não sabemos o suficiente. Mas sabemos, sim, que cada aumento na pontuação de Experiências Adversas na Infância aumenta as chances de comportamento antissocial na vida adulta em mais ou menos 35%; levando isso em conta, já sabemos o suficiente. Sabemos que sua expectativa de vida varia em trinta anos, dependendo do país onde nasceu,[ 16] em vinte anos dependendo da família americana em que nasceu; já sabemos o suficiente. E já sabemos o suficiente porque entendemos que a biologia da função frontocortical explica por que nas encruzilhadas da vida algumas pessoas sempre tomam a decisão errada. Já sabemos o suficiente para compreender que as inúmeras pessoas cuja vida é menos afortunada do que a nossa não “merecem” implicitamente ser invisíveis. Em 99% das vezes não consigo chegar nem perto de alcançar essa mentalidade, mas só resta tentar, porque vai ser uma libertação.
Rub
Quando eu contava estórias para minha filha — ela era bem pequena ainda —, tinha uma pergunta que ela sempre me fazia: "Esta estória aconteceu de verdade?". Eu não tinha jeito de responder. Se fosse o Peter Pan adulto, tal como aparece no Hook — A volta do Capitão Gancho, eu diria logo que tudo era só uma mentirinha sem importância que eu estava inventando para que ela dormisse logo e eu pudesse voltar a me ocupar das coisas importantes do mundo real do dinheiro, da política, do trabalho, das rotinas da casa. Diria a ela que o livro que me importava, aquele que eu realmente lia, livro de cabeceira, era a agenda de capa verde. Nas suas páginas se escrevia a realidade. Mas ela era ainda muito criança — com o tempo cresceria e aprenderia a ler a literatura do real que só pode ser lida nas agendas. Por enquanto, ela podia se entregar às palavras mentirosas das estórias, só para que o sono viesse mais depressa... Mas eu não era o Peter Pan adulto e o que eu tinha para dizer eu não dizia, pois achava complicado demais para a cabecinha dela. O que eu gostaria de dizer a ela e não disse é que as estórias que eu contava não aconteceram nunca para que acontecessem sempre. A Terra do Nunca é a Terra do Sempre, que existe eternamente dentro da gente. Já o que aconteceu de fato, documentado, fotografado, comprovado pela ciência e escrito com o nome de História — isso aconteceu do lado de fora da gente e, por isso, não acontece nunca mais. Está morto e enterrado no passado, e não há feitiço que faça ressuscitar. Mas aquilo que não aconteceu nunca, aquilo que só foi sonhado, é aquilo que sempre existiu e que sempre existirá, que nem nasceu nem morrerá, e a cada vez que se conta acontece de novo... Se ela me tivesse feito a pergunta de um jeito diferente, se me tivesse perguntado se acreditava na estória, ah!, eu teria respondido fácil: "Mas é claro que acredito!". Pois eu só acredito no que não aconteceu nunca, no que é sonho, pois de sonhos, é disso que somos feitos. A estória da Branca de Neve não aconteceu nunca, mas todos nós somos, sempre, uma Madrasta que se vê triste diante do espelho e manda a menina, nós também, para ser morta na floresta. A estória de João e Maria não aconteceu nunca, mas em toda criança existe a fantasia terrível do abandono. A estória de Romeu e Julieta não aconteceu nunca, mas queremos ouvi-la de novo, pois dentro de nós existe o sonho do amor puro, belo e imortal. E é por isso que sou incuravelmente religioso, porque nas estórias da religião, que não aconteceram nunca, os sonhos e pesadelos da alma se acham refletidos. Acredito porque sei que são mentira. Se fossem verdade, não me interessariam. As estórias são contadas como espelhos, para que a gente se descubra nelas. Os orientais são os grandes mestres nessa arte, esquecida dos ocidentais porque cresceram, como o Peter Pan do filme Hook, e passaram a acreditar somente naquilo que a agenda conta, sem perceber que, porque ela diz a verdade, mente. Quero contar para você a estória que mais tenho contado — não aconteceu nunca, acontece sempre. Um homem muito rico, ao morrer, deixou suas terras para os seus filhos. Todos eles receberam terras férteis e belas, com exceção do mais novo, para quem sobrou um charco inútil para a agricultura. Seus amigos se entristeceram com isso e o visitaram, lamentando a injustiça que lhe havia sido feita. Mas ele só lhes disse uma coisa: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá". No ano seguinte, uma seca terrível se abateu sobre o país, e as terras dos seus irmãos foram devastadas: as fontes secaram, os pastos ficaram esturricados, o gado morreu. Mas o charco do irmão mais novo se transformou num oásis fértil e belo. Ele ficou rico e comprou um lindo cavalo branco por um preço altíssimo. Seus amigos organizaram uma festa porque coisa tão maravilhosa lhe tinha acontecido. Mas dele só ouviram uma coisa: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá". No dia seguinte seu cavalo de raça fugiu e foi grande a tristeza. Seus amigos vieram e lamentaram o acontecido. Mas o que o homem lhes disse foi: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá". Passados sete dias o cavalo voltou trazendo consigo dez lindos cavalos selvagens. Vieram os amigos para celebrar essa nova riqueza, mas o que ouviram foram as palavras de sempre: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá". No dia seguinte o seu filho, sem juízo, montou um cavalo selvagem. O cavalo corcoveou e o lançou longe. O moço quebrou uma perna. Voltaram os amigos para lamentar a desgraça. "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá", o pai repetiu. Passados poucos dias, vieram os soldados do rei para levar os jovens para a guerra. Todos os moços tiveram de partir, menos o seu filho de perna quebrada. Os amigos se alegraram e vieram festejar. O pai viu tudo e só disse uma coisa: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá...". Assim termina a estória, sem um fim, com reticências... Ela poderá ser continuada, indefinidamente. E, ao contá-la, é como se contasse a estória de minha vida. Tanto os meus fracassos quanto as minhas vitórias duraram pouco. Não há nenhuma vitória profissional ou amorosa que garanta que a vida finalmente se arranjou e nenhuma derrota que seja uma condenação final. As vitórias se desfazem como castelos de areia atingidos pelas ondas, e as derrotas se transformam em momentos que prenunciam um começo novo. Enquanto a morte não nos tocar, pois só ela é definitiva, a sabedoria nos diz que vivemos sempre à mercê do imprevisível dos acidentes. "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá."
Quando o meu nome é pronunciado, eu sou imediatamente informado do que fiz no passado. E, ao ser informado, pelo som enfeitiçador do meu nome, daquilo que fiz no passado, sou também informado do meu ser e daquilo que se espera de mim no futuro. O nome, assim, obriga-me a ser de um jeito que se espera. O nome contém o programa do meu ser.
Saramago
Aqui, sobre este inferno, de vez em quando temos momentos de céu.
Simone Weil
"Não devemos crer que o futuro leva consigo um bem tal que apaga completamente nossa ânsia de felicidade. O futuro é feito da mesma substância do presente."
Solano Trindade
Quando eu tiver bastante pão para meus filhos para minha amada pros meus amigos e pros meus vizinhos quando eu tiver livros para ler então eu comprarei uma gravata colorida larga bonita e darei um laço perfeito e ficarei mostrando a minha gravata colorida a todos os que gostam de gente engravatada...
Søren Kierkegaard
“Afora meu numeroso círculo de amizades restante, ainda tenho uma confidente íntima: minha melancolia; em meio à minha alegria, em meio ao meu trabalho, ela me acena, chama-me à parte, ainda que eu permaneça corporalmente no mesmo lugar. Minha melancolia é a mais fiel das amantes que já conheci. Que há de estranho em que eu também a ame?”
Stephen Hawking
Somos todos viajantes do tempo em uma jornada rumo ao amanhã.
Poderíamos definir deus como a encarnação das leis da natureza.
Uso a palavra “deus” em sentido impessoal, como Einstein fez para as leis da natureza; assim, conhecer a mente de deus é conhecer as leis da natureza.
Sou da opinião de que o universo foi criado espontaneamente, do nada, segundo as leis da ciência. O pressuposto básico da ciência é o determinismo científico. As leis da ciência determinam a evolução do universo dado seu estado a um dado momento. Essas leis podem ou não ter sido determinadas por deus, mas ele não pode intervir para infringi- las, pois então elas não seriam leis. Isso dá a deus a liberdade de escolher o estado inicial do universo, mas mesmo aí parece que deve haver leis. Assim deus não teria liberdade alguma.
Quais são os três ingredientes necessários? O primeiro é a matéria— coisas que tenham massa. A matéria está a nossa volta, por toda a parte, no chão sob nossos pés e no espaço sideral acima. Poeira, rocha, gelo, líquidos. Vastas nuvens de gás, espirais massivas de estrelas com bilhões de sóis, espalhados por distâncias inacreditáveis. A segunda coisa de que vamos precisar é energia. Mesmo que você nunca tenha pensado a respeito, todo mundo sabe o que é energia. Algo que encontramos diariamente. Vire para o Sol e você pode senti- la no rosto: a energia produzida por uma estrela a 150 milhões de quilômetros de distância. A energia permeia o universo e impulsiona os processos que fazem dele um lugar dinâmico, mudando infinitamente. Assim, temos matéria e temos energia. A terceira coisa de que precisamos é espaço. Espaço aos montes.
No momento do Big Bang, um universo inteiro passou a existir e, com ele, o espaço. Tudo inchou, como uma bexiga sendo soprada. Então de onde vem toda essa energia e espaço? Como pode um universo inteiro repleto de energia, da espantosa vastidão do espaço e de tudo que há nele simplesmente surgir do nada? Para alguns, é aí que deus volta a entrar em cena. Deus criou a energia e o espaço. O Big Bang foi o momento da criação. Mas a ciência conta uma história diferente.
Quando o Big Bang produziu uma quantidade massiva de energia positiva, simultaneamente produziu a mesma quantidade de energia negativa. Dessa forma, o positivo e o negativo resultam em zero, sempre. É outra lei da natureza.
O universo é uma enorme bateria armazenando energia negativa. O lado positivo das coisas— a massa e a energia que vemos hoje em dia— é como a colina. O buraco correspondente, ou a porção negativa das coisas, esparrama- se por todo o espaço.
Como sabemos que a soma do positivo e do negativo resulta em zero, tudo que precisamos fazer é descobrir o que— ou quem, se preferir— deu origem ao processo todo. O que pode ter causado o surgimento espontâneo de um universo? Inicialmente, parece um problema desconcertante— afinal, as coisas não se materializam do nada. Não podemos estalar os dedos e esperar que uma xícara de café apareça quando temos vontade.
o espaço e o tempo no universo estão fundamentalmente entrelaçados. Algo incrivelmente maravilhoso aconteceu com o tempo no instante do Big Bang. O próprio tempo começou.
Acredito que o papel desempenhado pelo tempo no começo do universo é a chave final para eliminar a necessidade de um grande projetista e revelar como o universo criou a si mesmo.
À medida que viajamos de volta no tempo em direção ao momento do Big Bang, o universo fica cada vez menor e continua diminuindo até finalmente chegar a um ponto em que se torna um espaço tão ínfimo que na verdade se trata de um único buraco negro infinitesimalmente pequeno e denso. E, assim como acontece com os buracos negros que hoje flutuam pelo espaço, as leis da natureza ditam algo verdadeiramente extraordinário. Elas nos dizem que aí também o próprio tempo tem que parar. Não podemos voltar a um tempo anterior ao Big Bang porque não havia tempo antes do Big Bang. Finalmente encontramos algo que não possui uma causa, porque não havia tempo para permitir a existência de uma. Para mim, isso significa que não existe a possibilidade de um criador, porque ainda não existia o tempo para que nele houvesse um criador.
Se eu tenho fé? Cada um é livre para acreditar no que quiser. Na minha opinião, a explicação mais simples é que deus não existe. Ninguém criou o universo e ninguém governa nosso destino. Isso me levou a perceber uma implicação profunda: provavelmente não há céu nem um além- túmulo. Acho que acreditar em vida após a morte não passa de ilusão. Não existe evidência confiável disso e a ideia vai contra tudo que sabemos em ciência. Acho que, quando morremos, voltamos ao pó. Mas, em certo sentido, continuamos a viver: na influência que deixamos, nos genes que passamos adiante para nossos filhos. Temos apenas esta vida para apreciar o grande plano do universo, e sou extremamente grato por isso.
Einstein introduziu sua revolucionária teoria geral de relatividade. Nela, espaço e tempo não eram mais absolutos, não eram mais um cenário fixo para os eventos. Antes, eram quantidades dinâmicas moldadas pela matéria e energia do universo. Elas eram definíveis apenas dentro do universo, assim não tinha sentido falar em um tempo anterior ao nascimento do universo.
Em outras palavras o universo está se expandindo. As galáxias estão se afastando umas das outras.
princípio da incerteza, proposto em 1927 pelo cientista alemão Werner Heisenberg. É impossível alcançar a exatidão ao se prever simultaneamente a posição e a velocidade da partícula.
Einstein repudiou veementemente a ideia de que o universo é governado pelo acaso. Seu ponto de vista ficou sintetizado na máxima “Deus não joga dados”. Mas toda evidência aponta o contrário: deus é um tremendo apostador. O universo é como um cassino gigante com os dados rolando ou a roleta girando a todo momento. A casa corre o risco de perder dinheiro a cada lançamento de dados ou giro de roleta. Mas com uma grande quantidade de apostas, as probabilidades ficam na média e o dono do cassino se certifica de que essa média opere em seu favor. Por isso donos de cassino são tão ricos. A única chance de ganhar contra eles é apostar todo seu dinheiro em alguns poucos lances de dados ou giros da roleta. O mesmo se dá com o universo. Quando ele é grande, há uma quantidade numerosa de lances de dados, e os resultados correspondem a uma média que pode ser prevista. Porém, quando ele é muito pequeno, próximo ao Big Bang, há apenas uma pequena quantidade de lances de dados e o princípio da incerteza é muito importante. Portanto, a fim de compreender a origem do universo, devemos incorporar o princípio da incerteza à teoria da relatividade geral de Einstein. Esse
O princípio antrópico diz que o universo tem que ser mais ou menos como o vemos porque, se fosse diferente, não haveria ninguém para observá- lo.
A teoria- M, nossa melhor candidata para uma teoria unificada completa, admite um número muito grande de histórias possíveis para o universo.
mente humana é uma coisa incrível. Ela pode conceber a magnificência do firmamento e as complexidades dos componentes básicos da matéria. Porém, toda mente necessita de uma fagulha para atingir seu pleno potencial. A centelha da curiosidade e da dúvida.
Muitas vezes essa centelha vem de um professor. Deixe que me explique. Não fui um aluno exemplar, demorei para aprender a ler e minha caligrafia era ruim. Mas quando estava com quatorze anos, meu professor em St. Albans, Dikran Tahta, mostrou- me como aproveitar minha energia e me encorajou a pensar criativamente em termos matemáticos. Ele abriu meus olhos para as matemáticas como o projeto de construção do próprio universo. Por trás de toda pessoa excepcional, há um professor excepcional. Quando pensamos nas coisas que sabemos fazer na vida, há grandes chances de que as saibamos graças a um professor.
A base para o futuro da educação deve residir em escolas e professores inspiradores.
Alguns acham que o atual estado da humanidade é o pináculo da evolução e que não iremos mais longe do que isso. Discordo. Deve haver algo muito especial acerca das condições de contorno do nosso universo— e o que pode ser mais especial do que não haver contorno algum? Igualmente, a diligência humana não deve se deixar limitar por nenhuma fronteira. Do modo como vejo, há duas opções para o futuro da humanidade. Primeiro: a exploração do espaço para encontrar planetas alternativos onde viver. Segundo: o uso positivo da inteligência artificial para melhorar nosso mundo.
Deixe- me explicar melhor. Não estou promovendo a ideia de que todo mundo deve ser cientista quando crescer. Não vejo isso como uma situação ideal, já que o planeta precisa de gente com as mais variadas habilidades. Mas defendo que todos os jovens deveriam estar familiarizados e à vontade com os temas da ciência, independentemente da carreira que seguirem. Esses indivíduos não devem crescer como analfabetos científicos e precisam ser inspirados a se envolver com os acontecimentos em ciência e tecnologia para aprender mais. Um mundo onde apenas uma minúscula superelite é capaz de compreender os avanços científicos e tecnológicos e suas aplicações seria, a meu ver, um lugar perigoso e limitado. Duvido seriamente que projetos com benefícios de longo prazo, como limpar os oceanos ou curar doenças no mundo em desenvolvimento, receberiam prioridade. Pior ainda, poderíamos descobrir que a tecnologia é usada contra nós e que talvez não tenhamos poder para impedi- la.
saber de fato de onde virá a próxima grande descoberta científica, tampouco quem a fará. Proporcionar acesso à emoção e ao espanto da revelação científica, criando maneiras inovadoras e acessíveis de atingir o maior público jovem possível, aumentará em muito nossas chances de encontrar e inspirar um novo Einstein. Esteja ele ou ela onde estiver.
Assim, lembre- se de olhar para as estrelas, não para os próprios pés. Tente compreender o que vê e questione o que faz o universo existir. Seja curioso. E por mais que a vida pareça difícil, sempre há algo que você pode e consegue fazer. Nunca desista. Deixe sua imaginação correr solta. Molde o futuro.
T. S. Eliot
"Onde está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação?"
Thomas Mann
"Estamos a um metro de distância um do outro. E, no entanto, ao teu redor gira um universo do qual o centro és tu, e não eu. E ao meu redor gira um universo do qual o centro sou eu, e não tu".
Valter Hugo Mãe
Deus é exactamente como as mães. Liberta Seus filhos e haverá de buscá-los eternamente. Passará todo o tempo de coração pequeno à espera, espiando todos os sinais que Lhe anunciem a presença, o regresso dos filhos. Deus é exactamente como são as mães, que criam e depois vão ficando para trás, à distância, numa distância que parece significar que não são mais precisas, e Ele, como elas, só sabe amar acima de qualquer defeito e qualquer falha, com cada vez maior saudade, mas não sabe o caminho, não sabe por onde os filhos foram, só pode suplicar que não se percam e não se percam da vontade de voltar. Espalha por toda a parte Seus sinais. Avisa contra tudo e cria memórias, para que os filhos se lembrem d'Ele mesmo em lugares onde nunca haviam estado antes e estabeleçam sempre um mapa que os esclareça para fora de qualquer labirinto. Deus está na escuridão, e tacteia por toda a parte na vontade intensa de um toque, do aconchego do corpo dos filhos, um gentil toque ou um abraço. E os filhos distraem-se e são incautos ou tornam-se impuros e fogem, atarefados com suas paixões e incertezas, e pensam menos no quanto Deus pode sofrer do que no sofrimento que haverão eles de sentir pela mais pequena contrariedade. Os filhos partem sem saberem que o sentido da vida é chegar à origem. Dispersos na paisagem de Deus, os filhos lembram, por vezes, do amor, como é primordial e lhes foi colocado no peito com generosidade. Contudo, os filhos julgam que o amor é o consumo da vida, o imediato que observam, a evidência de se verem acompanhados quando a verdadeira companhia encontra sempre um modo de chegar a casa. Eles partem para mais longe. Os filhos partem para mais longe buscando o que, afinal, tanto ficara lá atrás. Deus, como as mães, corre os dias inteiros à janela e escuta. Qualquer bulício Lhe acelera o coração. Se existem passos em redor de Sua casa, se alguma voz O chama, palpita como doido de alegria na esperança de ter um filho em visita. Deus pisa até de leve, quer tudo em sossego, sem sobressalto, porque sabe apenas estar à espera por tão grande esperança de ser correspondido no amor. Como as mães, Ele arruma Sua casa, tem sempre as camas prontas, alguma fruta na mesa, de onde enxota as moscas barafustando, até indignado, porque aquelas frutas podem ser para oferecer à boca de um filho. E a fome de um filho é prioritária, contra leões e tempestades. A casa de Deus tem a chave do lado de fora, debaixo de um vaso. Toda a gente o sabe. É tique de todas as mães que dormem lá dentro vulneráveis a qualquer ladrão em troca da oportunidade de, ao menos uma vez, um filho voltar, tomar a chave e entrar, mesmo que a meio da noite, no descanso profundo, entre os sonhos, porque, de todo o modo, o maior sonho possível é esse mesmo, que o filho volte e ocupe sua cama, ocupe seu lugar. Esteja nem que por um instante ali. Para que o veja, o ouça e sinta. E Deus preocupa-se com ver como engordou ou emagreceu, como está a cor em torno das pupilas dos olhos, como entorta a boca ao falar, se os cabelos lhe ficam brancos e caem mais cedo, que ferida traz no ombro, que ferida tem no coração, quem lha fez. E Deus escuta suas queixas e avalia suas mazelas e nunca culpa o filho, mesmo que toda a gente lúcida o fizesse, porque quer que os filhos sejam impunes, justos para que sejam sempre impunes. Sonhou-lhes a justiça e não quer ver mais nada. Ensinou assim. Exactamente como as mães, Deus cozinha seus pratos favoritos e acredita que agora ficarão para sempre ou, ao menos, regressarão todos os fins de semana, todos os meses, que não vão ficar separados sem notícias por tanto tempo, porque dói demasiado. Deus confessa que os buscou no escuro. Passando as mãos pelas ruas do mundo, a descer o nariz para buscar seu cheiro, e tantas vezes pode ter feito ruído, por ter entornado algo pelo chão, talvez até por ter partido um canto de vidro. Não era a intenção. Fica ansioso, em certas buscas. Procura sem pressa, mas apressa-se sem noção. Deus, como são as mães, tem a impressão de que vai morrer se não voltar a ver os filhos. Depois, ouve pacientemente o filho a repreendê-lo, porque não devia andar à sua procura, porque não é mais criança, porque se sente demasiado comprometido, vigiado, cansado, ocupado, aflito com assuntos que Deus, como as mães, não haveria de entender ou aceitar. E Deus aceita Sua culpa e procura ser amado acima de toda a Sua precipitação. Está sempre à míngua de ser amado, porque nenhum amor dos filhos Lhe será o bastante. Terá um eterno medo do abandono. Se os filhos repararem na casa de Deus, verão como conserva as fotografias expostas por todos os móveis, mesmo as mais velhinhas e descoloradas, a irem embora da luz, sem prata, evaporando. Ele convive com essas imagens e lembra cada instante como se não permitisse que nenhum instante terminasse. As lembranças dos filhos são sempre nascentes e não haverão jamais de terminar. Por causa disso, se Lhe perguntarem, verificam que Deus sabe tudo, lembra aquilo de que ninguém mais lembra. Guarda como um tesouro o passado. Sente tanto orgulho e tanta saudade que nunca deixará de lembrar e de contar a quem se abeirar como foi, como foram, como deverão estar felizes Seus filhos algures. Ainda que tenha criado Céu e Terra, ainda que deitasse aos bichos uma infinidade de sentimentos para avanços e recuos, juízo de toda a ordem, inteligência e génio no ofício da sobrevivência e da multiplicação, Deus só entendeu o medo quando criou Seus filhos. Nunca imaginaria. Com o nascimento do primeiro filho comparou a felicidade ao medo. Tão grandes coisas, iguais de tamanho, agora irrevogáveis em Sua bravura de seguir em frente. Irremediáveis. Deus passou a dormir suave. Mais parecido a dormir do que verdadeiramente. E decidiu que o tempo se suspende à distância dos filhos. Vale de muito pouco ou quase nada. Deixa água à Sua cabeceira porque teme morrer de sede. Teme morrer sem acabar Sua tarefa e teme que Sua tarefa termine e O deixem morrer. Quando Se levanta, ainda muito cedo, arriscando que as últimas raposas lhe subam às varandas e saltem janelas adentro, Deus deixa as portadas para trás e recebe o primeiro sol, outra vez acreditando que ainda vai acontecer de cada um de Seus filhos e cada uma de Suas filhas dizerem Seu nome inequívoca e alegremente. De pensar nisso, Deus chora e, distraído, chega a cantar. Quem passa perto, bem escuta. Se Ele se dá conta, como as mães, canta ainda mais alto, desimportado de desafinar. A casa de Deus precisa de obras porque espera que os filhos venham para ajudar. Tem manchas de humidade nas quais Ele já nem repara. E andam por ali aranhas e até um escaravelho verde pequenino que deve ter vindo numas folhas de alface para a salada, e fustigam os ventos sempre a entortar uma telha ou a fazer tombar as árvores mais infantis. Deus repõe o que pode sem reparar que tudo vai ficando mais velho. Não repara porque a medida de Seus olhos são as memórias. Para Ele, tudo aquilo é feito da muita alegria que lembra, é feito do muito esforço de outrora, e a família ainda reverbera pelos cómodos, ainda é capaz de comer uma fatia de bolo e julgar que em seu redor reparte pelos filhos aquele pouco de açúcar e que toda a gente regozija tão feliz, como se não fossem necessárias outras felicidades, porque, na verdade, nenhuma é maior. Como se não fosse necessário que os filhos cresçam, porque até os filhos, se pudessem, escolheriam estar para sempre naquele instante, em redor de suas mães perfeitas, porque é o amor que aperfeiçoa. É aquilo que se sente que aperfeiçoa, eliminando qualquer capacidade de prestar atenção ao erro ou ao defeito. Se Deus pudesse, escreveria a cada filho uma carta de amor para o convencer a vir em visita. Mas o paradeiro do filho só se descortina pela prece. Sem isso, Deus guarda as cartas que escreve sem ter para onde as enviar. Espera. No que à visão de Seus filhos se refere, Deus espera na escuridão. Seu candeeiro é Seu nome à boca do filho. Cantando por uma manhã, a passarada chilreando para comparar afinações, Deus assume Suas dores. Mas quer apenas entregar alegrias. Quando encontrado, Deus apenas promete a alegria. Tudo o mais é falso. Desdém de quem não quis voltar a casa. De quem se perdeu e envergonhou.
Amamos mais o que vemos em perigo. Amamos mais quem vemos em
perigo. Somos feitos para aumentar de coração perante a família que sofre. Por vezes, nem tripas levamos dentro, nem estômago ou rins. Somos tão ocupados por amar alguém que nenhuma função desempenhamos senão a de amar, e todo nosso interior é o coração dilatado, esforçado como um touro jovem que se disfarça em nosso aspecto mais frágil.
Os irmãos, haviam- me explicado, são uma companhia para sempre, para depois da morte de todos os mais velhos.
Quando eu houver de ser velho também, quando tudo se houver de tornar desconhecido, meu irmão perdurará. Por meu sangue e por afecto. Perduraremos e saberemos lembrar e honrar as mesmas pessoas e as mesmas coisas. E teremos a glória de haver superado o que nos quis abater. Carregaremos a dignidade de nossa família, seremos tudo quanto houver de nossos pais e diremos cada palavra como corais, esse colectivo de gente que conterá sempre Mariinha e Julinho dos Pardieiros. Para onde formos, seremos muitos. Orgulhosos e muitos. Nossa boca dirá por todos.
Certamente ficou demorado a ver para dentro, sim, antes da contingência de ver para fora e cegar para o interior, como acontece com todas as pessoas, uma a uma.
procurava aquietar- me, igual a parar o próprio coração de bater. Minha natureza era a do movimento. Quase sempre me movia antes de saber para onde ou por que razão. A cabeça nunca era mais rápida do que os nervos no corpo. A cabeça esperava razões e explicações, o corpo seguia a vertigem. Era um animal ativado pela simples evidência de pulsar.
As mães pressentem as contas perfeitas. Mesmo que não saibam escrever. Elas pesam o mundo só com o olhar, percebem como falta cor ao mato, como estardalham menos pássaros. Elas sabem que desceram as águas das levadas, que os dias encolheram nem que três minutos. As mães escutam mesmo que de noite, durante o sono, e percebem que alguém partiu e a ilha está mais sozinha.
Quando minha mãe puser as mãos neste dinheiro, vai levá- lo onde adube, onde cubra, onde cure, onde faça justiça. Este dinheiro, minha senhora, vai ser inteligente à força da minha mãe. Vai aprender uma lição de vida. Vai ser como um doutor. E eu ficarei feliz.
Que horror que as pessoas se pusessem a chorar nos caminhos, atravancando a normalidade, impedindo o dia impune dos outros.
Nós, que éramos tão urgentes em milagres, não conseguíamos repartir milagre algum com quem necessitava. Ainda que tão bem entendêssemos como se sofria, não éramos valentes para o sofrimento dos outros.
O medo sempre pergunta sobre a culpa, porque a coragem constrói a partir da convicção de se merecer, ou não, vencer o obstáculo.
irmãs. Eu acho que Deus guarda para as mulheres um pedaço muito maior de ternura.
A solidão é sempre uma espécie de fim. O fim de um lugar. Como se não houvesse mais para onde caminhar. Caminhar daqui embora. Eu pensava. Quando sentia estar só, aquilo de ser por dentro do peito, onde se dizia mais doer, pelo coração, ou pelas veias que forneciam o sangue ao coração, eu pensava que o mais importante era caminhar dali embora.
Naquele silêncio que se fez, o santo sorriu. E eu disse: mãe, vigie como sorri. Vigie sua paz. Mariinha, certamente exausta, desmaiou sobre o meu ombro, abandonada depois do primeiro sorriso de Pouquinho. A paz de minha mãe era depois da paz dos filhos. Jamais antes.
Deus é exactamente como as mães. Liberta Seus filhos e haverá de buscá- los eternamente. Passará todo o tempo de coração pequeno à espera, espiando todos os sinais que Lhe anunciem a presença, o regresso dos filhos.
Deus é exactamente como são as mães, que criam e depois vão ficando para trás, à distância, numa distância que parece significar que não são mais precisas, e Ele, como elas, só sabe amar acima de qualquer defeito e qualquer falha, com cada vez maior saudade, mas não sabe o caminho, não sabe por onde os filhos foram, só pode suplicar que não se percam e não se percam da vontade de voltar. Espalha por toda a parte Seus sinais. Avisa contra tudo e cria memórias, para que os filhos se lembrem d’Ele mesmo em lugares onde nunca haviam estado antes e estabeleçam sempre um mapa que os esclareça para fora de qualquer labirinto. Deus está na escuridão, e tacteia por toda a parte na vontade intensa de um toque, do aconchego do corpo dos filhos, um gentil toque ou um abraço. E os filhos distraem- se e são incautos ou tornam- se impuros e fogem, atarefados com suas paixões e incertezas, e pensam menos no quanto Deus pode sofrer do que no sofrimento que haverão eles de sentir pela mais pequena contrariedade. Os filhos partem sem saberem que o sentido da vida é chegar à origem. Dispersos na paisagem de Deus, os filhos lembram, por vezes, do amor, como é primordial e lhes foi colocado no peito com generosidade. Contudo, os filhos julgam que o amor é o consumo da vida, o imediato que observam, a evidência de se verem acompanhados quando a verdadeira companhia encontra sempre um modo de chegar a casa. Eles partem para mais longe. Os filhos partem para mais longe buscando o que, afinal, tanto ficara lá atrás.
Deus, como as mães, corre os dias inteiros à janela e escuta. Qualquer bulício Lhe acelera o coração. Se existem passos em redor de Sua casa, se alguma voz O chama, palpita como doido de alegria na esperança de ter um filho em visita. Deus pisa até de leve, quer tudo em sossego, sem sobressalto, porque sabe apenas estar à espera por tão grande esperança de ser correspondido no amor. Como as mães, Ele arruma Sua casa, tem sempre as camas prontas, alguma fruta na mesa, de onde enxota as moscas barafustando, até indignado, porque aquelas frutas podem ser para oferecer à boca de um filho. E a fome de um filho é prioritária, contra leões e tempestades.
A casa de Deus tem a chave do lado de fora, debaixo de um vaso. Toda a gente o sabe. É tique de todas as mães que dormem lá dentro vulneráveis a qualquer ladrão em troca da oportunidade de, ao menos uma vez, um filho voltar, tomar a chave e entrar, mesmo que a meio da noite, no descanso profundo, entre os sonhos, porque, de todo o modo, o maior sonho possível é esse mesmo, que o filho volte e ocupe sua cama, ocupe seu lugar. Esteja nem que por um instante ali. Para que o veja, o ouça e sinta. E Deus preocupa- se com ver como engordou ou emagreceu, como está a cor em torno das pupilas dos olhos, como entorta a boca ao falar, se os cabelos lhe ficam brancos e caem mais cedo, que ferida traz no ombro, que ferida tem no coração, quem lha fez. E Deus escuta suas queixas e avalia suas mazelas e nunca culpa o filho, mesmo que toda a gente lúcida o fizesse, porque quer que os filhos sejam impunes, justos para que sejam sempre impunes. Sonhou- lhes a justiça e não quer ver mais nada. Ensinou assim.
Se Deus pudesse, escreveria a cada filho uma carta de amor para o convencer a vir em visita. Mas o paradeiro do filho só se descortina pela prece. Sem isso, Deus guarda as cartas que escreve sem ter para onde as enviar. Espera. No que à visão de Seus filhos se refere, Deus espera na escuridão. Seu candeeiro é Seu nome à boca do filho. Cantando por uma manhã, a passarada chilreando para comparar afinações, Deus assume Suas dores. Mas quer apenas entregar alegrias. Quando encontrado, Deus apenas promete a alegria. Tudo o mais é falso. Desdém de quem não quis voltar a casa. De quem se perdeu e envergonhou.
Pouquinho dizia que Deus era como as mães, criava os filhos e deixava- os partir. Passaria, depois, a vida à espera de os rever, como se vivesse na escuridão, afinal incapaz de nos detectar no périplo de nossas decisões e esconderijos. Pouquinho explicava que a oração nos assinalava em seu mapa. Se evocássemos Seu nome Lhe abriríamos os olhos sobre nosso corpo, nosso lugar. E eu aprendera minhas orações e julgava cumprir a melhor promessa. Pouquinho ensinara que não se prometem a Deus sofrimentos nem sacrifícios porque, como as mães, Ele não nos quer ver sofrer. Nunca prometas a Deus o teu sofrimento. Ajuda Seus filhos a reencontrar o caminho para casa. Devemos prometer cantar- Lhe, alimentar- Lhe os filhos, salvar- Lhe os animais, regar as plantas, semear pela terra toda, proteger os livros. Caminhar em visita. Ele dizia: quero que prometas, Felicíssimo. Eu quero que tu prometas que O ajudas, mas que não te provocarás a dor. Quem se vicia na dor desumaniza- se.
Se Deus houvesse de estar na escuridão, seu mundo acendia constantemente e suas dádivas persistiam, como as mães faziam. Suspeitando da presença dos filhos, as mães dispõem aqui e ali alimentos e cuidam da segurança. Enxotam os predadores, calam a vizinhança, deixam as portas apenas no trinco, baixam a televisão, não querem desaperceber nada. Como as mães, Deus fertilizava a paisagem superpotente, incansável, amoroso. Como as mães, Deus guardava a esperança terna de haver educado seus filhos para se lembrarem sempre de que jamais os abandonaria.
não sabemos nada e estaremos sempre sem saber. A única ciência que nos assiste é a de preferirmos amar. Quem prefere o amor vive no milagre, e o milagre é em toda a parte.
Um deus só ocorre para os que necessitam. Deuses são por mérito dos que não desistem.
onde dois guerreiros tardios haviam capturado a língua do branco e a mantinham sob feitiço dentro de suas bocas.
O negro era um animal manso, desiluminado. Existia assimétrico nas preguiças e abusos do branco. Fazia pelo branco e morria sumário, tantas vezes sem razão e muito raro sonho. O negro era um animal sem guerra e defendia nada. A comunidade abaeté desperdiçava os negros. Passavam rarissimamente nas ilhas do órgão vital, mal orientados para encontrar um mocambo que juravam haver muito depois do quarto mar. Para os abaeté, depois do quarto mar era fim do mundo, queda das pedras, vegetação imatura em acordos ainda primitivos. O que habitasse para lá do quarto mar teria vocação de breve ou nenhuma vida. Sopraria apenas na poeira do vento.
serei teu amigo até que saibas ser meu amigo também.
Sermos daqui ou dali não obedece ao lugar do corpo. A cultura naturaliza- nos de outro modo e é mestiça. É identidade de um pouco de cada coisa e quem é só de um lugar é pobre porque nenhum lugar é inteiro.
isso de esperar é que me dói. morrer de amor tem de ser no ato, isso, sim, é morrer de felicidade. agora morrer à espera, é do pior.
" O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. Perece como uma coisa qualquer."
sei que estou exausto quando o chão ondula como um barco. a vida é viagem, mas nem todos os caminhos são de água. por vezes, prosseguir é ficar quieto. ler um livro. por vezes, ler um livro é a melhor forma de andar.
William Blake
O Jardim do Amor Tendo ingressado no Jardim do Amor, Deparei-me com algo inusitado: haviam construído uma Capela No meio, onde eu brincava no gramado. E ela estava fechada; "Tu não podes" Era a legenda sobre a porta escrita. Voltei-me então para o Jardim do Amor, Onde crescia tanta flor bonita, E recoberto o vi de sepulturas E lousas sepulcrais, em vez de flores; E em vestes negras e hediondas os padres faziam rondas, E atavam com nó espinhoso meus desejos e meu gozo.
Wittgenstein
"Nenhum clamor de tormento pode ser maior que o clamor de um homem. Ou, mais uma vez, nenhum tormento pode ser maior do que aquilo que um único ser humano pode sofrer. O planeta inteiro não pode sofrer tormento maior do que uma única alma."
Xavier de Maistre
Não há nada mais atrativo, a meu ver, que seguir o rastro das próprias ideias, como o caçador persegue a caça, sem se preocupar em seguir nenhuma rota. De
Nas longas noites de inverno, às vezes é agradável e sempre é prudente se refestelar com languidez numa poltrona, longe do tumulto das multidões.— Uma boa lareira, livros, penas; que belos recursos contra o tédio!
Confesso que adoro desfrutar desses doces instantes e que sempre prolongo, na medida do possível, o prazer que sinto em meditar no suave calor da minha cama.—
Enfim, é nesse móvel encantador que nos esquecemos, durante metade da vida, dos desgostos da outra metade.
A cama nos vê nascer e nos vê morrer; é o palco efêmero onde a humanidade representa, alternadamente, dramas interessantes, farsas risíveis e tragédias medonhas.— É um berço guarnecido de flores;— é o trono do amor;— é um sepulcro.
A grande arte do homem de gênio é saber educar bem a sua besta, para que ela possa caminhar sozinha, enquanto a alma, livre da penosa convivência, consegue se elevar até o céu.
Que raio de luz! Pobre amante! Enquanto você definha longe da sua amada, junto à qual talvez já tenha sido substituído; enquanto fixa os olhos avidamente em seu retrato e imagina (pelo menos no que concerne à pintura) ser o único que ela encara, a pérfida efígie, tão infiel quanto a original, dirige seus olhares a tudo que a cerca e sorri para todo mundo.
Feliz aquele que encontra um amigo cujo coração e espírito lhe agradam; um amigo com quem se une por conformidade de gostos, sentimentos e saberes; um amigo que não seja atormentado pela ambição nem pelo interesse;— que prefira a sombra de uma árvore à pompa de uma corte!— Feliz aquele que tem um amigo!
O espelho apresenta ao viajante sedentário mil reflexões interessantes, mil observações que o tornam um objeto útil e precioso.
Sempre imparcial e verdadeiro, o espelho devolve aos olhos do espectador as rosas da juventude e as rugas da idade, sem caluniar nem bajular ninguém.— É o único, entre os conselheiros dos grandes homens, que lhes diz sempre a verdade.
Essa vantagem me fez desejar a invenção de um espelho moral, diante do qual todos os homens pudessem se enxergar com seus vícios e suas virtudes. Considerei inclusive propor a alguma academia um prêmio por essa descoberta, mas certas reflexões maduras me provaram sua inutilidade.
Ah, é tão raro que a feiura se reconheça e quebre o espelho! Em vão os espelhos se multiplicam em nosso entorno e refletem com exatidão geométrica a luz e a verdade; porém, no momento em que os raios penetram nossos olhos e nos pintam tal como somos, o amor- próprio se intromete com seu prisma enganador entre nós e nossa imagem e nos apresenta uma divindade. E de todos os prismas que já existiram, desde o primeiro que saiu das mãos do imortal Newton, nenhum jamais possuiu uma força de refração tão poderosa e produziu cores tão agradáveis e vibrantes como o prisma do amor- próprio.
botem na cabeça que em dia de baile a amante dos senhores não lhes pertence. No momento em que têm início os preparativos, o amante não passa de um marido, e o baile se transforma no único amante.
Yanis Varoufakis
O capital foi tão triunfante que matou o capitalismo.
A nuvem-capital (cloud capital) matou o capitalismo.
O mercado deixou de ser uma "via de sentido único" em termos de publicidade. Nós treinamos o algoritmo para descobrir o que gostamos e, em seguida, o algoritmo nos treina para gostar do que ele oferece.
No novo regime, as grandes plataformas digitais funcionam como senhores feudais da era da nuvem, extraindo rendas de quem utiliza seus espaços digitais, transformando capitalistas tradicionais em "vassalos" e os usuários em trabalhadores não remunerados da nuvem.
sentido: o que matou o capitalismo foi... o próprio capital. Não o capital como o conhecemos desde a aurora da era industrial, mas uma nova forma de capital, uma mutação que veio à tona nas duas últimas décadas, tão mais poderosa que sua antecessora que, como um vírus estúpido e excessivo, aniquilou seu hospedeiro. O que levou isso a acontecer? Dois desdobramentos centrais: a privatização da internet pelas Big Techs dos Estados Unidos e da China; e o modo como os governos e os bancos centrais do Ocidente reagiram à grande crise financeira de 2008.
Se de fato prestarmos atenção, não é difícil enxergar que a mutação do capital para aquilo que chamo de capital-nuvem demoliu os dois pilares do capitalismo: os mercados e os lucros. É
Os mercados, o suporte do capitalismo, foram substituídos por plataformas de comércio digital que parecem mercados, mas não são, e que são mais bem entendidas como feudos. E o lucro, o motor do capitalismo, foi substituído por seu antecessor feudal: a renda. Para ser mais específico, é uma forma de renda que se deve pagar para ter acesso a essas plataformas e às nuvens de maneira mais ampla. Eu chamo isso de renda das nuvens.
“materialismo histórico” – o método de entender a história como um ciclo perpétuo de retroalimentação entre, de um lado, o modo como os humanos transformam a matéria e, de outro, o modo como o pensamento humano e as relações sociais são transformados em contrapartida.
Se a luz pode ter duas naturezas contraditórias, e se tudo na natureza repousa em uma oposição binária, então o ferro enrijecido, os motores a vapor e os computadores em rede também podem ser, ao mesmo tempo, libertadores ou escravizadores em potencial. E assim cabe a nós, coletivamente, determinar qual dessas duas coisas eles serão. É aí que entra a política.
Uma é o capital-mercadoria [commodity capital], por exemplo, uma vara de pescar, um trator, a torre de servidores de uma empresa ou qualquer bem que é produzido para ser usado na produção de outras mercadorias. A segunda natureza do capital, no entanto, não se parece em nada com uma mercadoria. Imagine que eu descobri que possuo ferramentas de que você precisa para produzir as coisas para a subsistência da sua família, como os anteriormente mencionados, vara de pescar, trator, servidor. De repente, adquiri o poder de impelir você a fazer coisas, como trabalhar para mim, em troca do uso das minhas ferramentas. O capital, para resumir, é tanto uma coisa (capital-mercadoria) quanto uma força (capital-poder) – assim como o trabalho está dividido entre trabalho-mercadoria e trabalho-experiência.
“Agora que os computadores conversam uns com os outros, essa rede vai tornar impossível derrubar o capitalismo? Ou vai finalmente revelar seu calcanhar de Aquiles?”.
Fabricar com eficácia coisas que as pessoas desejavam já não era suficiente. O capitalismo agora envolvia a engenhosa fabricação do desejo.
Como os lucros poderiam continuar fluindo se, aparentemente, tudo já tinha sido mercantilizado? A resposta de Draper: por meio do acionamento de emoções não mercantilizadas que guardamos bem no fundo de nós mesmos.
Uma coisa é nossos sonhos não se realizarem. Outra bastante diferente é perceber que nossos sonhos não realizados, nossos desejos frustrados, foram fabricados por outras pessoas. Quanto mais nossos anseios produzidos em massa são satisfeitos, menos satisfeitos nos sentimos.
E assim como com os cercamentos originais, seria necessário algum tipo de cerca para manter as massas longe de um recurso tão importante quanto esse. No século XVIII, foi à terra que muitos tiveram o acesso negado. No século XXI, é o acesso às nossas próprias identidades.
No mundo da Internet Two, moldado pelos novos cercamentos, você é rotineiramente obrigado a entregar sua identidade para uma parte do domínio digital que foi cercada, como a Uber ou a Lyft, ou alguma outra empresa privada. Quando você solicita uma corrida para o aeroporto, o algoritmo deles envia um motorista de sua própria escolha com o intuito de maximizar o valor de troca que a empresa proprietária do algoritmo extrai tanto de você quanto do motorista. Esses novos cercamentos permitiram a pilhagem do commons digital, que levou à incrível ascensão do capital-nuvem.
Infelizmente, a Alexa não é uma serva. Ela é, na verdade, uma parte do capital de comando baseado nas nuvens que está transformando você em servo, com a sua ajuda e por meio de seu próprio trabalho não remunerado, com o propósito de deixar seus proprietários ainda mais ricos.
Aqui está um vislumbre do que torna o capital-nuvem tão fundamentalmente novo, diferente e assustador: até agora, o capital tem sido reproduzido dentro de algum mercado de trabalho – dentro da fábrica, do escritório, do armazém. Auxiliados por máquinas, eram trabalhadores assalariados que produziam as coisas que eram vendidas para gerar lucros, que em contrapartida financiavam seus salários e a produção de mais máquinas – é assim que se acumulava e se reproduzia o capital. Já o capital-nuvem pode reproduzir a si mesmo de modos que não envolvem trabalho assalariado. Como? Comandando quase toda a humanidade a contribuir com sua reprodução – de graça!
Então, sim, o capital-nuvem está transformando locais de trabalho em Salões de Algos, no estilo Metrópolis, nos quais trabalhadores humanos são reduzidos a exaustos proletários das nuvens. E, no entanto, os proletários das nuvens não estão padecendo de um destino que os proletários terrenos, do tipo de Tempos modernos, julgariam surpreendente. O capital-nuvem, para resumir, continua a fazer nas fábricas, armazéns e outros locais de trabalho tradicionais do mundo aquilo que o capital terreno e tradicional sempre fez – quem sabe com um pouco mais de eficiência.
Só que, fora dos locais de trabalho tradicionais, o capital-nuvem está demolindo tudo o que antes dávamos como garantido.
Leve em consideração que o capital-nuvem consiste em: software inteligente, torres de servidores, torres de telefonia celular, milhares de quilômetros de fibra óptica. E, no entanto, tudo isso não teria valor sem “conteúdo”. A parte mais valiosa do estoque do capital-nuvem não são seus componentes físicos, mas sim as histórias postadas no Facebook, os vídeos no TikTok e no YouTube, as fotos no Instagram, as piadas e os insultos no Twitter, as resenhas na Amazon ou, simplesmente, nosso deslocamento no espaço, que permite que nossos telefones alertem o Google Maps sobre o mais recente ponto de engarrafamento. Ao oferecer essas histórias, vídeos, fotos, piadas e deslocamentos, somos nós que produzimos e reproduzimos – fora de qualquer mercado – o estoque do capital-nuvem.
Isso não tem paralelos. Os trabalhadores empregados pela General Electric, pela ExxonMobil, pela General Motors ou qualquer outro grande conglomerado recolhem em salários e honorários aproximadamente 80% da receita da empresa. Essa proporção fica ainda maior em companhias menores. Já os empregados das Big Techs recolhem menos de 1% do faturamento de suas empresas. A razão disso é que o trabalho remunerado realiza apenas uma fração do trabalho que sustenta as Big Techs.
executada por bilhões de pessoas de graça. É verdade que a maioria de nós escolhe fazer isso, e até gosta. Divulgar nossas opiniões e compartilhar detalhes íntimos de nossas vidas com nossas tribos e comunidades digitais parece satisfazer alguma perversa necessidade de expressão que temos.
O fato de que o fazemos voluntariamente, felizes até, não minimiza o fato de que somos fabricantes não pagos – servos das nuvens cuja labuta diária autodirigida enriquece um minúsculo grupo de multibilionários que vivem em sua maioria na Califórnia ou em Xangai.
A revolução digital pode estar transformando trabalhadores remunerados em proletários das nuvens, que levam vidas cada vez mais precárias e estressantes sob o controle invisível de patrões algorítmicos. E ela pode ter substituído Don Draper por extraordinários algoritmos de modificação de comportamento, ocultos por trás de elegantes dispositivos de mesa como a Alexa.
Todos os que navegam pela amazon.com – com exceção de Jeff – estão vagando em um isolamento algoritmicamente construído. Essa não é uma cidade de mercado. Não é nem sequer alguma forma de mercado digital hipercapitalista. Até os mais terríveis dos mercados são locais de encontro em que as pessoas podem interagir e trocar informações razoavelmente à vontade. Na verdade, é até pior do que um mercado totalmente monopolizado – lá, pelo menos, os compradores podem falar uns com os outros, formar associações, talvez organizar um boicote de consumo para obrigar o monopolista a baixar algum preço ou melhorar a qualidade de alguma coisa. Mas não nos domínios de Jeff, onde tudo e todos são intermediados não pela desinteressada mão invisível do mercado, mas por um algoritmo que trabalha para o lucro final de Jeff e dança exclusivamente sua música.
No feudalismo, o senhor feudal concedia assim chamados feudos para subordinados chamados vassalos. Esses feudos davam aos vassalos o direito formal de explorar economicamente uma parte do domínio do senhor feudal – cultivar lavouras nele, por exemplo, ou criar gado – em troca de uma parte da produção. O senhor feudal, então, lançava seu representante para fiscalizar o desempenho do feudo e para recolher o que lhe era devido. A relação de Jeff com os vendedores da amazon.com não é muito diferente. Ele lhes concede feudos digitais baseados nas nuvens por uma taxa, e então deixa seu algo-representante para fiscalizar e recolher.
Foram precisos avanços científicos alucinantes, redes neurais que soam fantasiosas e programas de IA que desafiam a imaginação para alcançar o quê? Para transformar trabalhadores labutando em armazéns, dirigindo táxis e entregando comida em proletários das nuvens. Para criar um mundo onde os mercados são cada vez mais substituídos por feudos das nuvens. Para forçar empresas ao papel de vassalos. E para fazer de nós todos servos das nuvens, colados em nossos smartphones e tablets, produzindo avidamente o capital-nuvem que mantém nossos senhores feudais nas nuvens.
capital-nuvem. Com uma cajadada só, ele automatizou os dois papéis. O exercício do poder do capital de comandar tanto trabalhadores como consumidores foi entregue aos algoritmos. Esse foi um passo muito mais revolucionário do que substituir trabalhadores autônomos por robôs industriais. Afinal, os robôs industriais simplesmente fazem o que a automação vem fazendo desde antes dos ludistas: tornam os proletários desnecessários, ou mais miseráveis, ou ambos. Não, a ruptura verdadeiramente histórica foi automatizar o poder do capital de comandar pessoas fora da fábrica, da loja ou do escritório – tornar todos nós, proletários das nuvens e todos os outros, servos das nuvens a serviço direto (não remunerado) do capital-nuvem, sem a mediação de qualquer mercado.
pandemia. Foi a pandemia, com a enxurrada de dinheiro do Estado que ela desencadeou, que inaugurou a Era do Capital-Nuvem.
Meu objetivo neste capítulo foi convencê-lo de que o termo tecnofeudalismo pode, nas palavras de Simone Weil, “nos ajudar a entender alguma realidade concreta ou objetivo concreto, ou método de atividade” de uma maneira que nenhuma variante da palavra capitalismo é capaz. O tecnofeudalismo, afirmei, é qualitativamente distinto do capitalismo e, portanto, como termo, ilumina aspectos cruciais do mundo real de modos que capitalismo rentista, capitalismo de plataforma e hipercapitalismo não são capazes de fazer.
Dos jovens do mundo de hoje, até essa pequena graça foi subtraída. Realizar a curadoria de uma identidade on-line não é opcional, de modo que suas vidas pessoais se tornaram um dos trabalhos mais importantes que eles realizam.
O individualismo possessivo sempre foi prejudicial para a saúde mental. O tecnofeudalismo tornou as coisas infinitamente piores quando derrubou a cerca que oferecia ao indivíduo liberal um refúgio onde se proteger do mercado. O capital-nuvem estilhaçou o indivíduo em fragmentos de dados, uma identidade composta de escolhas expressas por cliques, que seus algoritmos têm a capacidade de manipular. Ele produziu indivíduos que são mais possuídos do que possessivos, ou antes pessoas incapazes de serem senhoras de si. Ele reduziu nossa capacidade de concentração ao cooptar nossa atenção. Nós não nos tornamos fracos de espírito. Não, nossa concentração é que foi roubada.4 E como se sabe que os algoritmos do tecnofeudalismo reforçam o patriarcado, os estereótipos e as opressões preexistentes, os mais vulneráveis – as garotas, os doentes mentais, os marginalizados e, sim, os pobres – sofrem mais seus efeitos.