Citações

Acervo de citações e fragmentos literários selecionados pelo Prof. Márcio Ramos, organizados por autor, livro e tema.

Achille Mbembe

A semelhança de outros tempos, o mundo contemporâneo é modelado e condicionado profundamente por essa forma ancestral da vida cultural, jurídica e política que são a clausura, o cercamento, o muro, o campo, o cerco e, no fim das contas, a fronteira. São recuperados por todo lado processos de diferenciação, classificação e hierarquização para fins de exclusão, expulsão e erradicação. Novas vozes se erguem para proclamar que o universal humano ou não existe ou se limita ao que é comum não a todos os homens, mas apenas a alguns deles.
Achille Mbembe, em Crítica da razão negra
Produto de um maquinário social e técnico indissociável do capitalismo, de sua emergência e globalização, esse termo (o negro) foi inventado para significar exclusão, embrutecimento e degradação, ou seja, um limite sempre conjurado e abominado. Humilhado e profundamente desonrado, o negro é, na ordem da modernidade, o único de todos os humanos cuja carne foi transformada em coisa e o espírito em mercadoria a cripta viva do capital. Porém esta é sua patente dualidade numa reviravolta espetacular, tornou-se o símbolo de um desejo consciente de vida, força pujante, flutuante e plástica, plenamente engajada no ato de criação e até mesmo no ato de viver em vários tempos e várias histórias simultaneamente.
Achille Mbembe

Adélia Prado

Deus não me dá sossego. É meu aguilhão. Morde meu calcanhar como serpente, faz-se verbo, carne, caco de vidro, pedra contra a qual sangra minha cabeça. Eu não tenho descanso neste amor. Eu não posso dormir sob a luz do seu olho que me fixa. Quero de novo o ventre de minha mãe, sua mão espalmada contra o umbigo estufado, me escondendo de Deus.
Adélia Prado, em Deus e eu

Affonso Romano de Sant'Anna

Estava indo, há muito, pra o deserto e não sabia. Antes, ao revés, julgava caminhar das pedras para o bosque lugar de onde o mel e o vinho jorrariam. Bastava fazer a travessia. Em alguma parte passei por algum oásis mas era para este destino de pedra silêncio e pasmo que me dirigia. Os beduínos há muito compreenderam o que eu não compreendia: apenas nos movemos entre pedras, cabras e camelos olhando ternamente o fim do dia. A tenda é provisória. Eterno só o áspero horizonte de pedra e a poesia.
Affonso Romano de Sant'Anna, em Sísifo desce a montanha
Não é mais fácil nem menos perigoso do que subir — é diverso. Se olhados de fora — os gestos — podem parecer mais lentos. Para quem desce ao contrário, a sensação não é de vertigem — é complemento. Subir foi demorado descer é outra arte. É como se Sísifo do outro lado do monte estivesse. Descer com uma pedra nos ombros — pode ser leve
Affonso Romano de Sant'Anna, em Sísifo desce a montanha
Houve um tempo em que Deus falava hebraico. Passou depois a falar latim após um rápido estágio pelo grego. Atualmente há quem afirme que optou pelo inglês embora em algumas tribos xamãs se comuniquem com os seus em incompreensíveis dialetos. Isto apenas prova que Deus é poliglota. Se não porque inventaria a Torre de Babel? Só não entendo porque alguns se apresentam como seus tradutores e intérpretes quando ele claramente fala pela voz dos pássaros e das flores ou quando pela boca das bactérias destrói (silencioso) — nossa empáfia verbal
Affonso Romano de Sant'Anna, em Sísifo desce a montanha
Não é culpa minha se não estou aparelhado para entender certos conceitos e sinais. Conheço o ódio, o amor, a fome a ingratidão e a esperança. (Deus, a eternidade, o átomo e a bactéria me excedem.) O que não significa que os ignore. Ao contrário: por não compreendê-los finjo estar calmo — e desespero
Affonso Romano de Sant'Anna

Agostinho Neto, 1949

Não me exijas glórias que ainda transpiro os ais dos feridos nas batalhas Não me exijas glórias que sou eu o soldado desconhecido da humanidade As honras cabem aos generais A minha glória é tudo o que padeço e que sofri Os meus sorrisos tudo o que chorei Nem sorrisos nem glória Apenas um rosto duro de quem constrói a estrada pedra após pedra em terreno difícil Um rosto triste pelo tanto esforço perdido - o esforço dos tenazes que se cansam á tarde depois do trabalho Uma cabeça sem louros porque não me encontro por ora no catálogo das glórias humanas Não me descobri na vida e selvas desbravadas escondem os caminhos por que hei-de passar Mas hei-de encontrá-los e segui-los seja qual for o preço Então num novo catálogo mostrar-te-ei o meu rosto coroado de ramos de palmeira E terei para ti os sorrisos que me pedes.
Agostinho Neto, 1949

Ala

Declarar o amor significa passar do evento-encontro para o começo de uma construção de verdade. É fixar o acaso do encontro na forma de um começo. E o que começa a partir daí não raro dura tanto tempo, é tão carregado de novidade e experiência de mundo, que, retrospectivamente, não parece nem um pouco contingente e casual, como no princípio, mas praticamente uma necessidade. Assim o acaso é fixado: a absoluta contingência do encontro com alguém que eu não conhecia passa a assumir os ares de um destino. A declaração de amor é a passagem do acaso para o destino, e é por isso que ela é tão perigosa, tão carregada de uma espécie de terrível nervosismo. A declaração de amor, aliás, não acontece necessariamente uma única vez. Ela pode ser longa, difusa, confusa, complicada, declarada e redeclarada, e fadada a ser redeclarada. É o momento em que o acaso se fixa. O momento em que dizemos: vou declarar ao outro o que aconteceu, o encontro, os episódios desse encontro. Vou declarar que aconteceu aqui, pelo menos para mim, algo que me compromete. É isto: eu te amo.
Alain Badiou, em Elogio ao Amor

Albert Camus

Afinal, escrever ou ler um romance são ações insólitas. Construir uma história através de um novo arranjo de fatos verdadeiros não tem nada de inevitável nem de necessário. Se até mesmo a explicação banal – pelo prazer do criador e do leitor – fosse verdadeira, deveríamos nos perguntar qual necessidade faz a maior parte dos homens sentir prazer e se interessar por histórias inventadas. A contradição é a seguinte: o homem recusa o mundo como ele é, sem desejar fugir dele. Na verdade, os homens agarram-se ao mundo e, em sua imensa maioria, não querem deixá-lo. Longe de desejar realmente esquecê-lo, eles sofrem, ao contrário, por não possuí-lo suficientemente, estranhos cidadãos do mundo, exilados em sua própria pátria. Que é o romance, com efeito, senão esse universo em que a ação encontra sua forma, em que as palavras finais são pronunciadas, os seres entregues aos seres, em que a vida passa a ter a cara do destino? O mundo romanesco não é mais que a correção deste nosso mundo, segundo o destino profundo do homem. Pois trata-se efetivamente do mesmo mundo. O sofrimento é o mesmo, a mentira e o amor, os mesmos. Os heróis falam a nossa linguagem, têm as nossas fraquezas e as nossas forças. Seu universo não é mais belo nem mais edificante que o nosso. Mas eles, pelo menos, perseguem até o fim o seu destino, e nunca houve heróis tão perturbadores quanto os que chegaram aos extremos de sua paixão. É aqui que perdemos sua medida, pois eles terminam aquilo que nós nunca consumamos.
Albert Camus, em O homem revoltado
"Havia, porém, outros motivos de inquietação, em consequência das dificuldades de abastecimento que cresciam com o tempo. A especulação interviera e oferecia, a preços fabulosos, os géneros de primeira necessidade que faltavam no mercado habitual. As famílias pobres viam-se, assim, numa situação muito difícil, enquanto às ricas não faltava praticamente nada. Enquanto a peste, pela imparcialidade eficaz com que exercia seu ministério, deveria ter reforçado a igualdade entre os nossos concidadãos pelo jogo normal dos egoísmos, ao contrário, tornava mais acentuado no coração dos homens o sentimento da injustiça."
Albert Camus, em A peste
"Digo apenas que há neste mundo flagelos e vítimas e que é necessário, tanto quanto possível, recusarmo-nos a estar com o flagelo. Isto parece a você talvez um pouco simples. Não sei se é simples, mas sei que é verdadeiro. (...)Foi assim que decidi pôr-me do lado das vítimas, em todas as ocasiões, para limitar os prejuízos. No meio delas, posso ao menos procurar saber como se chega à terceira categoria, isto é, à paz. Ao terminar, Tarrou balançava a perna e batia levemente com o pé no terraço. Depois de um silêncio, o médico soergueu-se um pouco e perguntou-lhe se tinha alguma ideia sobre o caminho que era preciso seguir para se chegar à paz. -Tenho. A simpatia. - Em resumo - disse Tarrou com simplicidade, o que me interessa é saber como alguém pode tornar-se um santo. - Mas você não acredita em Deus... - Justamente. Poder ser um santo sem Deus é o único problema concreto que tenho hoje.(...) - Talvez - respondeu o médico -, mas, sabe, sinto-me mais solidário com os vencidos do que com os santos. Creio que não sinto atração pelo heroísmo e pela santidade. O que me interessa é ser um homem. - Sim, buscamos a mesma coisa, mas eu sou menos ambicioso."
Albert Camus, em A peste
A biblioteca compreendia uma maioria de romances, mas muitos eram proibidos aos menores de 15 anos e guardados à parte. E o método puramente intuitivo dos dois meninos não era na verdade uma escolha entre os que sobravam. Mas o acaso não é a pior coisa em matéria de cultura, e, devorando aqui e ali, os dois glutões engoliam o melhor ao mesmo tempo que o pior, sem aliás se preocuparem em guardar nada, e não guardando realmente quase nada, a não ser uma estranha e poderosa emoção que, através das semanas, dos meses e dos anos, fazia nascer e crescer neles todo um universo de imagens e lembranças redutíveis à realidade em que viviam no dia a dia, mas certamente não menos presentes para esses meninos ardentes que viviam seus sonhos tão violentamente quanto suas vidas. O que esses livros continham, no fundo, pouco contava. O que importava era aquilo que sentiam primeiro entrar ao na biblioteca, onde não viam as paredes de livros pretos, mas um espaço e horizontes múltiplos que, assim que transpunham a porta, os tirava da vida restrita do bairro. Depois vinha o momento em que, munidoscada um com os dois livros a que tinham direito, apertando-os com o cotovelo contra o corpo, saíam pela avenida àquela hora já escuraesmagando com os pés as bolotas dos grandes plátanos e imaginando as delícias que iriam saborear com seus livros, comparando-as já com as da semana anterior, até que, chegando à rua principal, começassem a abri-los sob a luz precária do primeiro lampião para recolher uma frase (por ex. "ele era de um vigor pouco comum") que iria reforçar neles a alegre e ávida esperança.
Albert Camus, em O primeiro homem
Ela dizia sim, mas talvez fosse não, era preciso voltar no tempo através de uma memória que mergulhara em trevas, nada era certo. A memória dos pobres já é por natureza menos alimentada que a dos ricos, tem menos pontos de referência no espaço, considerando que eles raramente saem do lugar onde vivem, e tem também menos pontos de referência no tempo de uma vida uniforme e sem cor. É claro que existe a memória do coração, que dizem ser a mais segura, mas o coração se desgasta com as dificuldades e o trabalho, esquece mais depressa sob o peso do cansaço. Só os ricos podem reencontrar o tempo perdido. Para os pobres, o tempo marca apenas os vagos vestígios do caminho da morte. E além disso, para poder suportar, não convém se lembrar muito, é preciso ficar muito perto de cada dia, de cada hora, como fazia sua mãe.
Albert Camus, em O primeiro homem
"A revolta nasce do espetáculo da desrazão diante de uma condição injusta e incompreensível. Mas seu ímpeto cego reivindica a ordem no meio do caos e a unidade no próprio seio daquilo que foge e desaparece. A revolta clama, ela exige, ela quer que o escândalo termine e que se fixe finalmente aquilo que até então se escrevia sem trégua sobre o mar. Sua preocupação é transformar. (...) Que é um homem revoltado? Um homem que diz não. Mas, se ele recusa, não renuncia: é também um homem que diz sim, desde o seu primeiro movimento. Um escravo, que recebeu ordens durante toda a sua vida, julga subitamente inaceitável um novo comando. Qual é o significado deste 'não'? Significa, por exemplo, 'as coisas já duraram demais', 'até aí, sim; a partir daí, não'; 'assim já é demais', e, ainda, 'há um limite que você quer ultrapassar'. (...) Encontra-se a mesma idéia de limite no sentimento do revoltado de que o outro 'exagera', que estende o seu direito além de uma fronteira a partir da qual um outro direito o enfrenta e o delimita. Desta forma, o movimento de revolta apóia-se ao mesmo tempo na recusa categórica de uma intromissão julgada intolerável e na certeza confusa de um direito efetivo ou, mais exatamente, na impressão do revoltado de que ele 'tem o direito de...'. A revolta não ocorre sem o sentimento de que, de alguma forma e em algum lugar, se tem razão. (...) Ele [o revoltado] demonstra, com obstinação, que traz em si algo que 'vale a pena' e que deve ser levado em conta. De certa maneira, ele contrapõe à ordem que o oprime uma espécie de direito de não ser oprimido além daquilo que pode admitir. O revoltado, no sentido etimológico, é alguém que se rebela. Caminhava sob o chicote do senhor, agora o enfrenta. Contrapõe o que é preferível ao que não o é. Nem todo valor acarreta a revolta, mas todo movimento de revolta invoca tacitamente um valor. (...) Segundo os bons autores, o valor 'representa, na maioria das vezes, uma passagem do fato ao direito, do desejado ao desejável (em geral, por meio do geralmente desejado)' (Lalande, Vocabulário Filosófico). A revolta passa do 'seria necessário que assim fosse' ao 'quero que assim seja', mas talvez, mais ainda, a essa noção de superação do indivíduo para um bem doravante comum. O surgimento do Tudo ou Nada mostra que a revolta, contrariamente à voz corrente, e apesar de oriunda daquilo que o homem tem de mais estritamente individual, questiona a própria noção de indivíduo. Se com efeito o indivíduo aceita morrer, e morre quando surge a ocasião, no movimento de sua revolta, ele mostra com isso que se sacrifica em prol de um bem que julga transcender o seu próprio destino."
Albert Camus, em O homem revoltado

Alberto Caeiro

Falas de civilização, e de não dever ser, Ou de não dever ser assim. Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos, Com as cousas humanas postas desta maneira. Dizes que se fossem diferentes, sofreriamos menos. Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor. Escuto sem te ouvir. Para que te quereria eu ouvir? Ouvindo-te nada ficaria sabendo. Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo. Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres. Ai de ti e de todos que levam a vida A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
Alberto Caeiro
O pastor amoroso perdeu o cajado, E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta, E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar. Ninguém lhe apareceu ou desapareceu. Nunca mais encontrou o cajado. Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas. Ninguém o tinha amado, afinal. Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo; Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre, As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento, A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem, estão presentes. (E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco nos pulmões) E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito.
Alberto Caeiro, in Poemas de Alberto Caeiro — Fernando Pessoa

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa

O essencial é saber ver, mas isso, triste de nós que trazemos a alma vestida, isso exige um estudo profundo, aprendizagem de desaprender. Eu prefiro despir-me do que aprendi, eu procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, desembrulhar-me e ser eu.
Alberto Caeiro / Fernando Pessoa

Aline Bei

sabe, Pai te ver andando com aquela Mulher na praça me fez entender que você saiu de casa porque a nossa casa ou seja a Mãe era um lugar inóspito para você derramar o seu amor uma terra infértil, não chove pelo contrário, o sol torra cada pedaço de vida de um jeito que não sobra nada no horizonte e ainda assim eu nasci.
Aline Bei, em Pequena Coreografia do Adeus (p. 15)
depois que saiu de casa, meu pai começou a cultivar no rosto a máscara do homem mais jovem que imaginou pra si. muita gente acreditava na tal máscara me diziam: seu pai é bonito, quanta vitalidade. pois eu revirava os olhos pensando puxe a máscara, anda, puxe! e você verá que o verdadeiro pai não passa de um exausto arrependido de um dia ter dito sim para a mulher que me colocou no mundo.
Aline Bei, em Pequena Coreografia do Adeus (p. 55)
por que será que os estranhos sempre nos pesam menos? talvez por serem terra desconhecida, é o que abre espaço para a nossa imaginação. fulano deve ser ótimo, pensamos e as respostas ficam em suspenso amamos a possibilidade de a pessoa ser exatamente aquilo que projetamos nela. os estranhos não nos doem porque ainda não nos decepcionaram e se mantivermos tudo a uma boa distância: seguirão sendo essa doce incógnita.
Aline Bei, em Pequena Coreografia do Adeus (p. 144)
talvez o inferno seja isto: uma cena que se repete pelos séculos.
Aline Bei, em Pequena Coreografia do Adeus (p. 194)
a vida ainda que fosse a nossa maior ruína
Aline Bei, em Pequena Coreografia do Adeus (p. 209)

Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram.
Álvaro de Campos / Fernando Pessoa
O que há em mim é sobretudo cansaço — Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço. A subtileza das sensações inúteis, As paixões violentas por coisa nenhuma, Os amores intensos por o suposto em alguém, Essas coisas todas — Essas e o que falta nelas eternamente —; Tudo isso faz um cansaço, Este cansaço, Cansaço. Há sem dúvida quem ame o infinito, Há sem dúvida quem deseje o impossível, Há sem dúvida quem não queira nada — Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: Porque eu amo infinitamente o finito, Porque eu desejo impossivelmente o possível, Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser... E o resultado? Para eles a vida vivida ou sonhada, Para eles o sonho sonhado ou vivido, Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... Para mim só um grande, um profundo, E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, Um supremíssimo cansaço, Íssimo, íssimo, íssimo, Cansaço...
Álvaro de Campos / Fernando Pessoa, em Poesias de Álvaro de Campos (9-10-1934)

André Comte-Sponville

Nada está adquirido nunca, nada está prometido nunca, senão a morte. Por isso só se pode escapar à angústia aceitando isso mesmo que ela percebe, que ela recusa e que a transtorna. O quê? A fragilidade de viver, a certeza de morrer, o fracasso ou o pavor do amor, a solidão, a vacuidade, a eterna impermanência de tudo... Essa é a vida mesma, e não há outra. Solitária sempre. Mortal sempre. Pungente sempre. E tão frágil, tão fraca, tão exposta!
André Comte-Sponville, em Bom dia, Angústia
Decepção: desilusão. É a mesma coisa, e o gosto mesmo da verdade. O amor decepciona. A arte decepciona. A filosofia decepciona. Pelo menos decepcionam primeiro e por muito tempo – até o dia em que os amamos pelo que são, pelo que são realmente, pelo que são apesar de tudo, e já não pelo que se tinha sonhado ou esperado deles. Trabalho do luto: trabalho da desilusão. Não se trata de acreditar; trata-se de conhecer e amar. Um escritor que ainda acredita na literatura, que poderá ele ensinar-nos de importante sobre ela ou sobre a vida? E um filósofo, se acredita na filosofia? Um músico, se acredita na música? Um pintor, se acredita na pintura? E como amar verdadeiramente, enquanto se acredita no amor, enquanto se faz dele uma religião, um absoluto, um sonho? Toda esperança é decepcionada sempre, mesmo quando é satisfeita; é no que a satisfação tantas vezes é melosa, como um desejo insosso assim que é saciado... Prefiro o alegre amargor do amor, do sofrimento, da desilusão, do combate, vitórias e derrotas, da resistência, da lucidez, da vida em ato e em verdade. Prefiro a realidade, e a dureza da realidade. Toda esperança é decepcionada, sempre; só existe felicidade inesperada.
André Comte-Sponville, em Bom Dia, Angústia

Barbara Carine

É uma sensação estranha de não conseguir pensar um futuro, sabe? É assustador eu não conseguir pensar a minha vida daqui a trinta anos, minha mente bloqueia, parece que a gente não é feito pra ter uma noção de futuro. Parece que o que a gente tem é só uma roleta-russa, sabe o que é? Para nós, o futuro é sorte. Queria que a sociedade pensasse mais nisso. A gente tem aula de cidadania, mas que cidadania é essa?
Barbara Carine, em Querido estudante negro (p. 39)
Quilombo é uma organização existencial e política ativa, que reúne pessoas negras que aspiram um sonho de liberdade e de crescimento coletivo. É sobre outro modo de vida, um que passa por uma ideia de liberdade comunitária, saca?
Barbara Carine, em Querido estudante negro (p. 49)
"penduradas" em barrancos, ruas de terreno baldio; como se a desimportância social do cenário refletisse um pouco a desimportância das nossas vidas.
Barbara Carine, em Querido estudante negro (p. 57)
Aprendi ainda que nesse meio progressista de luta, nós, pessoas negras, precisamos ter o máximo de cautela, pois o jovem branco revolucionário é lido pelo Estado como inconsequente, enquanto o negro é lido como criminoso.
Barbara Carine, em Querido estudante negro (p. 58)
Não é bonito ser mártir não. O mártir é da cultura ocidental cristã, nada tem a ver com a ancestralidade africana. A nossa ancestralidade não é de sacrifícios singulares, mas de lutas coletivas. Quem glamorizou o sofrimento negro certamente não era um de nós.
Barbara Carine, em Querido estudante negro (p. 69)
Infelizmente isso é muito comum com as pessoas brancas, esse cuidado que precisa de plateia, precisa ser visto em todo canto, para demonstrar o quanto aquela pessoa é antirracista. Não é sobre a ação em si, é sobre o que aquela ação agrega a ela.
Barbara Carine, em Querido estudante negro (p. 73)
Estudar deveria ser a atividade principal da minha vida, mas infelizmente a sobrevivência ainda é a mais importante.
Barbara Carine, em Querido estudante negro (p. 75)
Acho quase um crime a existência de um professor amargurado em sala de aula. Isso reverbera em uma prática pedagógica desafetuosa, pouco planejada, isenta de abertura para sonhos e de perspectivas emancipatórias para aqueles jovens, que em sua grande maioria só têm o espaço escolar para alimentar os seus desejos de futuro. Entendo que as condições de trabalho muitas vezes são desmotivantes mesmo e tendem a levar os professores para esse lugar, mas tenho certeza de que não é só idealização minha. Sei que assim como aconteceu na Revolta do Buzu, nós precisamos resistir e lutar coletivamente por melhores condições salariais e estruturais. Só assim conseguiremos nos desviar dessa armadilha do desencantamento.
Barbara Carine, em Querido estudante negro (p. 87)
Tornei-me a intelectual negra que não encontrava, e isso se deu a partir de uma lógica de um espelho quebrado, ou talvez até da ausência completa do espelho.
Barbara Carine, em Querido estudante negro (p. 97)

Bárbara Carine

intelecpluralidade.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 14)
A intelecpluralidade é uma categoria de descolonização do pensamento que pauta a ruptura com o modelo único de intelectualidade imposto pela óptica brancocêntrica ocidental, prevendo uma ritualística epistêmica e performática para a constituição da pessoa intelectual.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 15)
A moral cristã traz uma perspectiva castradora da vida humana em diversos sentidos. Primeiro ela retira a centralidade da vida da própria vida e a coloca no pós- vida, na vida após a morte; vivemos para conquistar o reino dos céus, somos estrangeiros aqui. Depois promoveu ao longo dos tempos uma inversão de valores. Nas sociedades anteriores à era comum ocidental, eram valoradas a força, a coragem, a altivez. A moral cristã chega e transforma tudo isso que era visto como bom, como qualidade, em algo ruim; os antigos valores passam a ser características de pessoas arrogantes do ponto de vista social, e tendências de submissão e humildade se tornam valorizadas.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 20)
No século XXI, com os estudos genéticos contemporâneos, essa noção de raça biológica cai por terra. Contudo, o conceito social de raça se tornou fortemente presente no imaginário coletivo, e a ideia sociológica da inferioridade humana de pessoas negras baliza ainda hoje grande parte das relações sociais no Brasil. Desse modo, não adianta afirmar que o racismo não existe por sermos todos humanos; o racismo existe justamente porque a humanidade o criou.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 22)
A colonialidade é esse padrão subjetivo de rebaixamento existencial de um grupo social frente àqueles autointitulados colonizadores. Digo isso porque, se indígenas e africanos tivessem a prerrogativa de nomear esses sujeitos, certamente os chamariam de demônios, assassinos, genocidas, ladrões, sequestradores e por aí vai… tudo, menos colonizadores. A relação colonizador e colonizado se estabelece para além do campo objetivo; ela se materializa também na língua, ou melhor, na colonialidade linguística. De modo geral, a colonialidade é uma máquina de impressão de “verdades” monoculturais: só uma história é assumida, só uma beleza é exaltada, só uma religião é a do Deus verdadeiro, só uma epistemologia é a validada, só uma linguagem é assumida. Povos altamente poliglotas, como os africanos e indígenas, são treinados para se embotar intelectualmente como os seus agressores, precisando abrir mão do desenvolvimento sociocognitivo gigantesco que aprender diversas línguas gera e abraçar uma monocultura linguística do seu opressor.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 35)
dialetos. O idioma é aquele do colonizador, enquanto os dialetos são as diversas formas de comunicação oral que vieram antes por parte dos povos intitulados colonizados. O idioma do tal colonizador floresce como erva daninha que sufoca os outros, fazendo- os morrer pouco a pouco culturalmente por inanição. Esse idioma é imposto, com a sua norma culta e, obviamente, com o campo performático discursivo do colonizador, e é justamente aqui que as opressões de linguagem e oralidade se cruzam.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 35)
Não tenha vergonha de falar. Fale como for, mas fale. Fale na frente do espelho, fale para familiares, fale para seu melhor amigo, fale para seu cachorro, fale para você mesmo andando na rua. Não importa como: fale. Fale até você se sentir confortável com sua fala e ir sentindo, avaliando e direcionando os caminhos de melhoria dela, tanto para a sua finalidade central– a compreensão do outro– quanto para o seu bem- estar com você mesma ou mesmo.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 38)
Asseguro que sou formada por cada perspectiva que li e acessei ao longo da minha trajetória, e todas elas compõem o que sou hoje, mas atualmente prefiro não me dizer uma intelectual da teoria X ou Y. Prefiro me dizer uma intelectual que, no exercício da minha intelecpluraridade, reflete o mundo a partir de várias bases, optando por não se filiar paradigmaticamente a nenhuma delas.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 45)
Na perspectiva da intelectual negra Conceição Evaristo, é uma questão de escreviver. E não apenas a escrevivência como a mera junção das palavras “escrita” e “vivência”, mas também das experiências emancipadoras que se aglutinam em uma escrita não neutra e apartada das suas emoções e percepções. É uma escrita sobre si que também é sobre todo um coletivo silenciado, destituído de potencialidade literária.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 46)
a intelectualidade perpassa pela superação da alienação da especialidade em si, reintegrando esse específico à sua totalidade social percebendo como ela impacta e é impactada pela sociedade, como os outros campos de conhecimento podem se associar a ela, analisando a realidade social inclusive fora dos seus conhecimentos específicos decorrentes da sua pesquisa. Isso para mim é o intelectual
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 54)
descolonização de saberes, para além de uma perspectiva epistemológica, é uma forma de reprodução existencial pautada na subversão das normativas impostas pelo Norte global, que representa mais que uma localização geográfica e epistêmica; trata- se de uma disputa de narrativa histórica e, portanto, uma disputa de humanidade.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 58)
Nós, pessoas negras e indígenas, fomos destituídas de humanidade e, obviamente, de todas as características eminentemente humanas. Sendo o ser humano um animal racional, e pessoas negras e indígenas consideradas não humanas, ou menos humanas, seríamos pessoas desprovidas de racionalidade, portanto, de intelecto.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 60)
De acordo com o líder quilombola e escritor piauiense Nego Bispo (2015), precisamos compreender por colonização todos os processos etnocêntricos de invasão, expropriação, etnocídio, subjugação e até mesmo de substituição de uma cultura pela outra, independentemente do território físico- geográfico em que essa cultura se encontra. O escritor e pedagogo Luiz Rufino (2019) nos dirá que colonizar é limitar, despotencializar, controlar, dominar, simplificar, dividir e subtrair as possibilidades de vida fora do eixo normatizador do mundo colonial.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 61)
É unicamente a partir do entendimento de que o processo colonial é um saque, um sequestro, e não apenas um apagamento, que podemos iniciar um processo de resgate histórico dos sujeitos que foram silenciados nesse caminho.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 63)
A cultura ocidental é fortemente marcada por dicotomias hierárquicas que apresentam implicitamente noções de avanço e retrocesso, como: civilizado e incivilizado ou bárbaro, moderno e tradicional, razão e emoção, alma e corpo, inteligível e sensível, ser humano e natureza, sujeito e objeto, essência e aparência, homem e mulher, negro e branco, cis e trans, homo e hétero etc. Essas dicotomias impõem a possibilidade de separação entre razão e emoção, de modo que vinculam, inclusive, esses conceitos a órgãos do corpo, como se a emoção estivesse vinculada ao coração e a razão ao cérebro, como se o corpo não fosse uno, como se tivesse compartimentos que se responsabilizam por guardar estímulos humanos distintos.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 64)
A raça, enquanto categoria colonial moderna, surge para produzir a constituição de humanidade para pessoas brancas a partir da negação da humanidade dos outros. A colonialidade do ser parte da modulação da existência dos indivíduos. A colonialidade do ser é a dimensão ontológica da colonialidade, que se afirma na violência da negação do outro (Carneiro, 2023), sendo inclusive uma premissa basilar para o alterocídio, que, como nos aponta o filósofo, escritor e professor camaronês Achille Mbembe (2018), destitui o outro de sua condição de alteridade, ou melhor, de paridade. É como se fosse tão outro que nem humano é. É a morte ao outro nessa condição de altero.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 64)
A escrevivência é essa escrita pautada na própria vida a partir das nossas histórias singulares, mas dialeticamente coletivas de emancipação.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 67)
intelecpluralidade é uma categoria decolonial que pauta a ruptura com o modelo único de intelectualidade imposto pela óptica brancocêntrica ocidental, prevendo uma ritualística epistêmica e performática para a constituição do/ da intelectual.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 67)
tempo também ganha outros entendimentos. Para algumas delas, o tempo é entidade. O tempo é divindade. O tempo é rei. Muito além de uma grandeza física, o tempo cura males e nos faz lembrar da nossa pequenez diante da sua grandiosidade.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 74)
A descolonização da minha perspectiva temporal me fez compreender que o tempo nem sempre é linear e que, às vezes, ele pode ser cíclico, ou melhor, espiralar e tangenciar a linha de algumas dores ou alegrias outrora vividas. No entanto, também entendi que isso não significava retrocesso, apenas que o próprio fluxo temporal não é previsível.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 75)
por isso, achava- me uma pessoa difusa, perdida. Levou muito tempo para eu perceber que a minha genialidade estava justamente naquilo que as pessoas preteriam, na minha capacidade, mas sobretudo no meu prazer, em ser uma pessoa de vários acessos pouco aprofundados em campos e temáticas diversas.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 109)
Ser mediano não é ruim, do mesmo jeito que ser fora da curva também não é. Ruim mesmo é não aceitar quem se é, é não buscar olhar para as suas potencialidades nem as valorizar.
Bárbara Carine, em E eu, não sou intelectual? (p. 109)
Talvez pareça um novo tempo de violências objetivas e, sobretudo, simbólicas contra a comunidade negra brasileira. Entretanto, é só mais uma onda de opressão contra nós– que já resistimos aos açoites, à solidão, à desumanização, à indigência, à escassez, ao apagamento das nossas memórias. Resistimos às estratégias científico- políticas de extinção por miscigenação e à indiferença arquitetada para que, olhando nos olhos dos nossos iguais, não nos reconhecêssemos. Mesmo com todos os mecanismos mais brutais de construção de indiferença, sobrevivemos justamente pela coletividade que nos foi negada e pelo autorreconhecimento proveniente dela, nós nos olhamos nos olhos e nos reconhecemos mesmo diante das mais variadas diferenças que os nossos olhos podem apreender. Nós nos olhamos e nos vemos, nos emocionamos e nos fortalecemos.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
População negra brasileira, uni- vos! Mas não nos unamos a sós, e sim aos indígenas, aos amarelos, aos brancos que traíram a própria pretensa condição de universalidade e nos enxergaram humanos como eles. A todos os povos que sonham com a liberdade para todos os sujeitos sem distinção de raça, identidade de gênero, classe, sexualidade ou qualquer outro marcador das experiências humanas.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Este é um livro que visa a contribuir com os crescentes debates acerca da identidade racial brasileira, partindo da localização epistêmica e política do acúmulo intelectual e histórico dos movimentos negros organizados. Falarei sobre a noção de raça social como uma construção humana, os sistemas da branquitude e da negritude no Brasil, bem como os ataques às políticas públicas de cotas raciais e, ainda, o movimento NeoPardo como reprodutor de velhos discursos racialistas de atomização para a dominação da comunidade negra brasileira.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
A filósofa brasileira Sueli Carneiro, em seu livro Dispositivo de racialidade, não coloca raça como uma categoria biológica, mas como um dispositivo social e político que opera a racialidade por meio de relações de poder, violências e colonialismos, ou seja, para ela raça seria um constructo social produtor de desigualdades. Nesse sentido, raça social– primeiro porque se trata de uma invenção humana, portanto social, segundo porque o conceito se mantém vivo na atualidade, nas relações sociais de poder e nas ciências sociais que a estudam.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Foi assim que surgiu o conceito de raça nas ciências biomédicas. Os cientistas passaram a associar as diferenças estéticas, portanto fenotípicas, às variações genéticas dos diferentes grupos. Em outros termos, a população negra teria genes que propiciaram essa estética, o mesmo para os povos amarelos, brancos e de pele vermelha, ou seja, o genótipo informaria o fenótipo. Com o conceito de raça, surgiu a opressão do racismo. Ou teria sido o contrário? Foi justamente por causa do racismo que as raças foram criadas? O fato é que, com o surgimento dessa noção, rapidamente uma série de cientistas hierarquizou as diferentes raças, colocando o europeu no topo.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
cenário, a ciência europeia desenvolveu a noção de raça e, com as hierarquias provenientes dela, justificaram a escravidão ontológica humana.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Tratava- se de um regime escravocrata muito diferente das demais experiências de escravidão do mundo, pois não era por dívida, cujo pagamento garantia liberdade, ou por conflito étnico, de acordo com o qual se sua comunidade fosse escravizada em um dia, mas no dia seguinte vencesse a batalha, os polos dessa relação de poder se invertiam. Era uma escravidão de base ontológica. Eram escravos justamente por serem inumanos, algo como uma marca indelével.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
o racismo científico tratou de desumanizar pessoas da raça biológica negra, uma vez que, naquele contexto, por meio de experimentos craniométricos diversos, chegaram à conclusão de que negros não haviam evoluído à condição humana pois não pensavam, eram corpos que performavam desprovidos de racionalidade.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Tudo isso para justificar que pessoas negras foram ontologicamente destituídas de humanidade, fato que sustentou o ideário de uma escravidão ontológica. É escravo porque não é gente. E era escravo mesmo, não escravizado. O escravizado era o sujeito paciente da ação de um agente. O termo remete a uma relação dual, causal e em movimento.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Para Frantz Fanon, no livro Os condenados da Terra, a escravidão e o colonialismo são sistemas de violência indissociáveis, que não apenas subjugam fisicamente os povos colonizados, como também destroem identidades, levando aqueles que compõem esses povos a um profundo sofrimento psíquico.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
A abolição da escravatura foi uma conquista social oriunda dos movimentos abolicionistas dentro e fora do Brasil. Entretanto, o dia 13 de maio de 1888 não ficou registrado como um marco na nossa história, pois a liberdade segue sendo uma luta constante, um sonho de toda e qualquer pessoa negra brasileira que aspira dignidade de vida.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
“o dia 14 de maio de 1888 é o dia mais longo da nossa história”. 2 Ele dura até hoje.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Mesmo o Brasil tendo sido o último país das Américas a acabar institucionalmente com a escravidão ontológica– digo em esfera institucional, pois sabemos que a escravidão contemporânea ainda é uma realidade clandestina no nosso país–, não houve uma preocupação no sentido de humanizar pessoas negras, em termos de melhores condições de vida.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
O racismo científico, o da idealização e da hierarquização da noção de raças, foi o principal legitimador da escravidão nas Américas, tratando de animalizar pessoas negras.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Até os dias de hoje, sempre que uma pessoa negra é chamada de “macaca” em um estádio de futebol, ou em uma discussão qualquer, torna- se evidente que essa memória racialista segue firme como paradigma existencial. Chama- se um negro de “macaco” não para dizer que ele se parece com um (o que já seria bastante ofensivo), mas para informá- lo de que ele não alcançou a condição humana e, portanto, não tem paridade existencial com o racista agressor verbal. Para ele, ambos se distinguem na discussão: o humano e o inumano.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Ninguém sonha mais com o Dia da Consciência Humana do que as pessoas negras e indígenas. O dia em que o sistema da branquitude brasileira vai parar de nos matar de tantas formas: física, intelectual, emocional, religiosa e afetivamente. Sonhamos muito com o dia em que teremos paridade nas oportunidades de emprego, de moradia, de acessos aos espaços de poder. O dia em que o Brasil acordará para a consciência coletiva da nossa humanidade. Até lá, precisamos continuar fazendo barulho, nos impondo, denunciando violências e cobrando justiça e equidade.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
A raça humana passou a ser uma só, mas se esqueceram de avisar à polícia, às escolas e universidades, à mídia televisiva, aos centros de saúde, às lideranças empresariais e a todos os espaços de poder na nossa sociedade. Neste país, onde uma pessoa negra ou indígena é violentada por sua condição existencial, a raça está viva como uma categoria subalternizante da sua existência. Não adianta afirmar com uma retórica vazia que o conceito de raça não existe. Raça e racismo são indissociáveis. Se o racismo– uma opressão estrutural que tem o marcador da racialidade como um dispositivo hierarquizador de pessoas– existe, a noção de raça segue mais viva do que nunca entre nós.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
há uma grande diferença entre as noções de raça e etnia, comumente confundidas em nosso país. Etnia envolve diversos fatores culturais, como tradições, costumes, línguas e religiões. Podemos entender melhor a partir do exemplo dos povos indígenas no Brasil, que compõem uma única raça social, constituída por cerca de 305 etnias, que, falando em torno de 274 línguas, são responsáveis por grande parte da diversidade cultural do povo brasileiro. Ao passo que a raça tem bases fenotípicas, portanto, físicas, e se estrutura como um constructo social oriundo do racismo científico.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
defino “branquitude” como o sistema de manutenção de privilégios de um dado grupo social caracterizado por ter o fenótipo branco. O sistema da branquitude se concretiza/ materializa em toda e qualquer pessoa branca.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Para a branquitude, queremos o extermínio, já a pessoa branca, queremos como aliada na luta antirracista.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Cabe a você integrar a luta antirracista e usar o seu privilégio social para construir condições de oportunidade para que maiorias minorizadas[ 1] acessem direitos outrora negados, democratizando, assim, suas vantagens sociais. Não dá para mudar o passado, mas é possível alterar o curso de suas consequências transformando o presente e o futuro.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Não queremos tirar os benefícios das pessoas brancas, e sim que eles deixem de ser privilégios, pois, quando a vantagem social passa a ser apenas para um grupo em detrimento dos demais, torna- se privilégio– um conceito dialético que apenas existe na relação, visto que alguém é privilegiado diante de outro alguém que não o é.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Todas as pessoas, de algum modo, são atravessadas pelo racismo na nossa sociedade.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
A construção do mito da democracia racial decorre de um processo de miscigenação pensado pela esfera governamental visando alcançar o branqueamento da nação e, assim, atingir as suas metas de progresso nacional.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Por mais que hoje as pessoas tenham total direito de fazer as próprias escolhas do ponto de vista afetivo- sexual, não podemos, em hipótese alguma, romantizar o histórico da mestiçagem no Brasil.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Defender a tese da multirracialidade brasileira, nesse sentido, é negar o histórico extremamente violento de construção racista das noções de superioridade e supremacia branca frente aos não brancos.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
De acordo com o antropólogo brasileiro- congolês Kabengele Munanga, em sua obra Rediscutindo a mestiçagem no Brasil, a mestiçagem brasileira foi formada a partir de relações de poder desiguais, e a democracia racial é uma farsa na construção da identidade nacional que teve como intuito mascarar a discriminação racial no país.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Porque a estrutura de privilégios sociais conferidas à branquitude segue firme e hackea os indivíduos sociais a partir de sua aproximação ou de seu afastamento do sujeito universal (pessoa branca).
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Raça no Brasil é uma característica fenotípica social, não tem a ver com quem são o seu pai e a sua mãe. Inclusive, é recorrente essa indagação em minhas redes sociais: “Meu pai é negro e minha mãe é branca, o que eu sou pra você?”. Minha resposta é: “Não sei, preciso ver você pessoalmente”. Isso porque a experiência racial brasileira é marcada pela identificação visual. O racismo no Brasil é profundamente estético, e o privilégio também.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
No Brasil, a sua racialidade é determinada pela leitura social que fazem de você, possibilitando- lhe acessos ou restrições mediante essa leitura. Em uma sociedade estruturalmente racista, ser branco é ser universal.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
O corpo branco é o ser genérico. A máxima representação do humano é branca.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
que, em geral, ao falarmos de relações étnico- raciais, rapidamente pensamos em negros e indígenas, e não nos estudos da branquitude, justamente em razão dessa pretensa universalidade branca. De acordo com a escritora e doutora em psicologia social, Lia Vainer Schucman, em seu livro Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: branquitude, hierarquia e poder na cidade de São Paulo, a construção da branquitude está relacionada a um lugar de poder no qual se classifica o outro, e não a si mesmo– ou seja, a classificação do outro associada à geopolítica.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Essa universalidade faz com que “o branco simplesmente seja, e não se torne”, tomando aqui como referência a obra magna da psicologia racial brasileira Tornar- se negro, da psicanalista Neusa Santos Souza.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Ninguém se torna branco no Brasil, nasce- se branco e goza- se desse privilégio por toda a vida.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
em nosso país existe territorialidade racial,
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
“Se há territorialidade racial, há apartheid”.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Embora o racismo à brasileira seja bastante explícito, acabamos por nomeá- lo de forma velada apenas por não ter sido oficialmente institucionalizado pelo Estado, mas sempre construído e forjado nas entrelinhas. Por isso, no livro Como ser um educador antirracista, afirmo que todas as pessoas são racistas no Brasil– negros e indígenas reproduzem racismo–, justamente porque o racismo está no imaginário coletivo popular. Essa fala soa agressiva aos ouvidos, pois sabemos que, em relação ao ato individual, racismo é crime e não queremos ser criminosos, mas, no que tange às estruturas coletivas, o racismo permeia o nosso imaginário desde sempre e em todos os complexos sociais, construindo as nossas subjetividades.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
A democracia racial brasileira é um mito precisamente porque ela não existe.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
O que estou querendo dizer é que, aqui, a raça é uma leitura social e que, mesmo que você seja uma pessoa branca com cabelos cacheados, você é branca.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
“Ah, Bárbara, mas fora do Brasil eu não sou lido como uma pessoa branca.” O que eu posso te dizer, meu bem, é que você não mora fora do Brasil. Você mora aqui, onde a racialidade é de estampa e territorial.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
as políticas reparatórias no país têm como intuito reverter as desigualdades sociais brasileiras– e não estrangeiras–, tratando os diferentes de modo diferente para equiparar as condições de acesso, permanência e chegada em relação às conquistas sociais. O nome disso é equidade racial, que visa a um dia alcançar a igualdade racial.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
que cabe a uma branquitude crítica composta por pessoas brancas que reconhecem os próprios privilégios contemporâneos e históricos, interessadas em ajudar na construção de uma sociedade justa e equânime, é romper com o pacto narcísico da branquitude.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
o conceito consiste em um acordo não verbalizado de autopreservação, que atende aos interesses de determinados grupos e perpetua o poder de pessoas brancas. Então, se você for uma pessoa branca, utilize sua condição privilegiada para democratizar vantagens sociais e garantir direitos amplamente distribuídos entre a camada racial de que faz parte e que precisam ser coletivizados.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
pacto narcisico
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira(p. 45)
Ser negro no Brasil é uma experiência fenotípica social– não tem a ver com a maneira como você se enxerga no espelho, e sim com o modo como te veem.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
O racismo no Brasil é de marca e não de origem, como nos Estados Unidos. Engana- se quem vive de afirmar que os movimentos negros brasileiros querem importar as teorias raciais estadunidenses e aplicá- las aqui sem criticidade. Esta é uma falácia, pois nós sabemos, conforme já dito, que a construção da identidade racial estadunidense é bastante diferente da brasileira.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
parte das dissidências que temos hoje dentro das organizações negras vem de um lugar de dor de pessoas que tiveram– gratuitamente– as experiências fenotípicas sociais de negritude negadas.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
o colorismo consiste no tratamento diferenciado destinado a pessoas negras de diferentes tons de pele: quanto mais escuro, pior o tratamento, mais escassas as oportunidades, mais restritos os direitos.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
Isso é uma decorrência do colorismo, que desde o período colonial no Brasil construiu socialmente uma ideia de que negros mais claros estão mais perto do ideal nacional de brancura, fazendo com que acreditássemos nisso, a despeito dos dados de desigualdade social aproximarem mais pardos de pretos do que de brancos, e introjetou isso no imaginário coletivo brasileiro, promovendo a criação de hierarquias dentro do nosso povo negro. Se pensarmos do ponto de vista interseccional, como nos convida a escritora e ativista baiana Carla Akotirene em seu livro Interseccionalidade, caso essa pessoa preta seja mulher, trans, pobre, gorda, homossexual, uma pessoa com deficiência, ou seja, se adicionarem nela outras identidades sociais depreciadas pelas opressões estruturais, a violência torna- se ainda mais intensa.
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
teremos momentos de cansaço, mas precisamos ter consciência da força da nossa coletividade, como há décadas salientam os nossos mais velhos do Movimento Negro Unificado: “Povo negro unido, povo negro forte, que não teme a luta, que não teme a morte”.[
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira
delas, as cotas raciais, que se configuram como a maior ameaça construída até aqui à branquitude no nosso país. Isso porque, por meio dessa política, são criadas condições de oportunidade de acesso para as populações negras e indígenas, de modo que podemos aceder a espaços profissionais e educacionais de poder, diminuindo, assim, a universalidade branca em dois aspectos: em quantidade, visto que as vagas deixam de ser somente para pessoas brancas e passam a ser democratizadas; ao acessarmos esses espaços, acabamos com o mito da competência exclusivamente branca, mostrando que somos capazes e competentes e que podemos ser até mais inventivos– uma capacidade desenvolvida em decorrência das nossas condições sociais, que implicam a necessidade de sempre nos reinventarmos, criando inúmeras estratégias de sobrevivência, como as famosas “gambiarras”, fruto da genialidade de pessoas faveladas (majoritariamente negras no Brasil).
Bárbara Carine, em Raça social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira

Bernardo Soares

"Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas - onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza."
Bernardo Soares, em O livro do desassossego
Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim pude esquecer-me na visão do seu movimento. Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumam — quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes de paisagem — uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar. A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. Não alinho hoje nas minhas gavetas carros de linha e peões de xadrez — com um bispo ou um cavalo acaso sobressaindo — mas tenho pena de o não fazer... e alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no Inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas. Alguns passam dificuldades, outros têm uma vida boémia, pitoresca e humilde. Há outros que são caixeiros-viajantes. (Poder sonhar-me caixeiro-viajante foi sempre uma das minhas grandes ambições — irrealizada infelizmente!) Outros moram em aldeias e vilas lá para as fronteiras de um Portugal dentro de mim; vêm à cidade, onde por acaso os encontro e reconheço, abrindo-lhes os braços, numa atracção... E quando sonho isto, passeando no meu quarto, falando alto, gesticulando... quando sonho isto, e me visiono encontrando-os, todo eu me alegro, me realizo, me pulo, brilham-me os olhos, abro os braços e tenho uma felicidade enorme, real. Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram! O que eu sinto quando penso no passado, que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida..., isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos, as próprias figuras secundárias que me recordo de ter visto uma só vez, por acaso, na minha pseudovida, ao virar uma esquina da minha visionação, ao passar por um portão numa rua que subi e percorri por esse sonho fora. A raiva de a saudade não poder reavivar e reerguer nunca é tão lacrimosa contra Deus, que criou impossibilidades, do que quando medito que os meus amigos de sonho, com quem passei tantos detalhes de uma vida suposta, com quem tantas conversas iluminadas, em cafés imaginários, tenho tido, não pertenceram, afinal, a nenhum espaço onde pudessem ser, realmente, independente da minha consciência deles! Oh, o passado morto que eu trago comigo e nunca esteve senão comigo! As flores do jardim da pequena casa de campo e que nunca existiu senão em mim. As hortas, os pomares, o pinhal da quinta que foi só um meu sonho! As minhas vilegiaturas supostas, os meus passeios por um campo que nunca existiu! As árvores de à beira da estrada, os atalhos, as pedras, os camponeses que passam... tudo isto, que nunca passou de um sonho, está guardado em minha memória a fazer de dor e eu, que passei horas a sonhá-los, passo horas depois a recordar tê-los sonhado e é, na verdade, saudade que eu tenho, um passado que eu choro, uma vida real morta que fito, solene, no seu caixão. Há também as paisagens e as vidas que não foram inteiramente interiores. Certos quadros sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes com que convivi muitas horas — passam a realidade dentro de mim. Aqui a sensação era outra, mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar ali, quer eles fossem reais ou não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais, desenhada ao pé daquele bosque ao luar que havia numa pequena gravura dum quarto onde dormi já não em pequeno! Não poder eu pensar que estava ali oculto, no bosque à beira do rio, por aquele luar eterno (embora mal desenhado), vendo o homem que passa num barco por baixo do debruçar-se de um salgueiro! Aqui o não poder sonhar inteiramente doía-me. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero eram diferentes. A impossibilidade que me torturava era de outra ordem de angústia. Ah, não ter tudo isto um sentido em Deus, uma realização conforme o espírito de nossos desejos, não sei onde, por um tempo vertical, consubstanciado com a direcção das minhas saudades e dos meus devaneios! Não haver, pelo menos só para mim, um paraíso feito disto! Não poder eu encontrar os amigos que sonhei, passear pelas ruas que criei, acordar, entre o ruído dos galos e das galinhas e o rumorejar matutino da casa, na casa de campo em que eu me supus... e tudo isto mais perfeitamente arranjado por Deus, posto naquela perfeita ordem para existir, na precisa forma para eu o ter que nem os meus próprios sonhos atingem senão na falta de uma dimensão do espaço íntimo que entretém essas pobres realidades... Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo... É cedo ainda. Mal passa o meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis, alamedas vetustas, inencontráveis de antes, para os isolados no sonhar! Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto, por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas, exprimi-lo sem palavras, sem consciência mesmo, por uma construção de mim próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos olhos só de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encantado, por lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Distante, sem sentido nenhum excepto Deus.
Bernardo Soares, em Livro do Desassossego
Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis. Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.
Bernardo Soares, em Livro do Desassossego
Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna. Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de Verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro... Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabe por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, os perigos que penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das coisas... Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no Inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas... Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho — com vontade de lhes dar beijos — os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases — fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste! ... Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De um pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá ideia de nada. Às vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma ideia dele a quem possa amar... Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez não seja nunca esse o pai da minha alma... Quando acabará isto tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para sua casa e me desse calor e afeição... Às vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar... Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio... Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum... E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis para seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos. Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, O Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci... Torna a dar-me ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que dormia...
Bernardo Soares, em Livro do Desassossego
Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram, daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poetas românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.
Bernardo Soares, em O livro do desassossego
Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança. Mas por que deixou que a Vida me batesse e me tirasse os brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com as mãos tão fracas o bibe azul sujo de lágrimas compridas? Se eu não poderia viver senão acarinhado, por que deitaram fora o meu carinho? Ah, cada vez que vejo nas ruas uma criança a chorar, uma criança exilada dos outros, dói-me mais que a tristeza da criança o horror desprevenido do meu coração exausto. Doo-me com toda a estatura da vida sentida, e são minhas as mãos que torcem o canto do bibe, são minhas as bocas tortas das lágrimas verdadeiras, é minha a fraqueza, é minha a solidão, e os risos da vida adulta que passa usam-me como luzes de fósforos riscados no estofo sensível do meu coração.
Bernardo Soares, em O livro do desassossego
Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã (no fato cristão) e que criou em si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas da ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram enamorados só da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda, iam buscar a orientes e ocidentes outras formas religiosas com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver. Tudo isso nós perdemos. De todas essas consolações nascemos órfãos. Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim perdê-las a todas. Nós perdemos essa, e às outras também. Ficamos, pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de se sentir viver. Um barco parece ser um objeto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontramo-nos navegando, sem a idéia do porto a que nos deveríamos acolher. Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso. Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuímo-nos, porque o homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma idéia do futuro, também não temos uma idéia de hoje, porque o hoje, para o homem de ação, não é senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta conosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta. Uns de nós estagnaram na conquista alvar do quotidiano, reles e baixos buscando o pão de cada dia, e querendo obtê-lo sem o trabalho sentido, sem a consciência do esforço, sem a nobreza do conseguimento. Outros, de melhor estirpe, abstivemo-nos da cousa pública, nada querendo e nada desejando, e tentando levar até ao calvário do esquecimento a cruz de simplesmente existirmos. Impossível esforço, em quem não tem, como o portador da Cruz, uma origem divina na consciência. Outros entregaram-se, atarefados por fora da alma, ao culto da confusão e do ruído, julgando viver quando se ouviam, crendo amar quando se chocavam contra as exterioridades do amor. Viver doía-nos, porque sabíamos que estávamos vivos; morrer não nos aterrava porque tínhamos perdido a noção normal da morte. Mas outros, Raça do Fim, limite espiritual da Hora Morta, nem tiveram a coragem da negação e do asilo em si próprios, o que viveram foi em negação, em descontentamento e em desconsolo. Mas vivemo-lo de dentro, sem gestos, fechados sempre, pelo menos no gênero de vida, entre as quatro paredes do quarto e os quatro muros de não saber agir.
Bernardo Soares, em Livro do Desassossego
A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos - vis porque são nossos e vis porque são vis. O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela. O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele. Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso - o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objetivo. Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.
Bernardo Soares, em Livro do Desassossego

Byung-Chul Han

No entender de Gadamer, a negatividade é essencial para a arte. E a sua ferida. Opõe- se à positividade do polido.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 12)
Hoje, o próprio belo acaba por ser amaciado quando se lhe retira toda a negatividade, toda a forma de comoção e de vulneração. O belo esgota- se no Gosto. A
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 13)
Por conseguinte, a essência da sexualidade é excesso e transgressão. Dissolve os limites da consciência. Nisso consiste a sua negatividade.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 14)
A depilação brasileira deixa o corpo polido. Incama o atual imperativo de higiene. Segundo Bataille, a essência do erotismo é a contaminação. Por conseguinte, o imperativo higiénico seria o fim do erotismo. O erotismo sujo cede o lugar à pornografia limpa. Precisamente, a pele depilada outorga ao corpo um polimento pornográfico que é percebido como puro e limpo. A sociedade atual, obcecãda pela limpeza e a higiene, é uma sociedade positiva que sente repugnância perante qualquer forma de negatividade.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 15)
O polido é alguma coisa de que alguém simplesmente gosta. Carece da negatividade do contrário. Deixou de ser um corpo contraposto. Também a comunicação, hoje, se toma lisa. Amacia- se através da transformação de uma troca sem fricção de informações. A comunicação polida carece de toda a negatividade do diferente e do estranho. A comunicação alcança a sua máxima velocidade quando o idêntico comunicação polida do idêntico. A positividade do polido acelera os circuitos de informação, de comunicação e de capital.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 16)
No primeiro plano do rosto, o fundo desvanece- se por completo. O que conduz a uma perda do mundo. A estética do primeiro plano reflete uma sociedade que se tornou, ela própria, uma sociedade do primeiro plano. O rosto dá a impressão de ter ficado apanhado em si mesmo, tomando- se autorreferencial.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 19)
Deixa de ser um rosto que contenha mundo— ou seja, deixa de ser expressivo. O selfie é, exatamente, esse rosto vazio e inexpressivo. A dependência aditiva do selfie remete para o vazio interior do eu.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 19)
Confrontado com o vazio interior, o sujeito do selfie tenta em vão produzir- se a si próprio. O selfie é o si- próprio em formas vazias. Estas reproduzem o vazio. O que gera a adição ao selfie não é um autoenamoramento ou uma vaidade narcísi- cos mas um vazio interior. Não há aqui um eu estável e narcísico que se ame a si mesmo. Encontramo- nos antes frente a um narcisismo negativo.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 19)
O liso causa uma sensação completamente livre de dor e de resistência:
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 22)
Se a lisura— como parece evidente— é uma causa principal de agrado para o tato, o gosto, o olfato e o ouvido, será necessário reconhecê- la também como uma das bases da beleza visual, sobretudo uma vez que mostrámos que tal qualidade se pode encontrar, quase sem exceção, em todos os corpos que unánimemente se consideram belos. É indubitável que os corpos ásperos e angulosos irritam e molestam os órgãos sensitivos, causando uma sensação dolorosa que consiste numa tensão ou contração violenta das fibras musculares4.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 22)
A negatividade da dor reduz a sensação do belo.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 22)
Na presença do belo, o sujeito agrada- se a si mesmo. O belo é um sentimento autoeróti- co. Não é um sentimento do objeto, mas do sujeito.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 25)
A dor dilacera o sujeito ao arrancá- lo da interioridade autoerótica. A dor é a dilace ração através da qual o totalmente diferente se anuncia: “A dor à vista do belo, que não é nunca mais direto do que a experiência da natureza, é igualmente aspiração ao que o belo promete” 41. Em última instância, a nostalgia do belo natural é a nostalgia de outro estado do ser, de uma forma de vida totalmente diferente e sem violência.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 29)
O belo natural contrapõe- se ao belo digital. No belo digital, a negatividade do diferente foi por completo eliminada. Por isso, ele é totalmente polido e liso.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 30)
A temporalidade do belo natural é o já do ainda não.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 30)
A temporalidade do belo digital é, pelo contrário, o presente imediato sem futuro e, além disso, sem história. Está simplesmente perante.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 30)
O belo natural mostra ser “a marca do não- idêntico nas coisas sob o feitiço da identidade universal” 46.0 belo digital proscreve toda a negatividade do não- idêntico. Tolera apenas diferenças consumíveis e aproveitáveis. A alteridade cede passagem à diversidade.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 31)
controlo. Nesse espaço de visão autoerótico, nessa inferioridade digital, não é possível qualquer espanto. Os homens já só encontram agrado em si mesmos.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 31)
O belo é um esconderijo. A ocultação é essencial à beleza. A beleza dá- se mal com a transparência. A beleza transparente é um oxímoro. A beleza é necessariamente uma aparência. É- lhe própria uma opacidade. Opaco significa “sombreado”. O desvelamento desencanta e destrói a beleza. É por isso que o belo, obedecendo à sua essência, é in- desvelável.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 33)
As infor- mações obedecem a um princípio totalmente diferente: estão orientadas rumo ao desvelamento, rumo à verdade última. São, em conformidade com a sua essência própria, pornográficas.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 36)
A sociedade positiva atual elimina cada vez mais a nega- tividade da ferida. O
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 39)
Sensibilidade é vulnerabilidade.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 39)
Sem ferida, não há poesia nem arte. Do mesmo modo, o pensamento acende- se também com a negatividade da ferida. Sem dor nem vulneração, o que se mantém é o idêntico, o que nos é familiar, o habitual: “Na sua essência, a experiência (...) é a dor em que a alteridade essencial do existente se desvela frente ao habitual”
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 40)
A fotografia erótica é uma imagem “alterada, fendida” 7. A imagem pornográfica, em contrapartida, não mostra quebras nem fissuras. E lisa e polida. Hoje, todas as imagens são mais ou menos pornográficas. São transparentes. Não mostram vazios no campo de visão. Não têm esconderijo algum.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 41)
O consumo voraz de imagens torna impossível fechar os olhos.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 42)
O meio digital é um meio de afetações. Estas são mais rápidas do que os sentimentos ou os discursos. Aceleram a comunicação. A afetação não conhece a paciência necessária ao studium nem a suscetibilidade necessária ao punctum. Carece desse silêncio eloquente, desse silêncio cheio de linguagem que constitui o punctum. A afetação grita e excita. Provoca somente excitações e estímulos sem fala que suscitam agrado imediato.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 43)
“Duas coisas enchem a alma de admiração e respeito renovados e crescentes, quanto mais reiterada e persistentemente a reflexão delas se ocupa: o céu estrelado que está sobre mim e a lei moral que há dentro de mim”
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 45)
Kant imuniza- se permanentemente contra o lado de fora, ao qual a interioridade autoeró- tica do sujeito se subtrai. Tudo deve ser conjurado a canalizar- se para o interior do sujeito: assim reza o imperativo categórico do pensamento de Kant.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 45)
A estética do desastre opõe- se à estética da complacência, na qual o sujeito goza de si mesmo. É uma estética do acontecimento.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 47)
Todos os acontecimentos são belos porque expropriam o eu. O desastre significa a morte do sujeito autoerótico, que se agarra a si mesmo.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 47)
A negatividade do terrível constitui a matriz, a camada profunda do belo. O belo é o insuportável que somos ainda capazes de suportar— ou o insuportável tomado suportável. Escuda- nos do terrível. Mas, ao mesmo tempo, através do belo, cintila o terrível. Eis o que constitui a ambivalência do belo. O belo não é uma imagem, mas um escudo.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 48)
O saudável é uma forma de expressão do liso e do polido. Paradoxalmente, irradia alguma coisa de mórbido, alguma coisa de morte. Sem a negatividade da morte, a vida anquilosa- se no morto. É amaciada, transformando- se ña- quilo que por carecer de vida, tão- pouco pode morrer. A negatividade é a força vitalizante da vida. Constitui também a essência do belo. Ao belo é inerente uma fraqueza, uma fragilidade, uma quebra. E a esta negatividade que o belo tem de agradecer a sua força de sedução. O saudável, pelo contrário, não seduz. Tem qualquer coisa de pornográfico. A beleza é doença.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 49)
A atual calocracia, ou império da beleza, que absolutiza o saudável e o polido, elimina justamente o belo. E a mera vida saudável, que hoje assume a forma de uma sobrevivência histérica, converte- se no morto, naquilo que, à falta de vida, também não pode morrer. É assim que hoje estamos demasiado mortos para viver e demasiado vivos para morrer.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 50)
Em Kant, por outro lado, o belo supera o puramente estético. Introduz- se no domínio moral.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 52)
A sexualização do corpo não segue univocamente a lógica da emancipação, uma vez que acompanha uma comercialização do corpo. A indústria da beleza explora o corpo sexualizando- o e tornando- o consumível. O consumo e o atrativo sexual implicam- se um ao outro.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 53)
O atrativo sexual, ou sexyness, contrapõe- se à beleza moral ou à beleza de caráter. A moral, a virtude ou o caráter têm uma temporalidade peculiar. Fundam- se na duração, na firmeza e na constância.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 54)
De acordo com Schmitt, é um “sinal de cisão interior (...) ter- se mais do que um único verdadeiro inimigo”. A firmeza de caráter não permite uma “dualidade de inimigos”. É necessário enfrentar “combatendo” o inimigo único “para se ganhar a medida de si próprio, o limite de si próprio, a figura de si próprio”. Deste modo, o inimigo é “a nossa pergunta própria enquanto forma” 101. Também um único amigo verdadeiro seria prova de firmeza de caráter. Schmitt diria: quanto menos caráter e menos forma se tem, quanto mais liso e polido e mais escorregadio se é, mais friends se têm. O Facebook é um mercado da falta de caráter.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 54)
contam- se a vida orientada para o gozo das coisas belas, a vida que gera ações belas na pólis e, por fim, a vida contemplativa dos filósofos, que, investigando o que não perece nunca, permanece no âmbito da beleza perpétua.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 63)
As coisas belas são aquelas que não são dominadas pela necessidade nem pela utilidade.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 64)
Nenhuma política do belo é possível na atualidade, uma vez que a política atual permanece submetida por completo aos imperativos do sistema. Dispõe apenas de margens. A política do belo é uma política da liberdade. A ausência de alternativas, sob cujo jugo trabalha a política atual, toma impossível a ação autenticamente política.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 65)
beleza exige de nós o “renunciar à nossa posição figurada como centro”. (...) Não é que deixemos de estar no centro do próprio mundo, mas, voluntariamente, cedemos o nosso terreno às coisas perante as quais nos achamos121. Na presença do belo, o sujeito assume uma posição lateral, põe- se de lado, em vez de se impor abrindo caminho.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 66)
a experiência do belo toma- se hoje fundamentalmente narcísica. Não é a lateralidade {lateralness), mas uma centralidade (centralness) narcísica que a domina. Torna- se consumista. Perante o objeto de consumo, o sujeito assume uma posição central. Esta postura consumista destrói a alteridade do outro, em favor da qual cada um de nós se poria de lado ou se retiraria. Destrói a heterogeneidade do diferente, a alteridade.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 66)
O que caracteriza a sociedade atual é a falta de energia de enlace dialógico. Quando o dialógico desaparece do cenário, aparece um teatro das afetações. Estas não são dialogica- mente estruturadas. Implicam uma negação do diferente.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 68)
o belo convida à demora. O que obstaculiza a demora contemplativa é a vontade.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 70)
O belo desembaraça- me de mim. O eu mergulha no belo. Na presença do belo, desprende- se de si mesmo.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 70)
A “eternidade do presente”, que se alcança numa demora em que o curso do tempo é superado, refere- se ao diferente: a “eternidade do presente” é a presença do outro.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 71)
“O espírito é eterno na medida em que concebe as coisas na perspetiva da eternidade.” 126
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 71)
Segundo Nietzsche, a arte original é a arte das festas. As obras de arte são testemunhos materializados desses momentos afortunados de uma cultura em que o tempo habitual, que é o tempo que transcorre, foi superado:
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 71)
Que importa toda a nossa arte das obras de arte quando perdemos essa arte mais alta, a arte das festas? Anteriormente, todas as obras de arte ocupavam o seu posto na grande álea triunfal do género humano como monumentos comemorativos de instantes elevados e felizes. Hoje, com as obras de arte, quer- se afastar os pobres exaustos e os doentes da grande via de sofrimento da humanidade e proporcionar- lhes um pequeno momento de embriaguez e de loucura128.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 71)
A festa começa quando cessa o tempo quotidiano profano (“ profano” significa, etimológicamente, o que está fora do recinto sagrado). Pressupõe uma consagração.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 72)
Hoje o tempo superior desapareceu por completo em benefício do tempo de trabalho, que se totaliza.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 72)
primeiro, antes de a ele chegarmos. Quando se celebra uma festa, a festa está lá o tempo todo, sempre presente.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 73)
As obras de arte, no momento em que se expõem, perdem o seu valor de culto. O valor expositivo desaloja o valor de culto. As obras de arte não se erigem na via festiva, mas são expostas nos museus. As exposições não são festas, mas espetáculos. O museu é o seu ossário. Aí só aparece algum valor nas coisas se forem vistas, se suscitarem atenção— enquanto, por seu turno, os objetos cultuais se mantêm frequentemente ocultos. A ocultação pode até mesmo aumentar o seu valor cultual. O culto nada tem que ver com a atenção. A totalização da atenção destrói o cultuai.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 73)
Hoje, o valor especulativo surge como valor supremo. A bolsa é o local de culto do mundo atual. É o lucro absoluto que ocupa o lugar da redenção.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 74)
A experiência do belo como recordação subtrai- se ao consumo, que é dominado por uma temporalidade completamente diferente.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 74)
O belo não é a presença imediata nem o facto das coisas que estão presentes. São essenciais à beleza as correspondências secretas entre as coisas e a noções, correspondências que acontecem ao longo de amplos períodos temporais.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 76)
A beleza acontece lá onde as coisas se voltam umas para as outras e entabulam relações. A beleza narra. Tal como a verdade, é um acontecimento narrativo'.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 76)
A tarefa do escritor é metaforizar o mundo, poetizá- lo. O seu olhar poético descobre as relações amorosas ocultas que há entre as coisas. A beleza é o acontecimento de uma rela- ✓ ção.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 77)
A beleza é retardatária, diferida. O belo não é um brilho momentâneo, mas um permanecer aceso em silêncio.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 77)
A espécie de beleza mais nobre é a que não nos cativa de um só golpe, a que não empreende assaltos tempestuosos e inebriantes (caso em que facilmente se sucede o fastio), mas a que se insinua lentamente, a que se apodera de nós quase sem que nos dêmos conta, (...) em sonhos137.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 77)
Enquanto acontecimento da verdade, o belo é generativo, fecundante e ainda, por ñm, poetizante. Dá a ver. E es se dom o belo. O belo não é a obra enquanto produto, mas o sobressair da verdade que resplandece. O belo transcende, do mesmo modo, a complacência desinteressada. O estético, num sentido enfático, não tem acesso algum ao belo. Sendo o sobressair resplandecente da verdade, o belo é inaparente, na medida em que se oculta atrás dos fenómenos. Igualmente, segundo Platão, é necessário um certo desviar a vista das figuras belas para chegarmos vislumbrar o belo em si.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 80)
O belo é o que vincula. Fundador de duração. Não é um acaso que o “belo em si”, segundo Platão, “seja eternamente” (aei onf ^ 2. Da mesma maneira, enquanto “nome poético da diferença do ser”, o belo não é alguma coisa que se limite a agradar. O belo é, por excelência, o vinculativo, o normativo, o que dá a medida. Eros é a aspiração ao que vincula. Badiou chamar- lhe- ia “fidelidade”.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 81)
A fidelidade e o que vincula implicam- se mutuamente. O que vincula exige fidelidade. A fidelidade pressupõe o que vincula. A fidelidade é incondicional.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 81)
transcendência. A estetização créscente da quotidianidade é justamente o que torna impossível a experiência do belo como experiência do que vincula. A estetização em causa é gerada unicamente por objetos que suscitam um agrado passageiro.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 81)
Nada tem consistência nem duração. Frente a uma contingência radical surge a aspiração do vinculativo para lá da quotidianidade. Encontramo- nos hoje numa crise do belo, uma vez que este é amaciado e transformado em objeto de agrado, em objeto do Gosto, em qualquer coisa de arbitrário e gratificante. A salvação do belo é a salvação do que vincula.
Byung-Chul Han, em A Salvação do belo (p. 82)

Carla Madeira

amor tem nome, mas não é nada que a gente possa reconhecer só de olhar. A dor a gente sabe o que é, tem lugar e intensidades que cabem na ciência. A raiva, o medo, o ódio entortam a cara com um jeito provável de se manifestar. Mas e o amor? O que é senão um monte de gostar? Gostar de falar, gostar de tocar, gostar de cheirar, gostar de ouvir, gostar de olhar. Gostar de se abandonar no outro.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 12)
O amor não passa de um gostar de muitos verbos ao mesmo tempo.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 12)
Perder amores é escurecer por dentro, uma memória do corpo que o entardecer evoca quando tinge o céu de vermelho. Para quem está sozinho depois de ter amado, o fim do dia é muito triste.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 15)
Uma antipática felicidade, desumana com a solidão alheia.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 17)
felicidade em demasia é dívida que não se pode pagar. A conta viria.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 18)
Parte da excitação de Lucy morava na perversão.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 24)
Deus estava intervindo.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 36)
Sofria a insuportável saudade de ter um pai que nunca teve.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 48)
Crescer nunca foi fácil, tem hora que o amor pode doer mais do que a dor.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 54)
Um dia feliz tem mais poder que a tristeza de uma vida inteira. Nele moram as reviravoltas.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 55)
Muda. Conhece a força de existir.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 57)
Não podia desaprender a gostar dele. Ia parar de existir.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 58)
A gente não deixa mágoa de filho ressecar.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 60)
O amor não é incondicional coisa nenhuma, tem suas fragilidades de matéria orgânica. Estraga, esgarça, rasga, inflama, acaba. E como acaba. É feito gente, depende do que vive.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 66)
O que mais existe no mundo são pessoas que nunca vão se conhecer.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 73)
É preciso uma coincidência qualquer para que o amor se instale. Existe um certo milagre nos encontros.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 73)
Tão irrecusável quanto sua buceta quente.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 82)
Na zona, o corpo é a alma do negócio.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 83)
cada um só enxerga o que vê da própria janela, foi
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 86)
O pior de nós tem seus encantos.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 89)
Somos feitos do bom e do ruim em porções imprevisíveis.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 89)
O corpo pedia intensidade de prazer ou dor.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 91)
a dor vicia enquanto mantém a gente vivo.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 93)
Desistir de Deus é muita solidão.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 96)
O sofrimento é certo como a morte e tão inegociável quanto.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 98)
Era a poesia no corpo.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 104)
A liberdade é uma conversa fiada, é palavra de efeito, sempre no meio de uma frase para impressionar os desatentos, no fundo estamos presos à incapacidade de ser outra coisa diferente do que somos, do que a história da gente tramou.
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 111)
Impõe o desespero do definitivo,
Carla Madeira, em Tudo é rio (p. 115)
O avesso de um homem é, com um pouco de sorte, outro homem.
Carla Madeira, em Véspera (p. 17)
Por causa desse medo, Custódia fez uma incontável quantidade de absurdos.
Carla Madeira, em Véspera (p. 26)
reduziu o funcionamento do mundo ao seu
Carla Madeira, em Véspera (p. 26)
Inverossímil como só a realidade sabe ser.
Carla Madeira, em Véspera (p. 27)
Ele era o único menino preto da escola. Não gostava de jogar bola, mas acompanhava concentrado todos os lances. Abel se perturbava com a presença dele, sempre que os olhos deles se cruzavam. Era como se dividissem uma mesma falta de
Carla Madeira, em Véspera (p. 45)
lugar que Abel não queria revelar a ninguém.
Carla Madeira, em Véspera (p. 45)
Fugia ao padrão do estudioso pálido e deslocado socialmente.
Carla Madeira, em Véspera (p. 46)
“Não é bom estar sempre certo.”
Carla Madeira, em Véspera (p. 47)
A memória é um estômago em permanente refluxo, e a culpa é ácida como um suco gástrico.
Carla Madeira, em Véspera (p. 51)
E, como toda interpretação, carrega um pouco do desejo de quem a faz.
Carla Madeira, em Véspera (p. 54)
Aceite o que cada um pode oferecer, o que cada um é.
Carla Madeira, em Véspera (p. 56)
Um aluno, de quem esperamos imaturidade e muito a aprender, não deve chamar um professor de cavalo. Mas sendo burros e cavalos parentes, merecem que os tratemos com equidade, mesmo os cavalos se achando superiores aos burros.
Carla Madeira, em Véspera (p. 67)
O gesto brusco não nasce de uma intenção. Irrompe, vaza o limite da alma exausta, é um corpo em derrame.
Carla Madeira, em Véspera (p. 69)
É nossa vontade que se impõe contra nós e age!
Carla Madeira, em Véspera (p. 70)
se é preciso força para tocar no amor de um homem, melhor deixá- lo. Mil vezes: melhor deixá- lo.
Carla Madeira, em Véspera (p. 70)
Muita gente desemburreceu em suas mãos.
Carla Madeira, em Véspera (p. 82)
“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira.”
Carla Madeira, em Véspera (p. 83)
Tolstói começa seu grande romance Anna Kariênina.
Carla Madeira, em Véspera (p. 83)
Presos à vida, presos à morte e presos a uma arquitetura arruinada.
Carla Madeira, em Véspera (p. 86)
gostar é tornar- se vulnerável.
Carla Madeira, em Véspera (p. 87)
As manhãs têm pela frente o dia e com ele a ilusão de se poder resolver tudo.
Carla Madeira, em Véspera (p. 95)
Não é pecado tomar gosto pela vida,
Carla Madeira, em Véspera (p. 109)
Em um acontecimento de alta voltagem, pode- se sentir todas as forças de uma só vez. Mas ao contá- lo, é preciso fatiar, repetir e repetir, para que os fragmentos, as fagulhas desgovernadas, encontrem algum sentido no amontoado indizível.
Carla Madeira, em Véspera (p. 114)
São sempre enormes as coisas da infância, as maiores que teremos na vida, eu penso. As mais inesquecíveis. Talvez, as mais sentidas como verdadeiras. Passamos o resto do tempo atrás dessa sensação—
Carla Madeira, em Véspera (p. 116)
Em que momento aquelas tarefas se tornaram um jeito de amar?
Carla Madeira, em Véspera (p. 126)
Vivia a vida que lhe coubera.
Carla Madeira, em Véspera (p. 126)
vaidade é um vício terrível.
Carla Madeira, em Véspera (p. 131)
As pessoas se agarram a ela e ficam comprometidas em manter os elogios em alta, o que é fatal em qualquer área: nas artes, na ciência e principalmente na vida.
Carla Madeira, em Véspera (p. 131)
Aquelas mãos já se conheciam, já gostavam uma da outra em segredo.
Carla Madeira, em Véspera (p. 132)
confirmação de uma suspeita é sempre um excesso
Carla Madeira, em Véspera (p. 160)
de realidade.
Carla Madeira, em Véspera (p. 160)
tanto fogo só podia ter algo de inferno,
Carla Madeira, em Véspera (p. 163)
Morrer era mais fácil do que ser livre.
Carla Madeira, em Véspera (p. 166)
A omissão sangra o amor a conta- gotas e o perde um pouco a cada dia.
Carla Madeira, em Véspera (p. 180)
Dentro é onde cresce um tipo de vegetação particular, que a um estranho parecerá mato, mas que na família é flor. E pode ser flor aos olhos do visitante o que é espinho entre os que se machucam faz tempo.
Carla Madeira, em Véspera (p. 187)
Nas famílias, desiste- se muito das palavras para evitar exílios e, assim, nascem desertos.
Carla Madeira, em Véspera (p. 187)
O puçá da vida, com sua rede inescapável, baila à espreita… Entre gestos, olhares, palavras, vazios, intensidades e, súbito, como se fossem borboletas, recolhe a véspera de uma dor, o desamparo sem palavras, a sutil alegria, a faísca cadente, o assombro fugidio e o desejo… E, assim, aprisiona o tempo e o faz corpo marcado.
Carla Madeira, em Véspera (p. 189)
A eles dei a misericórdia de um punhado de vésperas.
Carla Madeira, em Véspera (p. 222)

Chimamanda Ngozi Adichie

Para onde foram todos os anos, será que aproveitei a vida ao máximo? Mas qual é a medida absoluta de aproveitamento máximo da vida, e como eu poderia saber?
Chimamanda Ngozi Adichie, em A contagem dos sonhos (p. 17)
“Eles não suportam pessoas ricas de países pobres, porque isso significa que não podem sentir pena delas.”
Chimamanda Ngozi Adichie, em A contagem dos sonhos (p. 41)
Nossos amigos mais próximos são pequenos vislumbres de nós. Afinal de contas, nós os escolhemos, eles não nos são dados pela natureza, como nossa família,
Chimamanda Ngozi Adichie, em A contagem dos sonhos (p. 41)
Omelogor certa vez disse que ficava feliz pela Nigéria não ser um ponto turístico, porque “as pessoas se tornam parte do cenário, e os países deixam de ser lugares e viram performances”. Achei
Chimamanda Ngozi Adichie, em A contagem dos sonhos (p. 46)
Quando olho para trás agora, minha fraqueza é tão vívida; vejo como era flexível e dócil em troca de nada. A clareza da percepção tardia é tão absoluta que me deixa tonta. Ah, se conseguíssemos ver nossas falhas enquanto estamos falhando.
Chimamanda Ngozi Adichie, em A contagem dos sonhos (p. 80)
era um homem do povo que detestava aquilo de que o povo gosta.
Chimamanda Ngozi Adichie, em A contagem dos sonhos (p. 80)
Nós amamos e então não amamos mais. Para onde o amor vai quando deixamos de amar?
Chimamanda Ngozi Adichie, em A contagem dos sonhos (p. 84)
Kadiatou aprendeu que a desonestidade tinha matizes, camadas, torções e nós. Às vezes, mentimos porque amamos, e às vezes mentimos para a serventia ou a salvação daqueles que amamos.
Chimamanda Ngozi Adichie, em A contagem dos sonhos (p. 290)
Não se deve parar no anseio, e sim usar a força do anseio para tornar real a vida que se quer, ou, pelo menos, tentar fazer isso.
Chimamanda Ngozi Adichie, em A contagem dos sonhos (p. 373)
É fácil ser triste, a tristeza é algo que se alcança sem dificuldade. A esperança e a felicidade são mais difíceis de agarrar
Chimamanda Ngozi Adichie, em A contagem dos sonhos (p. 436)
A vida às vezes muda por causa do que poderia ter acontecido, mas não aconteceu.
Chimamanda Ngozi Adichie, em A contagem dos sonhos (p. 438)
Como assim não dá? O que na genética cultural dos americanos os leva a acreditar que eles podem decidir como o resto do mundo deve pensar? Nunca soube que existia um grupo de pessoas que sente ter um direito tão absoluto sobre a mente dos outros.
Chimamanda Ngozi Adichie, em A contagem dos sonhos (p. 503)

Cida Bento

Não temos um problema negro no Brasil, temos um problema nas relações entre negros e brancos. É a supremacia branca incrustada na branquitude, uma relação de dominação de um grupo sobre outro, como tantas que observamos cotidianamente ao nosso redor, na política, na cultura, na economia e que assegura privilégios para um dos grupos e relega péssimas condições de trabalho, de vida, ou até a morte, para o outro.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 10)
Descendentes de escravocratas e descendentes de escravizados lidam com heranças acumuladas em histórias de muita dor e violência, que se refletem na vida concreta e simbólica das gerações contemporâneas. Fala- se muito na herança da escravidão e nos seus impactos negativos para as populações negras, mas quase nunca se fala na herança escravocrata e nos seus impactos positivos para as pessoas brancas.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 11)
É possível identificar a existência de um pacto narcísico entre coletivos que carregam segredos em relação a seus ancestrais, atos vergonhosos como assassinatos e violações cometidos por antepassados, transmitidos através de gerações e escondidos, dentro dos próprios grupos, numa espécie de sepultura secreta. Assim é que a realidade da supremacia branca nas organizações públicas e privadas da sociedade brasileira é usufruída pelas novas gerações brancas como mérito do seu grupo, ou seja, como se não tivesse nada a ver com os atos anti- humanitários cometidos no período da escravidão, que corresponde a 4/ 5 da história do país,* ou com aqueles que ainda ocorrem na atualidade.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 16)
Trata- se da herança inscrita na subjetividade do coletivo, mas que não é reconhecida publicamente. O herdeiro branco se identifica com outros herdeiros brancos e se beneficia dessa herança, seja concreta, seja simbolicamente; em contrapartida, tem que servir ao seu grupo, protegê- lo e fortalecê- lo. Este é o pacto, o acordo tácito, o contrato subjetivo não verbalizado: as novas gerações podem ser beneficiárias de tudo que foi acumulado, mas têm que se comprometer “tacitamente” a aumentar o legado e transmitir para as gerações seguintes, fortalecendo seu grupo no lugar de privilégio, que é transmitido como se fosse exclusivamente mérito. E no mesmo processo excluir os outros grupos “não iguais” ou não suficientemente meritosos.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 17)
O pacto é uma aliança que expulsa, reprime, esconde aquilo que é intolerável para ser suportado e recordado pelo coletivo. 7 Gera esquecimento e desloca a memória para lembranças encobridoras comuns. 8O pacto suprime as recordações que trazem sofrimento e vergonha, porque são relacionadas à escravidão.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 17)
O discurso europeu sempre destacou o tom da pele como a base principal para distinguir status e valor. 3As noções de “bárbaros”, “pagãos”, “selvagens” e “primitivos” evidenciam a cosmologia que orientou a percepção eurocêntrica do outro nos grandes momentos de expansão territorial da Europa.* Como diz Edward Said, 4 o olhar europeu transformou os não europeus em um diferente e, muitas vezes ameaçador, outro. E esse outro tem muito mais a ver com o europeu do que consigo próprio.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 18)
Assim, foi no bojo do processo de colonização que se constituiu a branquitude. Os europeus, brancos, foram criando uma identidade comum que usou os africanos, negros, como principal contraste.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 19)
Du Bois nos estudos sobre branquitude, ou seja, mesmo os brancos pobres e a classe trabalhadora se beneficiam do legado da opressão racial.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 20)
Essa omissão da resistência negra e indígena na historiografia oficial nos mostra que precisamos entender sobre memória coletiva, mas também sobre amnésia coletiva, como nos ensina Charles W. Mills, 6 intelectual que trabalhou com o conceito de ignorância branca, salientando que o óbvio precisa ser relembrado, já que interesses podem moldar a cognição— e as sociedades escolhem o que querem lembrar e o que querem esquecer. A ignorância moral que implica julgamentos incorretos sobre o que é certo e o que é errado está incluída nessa abordagem, assim como a crença falsa.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 26)
Nesse sentido, esses diversos tipos de grupos de jovens, professores, intelectuais e artistas trabalham com o conceito de quilombo como território de memória, de resistência, de fortalecimento cultural e precisam ser apoiados por políticas públicas e programas de diversidade e equidade realizados por organizações.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 27)
capitalismo racial elucida como o capitalismo funciona por meio de uma lógica de exploração do trabalho assalariado, ao mesmo tempo que se baseia em lógicas de raça, etnia e de gênero para expropriação, que vão desde a tomada de terras indígenas e quilombolas até o que chamamos de trabalho escravo ou o trabalho reprodutivo de gênero etc.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 27)
Na perspectiva da personalidade autoritária está a convicção de que a visão de mundo de seu próprio grupo é o centro de tudo, e os demais são compreendidos a partir de seu modelo, ou seja, o etnocentrismo.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 29)
A diferença no tratamento a essas comunidades explicita o conceito de “nós e eles”.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 30)
Michel Foucault salientou em sua obra Vigiar e punir que é desta forma— encarcerando ou assassinando— que se lida com os considerados “inimigos do Estado”. A noção de “biopoder” e “biopolítica” fala de técnicas da hierarquia que vigia e as técnicas da sanção que normaliza. Trata- se de “um controle normalizante, uma vigilância que permite qualificar, classificar e punir”.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 33)
O racismo permite o exercício do biopoder, “este velho direito soberano de matar”. Na economia do biopoder, a função do racismo é regular a distribuição da morte e tornar possíveis as funções assassinas do Estado. Segundo Foucault, essa é “a condição para aceitabilidade do fazer morrer”.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 33)
institucional e supremacia branca formavam a base da sociedade dos Estados Unidos. No famoso Black Reconstruction in America [A reconstrução negra na América], 2 o autor afirma de maneira contundente que a supremacia branca solapou não só a união da classe trabalhadora, mas a própria visão de muitos trabalhadores brancos. Constatou, ainda, que a identificação da classe trabalhadora branca se deu com a elite patronal branca, e não com a classe trabalhadora negra, já que os trabalhadores brancos podiam se apoiar em identidades de “não escravos” e “não negros”.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 35)
Numa segunda onda, um grande número de estudiosos, muitos deles negros e negras dos Estados Unidos, continuou a linha de Du Bois de desafiar e visibilizar a supremacia branca e o racismo institucional (por exemplo, E. Franklin Frazier, St. Clair Drake, Horace Cayton, James Baldwin e Ralph Ellison). Escritoras como Toni Morrison ajudaram os estudos a migrarem do foco individual para análises de prática de discurso que tornavam a branquitude invisível.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 35)
Na terceira onda, a branquitude aparece sempre muito ligada às reações brancas diante do aumento da presença de negras e negros em lugares antes frequentados só por brancos. A ampliação das vozes negras que denunciam a apropriação dos bem materiais e imateriais da sociedade pelos brancos e clamam por justiça e reparação ameaçam a supremacia branca.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 36)
A narrativa da branquitude se apresentava marcada por ressentimento e amargura e ocultava as profundas desigualdades raciais na sociedade, e alguns profissionais da mídia diziam querer viver em um lugar onde brancos não tivessem que se sentir mal por serem brancos. Por um lado, os negros eram representados como povos estrangeiros, menos civilizados, essencialmente inferiores por herança genética. Por outro, os homens brancos se definiram como vítimas de um preconceito racial às avessas.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 37)
Para Fanon, ter fobia dos negros é ter medo do biológico, pois os negros só são vistos como seres biológicos.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 39)
De fato, branquitude, em sua essência, diz respeito a um conjunto de práticas culturais que são não nomeadas e não marcadas, ou seja, há silêncio e ocultação em torno dessas práticas culturais.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 40)
Privilégio branco é entendido como um estado passivo, uma estrutura de facilidades que os brancos têm, queiram eles ou não. Ou seja, a herança está presente na vida de todos os brancos, sejam eles pobres ou antirracistas. Há um lugar simbólico e concreto de privilégio construído socialmente para o grupo branco. Por sua vez, o conceito de prerrogativa branca diz respeito a uma posição ativa, na qual brancos buscam, exercitam e aproveitam a dominação racial e os privilégios da branquitude.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 41)
Lia discute a “invisibilidade branca”, que aparece entrelaçada à maneira como esse grupo racial enxerga a si. O estudo enfoca como as pessoas brancas se percebem como “universais”, “o padrão”, ou seja, pessoas brancas se vendo como referência de humanidade. Ao abrir diálogo com a psicologia de Vygotsky e com os estudos da antropóloga France Winddance Twine, Lia oferece caminhos para a desconstrução do racismo.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 42)
Ela lembra que nas sociedades marcadas pela colonização europeia e pelo racismo, a condição de branco implica o acesso a uma série de vantagens sociais, econômicas e de status. Porém nem todas as pessoas definidas como brancas tiram proveito da branquitude do mesmo modo, pois ela varia segundo gênero, sexualidade, classe, religião, idade, nacionalidade, que precisam ser levadas em conta na análise etnográfica.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 43)
“Ser
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 43)
branco é viver sem se notar racialmente, numa estranha neutralidade. […] É o outro que é de cor.” Assim, ela destaca que a branquitude pode gerar uma lacuna afetiva e moral.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 43)
fica bem nítido como são complexos os processos de inserção de negras e negros no mercado de trabalho, pois a “neutralidade e objetividade” não são características de sociedades marcadas por preconceito e discriminação.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 47)
Os negros são vistos como invasores do que os brancos consideram seu espaço privativo, seu território. Os negros estão fora de lugar quando ocupam espaços considerados de prestígio, poder e mando. Quando se colocam em posição de igualdade, são percebidos como concorrentes, como afirmou nossa entrevistada acima.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 48)
Quando pessoas ou grupos são colocados fora do limite em que estão em vigência regras e valores morais, podemos entender que a norma da afeição humana foi violada. A exclusão moral é marcada por um distanciamento psicológico e uma ausência de compromisso moral em relação aos que estão sendo expropriados ou excluídos. Eles estão fora do nosso universo moral e “autorizam” o exercício da maldade humana.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 49)
Em sociedades desfiguradas pela herança do racismo, a preferência de um mesmo perfil de pessoas para os lugares de comando e decisão nas instituições financeiras, de educação, saúde, segurança etc., precariza a condição de vida da população negra, gerando desemprego e subemprego, a sobrerrepresentação da população negra em situação de pobreza, os altos índices de evasão escolar e mal desempenho do alunado negro e os elevados percentuais de vítimas negras da violência policial.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 50)
Esses processos e mecanismos caracterizam o que chamamos de racismo institucional, pois são ações em nível organizacional que independentemente da intenção de discriminar acabam tendo impacto diferencial e negativo em membros de um determinado grupo.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 50)
Nas escolas, por exemplo, sempre professoras e gestoras brancas, brinquedos e livros didáticos, planos de aula, projetos político- pedagógicos que dialogam exclusivamente com a branquitude. É na organização da instituição, ao longo da história, que se constrói a estrutura racista.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 51)
E nas estatísticas sobre desigualdades no mercado de trabalho se constata uma invariável: mulheres negras ocupam a base da pirâmide, com os menores salários e cargos mais baixos.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 51)
O termo “diversidade” pode se transformar em armadilha, pois são abundantes os estudos que mostram que raça e gênero são estruturantes no quadro de desigualdades brasileiras, e, sendo assim, diversidade não pode servir para relativizar “todos sofrem algum tipo de discriminação e vamos combater todas as formas disso”.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 68)
Essa irracionalidade de considerar o tipo de cabelo e a vestimenta de uma candidata para definir sua adequação ou não a uma posição de liderança expõe o “sistema meritocrático” que gera preferência por mulheres brancas e exclusão de mulheres negras para funções mais qualificadas.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 70)
Uma política de diversidade e equidade exige que se identifique sinais de discriminação nas normas, nos processos e nas ferramentas utilizados para selecionar pessoas para inserção e ascensão profissionais. As situações
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 71)
fragilidade branca. Essa fragilidade é apontada por ela como um estado inerente à branquitude, no qual o estresse racial se torna intolerável para as pessoas brancas. Quando incitadas ao debate racial, nessa perspectiva, as pessoas tendem a reagir defensivamente e a responder com raiva, medo e culpa. Algumas situações que causam reações de autodefesa nas pessoas brancas e que costumamos constatar em organizações que estão utilizando ação afirmativa são: Dificuldade de as pessoas brancas reconhecerem que o acesso a oportunidades e recursos é diferente para vários grupos raciais. Ou seja, não querem questionar o mito da meritocracia. Deparar- se com pessoas negras em posição de liderança. Isso desafia a autoridade branca. Participar de atividades em que pessoas negras falam de racismo de maneira direta, desnudando os códigos da branquitude. Serem racializadas, já que pessoas brancas se veem e são vistas como universais. Outros fatores reforçam e perpetuam essa fragilidade, entre eles: a autossegregação de pessoas brancas, em seus bairros, escolas, clubes, empresas; e a arrogância racial que as impede de aprender e falar de raça e racismo de maneira mais frequente e aprofundada.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 74)
Sempre os entendi como acordos tácitos, como pactos não verbalizados, não formalizados. Pactos feitos para se manter em situação de privilégio, higienizados da usurpação que os constituiu. E que se estruturam nas relações de dominação que podem ser de classe, de gênero, de raça e etnia e de identidade de gênero, dentre outras.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 80)
Os pactos narcísicos exigem a cumplicidade silenciosa do conjunto dos membros do grupo racial dominante e que sejam apagados e esquecidos os atos antihumanitários que seus antepassados praticaram. Devem reconstruir a história positivamente e assim usufruir da herança, aumentar os ativos dela e transmiti- los para as próximas gerações.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 81)
A destruição de um pacto narcísico não é só individual, mas tem sua âncora em ações coletivas estruturais envolvendo a responsabilidade social das organizações que precisam se posicionar diante de sua herança concreta e simbólica na história do país. Não podem se omitir dos créditos e das dívidas das gerações passadas, como da escravidão ou dos recorrentes períodos ditatoriais, para não cair num mecanismo de repetição do qual as gerações futuras só teriam a sofrer.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 84)
vale ressaltar que trabalhar com equidade exige um posicionamento sistêmico, significa reconhecer e enfrentar o racismo entranhado nas diferentes instâncias sociais, seja no interior das organizações, seja no campo em que ela atua enquanto parte de um coletivo de organizações que compõe a sociedade.
Cida Bento, em O Pacto da Branquitude (p. 87)

Dostoiévski

Ouça, primeiro vamos levantar um motim — apressava-se em demasia Vierkhoviénski, a todo instante agarrando Stavróguin pelo braço esquerdo. — Eu já lhe disse: vamos penetrar no seio do próprio povo. Sabe que já agora somos terrivelmente fortes? Os nossos não são apenas aqueles que degolam e ateiam fogo, e ainda fazem disparos clássicos ou mordem. Gente assim só atrapalha. Não concebo nada sem disciplina. Ora, sou um vigarista e não um socialista, eh, eh! Ouça, tenho uma relação de todos eles: o professor de colégio que ri com as crianças do Deus delas e do berço delas, já é dos nossos. O advogado que defende o assassino culto que por essa condição já é mais evoluído do que suas vítimas e que, para conseguir dinheiro, não pode deixar de matar, já é dos nossos. Os colegiais que matam um mujique para experimentar a sensação, são dos nossos. Os jurados que absolvem criminosos a torto e a direito são dos nossos. O promotor que treme no tribunal por não ser suficientemente liberal é dos nossos. Os administradores, os escritores, oh, os nossos são muitos, um horror, e eles mesmos não sabem disso!
Dostoiévski, em Os demônios
"Não precisamos de educação, chega de ciência! Já sem a ciência há material suficiente para mil anos, mas precisamos organizar a obediência. No mundo só falta uma coisa: obediência. A sede de educação já é uma sede aristocrática. Basta haver um mínimo de família ou amor, e já aparece o desejo de propriedade. Vamos eliminar o desejo: vamos espalhar a bebedeira, as bisbilhotices, a delação; vamos espalhar uma depravação inaudita; vamos exterminar todo e qualquer gênio na primeira infância. Tudo será reduzido a um denominador comum, é a plena igualdade. "Aprendemos o ofício, somos gente honesta, não precisamos de mais nada" — é essa a resposta recente dos operários ingleses. Só o indispensável é indispensável — eis a divisa do globo terrestre daqui para a frente. Mas precisamos também da convulsão; disso cuidaremos nós, os governantes. Os escravos devem ter governantes. Plena obediência, ausência total de personalidade(...)".
Dostoiévski, em Os demônios
"Deixei de compreender! Mas será que compreendes, grito para ele, será que compreendes que se vocês põem a guilhotina no primeiro plano e com tamanho entusiasmo é porque cortar cabeças é a coisa mais fácil, ao passo que ter idéias é a coisa mais difícil."
Dostoiévski, em Os demônios
Você passou a acreditar na futura vida eterna? — Não, não na futura vida eterna, mas na vida eterna aqui. Há momentos, você chega a esses momentos, em que de repente o tempo para e acontece a eternidade.
Dostoiévski, em Os demônios

Edgar Allan Poe

Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como outros viam. Minhas paixões eu não podia tirar de fonte igual à deles; e era outra a origem da tristeza, e era outro o canto, que acordava o coração para a alegria. Tudo o que amei, amei sozinho. Assim, na minha infância, na alba da tormentosa vida, ergueu-se, no bem, no mal, de cada abismo, a encadear-me, o meu mistério. Veio dos rios, veio da fonte, da rubra escarpa da montanha, do sol, que todo me envolvia em outonais clarões dourados; e dos relâmpagos vermelhos que o céu inteiro incendiavam; e do trovão, da tempestade, daquela nuvem que se alterava, só, no amplo azul do céu puríssimo, como um demônio, ante meus olhos.
Edgar Allan Poe

Eugénio de Andrade

Adeus Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já não se passa absolutamente nada. E, no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti Não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus.
Eugénio de Andrade, in Os Amantes sem Dinheiro

Fernando Pessoa

A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida.
Fernando Pessoa
Tenho dó das estrelas Luzindo há tanto tempo, Há tanto tempo... Tenho dó delas. Não haverá um cansaço Das coisas, De todas as coisas, Como das pernas ou de um braço? Um cansaço de existir, De ser, Só de ser, O ser triste brilhar ou sorrir... Não haverá, enfim, Para as coisas que são, Não a morte, mas sim Uma outra espécie de fim, Ou uma grande razão — Qualquer coisa assim Como um perdão?
Fernando Pessoa, em Poesias
O MENINO DA SUA MÃE No plaino abandonado Que a morna brisa aquece, De balas traspassado — Duas, de lado a lado —, Jaz morto, e arrefece. Raia-lhe a farda o sangue. De braços estendidos, Alvo, louro, exangue, Fita com olhar langue E cego os céus perdidos. Tão jovem! que jovem era! (Agora que idade tem?) Filho único, a mãe lhe dera Um nome e o mantivera: «O menino da sua mãe». Caiu-lhe da algibeira A cigarreira breve. Dera-lha a mãe. Está inteira E boa a cigarreira. Ele é que já não serve. De outra algibeira, alada Ponta a roçar o solo, A brancura embainhada De um lenço... Deu-lho a criada Velha que o trouxe ao colo. Lá longe, em casa, há a prece: «Que volte cedo, e bem!» (Malhas que o Império tece!) Jaz morto, e apodrece, O menino da sua mãe.
Fernando Pessoa, em Poesias

Fiódor Dostoiévski

Era tido como um homem inteligente. É assim que, em certos círculos, se denomina a uma espécie peculiar de indivíduos que engordam à custa alheia, que não fazem absolutamente nada, que não querem fazer absolutamente nada, e que, por sua preguiça e ociosidade eternas, têm um pedaço de banha no lugar do coração. A todo instante se pode ouvir deles mesmos que não há nada que possam fazer, devido a certas circunstâncias muito adversas e complexas, que "lhes frustram o gênio", e que por isso são "dignos de pena". Essa é a sua frase pomposa tão habitual, o seu mot d'ordre, a sua senha e o seu lema, a frase que esses senhores saciados e gorduchos ficam o tempo todo prodigalizando por toda parte, de modo que há muito tempo começou a nos enfastiar como um tartufismo rematado e uma conversa fiada. Aliás, alguns desses histriões que não conseguem de modo algum encontrar o que fazer — o que, aliás, nunca sequer procuraram —, justamente por isso pretendem fazer com que todo mundo pense que não é um pedaço de banha que têm no lugar do coração, mas, ao contrário, de modo geral, algo muito profundo, embora o quê, precisamente, nem mesmo o maior cirurgião diria, claro que por cortesia. Esses senhores abrem caminho no mundo concentrando todos os seus instintos num sarcasmo grosseiro, numa reprovação míope e numa altivez desmedida. Como não têm mais nada a fazer a não ser ficar reparando e repisando as fraquezas e os erros alheios, e como seus bons sentimentos são tal qual os que são apanágio de uma ostra, então nem lhes é difícil, mediante tais meios de proteção, conviver com as pessoas com bastante cautela. E disso se vangloriam além da conta. Estão, por exemplo, quase convencidos de que praticamente o mundo todo deve lhes render tributo; de que o mundo é para eles como uma ostra que pegam em caso de necessidade; que todos, com exceção deles, são tolos; que todos se parecem com uma laranja ou com uma esponja, que uma vez ou outra podem espremer quando têm necessidade do suco; que são os donos de tudo, e que toda essa ordem louvável das coisas se deve justamente ao fato de serem eles pessoas tão inteligentes e peculiares. Em sua altivez desmedida não admitem quaisquer defeitos em si mesmos. Eles se parecem com aquela espécie de trapaceiros práticos, Tartufos e Falstaffs congênitos, que de tanto trapacear acabaram convencendo a si mesmos que era assim que devia ser, ou seja, que para viver tinham que trapacear; e insistiam sempre tanto em assegurar a todo mundo que eram pessoas honestas que acabaram por convencer a si próprios, como se realmente fossem pessoas honestas e que sua trapaçaria também era uma coisa honesta. Nunca são capazes de um exame interior consciente, de uma autoavaliação nobre: para certas coisas são rudes demais. Acima de tudo e em primeiro plano está sempre a sua própria e valiosa pessoa, seu Moloch e Baal, seu esplêndido eu. Toda a natureza e o mundo inteiro não são para eles senão um espelho esplêndido, criado para que esse ídolo possa incessantemente admirar a si mesmo e não ver nada nem ninguém além de si; depois disso, não é de se estranhar que veja tudo no mundo sob um aspecto tão disforme. Para tudo ele tem reservada uma frase feita, e, o que é o cúmulo da destreza de sua parte, uma frase da última moda. Inclusive são eles mesmos que contribuem com a moda, difundindo boca a boca por todos os cruzamentos essa ideia na qual farejam sucesso. São justamente eles que têm faro para farejar essa frase da moda e se apoderar dela antes dos outros, de tal modo que é como se ela tivesse saído deles. Eles sobretudo se abastecem de suas frases para exprimir a sua profunda simpatia pela humanidade, para definir qual a forma de filantropia mais correta e justificável racionalmente e, por fim, para punir incansavelmente o romantismo, ou seja, amiúde tudo o que é belo e verdadeiro, que em cada átomo tem mais valor que toda a espécie de moluscos deles. Mas são muito toscos para reconhecer a verdade numa forma anômala, transitória e inacabada, e rejeitam tudo o que ainda não amadureceu, não é estável e está em fermentação. Um homem bem nutrido passou sua vida toda alegremente, teve tudo de mão beijada, ele mesmo não fez nada e não sabe como é difícil fazer qualquer trabalho, e por isso ai daquele que tocar nos seus sentimentos gordurosos com alguma aspereza: ele nunca o perdoará por isso, sempre haverá de se lembrar e se vingar dele com prazer. Em resumo, meu herói não é nada mais nada menos que um saco gigantesco, enfunado a não mais poder, cheio de máximas, de frases da moda e etiquetas de todos os gêneros e espécies.
Fiódor Dostoiévski, em Um pequeno herói

Frantz Fanon

A elite europeia dedicou-se a fabricar uma elite indígena; seleccionaram-se adolescentes, marcaram-lhes na fronte, com ferro em brasa, os princípios da cultura ocidental, introduziram-lhes na boca mordaças sonoras, grandes palavras pastosas que se colavam nos dentes; depois de uma breve passagem pela metrópole, regressavam ao seu país falsificados.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 37)
Assim, a Europa fomentou as divisões, as oposições, forjou classes e racismos, tentou por todos os meios provocar e aumentar a estratificação das sociedades colonizadas.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 92)
Fanon não oculta nada: para lutar contra nós, a antiga colónia deve lutar contra si mesma. Ou melhor, ambas as lutas são apenas uma. No fogo do combate, todas as barreiras interiores devem desaparecer, a impotência burguesa dos negociantes e de compradores, o proletariado urbano, sempre privilegiado, o lumpen-proletariat dos bairros pobres, todos devem alinhar na mesma posição das massas rurais, verdadeira fonte do exército nacional e revolucionário; nessas regiões, cujo desenvolvimento foi sufocado deliberadamente pelo colonialismo, o campesinato, quando se revolta, aparece imediatamente como a classeradical: conhece a verdadeira opressão, sofreu muito mais que os trabalhadores das cidades e, para não morrer de fome, necessita de derrubar todas as estruturas.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 93)
temos que encarar um espectáculo inesperado: o striptease do nosso humanismo. Ei-lo aqui nu e nada formoso: não era senão uma ideologia mentirosa, a esquisita justificação da pilhagem; as suas ternuras e o seu preciosismo justificavam as nossas agressões. Eles têm boa cara, os não-violentos: nem vítimas, nem verdugos! Vamos! Se vocês não são vítimas, quando o governo que aceitaram em plebiscito, quando o exército em que serviram os vossos irmãos, sem vacilação nem remorso, empreenderam um «genocídio», vocês são indubitàvelmente os seus verdugos.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 272)
A descolonização, que se propõe mudar a ordem do mundo é, como se vê, um programa de desordem absoluta. Mas não pode ser o resultado de uma operação mágica, de uma agitação natural ou de um entendimento amigável. A descolonização, como se sabe, é um processo histórico: quer dizer que não pode ser compreendida e não resulta inteligível, translúcida em si mesma, senão na medida exacta em que se distingue o movimento histórico que lhe dá forma e conteúdo. A descolonização é o encontro de duas forças congènitamente antagónicas que extraem precisamente a sua originalidade dessa espécie de substância que segrega e alimenta a situação colonial. O seu primeiro confronto desenrolou-se debaixo do signo da violência e a sua coabitação— mais precisamente a exploração do colonizado pelo colono— realizou-se com grande reforço de baionetas e de canhões. O colono e o colonizado conhecem-se há muito tempo. E, na realidade, tem razão o colono quando diz conhecê-los. Foi o colono que fez e continua fazendo o colonizado. O colono tira a sua verdade, isto é, os seus bens, do sistema colonial. A descolonização não passa nunca despercebida, dado que afecta o ser, modifica fundamentalmente o ser, transforma os espectadores esmagados pela falta do essencial em actores privilegiados, amarrados de maneira quase grandiosa pelo correr da História. Introduz no ser um ritmo próprio, provocado pelos novos homens, uma nova linguagem, uma nova humanidade. A descolonização é realmente a criação de homens novos. Mas esta criação não recebe a sua legitimidade de nenhuma força sobrenatural: a «coisa» colonizada converte-se, no homem, no próprio processo pelo qual ele se liberta.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 367)
O mundo colonial é um mundo compartimentado.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 391)
O mundo colonizado é um mundo dividido em dois. A linha divisória, a fronteira, está indicada pelos quartéis e pelos postos da polícia.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 397)
Nos países capitalistas, entre o explorado e o poder interpõe-se uma multidão de professores de moral, de conselheiros, de «desorientadores». Nas regiões coloniais, ao contrário, o polícia e o soldado, pelas suas intervenções directas e frequentes, mantêm o contacto com o colonizado e aconselham-no, com golpes de coronha ou incendiando as suas palhotas, que não faça qualquer movimento. O intermediário do poder utiliza uma linguagem de pura violência. O intermediário não mitiga a opressão, nem encobre mais o domínio. Expõe e manifesta esses sinais com a boa consciência das forças da ordem. O intermediário leva a violência à casa e ao cérebro do colonizado.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 402)
A cidade do colonizado, a cidade indígena, a cidade negra, o bairro árabe, é um lugar de má fama, povoado por homens também de má fama. Ali, nasce-se em qualquer lado, de qualquer maneira. Morre-se em qualquer parte e não se sabe nunca de quê. É um mundo sem intervalos, os homens estão uns sobre os outros, as cabanas dispõem-se do mesmo modo. A cidade do colonizado é uma cidade esfomeada, por falta de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 414)
A cidade do colonizado é uma cidade agachada, de joelhos, a chafurdar. É uma cidade de negros, uma cidade de ruminantes. O olhar que o colonizado lança sobre a cidade do colono é um olhar de luxúria, um olhar de desejo. Sonhos de possessão.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 417)
A originalidade do contexto colonial é que as realidades económicas, as desigualdades, a enorme diferença dos modos de vida, não chegam nunca a esconder as realidades humanas. Quando se compreende no seu aspecto imediato o contexto colonial, é evidente que o que divide o mundo é sobretudo o facto de se pertencer ou não a tal espécie, a tal raça. Nas colónias, a infraestrutura é igualmente uma superestrutura. A causa é efeito: se é rico porque é branco, se é branco porque é rico. Por isso, as análises marxistas devem modificar-se ligeiramente sempre que abordam o sistema colonial.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 424)
mundo colonial é um mundo maniqueu. Não basta ao colono limitar fisicamente, quer dizer, com a ajuda da sua polícia e dos seus soldados, o espaço do colonizado. Como para ilustrar o carácter totalitário da exploração colonial, o colono faz do colonizado uma espécie de quinta-essência do mal(5).
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 442)
A Igreja nas colónias é uma igreja de brancos, uma igreja de estrangeiros. Não chama o homem colonizado ao caminho de Deus, mas ao caminho do branco, do amo, do opressor. E, como se sabe, nesta história são muitos os chamados e poucos os eleitos.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 456)
Propriamente falando, animaliza-o. E, na realidade, a linguagem do colono, quando fala do colonizado, é uma linguagem zoológica.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 459)
O colonizado sabe tudo isso e ri cada vez que se descobre como animal nas palavras do outro. Porque sabe que não é um animal. Ao mesmo tempo que descobre a sua humanidade, começa a polir as suas armas para as fazer triunfar.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 467)
O colonizado, portanto, descobre que a sua vida, a sua respiração, as pulsações do seu coração, são as mesmas que as do colono. Descobre que uma pele de colono não vale mais do que uma pele de indígena. Deve dizer-se que essa descoberta introduz uma agitação essencial no mundo. Toda a segurança nova e revolucionária do colonizado dimana disso. Se, com efeito, a minha vida tem a mesma importância que a do colono, o seu olhar já não me fulmina, já não me imobiliza, a sua voz não me petrifica. Já não me perturbo na sua presença. Práticamente, eu aborreço-o. A sua presença não me afecta nada, preparo-lhe tais emboscadas que em breve não terá outra saída a não ser a fuga.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 499)
Nas regiões colonizadas, onde se levou a cabo uma verdadeira luta de libertação, onde o sangue do povo correu e a duração da fase armada favoreceu o refluxo dos intelectuais sobre as bases populares, assiste-se a uma verdadeira extirpação da superestrutura sacada por esses intelectuais nos meios burgueses colonialistas.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 513)
intelectual colonizado aprendeu pelos seus mestres que o indivíduo deve afirmar-se. A burguesia colonialista introduziu a golpes de pilão, no espírito do colonizado, a ideia de uma sociedade de indivíduos, onde cada qual se encerra na sua subjectividade, onde a riqueza é a do pensamento. Mas o colonizado que tenha a oportunidade de se esconder no povo durante a luta de libertação, vai descobrir a falsidade dessa teoria. As formas de organização da luta vão propor-lhe um vocabulário inabitual.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 522)
O intelectual colonizado assiste, numa espécie de auto-de-fé, à destruição de todos os seus ídolos: o egoísmo, a recriminação orgulhosa, a imbecilidade infantil daquele que sempre quer dizer a última palavra. Esse intelectual colonizado, atomizado pela cultura colonialista, descobrirá igualmente a consistência das assembleias das aldeias, a densidade das comissões do povo, a extraordinária fecundidade das reuniões de bairro e de célula. Os assuntos de cada um já não deixarão nunca de ser assuntos de todos, porque, concretamente, todos serão descobertos pelos legionários e assassinados ou todos se salvarão. A «indiferença», essa forma ateia de salvação, está proibida neste contexto.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 526)
Isso se comprova pela inaptidão do intelectual para dialogar.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 547)
Mundo compartimentado, maniqueu, imóvel, mundo de estátuas: a estátua do general que fez a conquista, a estátua do engenheiro que construiu a ponte. Mundo seguro de si, esmagando com as suas pedras as feridas abertas pelo chicote. Eis aí o mundo colonial. O indígena é um ser encurralado, o apartheid é somente uma modalidade da divisão em compartimentos do mundo colonial. A primeira coisa que o indígena aprende é a colocar-se no seu lugar,
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 582)
Essa agressividade sedimentada nos seus músculos, o colonizado manifesta-a primeiro contra os seus. É o período em que os negros se colocam entre si e os polícias, os juízes de instrução não sabem o que fazer perante a criminalidade norte-africana.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 588)
O colonizado está sempre alerta, decifrando dificilmente os múltiplos signos do mundo colonial; nunca sabe se passou ou não o limite.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 596)
o colonizado está sempre em atitude de expectativa. Não pode dizer-se que esteja inquieto, se encontre aterrorizado. Na realidade, está sempre pronto a abandonar o seu papel de presa e a assumir o de caçador. O colonizado é um perseguido que sonha permanentemente transformar-se em perseguidor.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 600)
último recurso do colonizado é defender a sua personalidade frente ao seu semelhante.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 614)
a vida continua e é através dos mitos terríficos, tão prolixos nas sociedades subdesenvolvidas, que o colonizado extrai as inibições da sua agressividade: génios maléficos intervêm sempre que alguém se move, homens leopardos, homens serpentes, cães de seis patas, toda uma gama inesgotável de formas animais ou de gigantes cria em redor do colonizado um mundo de proibições, de barreiras, de impedimentos, muito mais terrível que o mundo colonialista. Esta superestrutura mágica que impregna a sociedade autóctone cumpre, dentro do dinamismo da economia devassada, funções precisas.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 624)
A atmosfera de mito e de magia, ao provocar-me medo, actua como uma realidade indubitável. Ao aterrorizar-me, integra-me nas tradições, na história da minha terra ou da minha tribo, mas ao mesmo tempo assegura-me um estatuto, assinala-me num boletim de registo civil.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 632)
Por isso, um estudo do mundo colonial deve tentar compreender, forçosamente, o fenómeno da dança e do transe. O relaxamento do colonizado é precisamente essa orgia muscular no curso da qual a agressividade mais aguda, a violência mais imediata, se canalizam, se transformam, se escamoteiam. O círculo da dança é um círculo permissivo. Protege e autoriza. A horas determinadas, em datas fixas, homens e mulheres encontram-se num determinado lugar e, sob o olhar grave da tribo, lançam-se numa pantomina aparentemente desordenada, mas na realidade muito sistematizada, onde, por múltiplas vias, negações com a cabeça, inclinação da coluna vertebral, inclinação para trás de todo o corpo, se decifra abertamente o esforço grandioso de uma colectividade para se exorcizar, libertar e exprimir. No âmbito da dança... tudo é permitido.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 650)
Um passo mais e caímos em pleno transe. Na realidade, são sessões de possessão-despossessão que se organizam: vampirismo, possessão pelos djinns(8), pelos zombis, por Legba, o deus ilustre de Vaudou(9). Estas triturações da personalidade, esses desdobramentos, essas dissoluções, cumprem uma função económica primordial na estabilidade do mundo colonizado. Na ida, os homens e as mulheres estavam impacientes, excitados, «nervosos». No regresso, volta à aldeia a calma, a paz, a imobilidade.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 660)
para o homem comprometido é urgente decidir os meios, a táctica, ou melhor, a conduta e a organização. Fora disso, há somente um voluntarismo cego com as eventualidades reaccionárias que suporta.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 680)
Os partidários dos partidos nacionalistas são partidários urbanos. Esses operários, esses mestres, esses pequenos artesãos e comerciantes que começaram— num nível menor, bem entendido— a aproveitar a situação colonial, têm interesses particulares. O que esses partidários reclamam é o melhoramento da sua vida, o aumento dos seus salários.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 692)
O intelectual colonizado inverteu a sua agressividade na sua vontade, apenas velada, de se assimilar ao mundo colonial. Colocou a sua agressividade ao serviço dos seus próprios interesses, dos seus interesses de indivíduo. Assim, surge fàcilmente uma espécie de classe de escravos forros: o que o intelectual reclama é a possibilidade de multiplicar e de organizar uma autêntica classe de escravos forros.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 698)
Os colonizados, na sua grande maioria, querem a solidez do colono. Não se trata de competir com ele. Querem de facto o seu lugar.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 701)
O campesinato é abandonado sistematicamente pela propaganda da maioria dos partidos nacionalistas. E é evidente que nos países coloniais somente o campesinato é revolucionário. Não tem nada a perder e tem tudo a ganhar. O camponês, o desclassificado, o esfomeado, é o explorado que depressa descobre apenas importar a violência.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 703)
o colonialismo não é uma máquina de pensar, nem um corpo dotado de razão. É a violência em estado primitivo e não pode submeter-se senão perante uma violência maior.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 709)
a não- -violência. Na sua forma bruta, essa não-violência significa para as elites intelectuais e económicas colonizadas que a burguesia colonialista tem os mesmos interesses, sendo, pois, necessário e urgente chegar a um acordo em favor da salvação comum. A não-violência é um propósito de ajustar o problema colonial em volta do pano verde de um mesa de jogo, antes de qualquer gesto irrecuperável, qualquer efusão de sangue, qualquer acto lamentável.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 713)
A burguesia colonialista é auxiliada no seu trabalho de tranquilizar os colonos pela inevitável religião. Todos os santos que ofereceram a outra face, perdoaram as ofensas, receberam sem estremecer os insultos, são referidos e apontados como exemplos.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 792)
O povo utiliza igualmente, para se manter em forma e conservar a sua capacidade revolucionária, certos aspectos da vida da colectividade. O bandido, por exemplo, que se mantém no campo durante alguns dias frente aos polícias lançados em sua perseguição, aquele que, em combate singular, sucumbe depois de matar quatro ou cinco polícias, aquele que se suicida para não denunciar os seus cúmplices, são para o povo os fachos, os modelos de acção, os «heróis». De nada serve dizer, evidentemente, que esse herói é um ladrão, um crápula ou um depravado. Se o acto por que esse homem é perseguido pelas autoridades colonialistas é um acto dirigido exclusivamente contra uma pessoa ou um bem colonial, a demarcação é clara, flagrante. O processo de identificação é automático.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 820)
O ressurgimento da nação nova, a demolição das estruturas coloniais, são o resultado de uma luta violenta do povo independente, ou da acção, que separa o regime colonial da violência periférica assumida por outros povos colonizados.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 830)
cólera. Mas como passamos da atmosfera da violência à violência em acção? O que é que provoca a explosão da caldeira? Em primeiro lugar, está o motivo de que esse processo não deixa ilesa a tranquilidade do colono. O colono que «conhece» os indígenas, apercebe-se por diversos indícios de que alguma coisa está mudando. Os bons indígenas vão desaparecendo, faz-se silêncio quando o opressor se aproxima. Em certas ocasiões, os olhares endurecem-se, as atitudes e expressões são abertamente agressivas. Os partidos nacionalistas agitam-se, multiplicam os motins e, ao mesmo tempo, aumentam as forças policiais, chegam reforços do exército. Os colonos, os agricultores, sobretudo, isolados nas suas herdades, são os primeiros a alarmar-se. Reclamam medidas enérgicas.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 847)
As repressões, longe de quebrarem o ímpeto, favorecem o avanço da consciência nacional. Nas colónias, as hecatombes, a partir de certo estádio do desenvolvimento embrionário da consciência, fortalecem essa consciência, porque indicam que entre opressores e oprimidos tudo se resolve pela força.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 859)
hoje, os governos dos países colonialistas sabem perfeitamente que é muito perigoso privar as massas dos seus dirigentes.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 863)
Então, o colonialismo libertará esses homens e discutirá com eles. Começou a hora das danças populares.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 868)
Que é, portanto, essa violência? Já o temos visto: é a intuição que as massas colonizadas têm de que a sua libertação deve fazer-se e isso não pode acontecer senão pela força. Por que aberração do espírito esses homens sem técnica, esfomeados e debilitados, não conhecendo os métodos de organização, chegam a convencer-se, perante o poderio económico e militar do ocupante, de que apenas a violência poderá libertá-los? Como pode esperar o triunfo?
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 878)
Mas é inútil comprovar a afirmar que na maioria dos casos, para 95 por cento da população dos países subdesenvolvidos, a independência não conduz a uma transformação imediata. O observador atento dá conta da existência de uma espécie de descontentamento larvar, como essas brasas que, depois da extinção do fogo, ameaçam sempre atear-se novamente.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 899)
Fortalecidos pelo apoio incondicional dos países socialistas, os colonizados lançam-se com as armas que possuem contra a cidadela inexpugnável do colonialismo. Se essa cidadela é invulnerável aos cutelos e aos punhos fechados, não continua a sê-lo quando se decide ter em conta o contexto da guerra fria.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 963)
Compreende-se, então, por que a violência do colonizado não é desesperada, se não quando se compara in abstracto com o aparato militar dos opressores. Pelo contrário, se a situarmos dentro da dinâmica internacional, compreende-se que constitui uma terrível ameaça para o opressor.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 970)
Esta atmosfera de violência, de ameaça, esses foguetões apontados não assustam nem desorientam os colonizados. Temos visto como toda a história recente os predispõe a «compreender» essa situação. Entre a violência colonial e a violência pacífica em que está mergulhado o mundo contemporâneo, há uma espécie de correspondência cúmplice, uma homogeneidade. Os colonizados estão convencidos de que se joga agora o seu destino.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 992)
A independência levou certamente aos homens colonizados a reparação moral e consagrou a sua dignidade. Mas não teve ainda tempo de formar uma sociedade, de construir e afirmar novos valores. O facho incandescente em que o cidadão e o homem se revelam e se valorizam em horizontes cada vez mais largos, claro que ainda não existe. Situados numa espécie de indeterminação, esses homens convencem-se facilmente de que tudo se decidirá noutro lado e em todo o mundo ao mesmo tempo. Quanto nos dirigentes, frente a esta conjuntura vacilam e optam pelo neutralismo. Havia
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 999)
Mas voltemos ao combate singular entre o colonizado e o colono. Trata-se, como se viu, da franca luta armada. Os exemplos históricos são: Indochina, Indonésia e, bem entendido, o norte de África. Mas o que se não deve perder de vista é que poderia ter estalado em qualquer outro lado, na Guiné ou na Somália e, apesar de tudo, pode estalar hoje em qualquer território onde o colonialismo pretende ainda durar. A existência da luta armada indica que o povo confia somente nos meios violentos. O povo, a quem se disse sempre que não entendia outra linguagem que não fosse a da força, resolve expressar-se através da força. Na verdade, o colono ensinou-lhe sempre o caminho que havia de ser o seu, se desejava libertar-se. O argumento escolhido pelo colonizado é o que lhe ensinou o colono e, por irónica inversão das posições, é o colonizado que afirma agora ao colonialista que este não conhece senão a linguagem da força. O regime colonial adquire a sua legitimidade da força e em nenhum momento se engana sobre essa natureza das coisas.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1030)
Este raciocínio, que prevê aritmèticamente a destruição do povo colonizado, não enche o colonizado de indignação. Sempre soube que os seus encontros com o colono se efectuariam num campo cerrado. Por isso, o colonizado não perde tempo em lamentações nem espera nunca que se faça justiça dentro do panorama colonial. Na verdade, se a argumentação do colono enfrenta um colonizado inabalável, é porque este
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1045)
colocou praticamente o problema da sua libertação em idênticos termos. «Devemos formar grupos de duzentos ou de quinhentos e cada grupo se ocupará de um colono». É nesta vontade recíproca que cada um dos protagonistas começa a luta.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1047)
O grupo exige que cada indivíduo realize um acto irreversível. Na Argélia, por exemplo, onde a quase totalidade dos homens que chamaram o povo à luta nacional estavam condenados à morte ou eram procurados pela polícia francesa, a confiança era proporcional ao carácter desesperado de cada caso. Um novo militante era «seguro» quando já não podia voltar a integrar-se no sistema colonial. Esse mecanismo existiu, parece, no Quénia, entre os Mau-Mau, que exigiam que cada membro do grupo matasse a vítima. Cada um era desse modo responsável pessoalmente pela morte dessa vítima. Trabalhar é trabalhar pela morte do colono. A violência assumida permite por sua vez, aos extraviados e aos proscritos, voltar, recuperar e integrar-se no seu grupo A violência é entendida assim como a mediação real. O homem colonizado liberta-se em e pela violência.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1051)
O REBELDE E a mim o mundo não me perdoa... Não há no mundo um pobre tipo linchado, um pobre homem torturado, em que eu não me sinta assassinado e humilhado.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1106)
Compreende-se como nesta atmosfera o quotidiano se torna simplesmente impossível. Já não se pode ser fellah, rufião ou alcoólico como dantes. A violência do regime colonial e a contra-violência do colonizado equilibram-se mutuamente numa homogeneidade recíproca extraordinária. Esse reino da violência será tanto mais terrível quanto maior for a sobreexploração metropolitana. O desenvolvimento da violência no seio do povo colonizado será proporcional à violência exercida pelo regime colonial impugnado.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1133)
O trabalho do colono é tornar impossível todos os sonhos de liberdade do colonizado. O trabalho do colonizado é imaginar todas as combinações eventuais para aniquilar o colono. No plano do raciocínio, o maniqueísmo do colono produz o maniqueísmo do colonizado. À teoria do «indígena como mal absoluto», responde a teoria do «colono como mal absoluto».
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1160)
A aparição do colono significou sensorialmente a morte da sociedade autóctone, letargia cultural, petrificação dos indivíduos. Para o colonizado, a vida pode surgir somente do cadáver em decomposição do colono. Tal é, pois, essa correspondência estrita dos dois raciocínios.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1163)
Mas sucede que para o povo colonizado esta violência, como constitui o seu único trabalho, reveste caracteres positivos, formativos. Esta prática violenta é totalizadora, dado que cada um se converte num malho violento da grande cadeia, do grande organismo violento aparecido como reacção à violência primária do colonialista. Os grupos reconhecem-se entre si e a nação futura já é indivisível. A luta armada mobiliza o povo, isto é, lança-o numa mesma direcção, num sentido único.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1166)
Assim, a segunda fase, a da construção da nação, facilita-se pela existência dessa mistura feita de sangue e de cólera. Então, compreende-se melhor a originalidade do vocabulário utilizado nos países subdesenvolvidos. Durante o período colonial, convidava-se o povo a lutar contra a opressão. Depois da libertação nacional, convida-se a lutar contra a miséria, o analfabetismo, o subdesenvolvimento. A luta, afirma-se, continua. O povo comprova que a vida é um interminável combate.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1171)
A violência do colonizado, temos dito, unifica o povo.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1175)
Ao nível dos indivíduos, a violência desintoxica. Alivia o colonizado do seu complexo de inferioridade, das suas atitudes contemplativas ou desesperadas. Torna-o intrépido, reabilita-o perante os seus próprios olhos.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1181)
Ainda que a luta armada seja simbólica ou desmobilizada por uma rápida descolonização, o povo tem tempo de se convencer que a libertação foi trabalho de todos e de cada um, que o dirigente não tem mérito especial. A violência eleva o povo à altura do dirigente. Daí essa espécie de reticência agressiva atirada sobre o aparato diplomático e protocolar que os novos governos se apressam a instalar. Quando participaram, através da violência, na libertação nacional, as massas não permitem a ninguém que se apresente como «libertador».
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1183)
Actualmente, a independência nacional, a formação nacional nas regiões subdesenvolvidas, reveste aspectos totalmente novos. Nessas regiões, com excepção de algumas realizações espectaculares, os diferentes países apresentam a mesma falta de infraestrutura. As massas lutam contra a mesma miséria, debatem-se com os mesmos gestos e desenham com os seus estômagos reduzidos o que poderia chamar-se a geografia da fome. Mundo subdesenvolvido, mundo de miséria e inumano. Mas também um mundo sem médicos, sem engenheiros, sem funcionários. Frente a esse mundo, as nações europeias chafurdam na opulência mais ostentosa. Esta opulência europeia é literalmente escandalosa porque foi construída sobre as costas dos escravos, alimentou-se do sangue dos escravos, vem directamente do solo e do subsolo desse mundo subdesenvolvido. O bem-estar e o progresso da Europa foram construídos com o suor e os cadáveres dos negros, dos árabes, dos índios e dos amarelos. Isso, nós decidimos não esquecer.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1209)
Geralmente, pensou-se que havia chegado a hora, para o mundo e principalmente para o Terceiro Mundo, de escolher entre o sistema capitalista e o sistema socialista. Os países subdesenvolvidos, que utilizaram a competição feroz existente entre os dois sistemas, para assegurar o triunfo da sua luta de libertação nacional, devem recusar-se, sem dúvida, a participar nessa competição. O Terceiro Mundo não deve contentar-se em definir a sua posição perante valores prévios. Os países subdesenvolvidos, pelo contrário, devem esforçar-se por descobrir valores próprios, métodos e um estilo específicos. O problema real perante o qual nos encontramos não é da opção entre socialismo e capitalismo, tal como foi definida por homens de continentes e épocas diferentes.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1233)
A exploração capitalista, os trusts e monopólios, são os inimigos dos países subdesenvolvidos. Por outro lado, a escolha de um regime dirigido à totalidade do povo, baseado no princípio de que o homem é o bem mais precioso, permitir-nos-á ir mais rápida e harmoniosamente impossibilitar assim essa caricatura de sociedade onde uns tantos possuem todos os poderes económicos e políticos, sujeitando a totalidade nacional.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1242)
A verdade é que não devemos aceitar essas condições. Devemos recusar a situação a que querem condenar-nos os países ocidentais. O colonialismo e o imperialismo não saldarão as suas contas connosco quando retirarem dos nossos territórios as suas bandeiras e as suas forças policiais.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1261)
As jovens nações, é um facto, atraem pouco os capitais privados. Múltiplas razões legitimam e explicam esta reserva dos monopólios. Quando os capitalistas sabem, e são evidentemente os primeiros a sabê-lo, que o seu governo se dispõe a descolonizar, apressam-se a retirar da colónia a totalidade dos seus capitais. A evasão espectacular de capitais é um dos fenómenos mais constantes da descolonização.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1288)
Agitando o Terceiro Mundo como uma maré que ameaçara engolir toda a Europa, não se conseguirá dividir as forças progressistas que procuram conduzir a humanidade à felicidade. O Terceiro Mundo não pretende organizar uma imensa cruzada de fome contra a Europa. O que espera, de quem o manteve na escravidão durante séculos, é que o ajudem a reabilitar o homem, a fazer triunfar o homem em todos os lados, de uma vez por todas.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1328)
Mas é claro que a nossa ingenuidade não chega a acreditar que isto poderá fazer-se com a cooperação e a boa vontade dos governos europeus. Esse trabalho colossal, que consiste em reintegrar o homem no mundo, o homem total, far-se-á com a decisiva ajuda das massas europeias que, é necessário que o reconheçam, se aliena ram quanto aos problemas coloniais nas posições de nossos amos comuns. Por isso, será necessário primeiro que as massas europeias despertem, sacudam o cérebro e abandonem o jogo irresponsável da bela dormindo no bosque.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1334)
As reflexões sobre a violência levaram-nos a tomar consciência da existência frequente de um desequilíbrio, de uma diferença de ritmo entre os quadros do partido nacionalista e as massas. Em toda a organização política ou sindical existe classicamente um abismo entre as massas que exigem a melhoria imediata e total da sua situação e os quadros que, medindo as dificuldades criadas pelos patrões, limitam e restringem as suas reivindicações. Por isso, se adverte com frequência um descontentamento tenaz das massas a respeito dos quadros. Depois de cada jornada de reivindicação,
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1339)
O grande erro, o vício congénito da maioria dos partidos políticos nas regiões subdesenvolvidas, foi ter-se dirigido, segundo o esquema clássico, principalmente às elites mais conscientes: o proletariado das cidades, os artesãos e os funcionários, quer dizer, uma ínfima parte da população que não representa muito mais do que um por cento.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1354)
Muitas vezes se assinalou: nos territórios coloniais, o proletariado é o núcleo do povo colonizado mais acariciado pelo regime colonial. O proletariado embrionário das cidades é relativamente privilegiado.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1358)
Os partidos nacionalistas, na sua grande maioria, sentem uma grande desconfiança pelas massas rurais.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1368)
A jovem burguesia nacional, sobretudo comerciante, vai entrar em competição com esses senhores feudais em sectores múltiplos: monstrengos e bruxos que fecham o caminho aos enfermos que poderiam consultar o médico, djemaas que julgam, considerando inúteis os advogados, cadis que utilizam o seu poder político e administrativo para lançar um comércio ou uma linha de transportes, chefes tradicionais que se opõem em nome da religião e da tradição à introdução de negócios e de novos produtos.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1374)
É no seio do proletariado embrionário que encontramos, nas colónias, comportamentos individualistas.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1395)
O camponês que defende no seu lugar as suas tradições na sociedade colonizada, representa o elemento disciplinado cuja estrutura social continua a ser comunitária. É verdade que esta vida imóvel, situada em pólos rígidos, pode dar origem momentâneamente a movimentos baseados no fanatismo religioso, a guerras tribais. Mas na sua espontaneidade, as massas rurais continuam sendo disciplinadas, altruístas. O indivíduo retrai-se perante a comunidade. Os camponeses desconfiam do homem da cidade. Vestido como um europeu, falando a sua língua, trabalhando com ele, vivendo por vezes no mesmo bairro, é considerado pelos camponeses como um desertor que abandonou tudo o que formava o património nacional. Os habitantes da cidade são «traidores, vendidos», que parecem dar-se bem com o ocupante e tratam de triunfar dentro do sistema colonial. Por isso, ouvimos os camponeses afirmarem frequentemente que a gente da cidade precisa de moral. Encontramo-nos
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1399)
em presença da clássica oposição entre o campo e a cidade. É a oposição entre o colonizado, excluído das vantagens do colonialismo, e aquele que se ajusta para tirar partido da exploração colonial.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1406)
Os partidos políticos não conseguem implantar a sua organização no campo. Em vez de utilizar as estruturas existentes para lhes dar um conteúdo nacionalista ou progressista, tratam de transtornar a realidade tradicional dentro do quadro do sistema colonial. Acreditam na possibilidade de imprimir um impulso à nação, quando reflectem sobre as pesadas malhas do sistema
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1414)
colonial. Não vão ao encontro das massas. Não colocam os seus conhecimentos teóricos ao serviço do povo, mas tentam enquadrar as massas segundo um esquema a priori.Da capital enviam às aldeias, como paraquedistas, dirigentes desconhecidos ou muito jovens que, investidos pela autoridade central, tratam de manejar o lugar ou a aldeia como uma célula de empresa. Os chefes tradicionais são ignorados, por vezes molestados.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1416)
Os partidos nacionalistas não tentam introduzir palavras de ordem nas massas rurais, que nesse momento se encontram inteiramente disponíveis. Não lhes propõem um objectivo, esperam com naturalidade que esse movimento se perpetue indefinidamente e que os bombardeios não acabarão com ele. Nem sequer nesta ocasião, pois, os partidos nacionalistas exploram a possibilidade que se lhes oferece de se integrarem nas massas rurais, de politizá-las, de elevar o nível da sua luta. Mantém-se a posição criminal da desconfiança perante o campo.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1465)
A fase decisiva da luta de libertação determina-se quando alguns sindicatos indígenas decidem a criação de sindicatos nacionais. A antiga formação, importada da metrópole, será objecto de uma deserção em massa pelos indígenas. Esta criação sindical é para a população urbana um novo elemento de pressão sobre o colonialismo. Temos dito que o proletariado nas colónias é embrionário e representa a fracção do povo mais favorecida. Os sindicatos nacionais aparecidos na luta organizam-se nas cidades e o seu programa é antes de mais um programa político, um programa nacionalista. Mas esse sindicato nacional nascido no decurso da fase decisiva do combate pela independência é, na verdade, o enquadramento legal dos elementos nacionalistas conscientes e dinâmicos.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1517)
A insurreição desorienta os partidos políticos. A sua doutrina, com efeito, afirmou sempre a ineficácia de qualquer prova de força e a sua própria existência é uma constante condenação de toda a insurreição. Secretamente, alguns partidos políticos compartilham do optimismo dos colonos e congratulam-se por se encontrarem além dessa loucura que, segundo se afirma, será reprimida de forma sangrenta. Mas uma vez ateado o fogo, este propaga-se ao resto do país como uma epidemia galopante. Os tanques blindados e os aviões não atingem os êxitos esperados. Frente à amplitude do mal, o colonialismo começa a reflectir. No seio do próprio povo opressor, escutam-se vozes que chamam a atenção para a gravidade da situação. O povo, nas suas choças e nos seus sonhos, põe-se em comunicação com o novo ritmo nacional.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1604)
As múltiplas sublevações aparecidas no campo são a prova, onde quer que estalem, oblíqua e geralmente densa da nação. Cada colonizado em armas é um pedaço da nação viva. Essas sublevações camponesas põem em perigo o regime colonial, mobilizam as suas forças e dispersam-nas, ameaçam asfixiá-lo a todo momento. Obedecem a uma doutrina simples: fazem com que a nação exista. Não há programa, não há discursos, não há resoluções, não há tendências. O problema é claro: é necessário que os estrangeiros partam. Deve constituir-se uma frente comum contra o opressor e fortalecer essa frente através da luta armada.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1658)
A táctica e a estratégia confundem-se. A arte política transforma-se simplesmente em arte militar. O militante político é o combatente. Fazer a guerra e fazer política é uma e a mesma coisa.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1669)
Descobrem que o êxito da luta exige a claridade dos objectivos, a precisão da metodologia e sobretudo o conhecimento pelas massas da dinâmica temporal dos seus esforços. É possível suportar-se três dias ou mesmo três meses utilizando a dose de ressentimento contida nas massas, mas não se triunfa numa guerra nacional, não se decompõe a terrível máquina do inimigo, não se transformam os homens se se esquece de elevar a consciência do combatente.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1710)
O colonizado entrega-se à luta com paixão, já o afirmámos, sobretudo se essa luta é armada. Os camponeses lançaram-se na insurreição com mais entusiasmo, porque não deixaram nunca de ter um modo de vida praticamente anticolonial. Desde sempre e como consequência de múltiplas astúcias, de equilíbrios que evocam as proezas do prestidigitador, ou camponeses preservaram relativamente a sua subjectividade da imposição colonial. Chegaram a acreditar que o colonialismo não era realmente vencedor. O orgulho do camponês, a sua relutância para descer às cidades, para se relacionar com o mundo edificado pelo estrangeiro, os seus perpétuos movimentos de retrocesso frente à aproximação dos representantes da administração colonial, não deixavam de significar que opunham à dicotomia do colono a sua própria dicotomia.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1744)
O racismo, o ódio, o ressentimento, «o legítimo desejo de vingança», não podem alimentar uma guerra de libertação.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1753)
Em todo o caso, o adversário, como temos assinalado, trata de ganhar a simpatia de certos grupos da população, de determinadas regiões, de diversos chefes. No decorrer da luta, dão palavras de ordem aos colonos e às forças de polícia. O comportamento modifica-se, «humaniza-se». Chegará mesmo a introduzir, nas relações entre colono e colonizado, tratamentos tais como Senhor ou Senhora. Multiplicar-se-ão as cortesias, as delicadezas. Concretamente, o colonizado tem a impressão de assistir a uma mudança.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1759)
Os dirigentes da insurreição descobrem com receio essa instabilidade do colonizado. Desorientados primeiro, compreendem, por este novo desvio, a necessidade de explicar e de realizar o resgate radical da consciência. Porque a guerra continua, o inimigo organiza-se, fortalece-se, adivinha a estratégia do colonizado. A luta de libertação nacional não consiste em transpor um espaço de uma única pisada. A epopeia é quotidiana,
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1773)
Alguns exemplos históricos serão evocados e o povo poderá convencer-se de que a máscara da concessão, a aplicação do princípio de concessão a todo o preço, saldou-se em certos países por uma servidão mais discreta, mas mais total. O povo, a totalidade dos militantes, deverão conhecer essa lei histórica que estipula que certas concessões são, na realidade, novas cadeias.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1794)
O povo apercebe-no que outros indígenas não perdem quaisquer vantagens, mas, pelo contrário, parecem aproveitar-se da guerra para melhorar a sua posição material e o seu poder nascente. Os indígenas traficam e obtêm verdadeiros benefícios de guerra a expensas do povo que, como sempre, se sacrifica sem restrições e rega com o seu sangue o solo nacional. O militante que enfrenta, com meios rudimentares, a máquina bélica do colonialismo, dá conta do que, ao mesmo tempo que destrói a opressão colonial, contribui para construir outro aparato de exploração. Esta descoberta é desagradável, dolorosa e repugnante.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1824)
Estes exemplos mostram o ódio global que o colonizado sentia a respeito da população estrangeira. O colonizado rodeia esses homens de um afecto caloroso e tende, por uma espécie de acentuado afecto, a outorgar-lhes a sua confiança de uma forma absoluta.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1836)
O colono não é já simplesmente o homem que é necessário matar. Os membros da massa colonialista mostram-se mais perto, infinitamente mais perto, da luta nacionalista que alguns filhos da nação. O nível racial e racista é superado nos dois sentidos. Já não se entrega uma patente de autenticidade a todos os negros ou a todos os muçulmanos. Já não se procura a espingarda ou o machado ante o aparecimento de qualquer colono.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1841)
O militante nacionalista que fugiu da cidade, ferido, pelas manobras demagógicas e reformistas dos dirigentes, decepcionado pela «política», descobre na prática concreta uma nova política que não se parece em nada com a antiga. Esta política é uma política de responsáveis, de dirigentes integrados na História que assumem com os seus músculos e os seus cérebros a direcção da luta da libertação. Esta política é nacional, revolucionária, social. Esta nova realidade que o colonizado vai conhecer agora não pode existir senão pela acção. É a luta que, ao fazer estalar a antiga realidade colonial, revela facetas desconhecidas, faz surgir significações novas e põe o dedo sobre as condições disfarçadas por esta realidade. O povo que luta, o povo que, graças à luta, dispõe desta nova realidade e a conhece, avança, libertado do colonialismo, prevenido para avançar contra todos os propósitos de mistificação, contra todos os hinos à nação. Apenas a violência exercida pelo povo, violência organizada e esclarecida pela direcção, permite às massas decifrar a realidade social, dá-lhe a chave desta. Sem essa luta, sem esse conhecimento na prática, há somente carnaval e estribilhos. Um mínimo de readaptação, algumas reformas por alto, uma bandeira e, lá em baixo, a massa indivisa sempre «medieval», que continua o seu movimento perpétuo.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1855)
No sistema colonial, uma burguesia que acumula capital é impossível. Mas, precisamente, parece que a vocação histórica de uma burguesia nacional autêntica num país subdesenvolvido é negar-se como burguesia, negar-se enquanto instrumento do capital e escravizar-se absolutamente ao capital revolucionário que constitui o povo.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1890)
O objectivo dos partidos nacionalistas a partir de certa época é, já o temos visto, estritamente nacional. Mobilizam o povo em redor da palavra de ordem de independência e, quanto ao resto, esperam pelo futuro. Quando se interrogam esses partidos sobre o programa económico do estado que defendem, sobre o regime que se propõem instaurar, mostram-se incapazes de responder porque precisamente ignoram em absoluto tudo o que se refere à economia do seu próprio país.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1898)
a burguesia nacional não deixa de exigir a nacionalização da economia e dos sectores comerciais. É que, para ela, nacionalizar não significa pôr a totalidade de economia ao serviço da nação, satisfazer todas as necessidades da nação. Para ela, nacionalizar não significa ordenar o estado em função de relações sociais novas, cuja eclosão se deve facilitar. Nacionalização significa exactamente para essa burguesia, transferir para os autóctones os privilégios herdados da fase colonial.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1915)
colonos. A burguesia nacional ocupa o lugar da antiga população europeia: médicos, advogados, comerciantes, representantes, agentes gerais, agentes aduaneiros. Deseja ocupar, pela dignidade do país e da sua própria segurança, todos esses postos. De futuro, exigirá que as grandes companhias estrangeiras recorram a ela, quer para se manterem no país ou penetrarem nele. A burguesia nacional descobre a missão histórica de servir de intermediária. Como se vê, não se trata de uma vocação de transformar a nação, mas, prosaicamente, servir de correia de transmissão a um capitalismo disfarçado e que se cobre agora com a máscara neocolonialista. A burguesia nacional vai comprazer-se, sem complexos e com muita dignidade, com o papel de agente de negócios da burguesia ocidental.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1920)
No seu aspecto decadente, a burguesia nacional será consideràvelmente ajudada pelas burguesias ocidentais que se apresentam como turistas enamorados do exotismo, da caça, dos casinos. A burguesia nacional organiza centros de repouso e de recreio, curas de prazer para a burguesia ocidental.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 1933)
A unidade africana, fórmula vaga a que os homens e mulheres de África se haviam ligado emocionalmente e cujo valor funcional consistia em fazer terrível pressão sobre o colonialismo, revela o seu verdadeiro rosto e desmembra-se em regionalismos dentro de uma mesma realidade nacional, A burguesia nacional, como pensa apenas nos seus interesses imediatos, como não vê para lá do seu nariz, mostra-se incapaz de realizar a simples unidade nacional, incapaz de edificar a nação sobre bases sólidas e fecundas. A frente nacional, que havia feito retroceder o colonialismo, desintegra-se e consome a sua derrota. Esta luta implacável que livra as raças e as tribos, esta preocupação agressiva para ocupar os postos que caíram livres com a partida do estrangeiro, vão dar
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2018)
origem igualmente a competições religiosas. No campo e na selva, as pequenas seitas, as religiões locais, os cultos muçulmanos voltam a possuir vitalidade e reiniciarão o ciclo das excomunhões. Nas grandes cidades, ao nível dos quadros administrativos, assistiremos ao confronto entre as duas grandes religiões reveladas: islamismo e catolicismo.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2024)
O colonialismo utiliza sem vergonha todos os seus cordéis, certo de colocar uns contra os outros africanos que ontem se haviam ligado a
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2035)
Dentro de uma mesma nação, a religião divide o povo e estabelece a discórdia entre ele e as comunidades espirituais mantidas e fortalecidas pelo colonialismo e pelos seus instrumentos.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2037)
No plano continental, esta tensão religiosa pode revestir a forma do racismo mais vulgar. Divide-se a África numa parte branca e numa parte negra. Os termos de substituição: África do Sul ou ao norte do Saara, não conseguem dissimular esse racismo latente. Aqui, afirma-se que a África Branca tem uma tradição cultural milenária, que é mediterrânica, prolonga a Europa, participa na cultura greco-latina. Concebe-se a África Negra com uma região inerte, brutal, não civilizada... selvagem.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2043)
O racismo da jovem burguesia nacional é um racismo defensivo, um racismo baseado no medo.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2074)
Como a burguesia não tem os meios económicos para assegurar o seu domínio e distribuir algumas migalhas por todo o país; como, além disso, está ocupada em encher ràpidamente os bolsos, mas também o mais prosaicamente, o país submerge-se cada vez mais no marasmo. E para esconder esse marasmo, para disfarçar essa regressão, para se tranquilizar e apresentar motivos de orgulho, não resta à burguesia outro recurso senão construir na capital grandiosos edifícios, fazer o que se chama despesas de prestígio.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2092)
Como não divide os seus benefícios com o povo e não lhe permite aproveitar as prebendas que lhe outorgam as grandes companhias estrangeiras, descobrirá a necessidade de um dirigente popular ao qual caberá o duplo papel de estabilizar o regime e perpetuar o domínio da burguesia. A ditadura burguesa dos países subdesenvolvidos obtém a sua solidez da existência de um dirigente. Nos países evoluídos, como se sabe, a ditadura burguesa é o produto do poder económico da burguesia. Nos países subdesenvolvidos, pelo contrário, o «leader» representa a força moral ao abrigo da qual a burguesia fraca e desprotegida da jovem nação resolve enriquecer.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2097)
A antiga potência colonial multiplica as exigências, acumula concessões e garantias, tomando cada vez menos precauções para disfarçar a sujeição em que mantém o poder nacional. O povo estagna lamentavelmente numa miséria insuportável e pouco a pouco perde consciência da traição inqualificável dos seus dirigentes.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2117)
O dirigente apazigua o povo. Anos depois da independência, incapaz de convidar o povo para uma obra concreta, incapaz de abrir realmente o futuro do povo, de lançar o povo pelo caminho da formação da nação, por consequência da sua própria construção, vemos como o dirigente ressuscita a história da independência, recorda a união sagrada da luta de libertação. O dirigente, como se nega a romper com a burguesia nacionalista, solicita ao povo que retroceda até ao passado e se embriague com a epopeia que o conduziu à independência. O dirigente— objectivamente— detém o povo e dedica-se a expulsá-lo da História ou a impedir que penetre nela. Durante a luta de libertação, o dirigente despertava o povo e prometia-lhe uma marcha heróica e radical. Agora, multiplica os esforços para o adormecer e três ou quatro vezes por ano pede-lhe que se recorde da época colonial e aprecie o imenso caminho percorrido.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2136)
O partido, actualmente, tem como missão fazer chegar ao povo as instruções que emanam de cima. Já não existe esse vaivém fecundo da base até cima e de cima até à base que funda e garante a democracia num partido. Pelo contrário, o partido constituiu-se um anteparo entre as massas e a direcção. Já não existe a vida de partido.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2153)
Nesses países pobres, subdesenvolvidos, onde a maior riqueza, regra geral, se coloca ao lado da maior miséria, o exército e a polícia são os pilares do regime.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2182)
É claro que a burguesia nacional não se inquieta com tais acusações. Enraizada na Europa, está firmemente resolvida a aproveitar a situação. Os enormes benefícios que obtém da exploração do povo são exportados para o estrangeiro. A nova burguesia nacional desconfia mais depressa do regime que instaurou do que das companhias estrangeiras. Nega-se a investir no território nacional e comporta-se cara a cara com o estado que a protege e a alimenta com uma ingratidão notável, que vale a pena assinalar.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2199)
Nos países subdesenvolvidos, a burguesia não deve encontrar condições para a sua existência e desenvolvimento. Por outras palavras, o esforço conjugado das massas enquadradas num partido e dos intelectuais perfeitamente conscientes e guiados por princípios revolucionários, deve fechar o caminho a essa burguesia prejudicial e inútil.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2218)
neutralizar esta classe burguesa dado que ela é, como temos visto, numérica, intelectual e economicamente débil. Nos territórios colonizados, a casta burguesa, depois da independência, obtém a sua força principalmente dos acordos contraídos com a antiga potência colonial. A burguesia nacional terá maiores oportunidades de substituir o opressor colonialista se lhe tiver dado a oportunidade de entabular negociações com a ex-potência colonial. Mas profundas contradições agitam as fileiras dessa burguesia, o que dá ao observador atento uma impressão de instabilidade. Não existe, no entanto, homonogeidade de classe. Muitos intelectuais, por exemplo, condenam esse regime baseado no domínio de uns quantos. Nos países subdesenvolvidos, existem intelectuais, funcionários, elites sinceras, que sentem necessidade de uma planificação da economia, da expulsão dos usufrutuários, de uma proibição rigorosa da mistificação.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2245)
Nos países subdesenvolvidos que obtêm a independência, existe quase sempre um pequeno número de intelectuais honestos, sem ideias políticas muito precisas que, instintivamente, desconfiam dessa correria aos postos e às prebendas, sintomática da fase posterior à independência nos países colonizados. A situação particular desses homens (apoios de família numerosa) ou a sua história (experiências difíceis, formação moral rigorosa) explica esse desprezo tão evidente pelos manobreiros e pelos usufrutuários. É preciso saber utilizar esses homens no combate decisivo que se quer empreender para uma orientação sadia da nação. Fechar o caminho à burguesia nacional, a degradação dos costumes, o bloqueio do país pela corrupção, significa que podem evitar-se as contingências dramáticas posteriores à independência, as desventuras da unidade nacional, a degradação dos costumes, a miséria do país através da corrupção, a regressão económica e, a curto prazo,
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2254)
um regime antidemocrático fundado na força e na intimidação. Mas é também escolher o único meio de avançar.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2260)
Esta burguesia que adoptou sem reservas e com entusiasmo os mecanismos de pensamento característicos da metrópole, que alienou maravilhosamente o seu próprio pensamento e fundou a sua consciência em bases tipicamente estranhas, vai aperceber-se, com a garganta seca, de que lhe falta o essencial que faz uma burguesia, isto é, o dinheiro. A burguesia dos países subdesenvolvidos é uma burguesia em espírito. Não é o seu poder económico nem o
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2273)
dinamismo dos seus quadros, nem a envergadura das suas concepções, que lhe asseguram a sua qualidade de burguesia. Também é em princípio e durante muito tempo uma burguesia de funcionários. São os postos que ocupam na nova administração nacional que lhe darão serenidade e solidez. Se o poder lhe deixa tempo e possibilidades, essa burguesia chegará a acumular pequenos aforros que fortalecerão o seu domínio. Mas mostrar-se-á sempre incapaz de dar origem a uma autêntica sociedade burguesa com todas as consequências económicas e industriais que ela supõe.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2276)
O partido não é um instrumento nas mãos do governo. Pelo contrário, o partido é um instrumento nas mãos do povo. É este que determina a política que o governo aplica. O partido não é, não deve ser nunca a simples repartição política onde se encontram . bem instalados todos os membros do governo e os grandes dignitários do regime.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2352)
partido deve ser descentralizado até ao extremo. É o único meio de activar as regiões mortas que, todavia, não despertam para a vida.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2358)
A hora de uma nova crise nacional não está longe. Pensemos, pelo contrário, que o interior do país deveria ser privilegiado. Em última instância, não haveria nenhum inconveniente em que o governo tivesse a sua sede fora da capital. É necessário desconsagrar a capital e mostrar às massas deserdadas que é para elas que se quer trabalhar. Em certo sentido, foi o que o governo brasileiro procurou fazer em Brasília. A altivez do Rio de Janeiro era um insulto para o povo brasileiro. Mas, desgraçadamente, Brasília é uma nova capital tão monstruosa como a primeira. O único interesse dessa realização é que, hoje, existe já uma estrada através da selva. Não, nenhum motivo sério pode opor-se à eleição doutra capital, à deslocação do governo para uma das regiões mais desfavorecidas. A capital dos países subdesenvolvidos é uma noção comercial herdada do período colonial. Mas nos países subdesenvolvidos, teremos de intensificar os contactos com as massas rurais. Teremos de fazer uma política nacional, quer dizer, antes de mais uma política para as massas. Não se deve perder nunca o contacto com o povo que lutou pela sua independência e pelo melhoramento concreto da sua existência.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2373)
Nessas regiões onde pudemos realizar experiências edificantes, onde assistimos à construção do homem pela instituição revolucionária, os camponeses compreenderam muito claramente o princípio que estabelece que se trabalha com mais gosto quando se compromete mais lucidamente no esforço.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2442)
Igualmente, nessas regiões libertadas e ao mesmo tempo excluídas do antigo circuito comercial, houve necessidade de modificar a produção, dirigida antes sòmente para as cidades e para exportação. Estabeleceu-se uma produção de consumo para o povo e para as unidades do exército de libertação nacional. Quadruplicou-se a produção de lentilhas e organizou-se o fabrico de carvão.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2445)
Na Argélia, compreendemos que as massas estão à altura dos problemas que as preocupam. Num país-subdesenvolvido, a experiência demonstra que o importante não é que trezentas pessoas concebam e realizem, mas que todos, ainda que o tempo dispendido se torne no dobro ou no triplo, compreendam e realizem.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2461)
O colono não deixou nunca de afirmar que o indígena é vagaroso. Agora, em alguns países independentes, ouvimos os quadros repetir essa acusação. Na verdade, o colono queria que o escravo fosse entusiasta. Queria, por uma espécie de mistificação que constitui a mais sublime alienação, persuadir o escravo de que a terra que trabalha lhe pertence, que as minas onde perde a sua saúde são sua propriedade. O colono esquecia que ia enriquecendo com a agonia do escravo. Praticamente, o colono dizia ao colonizado: «Mata-te, mas que eu enriqueça». Agora, devemos proceder de outra maneira. Não devemos dizer ao povo: «Mata-te, mas que o país se enriqueça.» Se desejamos aumentar o produto nacional, diminuir a importação de certos produtos inúteis ou nocivos, aumentar a produção agrícola e lutar contra o analfabetismo, temos de explicar. É necessário que o povo compreenda a importância do que está em jogo. A causa pública deve ser a causa
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2471)
na necessidade de multiplicar as células de base. Com muita frequência, é verdade, instalam-se no cume e sempre na capital organismos nacionais: a União das Mulheres, a União dos Jovens, os sindicatos, etc.... Faz falta uma base, células que dão precisamente o conteúdo e o dinamismo. As massas devem poder reunir-se, discutir, propor, receber instruções. Os cidadãos devem ter a possibilidade de falar, de se expressarem, de inventar. A reunião da célula, a reunião do comité, é um acto litúrgico. É uma oportunidade soberba que o homem tem para ouvir e dizer. Em cada reunião, o cérebro multiplica as suas vias de associação, descobre-se um panorama cada vez mais humanizado.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2477)
Em nossa opinião, devem cuidar desta concepção. A juventude de um país subdesenvolvido é habitualmente uma juventude preguiçosa. Primeiro, deve dar-se-lhe ocupação. Por isso, o comissário para a juventude deve depender institucionalmente do ministério do trabalho. Este ministério, que é uma necessidade num país subdesenvolvido, funciona em estreita colaboração com o ministério de planificação, outra necessidade num país subdesenvolvido. A juventude africana não se deve dirigir aos estádios, mas ao campo e às escolas. O estádio não é esse sítio de exibição instalado nas
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2495)
cidades, mas um espaço no meio das terras que se cultivam, que se trabalha e se oferece à nação.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2499)
Mas politizar é abrir o espírito, despertar o espírito, dar luz ao espírito. É, como dizia Césaire: «inventar almas». Politizar as massas não é, não pode ser, fazer apenas um discurso político. É contribuir com todas as forças para a compreensão das massas de que tudo depende delas, que se nós estagnamos é por sua culpa e se avançamos também é por elas, que não" há demiurgo, que não há qualquer homem ilustre responsável por tudo, que o demiurgo é o povo e que as mãos mágicas são unicamente as mãos do povo. Para realizar essas coisas, para as incarnar verdadeiramente, é necessário descentralizar em extremo. A circulação do alto à base e da base ao alto deve ser um princípio rígido, não por preocupação de formalismo, mas porque simplesmente o respeito desse princípio é a garantia da salvação. É da base que sobem as forças que dinamizam o alto e lhe permitem dialècticamente dar um novo passo mais adiante.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2512)
As massas devem saber que o governo e o partido estão ao seu serviço.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2523)
Ninguém possui a verdade, nem o militante nem o dirigente. A procura da verdade nas situações locais é assunto colectivo. Alguns têm uma experiência mais rica, elaboram mais ràpidamente o seu pensamento, puderam estabelecer no passado um maior número de associações mentais. Mas devem evitar sufocar o povo, porque o êxito da decisão adoptada depende da participação coordenada e consciente de todo o povo. Ninguém pode retirar o seu alfinete do jogo.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2534)
«No campo do pensamento, o homem pode pretender ser o cérebro do mundo, mas no plano da vida concreta, onde qualquer intervenção afecta o ser físico e espiritual, o mundo é sempre o cérebro do homem, porque é nesse nível que te encontram a totalização das potências e unidades pensantes, as forças dinâmicas do desenvolvimento e do aperfeiçoamento, é ali onde se opera a fusão das energias «onde se inscreve em definitivo a soma dos valores intelectuais do homem.»
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2547)
As grandes obras de interesse colectivo deverão ser executadas pelos soldados. É um meio prodigioso para activar as regiões inertes, para dar a conhecer a um maior número de cidadãos as realidades do país.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2573)
A direcção burguesa dos países subdesenvolvidos limita a consciência nacional num formalismo esterilizante. Apenas a dedicação maciça dos homens e mulheres em tarefas inteligentes e fecundas dá conteúdo e densidade a esta consciência. Se não for assim, a bandeira e o palácio do governo deixam de ser símbolos da nação. A nação alheia-se desses sítios iluminados e fictícios e refugia-se no campo, onde se reveste de vida e dinamismo. A expressão viva da nação é a consciência dinâmica de todo o povo. É a prática coerente e inteligente de homens e mulheres. A construção colectiva de um destino supõe uma responsabilidade à altura da história.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2601)
quase sempre paralelamente a estes, aparecem homens de cultura colonizados. Para estes homens, a reivindicação de uma cultura nacional, a afirmação da existência dessa cultura representa um campo de batalha privilegiado. Enquanto os políticos inscrevem a sua acção na realidade, os homens de cultura situam-se no marco da história.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2649)
já o temos afirmado algumas vezes, esta procura apaixonada de uma cultura nacional mais além da fase colonial legitima-se pela preocupação que compartem os intelectuais colonizados de fixar distâncias em relação com a cultura ocidental em que correm o perigo de se submergir. Porque compreendem que estão a ponto de se perderem, de se perderem para o seu povo, esses homens, com raiva no coração e o cérebro enlouquecido, encarniçam-se por restabelecer o contacto com a seiva mais antiga, a mais anticolonial do seu povo.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2662)
a reivindicação do intelectual colonizado não é um luxo, mas uma exigência de programa coerente. O intelectual colonizado que situa a sua luta no plano da legitimidade, que quer apresentar provas, que aceita despir-se para exibir melhor a história do seu corpo, está condenado a essa submersão nas entranhas do seu povo. Essa submersão não é especificamente nacional. O intelectual colonizado que decide combater as mentiras colonialistas, procederá à escala continental. O passado é valorizado. A cultura, que é arrancada do passado para ser mostrada em todo o seu esplendor, não é a do seu país. O colonialismo, que não variou os seus esforços, não deixou de afirmar que o negro é um selvagem e o negro não era para ele nem o angolano nem o nigeriano.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2684)
A condenação do colonialismo é continental.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2692)
Os esforços do colonizado para se reabilitar e escapar à mordedura colonial inscrevem-se, logicamente, na mesma perspectiva que os do colonialismo. O intelectual colonizado que partiu da cultura ocidental e decide proclamar a existência de uma cultura, não o faz nunca em nome de Angola ou do Daomé. A cultura que se afirma é a cultura africana. O negro, que nunca foi tão negro como desde que está dominado pelo branco, quando decide provar a sua cultura, fazer cultura, compreende que a história lhe impõe um terreno preciso, que a história lhe indica uma perspectiva exacta e tem de manifestar uma cultura negra.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2693)
também subitamente continental. Em África, a literatura colonizada dos últimos vinte anos não é uma literatura nacional, mas uma literatura de negros. O conceito de «negritude» por exemplo, era a antítese afectiva, senão lógica, desse insulto que o homem branco fazia à humanidade. Essa «negritude» oposta ao desprezo do branco revelou-se em certos sectores como a única capaz de suprimir proibições e maldições.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2700)
Os cantores da «negritude» não vacilaram em transcender os limites do continente. Desde a América, vozes negras vão repetir esse hino com uma crescente amplitude. O «mundo negro» surgirá e Busia, do Gana, Birago Diop, do Senegal, Hampaté Ba, do Sudão, Saint-Clair Drake, de Chicago, não temeram em afirmar a existência de laços comuns, de linhas de força idênticas.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2708)
Demonstramos que essa atitude era normal e se justificava pela mentira propagada pelos homens de cultura ocidental. Mas a degradação dos fins desta sociedade vai aprofundar-se na elaboração do conceito de «negritude». A Sociedade Africana vai converter-se na sociedade cultural do mundo negro e terá de incluir a diaspora(35) negra, quer dizer, as dezenas de milhões de negros
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2736)
Os negros que se encontram nos Estados Unidos, na América Central ou na América do Sul, necessitavam, na verdade, de se ligarem a uma matriz cultural. O problema que se lhes colocava não era fundamentalmente diferente do que enfrentavam os africanos. A respeito deles, os brancos da América também não se comportaram de ' maneira distinta à dos que dominavam os africanos.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2740)
É que o intelectual colonizado lançou-se com avidez à cultura ocidental. Parecido aos filhos adoptivos, que não abandonam as suas investigações do novo agregado familiar senão no momento em que se cristaliza na sua mentalidade um núcleo mínimo de segurança, o intelectual colonizado procurará tomar sua a cultura europeia.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2782)
Numa primeira fase, o intelectual colonizado prova que assimilou a cultura do ocupante. As suas obras correspondem ponto por ponto às dos seus homólogos metropolitanos. A inspiração é europeia e fàcilmente se podem ligar essas obras a uma corrente bem definida na literatura metropolitana.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2830)
movimenta-se e procura recordar-se. Este período de criação corresponde aproximadamente à imersão que acabamos de descrever. Mas como o colonizado não está integrado no seu povo, contenta-se somente em recordar. Velhos episódios da infância serão recolhidos do fundo da memória, velhas lendas serão interpretadas em função de uma estética emprestada e de uma concepção do mundo descoberta debaixo de outros céus.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2833)
numa terceira fase, chamada de luta, o colonizado— depois de haver tentado colocar-se entre o povo, transforma-se no que desperta o povo. No decorrer contrário, o povo. Em vez de favorecer a letargia do povo, transforma-se no que desperta o povo. No decorrer desta fase, um grande número de homens e mulheres, que antes nunca pensaram em fazer uma obra literária, encontram-se agora em situações especiais, na prisão, na guerrilha ou em vésperas de serem executados, sentem a necessidade de expressar a sua nação, de compor a frase que exprima o povo, de se converterem em porta- -vozes de uma nova realidade em acção.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2839)
intelectual colonizado, que regressa ao seu povo através das obras culturais, comporta-se de facto como um estrangeiro. Algumas vezes não vacilará em utilizar os dialectos para manifestar a sua vontade de estar o mais perto possível do povo, mas as ideias que exprime, as preocupações que o dominam, nada têm de comum com a situação concreta que conhecem os homens e as mulheres do seu país.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2848)
Esse criador que descreve a verdade nacional, volta-se paradoxalmente para o passado, para o inactual. O que procura na sua profunda intencionalidade são as dejecções do pensamento, as aparências, os cadáveres, o saber definitivamente estabilizado. Mas o intelectual colonizado que quer realizar uma obra autêntica, deve saber que a verdade nacional está primeiro do que a realidade nacional.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2869)
Antes da independência, o pintor colonizado era insensível ao panorama nacional. Preferia a arte não-figurativa ou, com maior frequência, especializava-se nas naturezas mortas. Depois da independência, a sua preocupação para se aproximar do povo confiná-lo-á à representação da realidade nacional ponto por ponto. Trata-se de uma representação não ritmada, serena, imóvel, que não evoca a vida, mas a morte. Os meios esclarecidos extasiam-se perante essa verdade bem conseguida, mas temos direito a perguntar se essa verdade real, se realmente não é superada, negada, impugnada pela epopeia através da qual o povo abre o caminho da história.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2873)
longe. Nos países colonizados, o colonialismo depois de utilizar os indígenas nos campos de batalha, utiliza-os como ex-combatentes para romper os movimentos de independência.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2993)
O homem colonizado que escreve para o seu povo, quando utiliza o passado deve fazê-lo com a intenção de abrir o futuro, de convidar à acção, de criar a esperança. Mas para assegurar a esperança, para lhe dar densidade, é necessário participar na acção, comprometer-se de corpo e alma na luta nacional. Pode falar-se de tudo, mas quando se resolve falar de uma coisa única na vida de um homem que representa de facto o abrir do horizonte, de levar luz à própria terra, de se levantar a si mesmo e ao seu povo, então deve colaborar-se muscularmente.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 2998)
Não deve contentar-se, portanto, em mergulhar no passado do povo para encontrar nele elementos de coerência para enfrentar as empresas falsificadoras e pejorativas do colonialismo. Deve trabalhar-se, lutar com o mesmo ritmo que o povo para conseguir o futuro, preparar o terreno onde crescem já rebentos poderosos. A cultura nacional não é o folclore, onde um populismo abstracto quis descobrir a verdade do povo. A cultura nacional, nos países subdesenvolvidos, deve situar-se, pois, no centro da própria luta de libertação que esses países realizam.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3009)
A cultura negro-africana condensa-se em torno da luta dos povos e não em redor dos cantos, dos poemas ou do folclore;
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3031)
A adesão à cultura negro-africana, à unidade cultural de África, exige primeiro um apoio incondicional à luta de libertação dos povos. Não pode desejar-se o esplendor da cultura africana, se não se contribui concretamente para a existência de condições dessa cultura, quer dizer, para a libertação do continente. Afirmo que nenhum discurso, nenhuma proclamação sobre a cultura, nos desviarão das nossas tarefas fundamentais, que são a libertação do território nacional, uma luta constante contra as novas formas do colonialismo e uma negação obstinada de não nos deixarmos iludir.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3033)
A cultura nacional é, debaixo do domínio colonial, uma cultura destruída de maneira sistemática e muito ràpidamente condenada à clandestinidade.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3060)
No fim de um ou dois séculos de exploração, produz-se um verdadeiro empobrecimento do panorama cultural nacional. A cultura nacional converte-se num acervo de hábitos motrizes, de tradições de vestimenta, de instituições despedaçadas. Percebe-se a escassa mobilidade. Não existe verdadeira criatividade, não há efervescência. Miséria do povo, opressão nacional e inibição da cultura, são uma e a mesma coisa. Através de um século de domínio colonial, encontra-se uma cultura rígida em demasia, sedimentada, mineralizada. A deterioração da realidade nacional e a agonia da cultura nacional mantêm relações de dependência recíproca. Por isso, é essencial seguir a evolução dessas relações no decorrer da luta de libertação. A negação cultural, o desprezo pelas manifestações nacionais motrizes ou emocionais, a proscrição de qualquer especialidade de organização, contribuem para engendrar condutas agressivas no colonizado. Mas esses comportamentos são de carácter reflexo, mal diferenciadas, anárquicas, ineficazes. A exploração colonial, a miséria, a fome endémica empurram cada vez mais o colonizado para a luta aberta e organizada. Progressivamente e de maneira imperceptível a necessidade de um afrontamento decisivo torna-se urgente e é experimentada pela grande maioria do povo. As tensões, antes inexistentes, multiplicam-se. Os acontecimentos internacionais, o desmoronamento em grandes pedaços dos impérios coloniais, as contradições inerentes ao sistema
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3065)
colonialista sustentam e fortalecem a combatividade, promovem e dão força à consciência nacional.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3075)
Quando o negro se comprende a si mesmo e concebe o mundo de uma maneira distinta, faz nascer a esperança e impõe um retrocesso ao universo racista, é claro que o seu trompete tende a libertar-se e a sua voz a perder a rouquidão.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3129)
Formas de expressão pouco usuais, temas inéditos e dotados de uma força não já de invocação, mas de agrupamento, de convocação «com um fim». Tudo concorre para despertar a sensibilidade do colonizado, para tomar inactuais, inaceitáveis, as atitudes contemplativas ou de fracasso. Ao renovar as intenções e a dinâmica do artesanato, da dança e da música, da literatura e da epopeia oral, o colonizado estrutura de novo a sua percepção. O mundo perde o seu carácter maldito. Criam-se as condições para o inevitável confronto.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3136)
num país colonizado, o nacionalismo mais elementar, o mais brutal, o mais indiferenciado, é a forma mais ardente e mais eficaz de defesa da cultura nacional. A cultura é, em primeiro lugar, expressão de uma nação, das suas preferências, dos seus tabus, dos seus modelos. Em todos os níveis da sociedade global constituem-se outros tabus, outros valores, outros modelos. A cultura nacional é a soma de todas essas apreciações, a consequência das tensões internas e externas na sociedade global e nas diferentes camadas dessa sociedade. Na situação colonial, a cultura, privada do duplo apoio da nação e do estado, deteriora-se e agoniza. A condição de existência da cultura é, portanto, a libertação nacional, o renascimento do estado.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3145)
Pensamos que a luta organizada e consciente empreendida por um povo colonizado para restabelecer a soberania da nação, constitui a manifestação mais plenamente cultural que existe. Não é unicamente o triunfo da luta que dá validade e vigor à cultura, não existe hibernação da cultura durante o combate. A luta, no seu desenvolvimento, no seu processo interno, faz progredir as diferentes direcções da cultura e esboça outros caminhos. A luta de libertação não restitui à cultura nacional o seu valor e os seus antigos contornos. Esta luta, que tende para uma redistribuição fundamental das relações entre os homens, não pode deixar intactas as formas nem os conteúdos culturais desse povo. Depois da luta não desaparece apenas o colonialismo, mas desaparece também o colonizado.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3163)
Se o homem é aquilo que faz, afirmaremos que o mais urgente, neste momento, para o intelectual africano, é a formação da sua nação. Se essa construção é verdadeira, quer dizer, se traduz a vontade evidente do povo, se revela, na sua impaciência, os povos africanos, então a construção nacional vai acompanhada necessàriamente do descobrimento e da promoção de valores universais. Longe de se afastar, pois, das outras nações, é a libertação nacional que a torna presente no cenário da História. É no coração da consciência nacional que se eleva e se aviva a consciência internacional. E esse duplo nascimento não é, definitivamente, senão o núcleo de toda a cultura.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3190)
Deve recordar-se, em todo o caso, que um povo colonizado não é apenas um povo dominado. Debaixo da ocupação alemã, os franceses não deixaram de ser homens.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3214)
a guerra de libertação nacional que conduz o povo argelino desde há sete anos, por abarcar a totalidade do povo, converteu-se em terreno favorável para a eclosão de perturbações mentais(41).
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3224)
O caso número 2 da série A, é tipicamente uma psicose reactiva, mas os casos números 1, 2, 4 e 5 da série B admitem uma causalidade muito difusa, sem que possa falar-se realmente de um acontecimento motivador particular. Aqui é a guerra, essa guerra colonial que com muita frequência se manifesta como um autêntico genocídio, esta guerra que perturba e despedaça o mundo é o que constitui o acontecimento motivador. Psicose reactiva, se quer utilizar-se um rótulo já estabelecido, mas dando-lhe aqui uma prioridade singular à guerra concebida na sua totalidade e nas suas particularidades de guerra colonial.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3234)
Chamamos patologia psicossomática ao conjunto de desordens orgânicas cuja eclosão é favorecida por uma situação conflituosa(54). Psicossomática, porque a causa é de origem psíquica. Esta patologia é considerada como uma maneira a que tem de responder o organismo, isto é, de adaptar-se ao conflito que enfrenta, sendo a perturbação ao mesmo tempo sintoma e cura.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3827)
Não é necessário apenas que se combata pela liberdade do povo. Também é preciso ensinar a esse povo e a nós mesmos, durante o tempo da luta, a dimensão do homem. Deve remontar-se pelos caminhos da história, da história do homem condenado pelos homens e provocar, tornar possível o reencontro com o seu povo e com os outros homens.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3874)
Na verdade, o militante que se entregou a uma luta armada, a uma luta nacional, tem a intenção de conhecer todas as degradações infligidas ao homem pela opressão colonial. O militante tem por vezes a impressão fatigada de que deve conduzir a tudo o seu povo, tirá-lo do poço, da caverna. O militante compreende a cada passo
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 3877)
argelino, a trivialidade dos motivos descobertos, o carácter homicida e sempre muito sanguinário das lutas, colocava um sério problema aos observadores. A explicação proposta, que se converteu em matéria de ensino, parece ser, em última análise, a seguinte: a disposição das estruturas cerebrais do norte-africano explica por uma vez a preguiça do indígena, a sua incapacidade intelectual e social e a sua impulsividade quase animal. A impulsividade criminal do norte-africano é a transgressão à ordem do comportamento de certa disposição do sistema nervoso. É uma reacção neurològicamente compreensível, inscrita na natureza das coisas, da coisa biologicamente organizada. A não integração dos lóbulos frontais na dinâmica cerebral explica a preguiça, os crimes, os roubos, as violações, a mentira. E a conclusão deu-me um subprefeito— agora prefeito—: «A esses seres naturais— dizia—, que obedecem cegamente às leis da natureza, devem opor-se quadros estritos e implacáveis. É necessário domesticar a natureza, não a convencer». Disciplinar, domesticar, reduzir e agora pacificar são os vocábulos mais utilizados pelos colonialistas nos territórios ocupados.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 4021)
No regime colonial, qualquer coisa pode fazer-se por um quilo de pão ou um miserável borrego... As relações do homem com a matéria, com o mundo, com a história, são na fase colonial relações com os alimentos. Para um colonizado num contexto de opressão como o da Argélia, viver não é incarnar valores, inscrever-se no desenvolvimento coerente e fecundo de um mundo. Viver é não morrer. Existir é manter a vida. Cada data é uma vitória. Não um resultado do labor realizado, mas uma vitória concebida como triunfo da vida.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 4092)
A criminalidade do argelino, a sua impulsividade, a violência dos seus assassinatos, não são, portanto, a consequência de uma organização do sistema nervoso nem de uma originalidade de carácter, mas o produto directo da situação colonial. Que os combatentes argelinos hajam discutido este problema, que não hajam temido pôr em dúvida as crenças que o colonialismo lhes havia inculcado, hajam compreendido que cada qual era o espelho do outro e que, na verdade, cada um se suicidava ao lançar-se sobre o outro, devia ter uma importância primordial na consciência revolucionária. Uma vez mais, o objectivo do colonizado que luta é provocar o fim da dominação.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 4103)
A libertação total é a que concerne a todos os sectores da personalidade. A emboscada ou o corpo-a-corpo, a tortura ou a matança de seus irmãos, enraízam a determinação de vencer, renovam o subconsciente e alimentam a imaginação. Quando a nação se desamarra totalmente, o homem novo não é um produto a posteriori dessa nação, mas coexiste, desenvolve-se e triunfa com ela. Esta exigência dialéctica explica a reticência perante as colonizações adaptadas e as reformas de fachada. A independência não é uma palavra que deva exorcizar-se, mas uma condição indispensável para a existência de homens e mulheres realmente libertados, quer dizer, donos de todos os meios materiais que tornam possível a transformação radical da sociedade.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (pos. 4109)

Gabriel Nascimento

apesar dessa mesma coletividade tê- lo tornado sujeito, a vergonha que um sujeito sente por um ato cometido por outro membro da sua coletividade paralisa e des- subjetiva.
Gabriel Nascimento, em Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem
que todo sujeito é heterogêneo, e, como sujeito, é eticamente execrável quando rejeita ou despreza a diversidade em seu Outro.
Gabriel Nascimento, em Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem
É preciso entender, portanto, o signo “negro” como um conceito novo, criado pela branquitude e não como um conceito natural.
Gabriel Nascimento, em Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem
Ou seja, os negros africanos, antes de serem colonizados e sequestrados, não se chamavam como “negros” ou reivindicavam para si a identidade “negra” como “naturalmente” deles.
Gabriel Nascimento, em Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem
Portanto, se esse interlocutor é a branquitude, como aquela que inviabiliza a minha fala, então o negro teve ainda que adaptar a sua fala durante todo esse processo, apagando aparentemente muitas vezes suas próprias marcas de origem ou traduzindo algumas delas e, assim, modificando a própria língua do colonizador.
Gabriel Nascimento, em Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem
conceito de “língua” no ocidente como aquele que deriva do fetiche entre a perfeição prometida pelo projeto de modernidade e sua performance baseada no mundo greco- romano.
Gabriel Nascimento, em Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem
Esse projeto não apenas institui um fetiche de estética na linguagem baseado em um projeto de elites locais de cada estado- nação, mas também impõe sua língua aos povos colonizados
Gabriel Nascimento, em Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem
O combate às línguas já faladas pelos povos originários negros e indígenas figura como um dos primeiros atos do mito da brasilidade linguística entre nós, gerando, ao mesmo tempo, epistemicídio e linguicídio.
Gabriel Nascimento, em Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem
epistemicídio como o extermínio do conhecimento do outro, através da definição do que é saber/ conhecimento válido
Gabriel Nascimento, em Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem
A língua, assim, aqui será vista como uma marca de dominação e por onde também se dá a figura estruturante do racismo.
Gabriel Nascimento, em Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem
Uma vez que admitimos que o racismo está na estrutura das coisas, precisamos admitir que a língua é uma posição nessa estrutura.
Gabriel Nascimento, em Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem
entendo que o racismo é produzido nas condições históricas, econômicas, culturais e políticas, e nelas se firma, mas é a partir da língua que ele materializa suas formas de dominação.
Gabriel Nascimento, em Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem
Se, por um lado, o sujeito se submete à língua, por outro, a língua muda por meio do sujeito e das convenções criadas através da língua que não são autoconscientes. Por isso, as línguas têm sujeitos por trás delas. De outra forma, as línguas não são neutras
Gabriel Nascimento, em Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem
e sempre são atravessadas por processos de poder, como os próprios sujeitos.
Gabriel Nascimento, em Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem
as línguas também são comunidades imaginadas, ou seja, espaço de idealização da construção dos estados modernos.
Gabriel Nascimento, em Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem
Assim, não se pode afirmar a língua como um lugar pacífico. A língua é um lugar de muitas dores para muitos de nós.
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língua não é só modificada, mas está sempre submetida aos projetos de poder.
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Ela própria é um projeto de poder, incluindo suas desigualdades, que funda nas origens nacionais o conceito moderno de língua nacional.
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A língua tem cor? Em si, como iniciamos anteriormente a argumentação, nenhuma língua tem cor porque nenhuma língua existe em si. Entretanto, ao serem politizadas, as línguas têm cor, gênero, etnia, orientação sexual e classe porque elas funcionam como lugares de desenhar projetos de poder, dentre os quais o próprio colonialismo fundado a partir de 1492 e a colonialidade que ainda continua entre nós como continuidade dele.
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Ou seja, a língua não só tem cor quando politizada nos diversos sistemas de poder, mas ela própria é um espaço de luta da racialidade porque é por meio dela em que se nomeia ese racializa.
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história, como quero propor, os agentes oprimidos pela colonialidade e a partir da colonialidade também atuaram e não se mantiveram passivos, muito menos na língua.
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Portanto, a língua tem cor e é uma possibilidade de luta e resistência ao projeto de racialização do pensamento moderno, que não só cria a opressão, mas cria a língua como seu processo gerador primordial.
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epistemicídio é a extermínio do pensamento do outro.
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É o formato pelo qual a colonialidade sequestra, subtrai (tudo o que puder se apropriar) e apaga os saberes e práticas dos povos originários e tradicionais.
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O epistemicídio (que lembra o genocídio em sua organização) é o pai das línguas ocidentais ao meu ver. Sobretudo desde o Renascimento, falar uma língua é retomar uma idealização que se tem das línguas francas antigas (o grego e o latim) e aperfeiçoar essa língua em um projeto nacional de expansão. De outra forma, é o epistemicídio (a partir do continente europeu) que decide que as línguas dos brancos são línguas nacionais enquanto as demais não são sequer línguas e são apenas dialetos. 14
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Como a escrita é um objeto de poder, ela existe para separar quem escreve de quem não escreve. As chamadas culturas ágrafas não serão somente alvo de dominação racial, mas também lugares que a modernidade vai calar por meio da escrita.
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colonialidade fincou em torno de si na modernidade o ponto zero, sendo esse o lugar de partida. Ou seja, o colonizador, ao ser o ponto zero, impõe ao colonizado formas de organização que ele concede a partir de si como ponto zero.
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Falar de cordialidade na formação do povo brasileiro, ignorando a insubmissão dos negros é apagar, a partir da linguagem, sobretudo a acadêmica, a possibilidade de os negros serem vistos como heróis do seu próprio povo.
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O processo de mímesis na escrita insinua o intelectual como a repetição do Deus cristão, em que o Deus é um humano ideal a ser seguido, e quase nunca alcançado. O intelectual vai sempre alimentando esse instrumental de si, à medida que vai buscando se distanciar dele. O intelectual não só reproduz a linguagem racista do ocidente, como ele a recria em sua escrita falsamente êmica e holística.
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ela é o abrigo do sentido da nossa miscigenação. Isso porque o miscigenado, embora forçado a adquirir os valores brancos para receber como recompensa a vantagem de não ser exterminado logo diretamente, também se nega pela língua, silenciando os usos linguísticos sobre sua identidade.
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É na língua que a negação passa a primeiro existir. O
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língua impele ao sujeito negro uma estranheza sobre a fala de seus ancestrais ou
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ainda o faz ter auto- ódio da herança africana nas religiões de matriz africana (ou mesmo nas representações de evangélicos nas próprias religiões evangélicas),
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Ao criar esse entendimento, sua obra propõe que o mundo se discursiviza, mas o mundo não é, ele próprio, só discurso. Ou seja, ao pensar racialidade e racialização, é preciso compreender que o mundo se racializa, mas que raça não é uma obra da natureza ou um fenômeno que mereça naturalização sendo pensada apenas como discurso.
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racismo não é apenas um discurso, mas
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a estrutura de onde se originam os discursos da colonialidade.
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“Esta” raça que me deram não é verdadeiramente minha. Ela nunca foi decisão minha, nunca foi construída por mim e eu nunca a quis enquanto ela somente significou opressão. No entanto, ela é sempre tratada pela branquitude como “essa sua raça, de sua responsabilidade”.
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Frantz Fanon (2008) chama esse processo como desresponsabilização do branco pelo racismo (ou de repartição racial da culpa pelo branco, como ele prefere denominar, para se referir à culpa que o branco impõe ao próprio negro pelo negro ter sido escravizado), ao passo que ele cria, através da linguagem, no hic- et- nunc discursivo, o outro e sua raça (e, portanto, sua racialidade) e se constitui como o universal, como o ponto- zero
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a maior tarefa do movimento negro e dos antirracistas de todas as raças e credos devesse ser desnudar a branquitude.
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penso que nenhum branco gera apenas impacto aos negros quando os racializa. Penso, como Aimé- Cesaire, que o surgimento de Adolf Hitler é o ápice de uma era que marca uma crise do humanismo e que desnuda o processo em que séculos de escravidão geram genocidas que, numa esquizofrenia de limpeza étnica, trucidam até os próprios brancos que eles julgam menos brancos num amplo processo de idealização do próprio conceito de branquitude
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signo da raça é um signo da mágoa e da dor, da opressão e da penumbra de uma identidade que essencializa todos os povos negros e nações africanas, que subverte e nos transforma em um só povo, desde que não nos unamos para enfrentar a própria colonialidade, e, quanto isso acontece, a própria concessão da raça (que aqui chamo de racialidade) admite que somos todos humanos.
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racialização é um processo de construir o sentido da raça e se instaura através da linguagem para tal.
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racialização do corpo negro cria o que Achille Mbembe chama de “a manifestação da questão da raça”, em que o negro é racializado para ser dominado e virar signo- objeto
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Ela também examina como a racialização do negro é encarada como desresponsabilização por parte do branco, de maneira que, nesses espaços privilegiados, os brancos falam pelos negros, sem se esforçar por dividir com os negros os espaços de enunciação.
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negritude é conceituada por Achille Mbembe (2014) como um processo exportado do seio dos corpos negros e globalizado para o mundo através do neoliberalismo, conduzindo a um devir- negro do mundo.
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substantivo negro, como chama Mbembe, passa a ser mais usado à medida que a colonialidade impõe sua universalidade moderna sobre suas colônias.
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raça é um lugar de muitos sofrimentos discursivos e se impõe através dos discursos no momento em que os corpos são racializados e as dores e mágoas são produzidas.
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partir do momento em que há o sepultamento da originalidade cultural de um povo através da colonialidade, cria- se o complexo de inferioridade (que, para Fanon, é responsabilidade do colonizador) e o colonizado é obrigado a tomar posição diante da linguagem da nação que o coloniza.
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é esse lugar que ocupa o negro/ pobre que aprende a falar a suposta “norma padrão”, que vem sendo historicamente repetida como única “norma culta” no Brasil. Esse negro, sendo aquele que ocupa o lugar de empregadas domésticas, recepcionistas de hotéis ou atendentes de lojas ao se adequar a essa norma, é premiado, no máximo, à posição de coordenador das funções mais manuais na divisão de trabalho.
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que, para além de oportunizarem preconceito linguístico, os compêndios gramaticais e a indústria do bom português são racistas.
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segunda pergunta, que aqui trago, baseado no trabalho de Spivak (1987) e de Bakhtin (1997) é: Quem está falando o que está falando fala a partir de que base de conhecimento? Como atua o poder em sua fala e como sua fala se localiza e atua no poder?
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A interdisciplinaridade é um compromisso de sobrevivência epistêmica, naquilo que Boaventura de Sousa Santos (2007) tem chamado de ecologia dos saberes (tentando superar a chamada linha abissal, também construído a partir do pensamento de Fanon).
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desnudar o racismo que se entrelaça nas políticas linguísticas é uma forma de desbranquear uma Linguística vítima de um branqueamento racista desde que passou a ser vista como ciência, que cega suas próprias estruturas, gerando análises globalizantes e totalizantes, ignorando dados raciais e sociais que geram
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Frantz Fanon, ao traduzir a forma de legitimação do racismo pelo colonialismo linguístico, que leva o negro a tentar se branquear através da língua do colonizador; Achille Mbembe ao desvendar a duplicidade do signo da raça, enquanto aquele que é imposto como signo de opressão, gerando sofrimento, e como signo de resistência, gerando o negro enquanto sujeito da própria resistência a um devir- negro do mundo; e Lélia González, enquanto estudiosa que propôs a relação entre o português brasileiro e sua
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marca de africanização– entre muitíssimos outros estudiosos.
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há pessoas com as quais se fala e de quem se fala no discurso, entendendo que há uma estrutura que não se refere a outro item do próprio discurso mencionado, mas a referentes no mundo.
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a racialização é a enunciação que permite formar raça enquanto enunciado nas hierarquias de poder do sistema- mundo.
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história do colonialismo e suas interfaces é a principal agenda para a existência de uma racialização enquanto enunciação da história.
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língua, sendo arena para a luta de classes, modifica os sujeitos e os sujeitos podem modificar a língua num processo dialógico.
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um dos primeiros signos impostos pelo colonialismo foi a assimilação ao homem branco através da linguagem como uma forma de o sujeito negro ser supostamente aceito pela branquitude.
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A história da mobilidade social dos negros brasileiros é, neste sentido, a sua de sua assimilação aos padrões brancos de relações sociais. É a história da submissão ideológica de um estoque racial em presença de outro que se lhe faz hegemônico. É a história de uma identidade renunciada, em atenção às circunstâncias que estipulam o preço do reconhecimento ao negro com base na intensidade de sua negação
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uma estratégia para sobreviver e buscar espaços melhores na sociedade.
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provam que a colonização desumaniza, repito, mesmo o homem mais civilizado; que a ação colonial, a empresa colonial, a conquista colonial, fundada pelo desprezo sobre o homem indígena e justificada por esse desprezo, tende, inevitavelmente, a modificar quem a empreende; que o colonizador, para se dar boa consciência, se habitua a ver no outro o animal, tende, objetivamente, a transformar- se, ele próprio, em animal..(
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racismo depende da história colonial (e, para tanto, as marcas fenotípicas que são consideradas inferiores nessas sociedades) para ganhar características tanto políticas quanto linguísticas.
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o signo negro é uma criação da branquitude.
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quero dizer que o conceito de raça sempre é fruto de violência e não de um processo intrínseco de reivindicação da identidade, como parecem advogar os discursos do multiculturalismo liberal.
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Sempre que invocamos a noção raça para projetar uma identidade positiva a fim de enfrentar o racismo, não podemos esquecer ou negligenciar seu papel enquanto signo criado e mantido pelo colonialismo.
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mundo ocidental produziu nos “outros” os signos de dominação ao chama- los de raça ao passo que, ao criar essas definições, criou o branco, cristão, civilizado, heterossexual e burguês.
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Achille Mbembe, já citado anteriormente, produzir o negro é produzir uma vinculação de submissão dos corpos a uma estrutura perversa de medos e tormentos.
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entendo racialidade como a metafísica da raça, que por nós negros vem sendo mudada a partir da resistência.
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Negro é uma criação da opressão direta do colonialismo durante séculos de tráfico negreiro e escravização.
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Negro é portanto o nome que me foi dado por alguém
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colonialismo criou um sistema permanente de signos coloniais (que chamamos de colonialidade) que foram e são responsáveis pela manutenção de um racismo estrutural e suas formas mais diversas, como as formas de racismo linguístico que aqui examinamos.
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Essas formas interligam discriminação racial e história, mostrando que negro é uma criação do branco, eurocêntrico, enquanto este também foi criado como signo acima da linha do humano.
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só pode existir racismo linguístico quando há epistemicídio ou racismo epistêmico.
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Chamo de racismo epistêmico, com base em Grosfoguel (2007) e Mignolo (2007), o poder que impõe e mantém o pensamento ocidental em uma limitação fronteiriça, apagando e silenciando (e com isso também assassinando) todo aquele pensamento que não for eurocêntrico, branco e falocêntrico.
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Racismo epistemico
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Stuart Hall (2009) chamava atenção: nem tudo é discurso.
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o quanto teorizar sem antes conhecer o mundo passa a ser o maior problema moderno.
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entendo discurso como o lugar onde o mundo se cria e recria, mas reconheço que há um mundo físico, histórico e social antes do discurso per si.
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em primeiro lugar, não se trata de não querer dialogar com o Ocidente. Mas jamais esquecer a colonialidade ainda imposta aos nossos corpos.
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fazem crítica à visão europeia advinda de Habermas, de comunicação harmônica entre os dois mundos, de colonizadores e colonizados, para superar as diferenças.
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possibilidade de a linguagem atuar como mecanismo de decolonização e comunicação dialógica entre os oprimidos.
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identificamos que há uma práxis decolonial na própria luta dos negros brasileiros, muitas vezes não reconhecida.
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enquanto os direitos humanos já chegam a uma crise, em termos de seu próprio discurso no mundo ocidental, os negros sequer experimentamos o senso de humanidade e ainda temos que negociar a todo momento para não continuarmos sobre nossos corpos o sentido de animalidade.
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a ignorância da heterogeneidade dos não brancos é uma gramática da dominação do branco no mundo.
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decolonial é um espírito de resistência que não é invocado de fora para dentro, mas de dentro para dentro (olhando e se utilizando do que for proveitoso de fora), ao se pensar e repensar o fora.
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“A linguagem possibilita a construção do mundo social e é a condição para que ele exista” (MOITA LOPES, 1994, p. 331). Ou seja, quando nascemos há um mundo com condições raciais e socioeconômicas imposto aos nossos corpos (condição), mas é possível quebrar esse estado de coisas ao agir no mundo através da linguagem (solução) sendo, assim, possível construir o mundo ao nosso redor.
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preciso racializar a branquitude.
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Não racializar é evitar o desnudamento dessa identidade branca enquanto identidade. É preciso sempre indicar quais variantes do mundo têm os brancos como principais personagens. Se a língua real falada no Brasil é afro- brasileira, como mostramos, a idealização de língua na boca dos setores mais letrados é uma marca da identidade de branquitude brasileira, que, ao se enxergar, procura se afastar de extratos mais racializados (por ela) da sociedade, ainda que não consiga.
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Racializar, portanto, não é praticar racismo reverso (o que é uma improbabilidade histórica). Ao contrário, é uma forma de alertar sempre ao sujeito branco que ele não é universal.
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racializar é desinventar um mundo que desmotiva e esvazia a luta negra, ao mostrar sempre às pessoas brancas que elas criam um mundo intangível e supostamente imutável ao redor delas.
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racismo cria suas marcas também na branquitude. Um Hitler, um Trump ou um Bolsonaro não nascem à toa. Antes do fascismo, o racismo é a condição estruturante que permite que, nessas sociedades, tanto o colonizador quanto o colonizado enfrentem os fantasmas da raça criados pelo colonizador. A ideia de raça enquanto fantasia política permite entender melhor esse contexto, porque possibilita entender a amplitude do debate de desumanização.
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A educação deverá mais do que ser reflexiva. Deverá, assim, conduzir a uma visão que torne a ontologia do sujeito como o seu encontro entre sua identidade e o mundo ao seu redor, que lhe racializa e lhe concede direitos ao passo que ele age no mundo. O sujeito negro será aquele que, por causa das marcas em seu calo, saberá, portanto, compreender ao seu tempo quais armas deverá usar através da linguagem, ao passo em que, como nos diz Veronelli (2016), usa a linguagem para uma perspectiva dialógica decolonial.
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George R.R. Martin

Um leitor vive mil vidas antes de morrer. O homem que nunca lê vive apenas uma.
George R.R. Martin

Itamar Vieira Junior

O rio, caminho sinuoso por onde percorrem seres e saberes, sonhos e mistérios, como contaram certo dia os mais velhos. Rita brinca com os irmãos, e se alguém
Itamar Vieira Junior, em Coração sem medo
As águas, as águas daquele instante, correm para sempre e sem destino.
Itamar Vieira Junior, em Coração sem medo
Suas histórias estão reunidas na casa, no corpo dos filhos, e, sobretudo, nas memórias que carrega consigo.
Itamar Vieira Junior, em Coração sem medo
Seus pés eram os pés de sua mãe, Mazé, de sua avó Carmelita, de sua bisavó, a velha Donana. Eram os pés das mulheres e dos homens sem nome que antecederam sua existência. Seus pés eram primordiais e tão antigos quanto o próprio tempo, e com eles se moveu, se perdeu e se encontrou, e reencontrou os caminhos por onde andou e por onde ainda precisaria caminhar.
Itamar Vieira Junior, em Coração sem medo
Não viajou por escolha, não pôde decidir, é verdade, mas se adaptou pela simples necessidade de continuar a viver.
Itamar Vieira Junior, em Coração sem medo
Optou-se por Rita, a Preta, para demarcar o lugar de sua presença naquela casa, naquele mundo, para fazer jus às suas origens.
Itamar Vieira Junior, em Coração sem medo
quando uma mulher perde o marido para a morte, ela fica viúva; quando uma filha perde o pai ou a mãe, ela fica órfã; mas e quando alguém perde um filho? Não é abandono, se foi um ato involuntário; também não cabe a palavra "desamparo" se nenhuma das partes contribuiu para o distanciamento. Talvez não exista um nome, reflete, depois de tentar encontrar uma palavra para o vazio que sente. E descobre que não há.
Itamar Vieira Junior, em Coração sem medo
Então dirá aos filhos, naqueles dias de grande desconforto e para abrandar sua imensa dor, que a terra, os animais e as pessoas que estiveram à nossa volta revivem quando recontamos suas histórias.
Itamar Vieira Junior, em Coração sem medo
Quem tem o direito de dizer a uma mãe que não deve procurar por aquele que foi gerado para ser amado? Quem pode impedir uma mãe de procurar pelo filho amamentado em seus seios, por quem havia trabalhado, sonhado, por quem se entusiasmou quando o viu aprender as primeiras letras, com quem dividiu o pão, a miséria e a beleza da existência?
Itamar Vieira Junior, em Coração sem medo
Mas o tempo segue em frente, não volta jamais. O que retorna são as memórias, incapazes de modificar o passado.
Itamar Vieira Junior, em Coração sem medo
Sua vida é uma composição única e irreproduzível de frações de muitas outras. Ainda que não consiga conceber, você carrega todas as memórias, toda a terra, toda a atmosfera, todos os sentimentos, todos os tempos da vida humana.
Itamar Vieira Junior, em Coração sem medo

Jeferson Tenório

É necessário preservar o avesso, você me disse. Preservar aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo. E por mais que sua vida seja medida pela cor, por mais que suas atitudes e modos de viver estejam sob esse domínio, você, de alguma forma, tem de preservar algo que não se encaixa nisso, entende? Pois entre músculos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único. E é nesse lugar que estão os afetos. E são esses afetos que nos mantêm vivos.
Jeferson Tenório, em O Avesso da Pele (p. 57)
As perspectivas eram sempre estilhaçadas pela realidade.
Jeferson Tenório, em O Avesso da Pele (p. 60)
Pessoas brancas nunca pensam que um menino negro e pobre possa ter outros problemas além da fome e das drogas.
Jeferson Tenório, em O Avesso da Pele (p. 69)
a literatura é só um meio de dizer que estamos vivos e que um dia vamos morrer. Fiquei
Jeferson Tenório, em De onde eles vêm (p. 20)
Você ainda vai aprender que a vida não é silenciosa. A vida é sempre barulhenta. Mesmo quando você tapa os ouvidos, mesmo quando a mudez impera, outro tipo de ruído se impõe: o som do corpo. O silêncio é impossível. O coração é barulhento. E você lembra que tem um corpo que se move sem que você perceba. Lembre- se disso quando for escrever.
Jeferson Tenório, em De onde eles vêm (p. 38)
De algum modo, tornei- me leitor não por causa da leitura em si, mas porque eu gostava daquela imagem: alguém que lê. Era
Jeferson Tenório, em De onde eles vêm (p. 55)
Quando você se torna leitor, viver de maneira harmônica com o mundo é impossível. A impressão é que estamos em constante desacordo com a realidade.
Jeferson Tenório, em De onde eles vêm (p. 183)
O que de certo modo ocasionou uma espécie de amputação de uma parte de mim mas que eu não sabia exatamente qual era. Aos poucos fui me dando conta de que as histórias de aprendizagem são sempre as mesmas: antes você não sabe, depois você passa a saber. A diferença entre as pessoas é justamente o que fazemos com o que a gente passou a saber.
Jeferson Tenório, em De onde eles vêm (p. 183)
E então, pela primeira vez, senti raiva da literatura e dos livros. Sentia- me enganado. A arte havia me passado a perna. Eu estava magoado com a poesia e com tudo que ela me prometera.
Jeferson Tenório, em De onde eles vêm (p. 200)

João Etienne Filho

Isto é meu O ideal de beleza que eu persigo Isto é meu e morrerá comigo. O que houve, o que há e o que haverá De mim para contigo Isto é meu e morrerá comigo. O remorso de ser joio entre o trigo Isto é meu e morrerá comigo. A mágoa que não conto ao mais direto amigo Isto é meu e morrerá comigo. O que me dilacera e finjo que não ligo Isto é meu e morrerá comigo. O que hei de levar ao derradeiro abrigo Isto é meu e morrerá comigo. E o que eu quero que se escreva em meu jazigo Isto é meu e viverá comigo.
João Etienne Filho

Johann Wolfgang von Goethe

Não quero ficar a remoer o mais pequeno mal que o destino me envia, como sempre tenho feito; quero gozar o presente e esquecer o passado.
Johann Wolfgang von Goethe, em A Paixão do Jovem Werther
A espécie humana é de uma desoladora uniformidade; a sua maioria trabalha durante a maior parte do tempo para ganhar a vida, e, se algumas horas lhe ficam, horas tão preciosas, são- lhe de tal forma pesadas que busca todos os meios para as ver passar. Triste destino o da humanidade!
Johann Wolfgang von Goethe, em A Paixão do Jovem Werther
Mas também, diga- se o que se disser, as regras atrofiam o verdadeiro sentimento e a pura expressão da natureza.
Johann Wolfgang von Goethe, em A Paixão do Jovem Werther
Oh! Meus caros amigos! Porque será que o rio do génio transborda tão raras vezes? Porque também tão raras vezes se ergue em ondas impetuosas para lhes abalar as almas timoratas? É porque nas suas duas margens foram instalar- se os homens sensatos e moderados, cujas casinhas, hortas e canteiros de tulipas poderiam ser inundados e, portanto, evitam o perigo opondo diques à torrente e cavando canais para desviarem o curso.
Johann Wolfgang von Goethe, em A Paixão do Jovem Werther
Quando qualquer acidente súbito ou notícia triste nos vem surpreender em meio do prazer, recebemos naturalmente uma bem mais viva impressão do que noutro qualquer momento, não só em razão do contraste, como porque os nossos sentidos, despertando de súbito, são mais fortemente afetados.
Johann Wolfgang von Goethe, em A Paixão do Jovem Werther
Tudo neste mundo é frívolo e sem valor, e aquele que, só para se tornar agradável a outrem, e sem ser por interesse nem por gosto próprio, martirizar o corpo para ganhar dinheiro, honrarias ou coisa semelhante, é, seguramente, um louco.
Johann Wolfgang von Goethe, em A Paixão do Jovem Werther
Eis o que são os homens sensatos!— exclamei eu, sorrindo.— Paixão, embriaguez, loucura! Uh! Gente morigerada
Johann Wolfgang von Goethe, em A Paixão do Jovem Werther
e de sã moral! Censurais sem piedade o ébrio, afastais- vos horrorizados do louco e seguis o vosso caminho, como o sacerdote, ou agradeceis a Deus, como o fariseu, porque Ele vos não fez semelhante a um desses! Tenho- me embriagado por mais de uma vez e as minhas paixões têm atingido a loucura; mas não me lamento por isso, porque compreendi que todo o homem extraordinário que pratique qualquer ação notável ou aparentemente impossível é logo repelido pela multidão e proclamado como ébrio ou como louco. Mas também na vida comum não é menos insuportável, quando alguém realiza uma empresa arrojada e generosa, ouvir em seguida dizer: «Este homem ou está bêbedo, ou é doido!», «Envergonhai- vos, ó vós que não sois doidos nem bêbedos?»
Johann Wolfgang von Goethe, em A Paixão do Jovem Werther
A nossa imaginação, naturalmente inclinada a exaltar- se pela poesia, cria em si uma série de entes, de que nós ficamos sendo os últimos: tudo o que está fora de nós nos parece magnífico; para o mundo dos nossos sonhos afigura- se- nos muito mais perfeito do que é realmente. E isto é muito simples: como sentimos que nos falta qualquer coisa, quaisquer qualidades, supomo- las existentes nos outros, aos quais, ainda por cima, atribuímos as que nós próprios possuímos e mais um certo estoicismo ideal. Deste modo, esses entes completamente felizes e perfeitos não são mais do que uma criação nossa que nos desanima e desalenta se estabelecermos a comparação.
Johann Wolfgang von Goethe, em A Paixão do Jovem Werther
Mas se, pelo contrário, satisfeitos da nossa fraqueza e imperfeição, continuamos atentamente o nosso trabalho, reparamos muitas vezes que avançámos muito mais bordejando do que os outros a toda a força de remos e velas...
Johann Wolfgang von Goethe, em A Paixão do Jovem Werther
Conta- se que há uma raça de cavalos que, quando perseguidos, abrem por instinto a si próprios uma veia com os dentes, para poderem respirar mais livremente. Era também isso que eu queria: romper uma veia para alcançar a liberdade eterna!
Johann Wolfgang von Goethe, em A Paixão do Jovem Werther
Sim, não há dúvida; eu sou apenas um viajante, um peregrino no mundo. Mas vós? Sereis acaso mais do que isso?
Johann Wolfgang von Goethe, em A Paixão do Jovem Werther
Será então destino do homem só ser feliz antes de possuir o uso da razão e depois de o perder?
Johann Wolfgang von Goethe, em A Paixão do Jovem Werther

José Eduardo Agualusa

Se, dormindo, sonhamos dormir, podemos, despertos, acordar dentro de uma realidade mais lúcida?
José Eduardo Agualusa, em Teoria geral do esquecimento (p. 31)
Todos podemos, ao longo de uma vida, conhecer várias existências. Eventualmente, desistências. Aliás, o mais habitual.
José Eduardo Agualusa, em Teoria geral do esquecimento (p. 43)
Pessoas com uma infância feliz, afirmou, costumam ser difíceis de quebrar.
José Eduardo Agualusa, em Teoria geral do esquecimento (p. 51)
Pode levar muito tempo até a confusão passar. — Vai passar, camarada. A maldade também precisa descansar.
José Eduardo Agualusa, em Teoria geral do esquecimento (p. 57)
Tu e os teus amigos enchem a boca com palavras grandes, Justiça Social, Liberdade, Revolução, e entretanto as pessoas definham, adoecem, muitas morrem. Discursos não alimentam. O que o povo precisa é de legumes frescos e de um bom muzonguê, ao menos uma vez por semana. Só me interessam as revoluções que começam por sentar o povo à mesa.
José Eduardo Agualusa, em Teoria geral do esquecimento (p. 69)
Se ainda tivesse espaço, carvão, e paredes disponíveis, poderia escrever uma teoria geral do esquecimento.
José Eduardo Agualusa, em Teoria geral do esquecimento (p. 77)
A fraqueza, a vista que se esvai, isso faz com que tropece nas letras, enquanto leio. Leio páginas tantas vezes lidas, mas elas são já outras. Erro, ao ler, e no erro, por vezes, encontro incríveis acertos.
José Eduardo Agualusa, em Teoria geral do esquecimento (p. 76)
Certas pessoas padecem do medo de ser esquecidas. A essa patologia chama-se atazagorafobia. Com ele sucedia o oposto: vivia no terror de que nunca o esquecessem.
José Eduardo Agualusa, em Teoria geral do esquecimento (p. 141)
Compreendi ao longo dos últimos anos que, para acreditar em Deus, é forçoso confiar na humanidade. Não existe Deus sem humanidade. Continuo a não acreditar, nem em Deus, nem na humanidade.
José Eduardo Agualusa, em Teoria geral do esquecimento (p. 90)
Vão para o paraíso as pessoas de quem os outros sentem a falta. O Paraíso é o espaço que ocupamos no coração dos outros.
José Eduardo Agualusa, em Teoria geral do esquecimento (p. 161)
Um homem com uma boa história é quase um rei.
José Eduardo Agualusa, em Teoria geral do esquecimento (p. 118)
Morremos sempre de desânimo, ou seja, quando nos falha a alma – então morremos.
José Eduardo Agualusa, em Teoria geral do esquecimento (p. 143)
Teria sido tão fácil abrires a porta, tão fácil saíres para a rua e abraçares a vida. Vejo-te a espreitar pelas janelas, aterrorizada, como uma criança que se debruça sobre a cama, na expetativa de monstros. Monstros, mostra-me os monstros: essas pessoas nas ruas. A minha gente. Lamento tanto o tanto que perdeste. Lamento tanto. Mas não é idêntica a ti a infeliz humanidade?
José Eduardo Agualusa, em Teoria geral do esquecimento (p. 173)

Lélia Gonzalez

O lugar em que nos situamos determinará nossa interpretação sobre o duplo fenômeno do racismo e do sexismo. Para nós o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira. Nesse sentido, veremos que sua articulação com o sexismo produz efeitos violentos sobre a mulher negra em particular. Conseqüentemente, o lugar de onde falaremos põe um outro, aquele é que habitualmente nós vínhamos colocando em textos anteriores. E a mudança foi se dando a partir de certas noções que, forçando sua emergência em nosso discurso, nos levaram a retornar a questão da mulher negra numa outra perspectiva. Trata- se das noções de mulata, doméstica e mãe preta.
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 4)
Dizer mais do que sabe, não saber o que diz, dizer outra coisa que não o que se diz, falar para não dizer nada, não são mais, no campo freudiano, os defeitos da língua que justificam a criação das línguas formais.
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 6)
E o risco que assumimos aqui é o do ato de falar com todas as implicações. Exatamente porque temos sido falados, infantilizados (infans, é aquele que não tem fala própria, é a criança que se fala na terceira pessoa, porque falada pelos adultos), que neste trabalho assumimos nossa própria fala. Ou seja, o lixo vai falar, e numa boa. A primeira coisa que a gente percebe, nesse papo de racismo é que todo mundo acha que é natural. Que negro tem mais é que viver na miséria. Por que? Ora, porque ele tem umas qualidades que não estão com nada: irresponsabilidade, incapacidade intelectual, criancice, etc. e tal.
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 7)
Racismo? No Brasil? Quem foi que disse? Isso é coisa de americano. Aqui não tem diferença porque todo mundo é brasileiro acima de tudo, graças a Deus. Preto aqui é bem tratado, tem o mesmo direito que a gente tem.
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 8)
Como consciência a gente entende o lugar do desconhecimento, do encobrimento, da alienação, do esquecimento e até do saber. É por aí que o discurso ideológico se faz presente. Já a memória, a gente considera como o não- saber que conhece, esse lugar de inscrições que restituem uma história que não foi escrita, o lugar da emergência da verdade, dessa verdade que se estrutura como ficção. Consciência exclui o que memória inclui.
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 8)
Branqueamento, não importa em que nível, é o que a consciência cobra da gente, prá mal aceitar a presença da gente, prá mal aceitar a presença da gente. Se a gente parte prá alguma crioulice, ela arma logo um esquema prá gente “se comportar como gente”. E tem muita gente da gente que só embarca nessa.
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 10)
O mito que se trata de reencenar aqui, é o da democracia racial. E é justamente no momento do rito carnavalesco que o mito é atualizado com toda a sua força simbólica. E é nesse instante que a mulher negra transforma- se única e exclusivamente na rainha, na “mulata deusa do meu samba”, “que passa com graça/ fazendo pirraça/ fingindo inocente/ tirando o sossego da gente”. É nos desfiles das escolas de primeiro grupo que a vemos em sua máxima exaltação. Ali,
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 10)
Numa primeira aproximação, constatamos que exerce sua violência simbólica de maneira especial sobre a mulher negra. Pois o outro lado do endeusamento carnavalesco ocorre no cotidiano dessa mulher, no momento em que ela se transfigura na empregada doméstica. É por aí que a culpabilidade engendrada pelo seu endeusamento se exerce com fortes cargas de agressividade. É por aí, também, que se constata que os termos mulata e doméstica são atribuições de um mesmo sujeito. A nomeação vai depender da situação em que somos vistas (2).
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 11)
Mucama. (Do quimbumdo mu’kama ‘amásia escrava’) S. f. Bras. A escrava negra moça e de estimação que era escolhida para auxiliar nos serviços caseiros ou acompanhar pessoas da família e que, por vezes era ama- de- leite. (Os grifos são nossos).
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 12)
constatamos que o engendramento da mulata e da doméstica se fez a partir da figura da mucama. E, pelo visto, não é por acaso que, no Aurélio, a outra função da mucama está entre parênteses. Deve ser ocultada, recalcada, tirada de cena. Mas isso não significa que não esteja aí, com sua malemolência perturbadora. E o momento privilegiado em que sua presença se torna manifesta é justamente o da exaltação mítica da mulata nesse entre parênteses que é o carnaval.
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 14)
Quanto à doméstica, ela nada mais é do que a mucama permitida, a da prestação de bens e serviços, ou seja, o burro de carga que carrega sua família e a dos outros nas costas. Daí, ela ser o lado oposto da exaltação; porque está no cotidiano.E é nesse cotidiano que podemos constatar que somos vistas como domésticas. Melhor exemplo disso são os casos de discriminação de mulheres negras da classe média, cada vez mais crescentes. Não adianta serem “educadas” ou estarem “bem vestidas” (afinal, “boa aparência”, como vemos nos anúncios de emprego é uma categoria “branca”, unicamente atribuível a “brancas” ou “clarinhas”). Os porteiros dos edifícios obrigam- nos a entrar pela porta de serviço, obedecendo instruções dos síndicos brancos (os mesmos que as “comem com os olhos” no carnaval ou nos oba- oba [...] 2 só pode ser doméstica, logo, entrada
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 15)
de serviço. E, pensando bem, entrada de serviço é algo meio maroto, ambíguo, pois sem querer remete a gente prá outras entradas (não é “seu” síndico?). É por aí que a gente saca que não dá prá fingir que a outra função da mucama tenha sido esquecida.
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 15)
As condições de existência material da comunidade negra remetem a condicionamentos psicológicos que têm que ser atacados e desmascarados. Os diferentes índices de dominação das diferentes formas de produção econômica existentes no Brasil parecem coincidir num mesmo ponto: a reinterpretação da teoria do “lugar natural” de Aristóteles. Desde a época colonial aos dias de hoje, percebe- se uma evidente separação quanto ao espaço físico ocupado por dominadores e dominados. O lugar natural do grupo branco dominante são moradias saudáveis, situadas nos mais belos recantos da cidade ou do campo e devidamente protegidas por diferentes formas de policiamento que vão desde os feitores, capitães de mato, capangas, etc, até à polícia formalmente constituída. Desde a casa grande e do sobrado até aos belos edifícios e residências atuais, o critério tem sido o mesmo. Já o lugar natural do negro é o oposto, evidentemente: da senzala às favelas, cortiços, invasões, alagados e conjuntos “habitacionais” (...) dos dias de hoje, o critério tem sido simetricamente o mesmo: a divisão racial do espaço (...) No caso do grupo dominado o que se constata são famílias inteiras amontoadas em cubículos cujas condições de higiene e saúde são as mais precárias. Além disso, aqui também se tem a presença policial; só que não é para proteger, mas para reprimir, violentar e amedrontar. É por aí que se entende porque o outro lugar natural do negro sejam as prisões. A sistemática repressão policial, dado o seu caráter racista, tem por objetivo próximo a instauração da submissão
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 18)
Acontece que a mucama “permitida”, a empregada doméstica, só faz cutucar a culpabilidade branca porque ela continua sendo a mucama com todas as letras. Por isso ela é violenta e concretamente reprimida. Os exemplos não faltam nesse sentido; se a gente articular divisão racial e sexual de trabalho fica até simples. Por que será que ela só desempenha atividades que não implicam em “lidar com o público”? Ou seja, em atividades onde não pode ser vista? Por que os anúncios de emprego falam tanto em “boa aparência”? Por que será que, nas casas das madames, ela só pode ser cozinheira, arrumadeira ou faxineira e raramente copeira? Por que é “natural” que ela seja a servente nas escolas, supermercados, hospitais, etc e tal?
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 19)
É por aí que a gente entende porque dizem certas coisas, pensando que estão xingando a gente. Tem uma música antiga chamada “Nêga do cabelo duro” que mostra direitinho porque eles querem que o cabelo da gente fique bom, liso e mole, né? É por isso que dizem que a gente tem beiços em vez de lábios, fornalha em vez de nariz e cabelo ruim (porque é duro). E quando querem elogiar a gente dizem que a gente tem feições finas (e fino se opõe a grosso, né?). E tem gente que acredita tanto nisso que acaba usando creme prá clarear, esticando os cabelos, virando leidi e ficando com vergonha de ser preta. Pura besteira. Se bobear, a gente nem tem que se defender com os xingamentos que se referem diretamente ao fato da gente ser preta. E a gente pode até dar um exemplo que põe os pintos nos is.
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 21)
É interessante constatar como, através da figura da “mãe- preta”, a verdade surge da equivocação (Lacan, 1979). Exatamente essa figura para a qual se dá uma colher de chá é quem vai dar a rasteira na raça dominante. É através dela que o “obscuro objeto do desejo” (o filme do Buñuel), em português, acaba se transformando na “negra vontade de comer carne” na boca da moçada branca que fala português. O que a gente quer dizer é que ela não é esse exemplo extraordinário de amor e dedicação totais como querem os brancos e nem tampouco essa entreguista, essa traidora da raça como quem alguns negros muito apressados em seu julgamento. Ela, simplesmente, é a mãe. É isso mesmo, é a mãe. Porque a branca, na verdade, é a outra. Se assim não é, a gente pergunta: que é que amamenta, que dá banho, que limpa cocô, que põe prá dormir, que acorda de noite prá cuidar, que ensina a falar, que conta história e por aí afora? É a mãe, não é? Pois então. Ela é a mãe nesse barato doido da cultura brasileira. Enquanto mucama, é a mulher; então “bá”, é a mãe. A branca, a chamada legítima esposa, é justamente a outra que, por impossível que pareça, só serve prá parir os filhos do senhor. Não exerce a função materna. Esta é efetuada pela negra. Por isso a “mãe preta” é a mãe. E quando a gente fala em função materna, a gente tá dizendo que a mãe preta, ao exercê- la, passou todos os valores que lhe diziam respeito prá criança brasileira, como diz Caio Prado Júnior. Essa criança, esse infans, é a dita cultura brasileira, cuja língua é o pretuguês. A função materna diz respeito à internalização de valores, ao ensino da língua materna e a uma série de outras coisas
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 23)
mais que vão fazer parte do imaginário da gente (Gonzalez, 1979c). Ela passa prá gente esse mundo de coisas que a gente vai chamar de linguagem. E graças a ela, ao que ela passa, a gente entra na ordem da cultura, exatamente porque é ela quem nomeia o pai. Por ao a gente entende porque, hoje, ninguém quer saber mais de babá preta, só vale portuguesa. Só que é um pouco tarde, né? A rasteira já está dada.
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 24)
M. D. Magno tem um texto que impressionou a gente, exatamente porque ele discute isso Duvida da latinidade brasileira afirmando que este barato chamado Brasil nada mais é do que uma América Africana, ou seja, uma Améfrica Ladina. Prá quem saca de crioulo, o texto aponta prá uma mina de ouro que a boçalidade europeizante faz tudo prá esconder, prá tirar de cena.
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 24)
Embora falando, a gente, como todo mundo, tá numa de escritura. Por isso a gente vai tentar apontar praquele que tascou sua assinatura, sua marca, seu selo (aparentemente sem sê- lo), seu jamega, seu sobre- nome como pai dessa “adolescente” neurótica que a gente conhece como cultura brasileira. E quando se fala de pai tá se falando de função simbólica por excelência. Já diz o ditado popular que “Filhos de minha filha, meus netos são; filhos do meu filho, serão ou não”. Função paterna é isso aí. É muito mais questão de assumir do que de ter certeza. Ela não é outra coisa senão a função de ausentificação que promove a castração. É por aí, graças a Frege, que a gente pode dizer que, como o zero, ela se caracteriza como a escrita de uma ausência. É o nome de uma ausência. O nome dessa ausência, digamos, é 237 o nome que se atribui à castração.
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 25)
É por essa via que dá prá entender uma série de falas contra o negro e que são como modos de ocultação, de não assunção da própria castração. Por que será que dizem que preto correndo é ladrão? Ladrão de que? Talvez de uma onipotência fálica. Por que será que
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 26)
dizem que preto quando não caga na entrada, caga na saída? Por que será que um dos instrumentos de tortura utilizados pela polícia da Baixada é chamado de “mulata assanhada” (cabo de vassoura que introduzem no ânus dos presos?). Por que será que tudo aquilo que o incomoda é chamado de coisa de preto? Por que será que ao ler o Aurélio, no verbete negro, a gente encontra uma polissemia marcada pelo pejorativo e pelo negativo? Por que será que “seu” Bispo fica tão apavorado com a ameaça da africanização do Brasil? Por que será que ele chama isso de regressão? Por que vivem dizendo prá gente se por no lugar da gente? Que lugar é esse? Por que será que o racismo brasileiro tem vergonha de si mesmo? Por que será que se tem “o preconceito de não ter preconceito” e ao mesmo tempo se acha natural que o lugar do negro seja nas favelas, cortiços e alagados? É engraçado como eles gozam a gente quando a gente diz que é Framengo. Chamam a gente de ignorante dizendo que a gente fala errado. E de repente ignoram que a presença desse r no lugar do l, nada mais é que a marca linguística de um idioma africano, no qual o l inexiste. Afinal, quem que é o ignorante? Ao mesmo tempo, acham o maior barato a fala dita brasileira, que corta os erres dos infinitivos verbais, que condensa você em cê, o está em tá e por aí afora. Não sacam que tão falando pretuguês. E por falar em pretuguês, é importante ressaltar que o objeto parcial por excelência da cultura brasileira é a bunda (esse termo provém do quimbundo que, por sua vez, e juntamente com o ambundo, provém do tronco linguístico bantu que “casualmente” se chama bunda). E dizem que significante não marca... Marca bobeira quem pensa assim (6). De repente bunda é língua, é linguagem, é sentido é coisa. De repente é desbundante perceber que o discurso da consciência, o discurso do poder dominante, quer fazer a gente acreditar que a gente é tudo brasileiro, e de ascendência européia, muito civilizado, etc e tal. Só que na hora de mostrar o que eles chamam de “coisas nossas”, é um tal de falar de samba, tutu, maracatu, frevo, candomblé, umbanda, escola de samba e por aí afora. Quando querem falar do
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 27)
239 charme, da beleza da mulher brasileira, pinta logo a imagem de gente queimada da praia (7), de andar rebolativo, de meneios no olhar, de requebros e faceirices. E culminando, pinta este orgulho besta de dizer que a gente é uma democracia racial. Só que quando a negrada diz que não é, caem de pau em cima da gente, xingando a gente de racista. Contraditório, né? Na verdade, para além de outras razões, reagem dessa forma justamente porque a gente pôs o dedo na ferida deles, a gente diz que o rei tá pelado. E o corpo do rei é preto e o rei é Escravo.
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 29)
A dialética do Senhor e do Escravo dá prá explicar o barato. E é justamente no carnaval que o reinado desse rei manifestadamente se dá. A gente sabe que carnaval é festa cristã que ocorre num espaço cristão, mas aquilo que chamamos do Carnaval Brasileiro possui, na sua especificidade, um aspecto de subversão, de ultrapassagem de limites permitidos pelo discurso dominante, pela ordem da consciência. Essa subversão na especificidade só tem a ver com o negro. Não é por acaso que nesse momento, a gente sai das colunas policiais e é promovida a capa de revista, a principal focalizada pela tevê, pelo cinema e por aí afora. De repente, a gente deixa de ser marginal prá se transformar no símbolo da alegria, da descontração, do encanto especial do povo dessa terra chamada Brasil. É nesse momento que Oropa, França e Bahia são muito mais Bahia do que outra coisa. É nesse momento que a negrada vai prá rua viver o seu gozo e fazer a sua gozação. Expressões como: botá o bloco na rua, botá prá frevê (que virou nome de dança nas fervuras do carnaval nordestino), botá prá derretê, deixa sangrá, dá um suó, etc são prova disso. É também nesse momento que os não- negros saúdam e abrem passagem para o Mestre- Escravo, para o senhor, no reconhecimento manifesto de sua realeza. É nesse momento que a exaltação da cultura americana se dá através da mulata, desse “produto de exportação”
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 29)
É também no carnaval que se tem a exaltação do mito da democracia racial, exatamente porque nesse curto período de manifestação do seu reinado o Senhor- Escravo mostra que ele sim, transa e conhece a democracia racial. Exatamente por isso que no resto do ano há reforço do mito enquanto tal, justamente por aqueles que não querem olhar para onde ele aponta. A verdade que nele se oculta, e que só se manifesta durante o reinado do Escravo, tem que ser recalcada, tirada de cena, ficando em seu lugar as ilusões que consciência cria para si mesma. Senão como é que se explciaria, também, o fato dos brancos proibirem a presença da gente nesses lugares que eles chamam de chique e da gente não ter dessas frescuras com eles? E é querendo aprofundar sua sacação que Magno se indaga se Na dialética Senhor- Escravo, porque é a dialética da nossa fundação (...), aonde sempre o senhor se apropria do saber do escravo, a inseminação, por vias desse saber apropriado, como marca que vai dar em relação com o S2, não foi produzida pelo escravo, que na dialética, retoma o lugar do senhor, subrecepticiamente, como todo escravo. (...) quer dizer, o lugar do senhor era de outrem, mas a produção e a apropriação do lugar- tenente de nome do pai veio marcada, afinal, por esse elemento africano. Diferentes lugares da cultura brasileira são caracterizados pela presença desse elemento. No caso da macumba, por exemplo, que se atente para os 31 de dezembro nas praiais do Rio de Janeiro, para os despachos que se multiplicam em cada esquina (ou encruzilhada) de metrópoles como Rio e São Paulo, e isto sem falar de futebol. Que se atente para as festas de largo em Salvador (tão ameaçadoras para o inseguro europocentrista do Bispo de lá). Mas que se atente para os hospícios, as prisões, e as favelas, como lugares privilegiados da culpabilidade enquanto dominação e repressão. Que se atente para as práticas dessa culpabilidade através da chamada ação policial. Só porque o Significante- Mestre foi roubado pelo escravo que se impôs como senhor. Que se atente, por fim, pro samba da Portela quando fala de Macunaíma: “Vou m’embora, vou m’embora/ Eu aqui volto mais não/ Vou morar no infinito e virar constelação”. E o que significa constelação, senão lugar de inscrição, de marcação do 241 Nome do Pai? Se a batalha discursiva, em termos de cultura brasileira, foi ganha pelo negro, que terá ocorrido com aquele que segundo os cálculos deles, ocuparia o lugar do senhor? Estamos falando do europeu, do branco, do dominador. Desbancando do lugar do pai ele só pode ser, como diz o Magno, o tio ou o corno; do mesmo modo que a européia acabou sendo a outra.
Lélia Gonzalez, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira(p. 30)

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.

Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez. A monotonia das vidas vulgares é, aparentemente, pavorosa. Estou almoçando neste restaurante vulgar, e olho, para além do balcão, para a figura do cozinheiro, e, aqui ao pé de mim, para o criado já velho que me serve, como há trinta anos, creio, serve nesta casa. Que vidas são as destes homens? Há quarenta anos que aquela figura de homem vive quase todo o dia numa cozinha; tem umas breves folgas; dorme relativamente poucas horas; vai de vez em quando à terra, de onde volta sem hesitação e sem pena; armazena lentamente dinheiro lento, que se não propõe gastar; adoeceria se tivesse que retirar-se da sua cozinha (definitivamente) para os campos que comprou na Galiza; está em Lisboa há quarenta anos e nunca foi sequer à Rotunda, nem a um teatro, e há um só dia de Coliseu — palhaços nos vestígios interiores da sua vida. Casou não sei como nem porquê, tem quatro filhos e uma filha, e o seu sorriso, ao debruçar-se de lá do balcão em direcção a onde eu estou, exprime uma grande, uma solene, uma contente felicidade. E ele não disfarça, nem que razão para que disfarce. Se a sente é porque verdadeiramente a tem. E o criado velho que me serve, e que acaba de depor ante mim o que deve ser o milionésimo café da sua deposição de café em mesas? Tem a mesma vida que a do cozinheiro, apenas com a diferença de quatro ou cinco metros — os que distam da localização de um na cozinha para a localização do outro na parte de fora da casa de pasto. No resto, tem dois filhos apenas, vai mais vezes à Galiza, já viu mais Lisboa que o outro, e conhece o Porto, onde esteve quatro anos, e é igualmente feliz. Revejo, com um pasmo assustado, o panorama destas vidas, e descubro, ao ir ter horror, pena, revolta delas, que quem não tem nem horror, nem pena, nem revolta, são os próprios que teriam direito a tê-las, são os mesmos que vivem essas vidas. E o erro central da imaginação literária: supor que os outros são nós e que devem sentir como nós. Mas, felizmente para a humanidade, cada homem é só quem é, sendo dado ao génio, apenas, o ser mais alguns outros. Tudo, afinal, é dado em relação àquilo em que é dado. Um pequeno incidente de rua, que chama à porta o cozinheiro desta casa, entretem-no mais que me entretem a mim a contemplação da ideia mais original, a leitura do melhor livro, o mais grato dos sonhos inúteis. E, se a vida é essencialmente monotonia, o facto é que ele escapou à monotonia mais do que eu. E escapa à monotonia mais facilmente do que eu. A verdade não está com ele nem comigo, porque não está com ninguém; mas a felicidade está com ele deveras. Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha. O caçador de leões não tem aventura para além do terceiro leão. Para o meu cozinheiro monótono uma cena de bofetadas na rua tem sempre qualquer coisa de apocalipse modesto. Quem nunca saiu de Lisboa viaja no infinito no carro até Benfica, e, se um dia vai a Sintra, sente que viajou até Marte. O viajante que percorreu toda a terra não encontra de cinco mil milhas em diante novidade, porque encontra só coisas novas; outra vez a novidade, a velhice do eterno novo, mas o conceito abstracto de novidade ficou no mar com a segunda delas. Um homem pode, se tiver a verdadeira sabedoria, gozar o espectáculo inteiro do mundo numa cadeira, sem saber ler, sem falar com alguém, só com o uso dos sentidos e a alma não saber ser triste. Monotonizar a existência, para que ela não seja monótona. Tornar anódino o quotidiano, para que a mais pequena coisa seja uma distracção. No meio do meu trabalho de todos os dias, baço, igual e inútil, surgem-me visões de fuga, vestígios sonhados de ilhas longínquas, festas em áleas de parques de outras eras, outras paisagens, outros sentimentos, outro eu. Mas reconheço, entre dois lançamentos, que se tivesse tudo isso, nada disso seria meu. Mais vale, na verdade, o patrão Vasques que os Reis de Sonho; mais vale, na verdade, o escritório da Rua dos Douradores do que as grandes áleas dos parques impossíveis. Tendo o patrão Vasques, posso gozar o sonho dos Reis de Sonho; tendo o escritório da Rua dos Douradores, posso gozar a visão interior das paisagens que não existem. Mas se tivesse os Reis de Sonho, que me ficaria para sonhar? Se tivesse as paisagens impossíveis, que me restaria de impossível? A monotonia, a igualdade baça dos dias mesmos, a nenhuma diferença de hoje para ontem — isto me fique sempre, com a alma desperta para gozar da mosca que me distrai, passando casual ante meus olhos, da gargalhada que se ergue volúvel da rua incerta, a vasta libertação de serem horas de fechar o escritório, o repouso infinito de um dia feriado. Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar. O ajudante de guarda-livros pode sonhar-se imperador romano; o Rei de Inglaterra não o pode fazer, porque o Rei de Inglaterra está privado de ser, em sonhos, outro rei que não o rei que é. A sua realidade não o deixa sentir.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.

Manoel de Barros

Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.
Manoel de Barros

Mário Quintana

Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.
Mário Quintana

Michel Desmurget

Chegou a hora, por assim dizer, de recolocar o livro em seu devido lugar e demonstrar que a leitura “por prazer”* de maneira alguma constitui uma prática elitista, reservada a alguns privilegiados eruditos, mas sim uma necessidade urgente de desenvolvimento para nossas crianças.
Michel Desmurget, em Faça-os Ler! Para não Criar Cretinos Digitais
“Razão, sensibilidade, imaginação, a leitura desenvolve todas essas faculdades e, ao mesmo tempo, aguça- as; ela lhes confere ao mesmo tempo mais amplitude e mais sutileza. Devemos a ela tesouros incalculáveis. [...] Leiam, leiam muito, vocês nunca lerão demais. [...] É preciso ler quando se é jovem. É preciso ler quando se envelhece”.
Michel Desmurget, em Faça-os Ler! Para não Criar Cretinos Digitais
Stephen Krashen
Michel Desmurget, em Faça-os Ler! Para não Criar Cretinos Digitais
Para esse linguista, “quando as crianças leem por prazer, quando se tornam ‘viciadas em livros’, elas adquirem, involuntariamente e sem esforço consciente, quase todas as chamadas habilidades linguísticas que tanto preocupam as pessoas: elas se tornam leitoras eficazes, adquirem um amplo vocabulário, desenvolvem a capacidade de compreender e usar construções gramaticais complexas, desenvolvem um bom estilo de escrita e se tornam boas em ortografia (mas não necessariamente perfeitas).
Michel Desmurget, em Faça-os Ler! Para não Criar Cretinos Digitais
Embora a leitura livre e voluntária por si só não garanta os níveis mais altos de alfabetização, ela garante, no mínimo, um nível aceitável. Ela também fornece as habilidades necessárias para abordar textos exigentes. Sem ela, suspeito de que as crianças simplesmente não tenham nenhuma chance”.
Michel Desmurget, em Faça-os Ler! Para não Criar Cretinos Digitais
pesquisas sugerem que a leitura compartilhada é significativamente mais comum entre as meninas do que entre os meninos.
Michel Desmurget, em Faça-os Ler! Para não Criar Cretinos Digitais
quadrinhos. 65 Em última análise, podemos afirmar que nossas crianças leem pouco e, quando leem, suas preferências tendem a se voltar para revistas, mangás ou quadrinhos, em vez de livros. Dizer isso não é estabelecer uma hierarquia de valores entre essas atividades; cada um lê o que quiser. É apenas ressaltar que esses conteúdos não têm as mesmas características nem os mesmos impactos: os potenciais benefícios de um romance, uma revista de moda ou um mangá são estruturalmente diferentes.
Michel Desmurget, em Faça-os Ler! Para não Criar Cretinos Digitais
se basta abrir um livro de receitas ou um dicionário uma vez por ano para ser considerado um “leitor”, então de fato podemos estimar que os jovens são todos (ou quase todos) leitores. Em contrapartida, se dissermos que um leitor é alguém que lê assiduamente (mesmo de forma ampla: livros, quadrinhos, revistas etc.), então precisamos admitir que a porcentagem de adeptos é extremamente minoritária nas novas gerações. Dizer isso não é um clichê “declinista”, é uma realidade trágica.
Michel Desmurget, em Faça-os Ler! Para não Criar Cretinos Digitais
porque os estudantes de hoje serão os professores de amanhã. Em outras palavras, como destacam os autores de um artigo científico sobre o assunto, “o cenário mais alarmante que emerge da pesquisa talvez se refira à possibilidade de um ciclo vicioso de ensino, produzindo um grande número de estudantes sem inspiração, muitos dos quais se tornarão professores que lutam para despertar nos alunos um amor pela leitura que eles [os professores] nunca conheceram”. 87 Em consonância com esse receio, foi demonstrado que os professores que mais valorizam a literatura também são os mais capazes de ensiná- la e transmitir o gosto pela leitura aos alunos. 88- 90 Além disso, foi estabelecido que o declínio geracional na leitura também afetou a esfera educacional. 91 Para confirmar isso, os pesquisadores compararam os hábitos de dois grupos de professores titulares (com idade média de 40 anos) e estagiários (com idade média de 25 anos). Os resultados indicaram que os professores titulares haviam lido 1,3 vezes mais livros infantojuvenis e 2,7 vezes mais romances de ficção do que seus colegas estagiários.
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Este capítulo mostra que crianças e adolescentes gostam de ler por prazer. No entanto, na prática, eles não apenas leem muito pouco como também leem muito menos do que as gerações anteriores. Essa dinâmica resulta principalmente da concorrência inabalável das telas recreativas. Além disso, os usos atuais se concentram menos em livros clássicos e mais em revistas, mangás e quadrinhos. Esse abandono da leitura é tão pronunciado que ecoa até o topo da pirâmide escolar. Até mesmo os estudantes universitários estão lendo menos; a ponto de seus professores estarem cada vez mais inclinados a substituir materiais de aprendizagem escritos por conteúdos de áudio e vídeo. Uma espiral sombria, considerando que os estudantes de hoje se tornarão os professores que, amanhã, terão de transmitir a arte e o gosto da leitura a nossos filhos.
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Para aprender a ler, é preciso ler. Mais precisamente, como veremos em detalhes na segunda parte deste livro, para aprender a ler, é necessário ir muito além das obrigações escolares. Uma criança que não lê em casa, durante seu tempo livre, nunca se tornará um verdadeiro leitor. Ela eventualmente dominará a decodificação e a compreensão dos textos mais comuns, mas permanecerá irrevogavelmente incapaz de penetrar na imensa fertilidade dos conteúdos complexos.
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Como explica François Dubet, sociólogo e especialista em questões educacionais, é preciso evitar confundir “o nível dos diplomas e sua utilidade”. 96 Em outras palavras, não é porque a população está cada vez mais diplomada que os jovens estão cada vez mais proficientes, especialmente em questões linguísticas.
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Primeira, o número de jovens com dificuldades expressivas na leitura é significativo na França continental e totalmente alarmante nos territórios ultramarinos. Segunda, não se pode julgar as habilidades linguísticas (ou intelectuais) de um indivíduo com base nos diplomas que ele possui: um jovem pode estar em situação de quase analfabetismo e ainda assim conseguir um diploma de ensino médio, profissionalizante ou técnico. Terceira, nada nos dados aqui apresentados permite determinar a proporção de leitores verdadeiramente “eficazes”, e é completamente extravagante afirmar que essa proporção seja de 80%.
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para três quartos dos adolescentes, a leitura se limita a um exercício de comunicação pragmática. Essa função utilitária é certamente importante; mas como não se preocupar quando sua hegemonia beira o monopólio? Ler também serve, especialmente (!), para refletir e pensar, descobrir e imaginar, compreender e explicar. Nesse sentido, a maioria de nossas crianças são, para citar o título de uma obra magnífica do filósofo François- Xavier Bellamy, “deserdadas”.
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“Você não precisa queimar livros para destruir uma cultura, basta as pessoas pararem de lê-
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No final, portanto, torna- se evidente que mais de 70% dos estudantes do fim do ensino médio na França têm um nível fraco em leitura, entre os quais 44% têm um nível tristemente baixo. Podemos encontrar consolo dizendo que essas taxas são grosseiramente comparáveis às dos jovens norte- americanos e até um pouco melhores que a média dos países da OCDE. No entanto, também podemos nos preocupar com as consequências culturais, cívicas e econômicas dessas incapacidades. Sabe- se, por exemplo, que as habilidades intelectuais da população têm um impacto positivo e significativo na saúde econômica de um país. 140- 142 Como indicado recentemente em um artigo de síntese: “O crescimento econômico é fortemente afetado pelo capital de conhecimento dos trabalhadores”. 143 Uma conclusão bastante preocupante à luz do triste desempenho de muitos países ocidentais... especialmente quando comparados à concorrência de algumas nações asiáticas, lideradas pela China.
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Nossas crianças, como mencionamos, estão lendo cada vez menos, enquanto passam cada vez mais tempo se entretendo com telas. Isso tem consequências significativas, repetimos, em suas habilidades de linguagem, atenção e, portanto, em seu desempenho escolar.
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importante destacar que o colapso das habilidades ortográficas dos alunos ao longo dos últimos 35 anos não é de forma alguma insignificante. Ele reflete um comprometimento geral das competências linguísticas.
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Assim, quanto mais competente é um leitor, mais rápida é sua velocidade de leitura e mais confiável é sua ortografia. No entanto, ao longo das últimas décadas, essas variáveis, mensuráveis com facilidade e precisão, tiveram uma evolução muito negativa. Em média, nossos filhos leem mais devagar e cometem mais erros de ortografia do que seus predecessores. Esses dados claramente sustentam a tese de uma queda nos níveis de língua e leitura ao longo dos últimos 30 a 50 anos.
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O capítulo anterior mostrou que nossas crianças e adolescentes estão lendo cada vez menos. Este capítulo indica, e esta é uma consequência inevitável do primeiro ponto, que elas também estão lendo cada vez pior. Nos últimos cinquenta anos, o nível de leitura de nossos filhos tem incontestavelmente diminuído, chegando a um ponto alarmante nos dias de hoje. A sociedade se adaptou, reduzindo as expectativas escolares, a complexidade dos manuais e a riqueza vocabular dos livros infantojuvenis. Também foram implementados paliativos semânticos para disfarçar a destruição, nomeando, por exemplo, como “eficaz” qualquer leitor que não se enquadre na categoria de quase analfabeto. Essas observações valem para todos os países da OCDE. Algumas nações, incluindo a China, estão se saindo muito melhor. Avaliação após avaliação, os estudantes do Império do Meio ridicularizam seus colegas não asiáticos de maneira espantosa. Essa superioridade reflete, por um lado, a existência de escolhas políticas fortes e autoritárias (como a regulamentação rigorosa do uso recreativo de dispositivos eletrônicos) e, por outro lado, como demonstra a manutenção de um alto nível de desempenho entre as crianças chinesas que emigraram para outros países, a persistência de valores culturais firmemente enraizados na disciplina, na excelência, no trabalho e no sucesso escolar. Valores cada vez mais distantes de nossos estilos de vida ocidentais, hoje voltados para o lazer, o consumo e o lucro (se necessário, em detrimento das crianças e de seu desenvolvimento). Será tarde demais? Será que perdemos definitivamente a batalha da inteligência? Sinceramente, não sei. Mas uma coisa é certa: essa tendência nunca poderá ser revertida se não conseguirmos, em primeiro lugar, fazer recuar a atual orgia de telas recreativas, que destroem à saturação a inteligência de nossas crianças, e, em segundo lugar, reabilitar a leitura, cujos benefícios educacionais são tão profundos quanto insubstituíveis.
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“para se tornar um leitor competente, é necessário ter a oportunidade de ler”.
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Seu objetivo é simples: demonstrar que, para se tornar um leitor proficiente, é necessário ler; e é necessário ler muito. Nesse campo, milagres não existem, e é inútil esperar que essa habilidade caia subitamente na cabeça da criança, como o Espírito Santo caiu um dia sobre a dos apóstolos.
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Um leitor é, acima de tudo, alguém que adquiriu vocabulário e conhecimento suficientes para poder acessar, com fruição, uma ampla gama de livros, textos e artigos escritos para o “homem honesto”.***,
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Para ser um bom leitor generalista, seu filho precisa ter um conhecimento do mundo com um milhão de quilômetros de largura e poucos centímetros de profundidade”. 70 Mas o cérebro só pode adquirir essa bagagem ao ser lenta e pacientemente confrontado ao mundo escrito.
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enganosas. A decodificação competente não garante de forma alguma um acesso à compreensão precisa,
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“Ler”, ele declarou em uma entrevista, “é compreender; aquele que não compreende não lê”. 76
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confundir leitura com decodificação não é apenas enganoso; é prejudicial. Isso leva os pais a superestimar a habilidade de seus filhos e a acreditar que a criança sabe ler quando, na verdade, está apenas arranhando os rudimentos do bê- á- bá. Esse sentimento de qualificação leva muitas famílias a diminuir seus esforços de auxílio, acreditando, por exemplo, como mencionamos na primeira parte, que a leitura compartilhada se torne desnecessária a partir do primário, porque supostamente a criança já lê sozinha.
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“degringolada do quarto ano”. O princípio é o seguinte: muitos alunos, principalmente aqueles de meios menos privilegiados, têm níveis de leitura razoavelmente satisfatórios e adequados às expectativas até o terceiro ano do ensino fundamental; então, de repente, as coisas saem dos trilhos, e essas crianças começam a demonstrar atrasos significativos que só aumentam com o tempo. 67- 68,77 A explicação mais comum sugere que os primeiros anos escolares são dedicados à aprendizagem da decodificação, enquanto os anos seguintes se concentram cada vez mais na compreensão. Isso significa que, no início, as palavras utilizadas são propositalmente simples, apresentadas isoladamente ou em frases curtas. Depois, aos poucos, as coisas se tornam mais desafiadoras, o vocabulário deixa o campo comum, as frases ficam mais longas e as declarações se tornam mais complexas. 78 No quarto ano, o desafio se torna maior, e as crianças de meios desfavorecidos não têm mais os pré- requisitos culturais e linguísticos necessários para se sair bem. É nesse momento que suas dificuldades se tornam evidentes.
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“As palavras usadas a partir do quarto ano são menos familiares. Embora sua linguagem parecesse suficiente para os primeiros três anos, as crianças não estavam preparadas para lidar com o desafio do número maior de palavras abstratas, técnicas e literárias características dos materiais de leitura do quarto ano e posteriores”.
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Se a “entrada” visual de decodificação leva a um deserto lexical e cultural, ela se revelará tão útil quanto uma lâmpada para um cego. Parece imperativo, portanto, desde a mais tenra idade, estimular abundantemente as redes da linguagem para prepará- las para as especificidades do mundo escrito. 37,64 É necessário manter essas redes literalmente conectadas e abastecê- las massivamente, por meio da via auditiva das comunicações orais. É preciso (repitamos) ler para a criança, contar- lhe histórias, acompanhá- la quando ela começa a ler sozinha.
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escrita é uma linguagem à parte, mais rica, diversificada e sutil do que a oral.
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familiares, para permitir a apropriação dessa linguagem. Para atingir esse objetivo, é necessário multiplicar os episódios de leitura compartilhada. É aqui que entra o ambiente familiar.
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Os professores se ocupam da decodificação e costumam fazê- lo muito bem... quanto ao resto, ou os pais entram em ação ou a criança fica desamparada. A escola sabe formar decodificadores. Mas é a família, em grande parte, que forma leitores.
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se aprender a ler é demorado e difícil, isso se deve em grande parte ao fato de que a evolução humana não teve tempo suficiente para incorporar a leitura ao núcleo duro de transmissões hereditárias. Para remodelar seus padrões neuronais e construir redes adaptadas, o cérebro precisa absorver quantidades industriais de dados.
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provérbio ancestral de que somente os ricos conseguem empréstimos.
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embora os seres humanos não tenham sido naturalmente feitos para a leitura, eles são capazes de atingir um nível espetacular de habilidade. Isso levanta a questão dos mecanismos envolvidos nesse processo. Em outras palavras, como nosso cérebro consegue ler 280 palavras por minuto com total compreensão de seu significado e, especialmente, como esse estado de especialização se desenvolve?
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dentro da área cerebral de reconhecimento de formas, a leitura começa colonizando um subterritório específico, fortemente interconectado com as redes visuais e linguísticas; 153 a seguir, ela transforma esse subterritório em uma área de reconhecimento de letras e palavras.
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Decodificar não é gerar conhecimento, é reconhecê- lo. Portanto, cada encontro com o mundo escrito melhora o desempenho, permitindo que a VWFA enriqueça seu algoritmo de identificação de palavras.
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O que devemos destacar dessas observações é que a qualidade da decodificação depende da riqueza do modelo estatístico disponível, riqueza que, por sua vez, resulta do volume de prática.
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Nesse sentido, podemos considerar a VWFA como uma espécie de grande caixa de correio, construída pacientemente, onde estão armazenados todos os nossos conhecimentos adquiridos sobre os caracteres e suas possíveis combinações ortográficas. Isso permite otimizar a velocidade e a precisão do processo de reconhecimento visual de palavras. Mas isso não é tudo. Com a experiência, a VWFA não apenas aperfeiçoa seu modo operatório como também o transforma, adicionando um novo caminho à sua arquitetura inicial. O leitor qualificado não apenas decodifica as palavras mais rapidamente que o iniciante, ele em grande parte também as decodifica de maneira diferente.
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Enfim, simplificar a ortografia não é apenas uma questão complicada. Quando pensamos seriamente sobre isso, é nada menos que impossível; porque, para consegui- lo, seria necessário modificar a língua como um todo. Os “progressistas”, é claro, sempre podem exaltar as virtudes do corretor ortográfico e exigir a abolição da regra de concordância do particípio passado com o verbo auxiliar “ter”... 202 mas não tenho certeza de que isso mude muito, pois, mais uma vez, o problema não está no infeliz esquecimento de uma concordância, mas na íntima ligação da ortografia com a língua e a leitura.
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“em questões ortográficas, nada é gratuito. A simplicidade em um campo é compensada pela dificuldade em outro”. 33 As crianças francesas e inglesas levam anos para adquirir um domínio satisfatório da decodificação. Mas, ao contrário do que sugerem todos os entusiastas do menor esforço, esse investimento não é inútil ou absurdo. Ele atesta uma riqueza ortográfica, por certo difícil de assimilar, mas portadora de indicadores estruturais que favorecem muito a compreensão de um texto. As pesquisas mais sólidas confirmam que as línguas opacas complicam a aquisição da decodificação a curto prazo, mas favorecem a fluência da leitura a longo prazo.
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O ensino do bê- á- bá cabe à escola, e isso será discutido mais amplamente na próxima parte. No entanto, as famílias podem ajudar. No início, elas podem apoiar a aquisição relendo os textos da escola com os alunos. Em seguida, assim que as primeiras bases forem estabelecidas, elas podem incentivar a criança a ler ou, melhor ainda, podem acompanhá- la na leitura.
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quanto mais a criança lê, mais suas habilidades de decodificação se desenvolvem e se automatizam (por meio sobretudo da consolidação de representações ortográficas); o que permite que os recursos cerebrais progressivamente se concentrem na compreensão e no prazer da leitura.
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é a compreensão que, em última instância, decide tudo. Ela não é uma prioridade na leitura, ela é seu único objetivo. Ler, como já dissemos, não é apenas decodificar, é compreender; e, para compreender, dois elementos são particularmente importantes: a linguagem e o conhecimento.
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Os resultados mostram, de maneira unânime e consensual, que a generosidade linguística dos mundos escritos supera significativamente a dos universos orais.*,
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a escrita cria um mundo à parte, saturado de sintaxes complexas, termos raros e conjugações incomuns. Há mais riqueza linguística nos álbuns pré- escolares mais simples do que na maioria dos repertórios verbais comuns, incluindo conversas entre adultos educados, interações pais- filhos, programas de televisão em horário nobre ou até mesmo programas educacionais audiovisuais. Portanto, uma sólida e rica bagagem linguística é essencial para ler e aprender a ler; 39,63- 64,80 uma constatação que torna ainda mais preocupante a existência, discutida na primeira parte, do empobrecimento da linguagem nos livros infantis.
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na maioria das vezes, o leitor interpreta o que lê com base no que já leu (ou ouviu). Se ele não leu o suficiente (ou ouviu), sua compreensão inevitavelmente se espatifa contra o muro de suas lacunas.
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não importa a área, sem conhecimento suficiente, nenhuma compreensão eficaz é possível.
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“Domesticar [...] significa ‘criar vínculos’”, disse Saint- Exupéry em O pequeno príncipe. 260 É exatamente isso que os leitores competentes fazem. Eles domesticam o texto criando vínculos para preencher as entrelinhas. Quando esses vínculos não podem ser formados, o documento não pode ser compreendido. Considere, como última ilustração, o menor romance do mundo. Ele teria sido escrito por Ernest Hemingway, escritor fantástico, laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1954 “por sua maestria na arte da narração [...] e pela influência que exerceu sobre o estilo contemporâneo”. Dizem* que, uma noite, nosso homem apostou com os amigos que conseguiria escrever uma história com seis palavras. 263 Ninguém acreditou. Cada um colocou alguns dólares em cima da mesa. Hemingway escreveu sua produção em um guardanapo de papel, passou- o... e recolheu o prêmio. Ele havia escrito: “À venda, sapatinhos de bebê, nunca usados”.* Considerado no sentido literal, esse enunciado não é muito interessante. No entanto, instruído pelos conhecimentos de fundo, ele se torna uma história extremamente tocante. A versão expandida poderia ser detalhada da seguinte forma: “Um bebê era esperado. Os pais tinham comprado sapatos à espera do nascimento. Se esses sapatos nunca foram usados e os pais os revendem, isso significa que eles são pobres e tiveram de se resignar a vender os sapatos, porque estes se tornaram inúteis devido à morte prematura da criança”. Em uma frase minimalista, Hemingway evoca não apenas um fato comum, mas também um universo social repleto de esperanças frustradas e pobreza extrema. No entanto, para minha grande surpresa, quando mencionei esse exemplo em uma aula na universidade, obtive uma reação morna, que a exclamação de um estudante resume bastante bem: “Que exagero, professor, é como quando você ganha um presente que já tem, você o coloca à venda na OLX, não significa que o bebê morreu”. Difícil ilustrar de forma mais vívida o papel do conhecimento de fundo e os limites do presentismo. A frase de Hemingway está inserida em um contexto social e histórico. Ignorar esse contexto é perder a mensagem. Para capturar o implícito do enunciado, é necessário entender a miséria das classes populares no Ocidente no início do século XX, é necessário compreender quão grande era então a mortalidade infantil nas famílias pobres, 264 é preciso compreender que jamais um burguês, um comerciante ou um rico da época se rebaixaria a vender os sapatos do filho morto. Uma sequência que é manifestamente mais fácil de explorar se o leitor puder se basear em um conhecimento, mesmo distante, das grandes obras naturalistas da época (Os miseráveis, de Victor Hugo; Germinal, de Émile Zola; O povo do abismo, de Jack London; As vinhas da ira, de John Steinbeck etc.) e, possivelmente, da obra de Hemingway, grande parte da qual é atravessada pelo duplo tema da perda e da morte. 265 Mais uma ilustração do famoso ditado de que somente os ricos conseguem empréstimos: quanto mais ampla é a base literária, mais fácil é a integração de materiais fragmentados e desconhecidos.
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solidez linguística e riqueza cultural são dois atributos fundamentais do leitor experiente. Tão fundamentais que é tentador considerá- los soberanos. Isso é um erro, pois, para entender, é necessário mais do que linguagem e conhecimento. É preciso também ser capaz de avaliar suas produções, ou seja, quando necessário, entender que não entendemos. Esse ponto pode parecer trivial. Mas não é.
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indivíduos menos competentes, em particular, tendem a superestimar suas realizações.
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Dunning- Kruger, em homenagem aos dois pesquisadores que relataram o fenômeno pela primeira vez. 271- 273 Segundo os termos desses pioneiros, “as pessoas menos qualificadas em uma área sofrem um duplo prejuízo: não apenas chegam a conclusões errôneas e cometem erros lamentáveis, mas sua incompetência as priva da capacidade de perceber isso”. 271
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Além do fato de que lembrar o caminho da informação é sem dúvida mais complicado do que lembrar a própria informação, esse tipo de alegação desafia as leis da lógica e da aprendizagem. Por exemplo, como saber que é preciso consultar o Google (ou qualquer outro mecanismo de pesquisa) quando nem sabemos, por falta de conhecimento, que não entendemos? Mais amplamente, que nível de ignorância tolerar? Se nada for memorizado e se for necessário procurar na internet cada palavra, cada fato e cada omissão, entender o menor dos enunciados logo se torna uma tarefa titânica.
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Não importa que uma informação possa ser baixada em 15 milissegundos. O que importa é o tempo necessário para sua apropriação intelectual.
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“o que sabemos determina o que vemos e entendemos; não o contrário”. 297
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tudo isso confirma que não podemos abordar eficazmente um texto quando não dispomos dos pré- requisitos culturais necessários.
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Sem hábito, até mesmo os romances mais simples permanecem inacessíveis. No fundo, algumas palavras são suficientes para resumir tudo
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aprendizagem é um fenômeno cumulativo. Nada surge do nada. Cada progresso se baseia em bases já estabelecidas.
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tornou- se consenso considerar que, além das habilidades linguísticas, a entrada na leitura se baseia em três pilares fundamentais: conhecimento das convenções do mundo escrito; conhecimento das letras; capacidade de identificar e manipular os sons das palavras.
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A escrita é uma construção cultural feita de convenções arbitrárias. Na maioria dos adultos, essas convenções estão tão profundamente internalizadas que parecem “naturais”.
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Para aprender a ler, em suma, a criança precisa ter certo número de conhecimentos prévios sobre as convenções da escrita. Alguns são simples e adquiridos rapidamente (por exemplo, ler da esquerda para a direita), enquanto outros, ao contrário, são complexos e exigem o esforço de uma absorção lenta (por exemplo, a natureza simbólica da escrita). Chamar a atenção da criança para todos esses elementos permite estabelecer algumas bases indispensáveis para suas aquisições futuras.
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É nesse ponto que o ambiente familiar entra em cena. Novamente, não se trata de transformar os pais em professores e a casa em uma sala de aula, mas sim de utilizar o vasto repertório de interações diárias para acompanhar a aprendizagem alfabética. Nesse âmbito, quanto mais as atividades informais do lar prepararem e apoiarem o que é ensinado na escola, mais eficaz e indolor será o progresso da criança. As pesquisas mostram, com uma bela unanimidade, que o conhecimento das letras na entrada do primeiro ano do ensino fundamental é um fator de previsão fundamental das aquisições posteriores de leitura, especialmente no âmbito da decodificação.
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Nesse contexto, a melhor solução é despertar o seu interesse pelo alfabeto e transformar esse interesse em um catalisador de interações e jogos. Onde quer que você esteja, mostre letras para a criança, chame- as pelo nome como se fossem amigos (exemplo: “Oh! Veja, é o bê”), produza seus sons (tanto bê quanto b), utilize exemplos, enfatizando o alvo (“ b de b- olo”– ou “b- om”, “b- arco” etc.), peça à criança para repetir e propor, se possível, outras palavras que “comecem igual”. Em casa, tenha cubos e cartas com letras impressas; tenha quebra- cabeças, ímãs, batatas fritas e macarrão em forma de letras; use embalagens de cereais, sabão em pó, biscoitos ou doces. Na rua, observe as letras em anúncios publicitários, placas de trânsito ou letreiros comerciais.
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saber reconhecer as letras pelo nome e pelos seus sons ao entrar no primeiro ano do ensino fundamental favorece significativamente a aprendizagem posterior da leitura. Através da implementação de jogos e atividades simples, o ambiente familiar pode, em complemento à educação pré- escolar, fazer muito para fornecer à criança essa base fundamental. No entanto, os pais que se sentem desconfortáveis com os elementos aqui apresentados podem simplesmente se apoiar na escola e revisar com a criança os exercícios de seu caderno; não como deveres, mas como jogos e momentos de compartilhamento. É essencial garantir que a criança não naufrague logo nas primeiras braçadas e que as bases alfabéticas, nas quais todas as futuras operações de decodificação se apoiarão, sejam sólidas.
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Em última análise, a escrita nada mais é do que uma transcrição gráfica dos elementos sonoros da linguagem oral. Para ler, a criança precisa necessariamente tomar consciência desses elementos, ou seja, ela precisa aprender a isolá- los dentro do fluxo verbal. Essa habilidade segue uma evolução hoje bem definida. Ela opera desde as unidades sonoras mais amplas até os segmentos mais curtos.
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Tudo começa, portanto, com a manipulação de palavras. Embora não seja elementar, essa habilidade está longe de ser insuperável, provavelmente porque as palavras têm significado. Isso lhes confere uma realidade que as outras unidades fonológicas não têm.
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Anexo B5). Tudo isso indica, em suma, que, para aprender a ler, a criança precisa ser capaz de manipular as unidades sonoras da linguagem, ou seja, que ela precisa ser capaz de reconhecer palavras na frase, sílabas nas palavras, ataques e rimas nas sílabas e, por fim, fonemas em cada uma dessas entidades.
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brevemente, mesmo indo além do escopo deste livro, que os elementos aqui apresentados apoiam o uso de métodos de aprendizado de leitura chamados “silábicos” (a criança divide a palavra em seus sons fundamentais), em oposição às abordagens chamadas “globais” (a criança aprende a reconhecer as palavras visualmente, sem dividi- las em sons).
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a leitura não nasce do nada. Ela se baseia nos três pilares fundamentais do conhecimento da escrita, das letras e dos sons. O ambiente familiar pode contribuir para erigir esses pilares, por meio de atividades simples durante as rotinas diárias. Falar, brincar com palavras, sílabas, letras e sons enriquece o cérebro das crianças e constitui um investimento altamente valioso para o seu futuro escolar. Mais uma vez, não se trata aqui de os pais estabelecerem um programa de apropriação sistemática quase militar. Isso é responsabilidade da escola! Trata- se apenas de aproveitar os momentos cotidianos para direcionar a atenção da criança para materiais escritos e envolvê- la em uma variedade de jogos alfabéticos e fonológicos. Essa contribuição é fundamental; no entanto, é claro que não é suficiente. Também é necessário garantir o desenvolvimento das habilidades lexicais e sintáticas, sem as quais nossos filhos não serão capazes de compreender o que estão decodificando.
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Ninguém pode ler sozinho e entender o que lê, repetimos, se não tiver primeiro aprendido a decodificar as palavras com um mínimo de fluência.
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para que nossos filhos desenvolvam plenamente suas habilidades linguísticas, é necessário falar com eles, e falar bastante.
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A esses elementos se soma uma extensa literatura sobre os efeitos da ordem de nascimento entre os irmãos. Em média, em famílias com vários filhos, as habilidades linguísticas, o QI, o percurso escolar, a carreira profissional e o nível salarial na idade adulta diminuem com a ordem de nascimento. 158- 161 O primogênito se sai melhor do que o segundo, que, por sua vez, se sai melhor do que o terceiro, e assim por diante (ver Figura 11). Como indicado por um amplo estudo recente, essa cascata negativa reflete em parte a diluição gradual do tempo dedicado aos filhos por seus pais. 161 Sendo o centro das atenções, o filho mais velho recebe mais recursos do que seus irmãos mais novos, o que favorece seu desenvolvimento.
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Em suma, a contribuição potencial da escola para o desenvolvimento precoce da linguagem é no máximo modesta e no mínimo marginal. Nessa área, mais do que em qualquer outra, é a família que carrega o fardo. Seu papel é tão central quanto insubstituível. Se ela falhar, a linguagem permanecerá ociosa, e a criança verá seu futuro acadêmico comprometido, antes mesmo de entrar na pré- escola; porque, como afirma um artigo de síntese, “a compreensão da leitura, essencial para o sucesso escolar a longo prazo, depende das capacidades linguísticas precoces”.
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Inicialmente, o desenvolvimento da linguagem depende fortemente do “alimento” fornecido pelo ambiente familiar. Ao falar com a criança e ler histórias para ela, os pais lançam as bases indispensáveis para o desenvolvimento posterior da leitura, mas também, mais geralmente, para as aprendizagens escolares, intelectuais, emocionais e sociais. Nessa área, excluindo algumas estatísticas excepcionais, aquilo de que o ambiente familiar abdica nem a escola nem o tempo poderão recuperar. Claro, um bom começo não garante uma jornada tranquila; mas, certamente, um mau começo estabelece as bases para uma jornada frustrante e difícil. Para fornecer uma última prova disso, pode ser interessante olhar para os estudos mais abrangentes. Até agora, discutimos separadamente o peso dos diferentes fatores de interesse (consciência fonológica, conhecimento do alfabeto, vocabulário etc.) envolvidos no aprendizado da leitura, mas ignoramos a paisagem geral. No entanto, somente esta revela a importância das condições ambientais precoces. Quando considerados em sua totalidade, os preditores examinados neste capítulo preveem uma parte substancial dos resultados escolares e das habilidades de leitura medidas ao fim do primário, 261 do ensino fundamental262- 263 ou do ensino médio. 110,264 Um estudo recente de grande envergadura mostrou, por exemplo, que as habilidades alfabéticas, fonológicas e lexicais estimadas no final da pré- escola previam quase 30% das variações de compreensão de leitura, avaliadas pelo programa PISA, no final do ensino fundamental. 263 A conclusão dos autores, creio eu, resume todos os dados deste capítulo: “Os pré- requisitos para a leitura, medidos na pré- escola, são grandes fatores de previsão da compreensão da leitura no nono ano”.
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Este capítulo mostra, como sugere a citação no início desta parte, que há de fato “alguma coisa nos livros”. 1 “Alguma coisa” que, após a invenção do processo de impressão, permitiu o formidável desenvolvimento das sociedades ocidentais. “Alguma coisa” que, ao longo da história, incitou o ódio dos piores tiranos. “Alguma coisa” da qual nossos filhos, cheios de telas, privam- se. “Alguma coisa” que o próximo capítulo se propõe a definir de maneira mais precisa.
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“O meio é a mensagem”. 53 Através desse aforismo, o pesquisador queria dizer que a forma inevitavelmente contamina o conteúdo e, por extensão, a maneira como o cérebro processa as informações recebidas. Em outras palavras, para McLuhan e muitos acadêmicos, como Pierre Bourdieu54 ou Neil Postman, 55 o meio de comunicação modifica a mensagem
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131 A tudo isso se soma um último ponto, relacionado à topografia
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Embora o livro seja agora considerado por muitos como algo arcaico e empoeirado, ele ainda é o meio de aprendizado mais adequado para o funcionamento cerebral. Sua estrutura linear e pré- organizada, além de sua capacidade de mobilizar a atenção, conferem- lhe uma vantagem significativa sobre as mídias de áudio ou vídeo e os formatos desconexos da internet, especialmente para a assimilação de conhecimentos complexos e exigentes. Essa vantagem é particularmente clara para os livros impressos, que minimizam os riscos de distrações externas e cuja unidade espacial facilita a construção de uma representação mental dos diferentes elementos do texto e suas relações, o que melhora a compreensão e a memorização dos conteúdos apresentados (especialmente, mais uma vez, se eles forem difíceis). O papel também otimiza os benefícios da leitura compartilhada, concentrando as interações adulto- criança não no funcionamento da tela utilizada (geralmente o tablet), mas no material verbal e narrativo do texto. Isso não significa, é claro, que as fontes digitais devam ser banidas cegamente. Audiolivros, podcasts e vídeos educativos ainda são interessantes para conteúdos menos complexos e podem certamente ser usados como complemento à leitura. Além disso, é melhor para nossos filhos ouvirem audiolivros, assistirem a vídeos educativos ou lerem livros digitais do que passarem os anos mais decisivos de seu desenvolvimento na Netflix, no TikTok ou no videogame. Apesar de tudo, se tivermos de escolher, os livros impressos continuam sendo a opção mais eficaz para ligar o cérebro de uma criança. Como escreveu Umberto Eco, um grande erudito, “um livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados”. 150
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Portanto, sim, é possível viver sem ler; isso é certo. Mas isso é o essencial? Porque, no fundo, pouco importa se a vida pode dispensar os livros; o que realmente importa é o custo dessa abstinência. Em outras palavras, perdemos algo fundamental quando renunciamos à leitura? Se sim, o que exatamente? E, se não perdemos nada, o tempo dedicado à leitura não deveria ser gasto em atividades mais proveitosas?
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a leitura parece oferecer um solo não apenas propício, mas também insubstituível para a construção da linguagem, dos conhecimentos gerais e, em última instância, do pensamento.
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Em primeiro lugar, a leitura torna nossas crianças mais inteligentes,
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a leitura aumenta a inteligência ao desenvolver nosso QI, especialmente em sua dimensão verbal.
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Além do vocabulário, a escrita também abriga um alto nível de complexidade gramatical.
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quanto mais a criança lê, mais ela tem chances de adquirir uma ortografia eficaz.
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todos esses dados indicam que a leitura pessoal melhora significativamente a qualidade das produções escritas e orais de nossas crianças. Em outras palavras, crianças que leem escrevem e falam melhor do que seus colegas menos assíduos.
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“Quanto mais você lê, menos você corre o risco de fazer papel de bobo com sua caneta ou seu processador de texto”.
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os livros, especialmente os de ficção, são de longe o meio mais eficaz de alimentar a linguagem e as habilidades de leitura dos alunos, independentemente de sua idade. Os jornais também têm um efeito modestamente positivo. Por outro lado, revistas, quadrinhos, blogs, sites da internet, sistemas de mensagens e redes sociais exercem uma influência nula ou até negativa.
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Uma das magias da leitura é que ela permite adquirir muitas dessas palavras de forma “incidental”, ou seja, sem esforço ou projeto consciente. 95- 96 A criança lê e, sem perceber, gradualmente incorpora todo tipo de riqueza lexical e sintática. Ela aprende, de certa forma, a contragosto, por meio de um mecanismo que a ajuda a adivinhar o significado de novas palavras com base no contexto e a refinar progressivamente sua interpretação
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todas essas evidências demonstram inequivocamente o impacto positivo da leitura no desenvolvimento dos conhecimentos gerais.
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A partir de todos esses elementos, fica claro que a leitura torna as crianças mais inteligentes, mais cultas, mais criativas, mais aptas a se comunicar, a estruturar seu pensamento e a organizar suas declarações. Esses benefícios são observados tanto na escrita quanto na fala.
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Uma criança que não lê livros está irrevogavelmente condenada à superficialidade das elocuções comuns. Ela nunca poderá construir os pilares lexicais, sintáticos e ortográficos das linguagens avançadas, tão necessários para o funcionamento ideal do pensamento.
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Ainda que a contribuição da leitura para o desenvolvimento intelectual seja a mais visível e estudada, ela não é a única. Muitos estudos mostram que a literatura e, mais amplamente, as obras de ficção também enriquecem o desenvolvimento socioemocional.
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a leitura melhora nossa capacidade de interagir com nossos mundos internos e externos. Viver mil vidas
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Por meio dos livros, o leitor experimenta uma miríade de vidas, graças às quais, imperceptivelmente, ele consegue ampliar e iluminar a sua própria.
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assim como alguns treinam suas habilidades de pilotagem em simuladores de voo, outros aprimoram suas habilidades sociais lendo obras de ficção, de modo que estas últimas poderiam ser vistas como “o simulador de voo da mente”.
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tudo isso nos leva a concluir que a literatura é uma interface privilegiada de aprendizado socioemocional, porque permite descrições psicológicas e contextuais notavelmente detalhadas. Nenhum outro meio permite expor tão minuciosamente os pensamentos dos outros.
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a exposição contínua a obras de ficção literária fortalece a empatia.
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Esses estudos mostram, portanto, que a literatura nos ajuda a perceber e sentir o mundo a nosso redor através dos olhos dos outros.
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Todos esses elementos destacam que a leitura nos torna melhores, por sua capacidade de enriquecer todos os aspectos fundamentais do nosso funcionamento socioemocional. Nenhum outro suporte nos permite dissecar e penetrar com tanta perspicácia a psique dos outros. Mais uma vez, as obras de ficção desempenham um papel crucial. Elas são verdadeiros “simuladores sociais”, que permitem ao leitor ser, por um tempo, o que ele não é e nunca será. Através dos livros, a mente não apenas se coloca no lugar do outro; ela pode literalmente se tornar o outro, o que, de romance em romance, permite que ela experimente intimamente, como se fossem suas, as emoções, os pensamentos e as dificuldades de uma grande variedade de personagens distintos. Essa pluralidade tem influências profundas em nossa capacidade de entender nossos semelhantes, de um ponto de vista emocional (empatia) ou intelectual (teoria da mente).
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A leitura é como a matemática, a inteligência e o sucesso escolar. Quando uma criança parece mostrar sinais de dificuldade ou relutância, muitos pais dizem que ela “não tem o dom”, que aquilo “não é para ela”, que o caçula “não consegue, embora tenha sido criado exatamente como a irmã, que adora ler” etc. Este capítulo aborda essas crenças em três grandes seções. A primeira mostra que devemos desconfiar muito dos números frequentemente citados para afirmar que as habilidades de leitura, os resultados escolares ou a inteligência são de 60% a 70% “hereditários”. Os genes não são fixos; sua ação depende das características do ambiente. Um DNA “comum” em um mundo estimulante oferecerá resultados muito mais significativos do que um DNA “genial” em um ambiente amorfo. O que nos leva à segunda seção, que busca estabelecer que é o volume de prática, muito mais do que o DNA, que prevê a longo prazo as habilidades de leitura da criança. Uma constatação que a terceira seção torna particularmente crucial, ao destacar o papel essencial desempenhado pelas habilidades de leitura no sucesso escolar.
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importante não é tanto compreender o que é a herdabilidade, mas sim compreender o que ela não é. O primeiro ponto que vem à mente é que ela não é uma medida de inevitabilidade genética, no sentido de que não diz nada sobre o possível peso do ambiente.
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tempo dedicado à leitura é que forma os leitores
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Alunos que cresceram em um lar com uma grande biblioteca têm três anos de estudo suplementar quando comparados com indivíduos socioeconomicamente equivalentes criados em uma casa sem livros. 68 Esse impacto é da mesma magnitude que o nível de educação dos pais. Em outras palavras, para o futuro de uma criança, ter livros é tão importante quanto ter pais instruídos. Claro, isso não significa que a simples posse de um grande número de livros aumentará o QI de nossos filhos. Significa que uma biblioteca ampla revela a importância que os pais atribuem à cultura literária e à sua transmissão. 68 Quanto mais a criança viver rodeada de livros, mais ela será incentivada a ler, tanto diretamente, em resposta às orientações dos pais, quanto indiretamente, por meio de um mecanismo de aprendizado social, favorável à reprodução dos comportamentos familiares. 269 Em outras palavras, quanto mais a criança estiver cercada por livros e leitores, mais chances ela terá de ler, de ler precocemente, de ler muito e, em última análise, de ler eficazmente.
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porta. Para resumir, em matéria de leitura, nada substitui a persistência. Um envolvimento relativamente modesto de 20 a 30 minutos por dia acaba gerando benefícios significativos ao longo do tempo. Alguns podem afirmar que meia hora é muito. Para esses observadores rigorosos do cronômetro, podemos lembrar que isso representa apenas um terço do tempo que alunos dos anos finais do ensino fundamental dedicam diariamente a seus jogos eletrônicos.
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Todos esses elementos indicam que a herdabilidade é um conceito estatístico preciso ao qual é fácil, por ideologia ou incompetência, atribuir muito mais significado do que se deveria. Afirmar que a leitura é herdável de maneira alguma significa que ela seja inata. A esmagadora maioria das crianças com dificuldades de leitura não sofre de falta de inteligência ou de uma patologia intratável, mas de falta de prática e estímulo. Um genoma favorável por certo facilita o aprendizado. No entanto, em nenhum caso ele garante o sucesso. Se a criança não lê o suficiente, seu patrimônio genético não será de nenhuma ajuda. Assim como ratos geneticamente “brilhantes” permanecem “idiotas” quando seu ambiente é insuficientemente estimulante, 238 crianças supostamente “talentosas” só podem permanecer fracas se nunca abrirem um livro. O oposto também é verdadeiro. Um DNA potencialmente menos favorável não condena ao fracasso. Assim como ratos geneticamente “estúpidos” atingem níveis notáveis de desempenho quando o ambiente é rico o suficiente para compensar a dívida hereditária, 238 crianças supostamente “pouco talentosas” verão suas habilidades melhorarem significativamente com a prática.
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Esse consenso, amplamente aceito hoje, 2,57,89 não é nada novo. Há quase 30 anos, um artigo de síntese já concluía que “a exposição à leitura é eficaz independentemente das habilidades intelectuais e de compreensão da criança [...]. Costumamos nos desesperar por não podermos mudar as ‘aptidões’ das crianças, mas há pelo menos um hábito parcialmente maleável que desenvolverá essas ‘aptidões’: a leitura”. 109 Essa notícia é ainda mais encorajadora porque não estamos falando de uma carga literária pesada, mas de um investimento moderado, cerca de 30 minutos por dia.
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Isso é muito pouco em comparação com o tempo que nossas crianças passam todos os dias em seus dispositivos recreativos; 92 mas é enorme em termos dos benefícios concretos colhidos no campo do sucesso escolar. Afinal, somando todas as melhorias acumuladas (linguagem, conhecimento, criatividade, habilidades socioemocionais etc.), o tempo dedicado à leitura pessoal acaba afetando grandemente a trajetória escolar das pessoas e, consequentemente, a forma de seu percurso profissional. Uma criança que lê não apenas amplia seu presente, ela também constrói seu futuro.
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Nós nos tornamos leitores por aculturação, ou seja, por “adaptação à cultura circundante”.
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No primeiro nível, é preciso valorizar a leitura, ou seja, apresentá- la como uma atividade crucial e distintiva, no sentido de “nós somos uma família de leitores; nem todas as famílias são assim, mas aqui a leitura é importante, é uma das coisas que nos define”.
Michel Desmurget, em Faça-os Ler! Para não Criar Cretinos Digitais
que nos leva ao segundo ponto: o prazer. Ele é o principal ingrediente da receita. Sem ele, nada é possível. Tudo começa com a leitura compartilhada. É ela que estabelece o cenário e desperta, ou não, a vontade de ler. 23- 25 Para acender a chama, é importante não desmotivar a criança, mas alegrá- la.
Michel Desmurget, em Faça-os Ler! Para não Criar Cretinos Digitais
a questão não é realmente como desenvolver o gosto pela leitura, mas sim entender como evitar que ele se perca.
Michel Desmurget, em Faça-os Ler! Para não Criar Cretinos Digitais
Para que a criança leia, não há outra solução senão limitar drasticamente esse tempo; no entanto, em hipótese alguma essa limitação deve estar ligada ao tempo de leitura, caso contrário, a leitura será percebida como um tipo de purgatório que abre as portas do paraíso digital.
Michel Desmurget, em Faça-os Ler! Para não Criar Cretinos Digitais
Em outras palavras, ao limitar o tempo de telas recreativas, o que em si é uma ótima ideia, liberamos espaço para a leitura, o que se revela uma ideia ainda melhor.*
Michel Desmurget, em Faça-os Ler! Para não Criar Cretinos Digitais
A longo prazo, essa tendência nos custará muito mais do que alguns autores, editores, bibliotecários, livreiros e eruditos. Ela nos custará uma parte valiosa de nossa alma, 48 de nossa história, 49 de nossa capacidade de entender o mundo50 e, de maneira mais prosaica, do sacrossanto crescimento econômico supostamente responsável por garantir nossa felicidade e nosso padrão de vida.
Michel Desmurget, em Faça-os Ler! Para não Criar Cretinos Digitais
Quanto mais entregamos à máquina uma parte importante de nossas atividades cognitivas, menos nossos neurônios encontram matéria com a qual se estruturar, organizar e conectar.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 117)
“Apesar dos investimentos consideráveis em computadores, conexões à Internet e softwares para fins educativos, há pouca evidência sólida de que o uso mais amplo de computadores pelos alunos conduza a melhores notas em matemática e leitura”.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 120)
“A tecnologia pode permitir a otimização de um ensino de excelente qualidade, mas nunca poderá, por mais avançada que seja, atenuar um ensino de baixa qualidade”.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 122)
um impacto expressivamente positivo, representando, para os alunos, uma melhora de desempenho de pouco mais de 20%. Isso significa que se um aluno se revela “médio” e for colocado diante de qualquer software “educativo”, no melhor dos casos, ele continuará médio; no pior, sua performance será fragilizada. Agora, se você colocar este mesmo aluno diante de professores competentes, com sólida formação, ele progredirá significativamente e terminará entre os primeiros de sua sala.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 123)
“professores são o mais importante recurso nas escolas de hoje [...]. Ao contrário do que se supõe com frequência, sistemas de alta performance não desfrutam de um privilégio natural simplesmente por conta de um respeito tradicional pelos professores; eles também erigiram uma força de ensino de alta qualidade, resultante de escolhas políticas deliberadas, cuidadosamente implementadas com o tempo”.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 123)
Um número cada vez maior de estudos mostra que a introdução do digital nas salas de aula é antes de tudo uma fonte de distração para os alunos e, consequentemente, um fator significativo de dificuldades escolares.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 125)
todo derivativo digital (SMS, redes sociais, e- mails, etc.) se traduz em uma baixa significativa do nível de compreensão e de memorização dos elementos apresentados.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 126)
mensagem é simples: se você desviar sua atenção do ensino ministrado, você perde informações e, no final, obviamente, compreende menos o que foi explicado.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 127)
Portanto, para resumir, os estudos disponíveis mostram, no melhor dos casos, a inaptidão e, no pior, a nocividade pedagógica das políticas de digitalização do sistema escolar. A partir deste ponto, uma questão simplíssima se coloca: Por quê? Por que tamanho frenesi? Por que tanto ardor em querer tornar o sistema escolar digital, da pré- escola até a universidade, quando os resultados se confirmam pouco convincentes?
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 128)
Existe apenas uma explicação racional para esse absurdo. Ela é de ordem econômica: substituindo, de maneira mais ou menos parcial, o ser humano pelo digital, será possível, com algum prazo, contemplar uma bela redução dos custos do ensino.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 129)
esses programas MOOC reforçam perigosamente as desigualdades sociais ao favorecerem os alunos oriundos das classes mais privilegiadas.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 134)
em termos pedagógicos, não se trata de saber se os elementos de conhecimento estão disponíveis. Trata- se de determinar se a informação é apresentada de modo a poder ser compreendida e assimilada. Um professor qualificado é bem mais eficaz, pois é exatamente esta a função do “professor”, ordenar e ajustar seu campo de conhecimento de modo a torná- lo acessível ao aluno. É porque o professor conhece sua matéria (e as ferramentas pedagógicas de sua transmissão) que ele pode guiar alguém, organizando de forma metódica a sucessão das aulas, exercícios e atividades que vão permitir a aquisição progressiva dos conhecimentos e competências desejados. Nesse contexto, deve ficar claro, contrariamente a uma crença tenaz do conformismo midiático, que todos os saberes não têm valor igual. Aqueles de um aluno em formação não podem em caso algum ser comparados aos de um professor qualificado. Os primeiros são feitos de ilhotas dispersas, inconsistentes e lacônicas, ao passo que os outros constroem um universo ordenado, coerente e estruturado.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 138)
O primeiro trata das telas digitais domésticas. Neste terreno, excetuando alguns estudos iconoclastas (no mais das vezes, deficientes), as conclusões da literatura científica não poderiam ser mais claras, coerentes e indiscutíveis: quanto mais os alunos assistem à televisão, jogam videogames, utilizam o smartphone, mais eles são ativos nas redes sociais e mais suas notas despencam. Mesmo o computador doméstico, cuja potência educativa nos proclamam sem cessar, não exerce nenhuma ação positiva sobre a performance escolar. Isso não significa que a ferramenta seja desprovida de virtudes potenciais. Isso significa simplesmente que, quando você oferece um computador a uma criança (ou um adolescente), as utilizações lúdicas desfavoráveis devoram as utilizações educativas formativas.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 140)
O segundo diz respeito às telas digitais usadas na escola. Aí também, a literatura científica é inapelável. Quanto mais os Estados investem nas “tecnologias da informação e da comunicação para o ensino” (as famosas TIC), mais o desempenho dos alunos cai. Paralelamente, quanto mais os alunos passam tempo com as tecnologias, mais suas notas caem. De modo coletivo, esses dados sugerem que o movimento atual de digitalização do sistema escolar se baseia numa lógica mais econômica do que pedagógica. Na verdade, contrariando o juízo oficial, o “digital” não é um simples recurso educativo posto à disposição de professores qualificados e utilizável por estes, se eles o considerarem pertinente, dentro do contexto de projetos pedagógicos direcionados (ninguém poderia contradizer isso, e o único eixo possível de divergência diria respeito então, eventualmente, à possibilidade de utilizar com maior eficácia os subsídios investidos). Não; na verdade, o digital é, antes de tudo, um meio de reduzir as despesas educativas, substituindo, de modo mais ou menos parcial, o homem pela máquina. Essa transferência lança o professor qualificado para a longa lista de espécies ameaçadas. De fato, esse professor custa caro, muito caro, caro demais(?). Além disso, sua formação é difícil e, por conta da concorrência de setores econômicos mais favorecidos, é bem mais complicado recrutá- los. O digital traz para o problema uma solução bem elegante. Evidentemente, o fato de essa solução se fazer em detrimento da qualidade educativa torna a questão inflamável e, portanto, difícil de ser admitida.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 140)
“Sem você”, assim escrevia Albert Camus a seu antigo professor, após ter recebido o prêmio Nobel de literatura, “sem sua mão afetuosa estendida para a criança pobre que eu fui, sem seus ensinamentos, seu exemplo, nada disso teria me acontecido. Eu não faço alarde desta honraria, mas agora tenho pelo menos a oportunidade de dizer o que você foi, e ainda é para mim, e de assegurar que seus esforços, seu trabalho e o sentimento generoso que o acompanharam ainda estão vivos num de seus pequenos alunos que, apesar da idade, não deixou de ser seu aluno agradecido”.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 141)
A bagagem primordial do recém- nascido, porém, não é uma montagem ecumênica. Ela é metódica e obsessivamente orientada no sentido do humano. Desde sua concepção, a criança é equipada para desenvolver interações sociais.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 144)
“ao nascimento, as crianças exibem uma quantidade de tendências que, preferencialmente, as orientam no sentido de estímulos socialmente relevantes. Em particular, tem sido demonstrado que os recém- nascidos preferem os rostos a outros tipos de estímulos visuais, vozes a outras espécies de estímulos auditivos e movimento biológico a outros tipos de movimentos”.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 144)
O bebê elabora progressivamente esse equipamento primitivo em resposta às solicitações de seu ambiente, em especial o intrafamiliar. As interações promovidas (ou obstruídas) irão então moldar, de maneira decisiva, o conjunto do desenvolvimento, desde o cognitivo até o emocional, passando pelo social.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 144)
em média, nas famílias com várias crianças, o mais velho se sai melhor que seus irmãos mais jovens em termos de QI, desempenho escolar, salário e problemas com a justiça.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 145)
A fim de que a magia relacional se produza, um elemento se revela fundamental: é preciso que “o outro” esteja fisicamente presente. Para nosso cérebro, um humano “de verdade” não é de modo algum a mesma coisa que um humano “em vídeo”.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 146)
Isso confirma, caso ainda seja necessário, que somos animais sociais e que nosso cérebro reage com muito mais acuidade à presença real de um humano que à imagem indireta desse humano no vídeo.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 146)
para favorecer o desenvolvimento de uma criança, o melhor é dedicar tempo às interações humanas, em particular intrafamiliares, e não às telas.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 149)
Dessa forma, como escrevem os autores, “os pais absorvidos pelos aparelhos frequentemente ignoravam o comportamento da criança por um instante e depois reagiam com um tom de voz desdenhoso, dando instruções repetidas de uma maneira um tanto robótica
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 152)
Essa potência distrativa, por sinal, explica em grande parte a notável capacidade dos smartphones de provocar densos conflitos quando são manipulados dentro de casa (entre pais e filhos e entre os pais47,50,72-
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 153)
centenas de estudos realizados há mais de um século mostram que, no homem e no animal, as redes cerebrais precisam ser demandadas para se organizarem. A partir daí, toda carência de estímulo funcional se traduz por um déficit de maturação biológica. 102- 104 E é exatamente este o grande problema das telas digitais: elas empobrecem brutalmente a quantidade e a qualidade das interações verbais. Dito de outra forma, quanto mais os membros de um lar passam o tempo com suas bugigangas digitais, menos eles trocam palavras.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 156)
Em outras palavras, mesmo quando as crianças pareciam aprender alguma coisa, elas aprendiam com mais dificuldade e menos profundidade com a tela. Constatação que confirma o fenômeno, já amplamente evocado, do “vídeo déficit” e que poderíamos resumir da seguinte forma: em matéria de aprendizagem linguística, é melhor colocar a criança diante de uma aplicação dita “educativa” do que abandoná- la a um vácuo relacional; mas a excelência ainda consiste (com vasta vantagem) em conversar com ela, ensinar- lhe o nome das coisas, contar ou ler uma história para ela, solicitar sua palavra, etc.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 162)
tudo isso para dizer que além da base fundamental, oralmente construída ao longo dos primeiros anos de vida, é nos livros e somente neles que a criança vai poder enriquecer e desenvolver plenamente sua linguagem.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 166)
é, portanto, possível (e sem dúvida provável, 236 mesmo que o caso ainda seja discutido237) que os videogames de ação melhorem, não nossa atenção ou nossas capacidades decisórias em geral, mas certas características de nossa atenção visual. O problema é que essas melhoras permanecem “locais” na esmagadora maioria dos casos; elas não se estendem às situações da “vida real”. Isso quer dizer, claramente, que jogar um videogame de ação nos ensina essencialmente... a jogar esse jogo e outros semelhantes. É evidente, certas generalizações positivas sobrevêm por vezes, quando o real impõe as mesmas exigências que o jogo.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 186)
as telas minam os três pilares mais essenciais do desenvolvimento infantil.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 207)
O primeiro diz respeito às interações humanas. Quanto mais tempo a criança passa com seu smartphone, sua televisão, seu computador, seu tablet ou seu console de videogame, mais as trocas intrafamiliares enfraquecem em quantidade e em qualidade.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 208)
O segundo é a linguagem. Neste campo, a ação das telas opera segundo dois eixos complementares. De início, alterando o volume e a qualidade das primeiras trocas verbais. Em seguida, impedindo a entrada no mundo da escrita.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 208)
O terceiro ponto refere- se à concentração. Sem ela, não há meios de mobilizar o pensamento para um objetivo. No entanto, as jovens gerações estão imersas num ambiente digital perigosamente distrativo. A influência dos videogames, portanto, não é menos nociva que a da TV, ou de outras ferramentas digitais.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 208)
convém lembrar que a mecânica humana não foi concebida para que fiquemos sentados de maneira crônica por longas horas. O sedentarismo danifica nosso organismo. Pior, ele acaba por nos matar prematuramente.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 227)
Em resumo, depreende- se desses dados que o sedentarismo ocasionado pelos consumos digitais é, por si só, um importante fator de risco sanitário e (potencialmente) uma fonte de patologias emocionais e neurovegetativas.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 229)
Em resumo, nossa memória não é um simples órgão de armazenamento, mas uma máquina de criar associações. Para tanto, ela utiliza em especial as regras de contiguidade temporal. Assim, estas últimas às vezes carecem de clarividência no sentido de que sua automaticidade favorece a formação de conexões artificiais potencialmente nocivas, que, uma vez estabelecidas, influenciam de forma expressiva nossas percepções, representações, decisões e ações.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 237)
que parece, o mundo digital das crianças e dos adolescentes está saturado de imagens impregnadas de fumo: televisão, videogames, redes sociais, sites de streaming, etc.; Nenhum espaço escapa dessa imensa onda. Isso não seria um problema, naturalmente, se o impacto do cigarro sobre a saúde fosse apresentado com honestidade.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 245)
onipresença das imagens alcoólicas dentro do mundo digital apresenta duplo interesse para as indústrias: (1) reduz substancialmente a idade da primeira iniciação; (2) aumenta convenientemente o volume dos consumos crônicos.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 251)
analisados em seu conjunto, esses elementos mostram que o marketing alimentar, onipresente na televisão e em todos os suportes digitais, aumenta seriamente o risco de obesidade na criança e no adolescente.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 254)
tomados em seu conjunto, esses dados mostram que os conteúdos audiovisuais e digitais são poderosos prescritores de padrões sociais. Ao modificar nossa visão do mundo, esses prescritores afetam nosso modo de agir; e na maioria das vezes, eles fazem isso na surdina, sem despertar o radar das defesas conscientes.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 260)
exposição a estímulos e comportamentos violentos favorece a hostilidade comportamental ativando as redes mnésicas da agressividade. Dezenas
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 270)
Do presente capítulo, convém reter que o consumo de telas recreativas tem um impacto muito negativo sobre a saúde de nossas crianças e adolescentes. Três expedientes se revelam, assim, particularmente prejudiciais. Em primeiro lugar, as telas afetam intensamente o sono. Ora, este é um pilar essencial, para não dizer vital, do desenvolvimento. Quando ele sai dos trilhos, é toda a integridade individual que é afetada, em suas dimensões físicas, emocionais e intelectuais. É bastante surpreendente (e inquietante) ver a que ponto esse problema é hoje subestimado.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 291)
Em segundo lugar, as telas aumentam expressivamente o grau de sedentarismo, ao mesmo tempo em que reduz de maneira significativa o nível de atividade física. Ora, para evoluir perfeitamente e se manter em boa saúde, o organismo precisa ser solicitado de forma intensa e ativa. Ficar sentado mata! Fazer exercício nos constrói!; e não apenas em nossas dimensões físicas. O movimento tem um impacto importante sobre os funcionamentos emocional e intelectual. Aí também, o problema é inexplicavelmente ignorado nos debates relativos às utilizações de ferramentas digitais pelos nossos filhos. Por fim, em terceiro lugar, os conteúdos ditos “de risco” (sexuais, tabagistas, alcoólicos, hipercalóricos, violentos, etc.) abundam no universo digital. Todos os suportes incluídos. Pois bem, para a criança e o adolescente, esses conteúdos são importantes prescritores de normas (com frequência inconscientemente). Eles dizem o que se deve ser (por exemplo, um estudante “normal” fuma e faz sexo– sem se preocupar com o uso de preservativos). Uma vez assimiladas, essas normas têm um efeito considerável sobre o comportamento (por exemplo, a probabilidade de um estudante do ensino médio começar a fumar ou ter relações sexuais desprotegido).
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 291)
em termos de utilização de ferramentas digitais, a informação oferecida ao grande público carece singularmente de rigor e confiabilidade.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 295)
consumo digital recreativo das jovens gerações não é apenas “excessivo” ou “exagerado”; ele é extravagante e está fora de controle.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 296)
frenesi digital que tudo consome prejudica gravemente o desenvolvimento intelectual, emocional e físico de nossas crianças.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 296)
o efeito das telas recreativas é tão nocivo, isso se deve em grande parte ao fato de nosso cérebro não ser adaptado à fúria digital que nos assola.
Michel Desmurget, em A fábrica de cretinos digitais (p. 296)

Nancy Fraser

“Canibalismo” tem diversos significados. O mais familiar e mais concreto é o ritual de um ser humano comer a carne de outro. Carregado de um longo histórico racista, o termo foi aplicado, por meio de uma lógica intervertida, às populações negras africanas afetadas pela predação imperial europeia.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 14)
O verbo “canibalizar” significa privar um estabelecimento ou empreendimento de um elemento essencial para seu funcionamento a fim de criar ou sustentar outro. Como veremos, isso se assemelha, de forma plausível, à relação entre a economia capitalista e os territórios não econômicos do sistema: famílias e comunidades, habitats e ecossistemas, capacidades estatais e poderes públicos que têm sua substância consumida pela economia para inflar o próprio sistema.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 15)
o capital atrai para sua órbita a riqueza natural e social de zonas periféricas do sistema- mundo.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 15)
a metáfora do canibalismo oferece diversos caminhos promissores para uma análise da sociedade capitalista. Ela nos convida a ver essa sociedade como um grande banquete institucionalizado, onde o prato principal somos nós. O termo “capitalismo” também pede explanação. A palavra é utilizada, em geral, para referir um sistema econômico baseado na propriedade privada e em trocas comerciais, no trabalho assalariado e na produção que visa o lucro.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 15)
“Capitalismo”, como argumentarei aqui, designa melhor algo maior, uma ordem social que autoriza uma economia movida pelo lucro a predar os apoios extraeconômicos de que necessita para funcionar: a riqueza expropriada da natureza e dos povos sujeitados; as múltiplas formas do trabalho de cuidado, que enfrenta uma desvalorização crônica— isso quando não é inteiramente rejeitado—; os bens e os poderes públicos que o capital exige e, ao mesmo tempo, tenta restringir; a energia e a criatividade do povo trabalhador.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 15)
neste livro, “capitalismo” se refere não a um tipo de economia, mas a um tipo de sociedade: uma sociedade que autoriza uma economia oficialmente designada a acumular valor monetarizado para investidores e proprietários ao mesmo tempo em que devora a riqueza não economicizada de todos os demais.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 16)
que deve ser reinventado, assim, é a relação entre produção e reprodução, poder público e privado, sociedade humana e natureza não humana.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 19)
O resultado disso é que estamos passando por uma crise capitalista de imensa gravidade sem uma teoria crítica que a elucide, muito menos nos aponte uma resolução emancipatória.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 21)
Defendo que o capitalismo canibal é essa concepção.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 22)
Aqui, portanto, minha estratégia será olhar primeiro para Marx e, depois, por trás de Marx na esperança de lançar nova luz a algumas questões antigas: o que exatamente é o capitalismo e como conceituá- lo da melhor forma? Devemos pensar nele como um sistema econômico, uma forma de vida ética ou uma ordem social institucionalizada? Como devemos caracterizar suas “tendências a crises” e onde devemos localizá- las?
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 22)
Para Marx, a primeira característica definidora do capitalismo é a propriedade privada dos meios de produção, que pressupõe uma divisão de classe entre proprietários e produtores.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 23)
Isso leva diretamente à segunda característica central do capitalismo apontada por Marx: o livre- mercado de trabalho. Uma vez separada dos meios de produção, a imensa maioria das pessoas teve que passar por essa instituição peculiar para trabalhar e receber o necessário para continuar vivendo e criar seus filhos e filhas.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 23)
Assim, o capitalismo é definido, em parte, por sua constituição e pelo uso do trabalho assalariado (duplamente) livre, embora, como veremos, também se apoie em um imenso contingente de trabalho não livre ou dependente, não reconhecido ou não remunerado.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 23)
O capitalismo é peculiar por ter um impulso sistêmico objetivo: a saber, a acumulação de capital. Desse modo, tudo o que os proprietários fazem, na condição de capitalistas, tem o objetivo de expandir o próprio capital.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 24)
A quarta característica especifica o papel distintivo dos mercados na sociedade capitalista. Os mercados existiram ao longo de toda a história humana, incluindo em sociedades não capitalistas. No entanto, seu funcionamento no capitalismo se distingue por duas características mais. Primeiro, na sociedade capitalista os mercados servem para alocar os grandes insumos na produção de mercadorias. Compreendidos pela economia política burguesa como “fatores de produção”, esses insumos eram originalmente terra, trabalho e capital. Além de utilizar os mercados para alocar o trabalho, o capitalismo também os utiliza para alocar bens imóveis, bens de capital, matérias- primas e crédito. Na medida em que aloca esses insumos produtivos por meio de mecanismos de mercado, o capitalismo os transforma em mercadorias. Nas palavras notáveis do economista Piero Sraffa, de Cambridge, trata- se de um sistema para “a produção de mercadorias por meio de mercadorias”, ainda que dependa, como veremos, de um pano de fundo de não mercadorias.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 24)
Mas há também uma segunda função crucial que os mercados assumem em uma sociedade capitalista: eles determinam como o excedente da sociedade será investido. “Excedente”, para Marx, é o fundo coletivo das energias sociais que excedem aquelas necessárias para reproduzir determinada forma de vida ou repor o que foi consumido no processo de vivê-
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 25)
A questão, então, é que os aspectos mercadorizados das sociedades capitalistas coexistem com os aspectos não mercadorizados. Isso não é um golpe de sorte, nem uma contingência empírica, mas uma característica inerente ao dna do capitalismo. Na verdade, o termo “coexistência” não dá conta de captar a relação entre aspectos mercadorizados e não mercadorizados de uma sociedade capitalista. Termos melhores seriam “dependência” ou “imbricação funcional”, mas essas expressões também não transmitem a perversidade dessa relação. 9 Esse aspecto, que logo ficará mais compreensível, é melhor expresso por “canibalização”.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 26)
Minha argumentação é de que a explicação de Marx sobre a produção capitalista só faz sentido quando começamos a dar forma a suas condições de possibilidade de fundo que a caracterizam. A próxima pergunta será, então: o que deve existir por trás dessas características centrais para que elas sejam possíveis?
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 27)
Ainda que não oficial, a expropriação é um mecanismo contínuo de acumulação que segue ao lado do mecanismo oficial da exploração— a “história visível” de Marx, por assim dizer.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 28)
a expansão do capital não acontece pela troca de equivalentes, como sugere a perspectiva de mercado, mas precisamente pelo seu oposto: pela não remuneração de uma parte do tempo de trabalho dos trabalhadores.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 28)
Uma virada epistêmica essencial é aquela da produção para a reprodução social— as formas de provimento, cuidado e interação que produzem e sustentam os seres humanos e os vínculos sociais. Chamada por diversos nomes, como “cuidado”, “trabalho afetivo” ou “subjetivação”, essa atividade forma os sujeitos humanos do capitalismo sustentando- os como seres naturais corporificados ao mesmo tempo em que os constitui como seres sociais, formando seu habitus e a substância socioética, ou Sittlichkeit, 12 na qual eles se movimentam.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 29)
a atividade de reprodução social é absolutamente necessária para a existência do trabalho assalariado, a acumulação de mais- valor e o funcionamento do capitalismo como tal. O trabalho assalariado não poderia existir na ausência do trabalho doméstico, da criação dos filhos, da educação, do cuidado afetivo e de diversas outras atividades que ajudam a produzir novas gerações de trabalhadores e trabalhadoras e a repor as existentes, além de manter os vínculos sociais e os entendimentos compartilhados. Portanto, assim como a “acumulação original”, a reprodução social é uma condição de fundo indispensável para a produção de mercadorias.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 29)
a reprodução associada às mulheres e a produção aos homens.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 30)
Com o capitalismo, em contraste, o trabalho reprodutivo é cindido, relegado a uma esfera doméstica “privada” e separada, onde sua importância social fica obscurecida. Neste novo mundo, onde o dinheiro é o meio primordial do poder, o fato de não ser remunerado ou ser mal remunerado confirma a questão: aquelas que realizam esse trabalho ficam estruturalmente subordinadas àqueles que ganham os salários na “produção”, mesmo que seu trabalho “reprodutivo” também forneça as precondições necessárias para o trabalho assalariado.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 30)
Devemos considerar, também, uma segunda virada igualmente relevante na perspectiva epistêmica, que nos direciona a outro terreno oculto. Esta é melhor exemplificada no trabalho de pensadores e pensadoras ecossocialistas que estão hoje escrevendo outra história de fundo, focalizando a canibalização da natureza pelo capitalismo. Essa história se refere à anexação da natureza— que Rosa Luxemburgo chamou de Landnahme— pelo capital, tanto como fonte de “insumos” para a produção quanto como “escoadouro” para absorver seus resíduos. A natureza, aqui, é transformada em recurso para o capital, com valor ao mesmo tempo pressuposto e denegado.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 31)
condições políticas de possibilidade do capitalismo: sua dependência dos poderes públicos para estabelecer e impor suas normas constitutivas. Afinal, na ausência de uma estrutura legal que sustente a empresa privada e a troca mercadológica, o capitalismo é inconcebível.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 33)
Pode- se dizer que, historicamente, o Estado “constituiu” a economia capitalista.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 34)
Ao longo de sua trajetória, a história de frente do capitalismo dependeu das capacidades militares e organizativas de uma sucessão de hegemonias globais que, como argumentou o sociólogo histórico braudeliano Giovanni Arrighi, buscaram promover a acumulação em uma escala cada vez mais expansiva dentro da estrutura do sistema de múltiplos Estados. 17
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 35)
necessidade oculta aqui é a expropriação: a captura forçada e contínua da riqueza de povos subjugados e minorizados. Embora seja geralmente vista como a antítese do processo característico de exploração do capitalismo, a expropriação é mais bem concebida como a condição que possibilita esse sistema.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 36)
A exploração transfere valor para o capital sob o pretexto de uma troca contratual livre: em troca do uso da força de trabalho, os trabalhadores recebem salários que (supostamente) cobririam seu custo de vida— enquanto o capital se apropria de seu “tempo de trabalho excedente”, ao menos remunera- os (supostamente) pelo “tempo de trabalho necessário”. Na expropriação, em contrapartida, os capitalistas dispensam todas essas gentilezas em favor do confisco bruto dos bens de outras pessoas, pelos quais pagam pouco ou nada— ao direcionar o trabalho, a terra, os minerais e/ ou a energia recrutada para as operações de suas empresas, reduzem os custos de produção e aumentam os lucros. Assim,
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 36)
Além disso, assim como as outras divisões, esta reforça um modo específico de dominação na sociedade capitalista: a saber, a opressão racial e imperial. Como veremos no capítulo 2, na maioria esmagadora das vezes são as populações racializadas que têm a proteção política negada na sociedade capitalista, sendo submetidas a reiteradas violações.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 37)
podemos conceituar com precisão o capitalismo mercantil, o colonial liberal, o monopolista administrado pelo Estado e o neoliberal globalizante nestes termos: como quatro formas historicamente específicas de demarcar os diversos campos que compreendem o capitalismo.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 42)
a configuração precisa da ordem capitalista em qualquer lugar e tempo depende de contestação— do equilíbrio do poder social e do resultado das lutas políticas.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 42)
uma análise adequada sobre as relações entre a camada visível e o plano de fundo do capitalismo deve reunir três ideias distintas. Primeiro, os campos “não econômicos” do capitalismo servem como condições de fundo possibilitadoras de sua economia; a própria existência desta depende dos valores e recursos daqueles. Em segundo lugar, no entanto, os campos “não econômicos” do capitalismo têm peso e caráter próprios que podem fornecer recursos para a luta anticapitalista em determinadas circunstâncias. Não obstante— e este é o terceiro ponto—, esses campos são elementos essenciais da sociedade capitalista, historicamente constituídos em conjunto com sua economia e marcados pela simbiose com ela.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 45)
produção capitalista não é autossustentável, mas se beneficia da reprodução social, da natureza, do poder político e da expropriação. Ainda assim, orientada pela acumulação infinita, ameaça desestabilizar suas próprias condições de possibilidade.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 46)
sistema abriga uma tendência inerente de autodesestabilização. Ao não conseguir repor ou reparar seus terrenos ocultos, o capital devora de forma persistente os próprios apoios de que depende. Como uma serpente que come a própria cauda, canibaliza suas próprias condições de possibilidade.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 47)
O capitalismo sempre teve entrelaçamentos profundos com a opressão racial.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 52)
Apesar das diferenças inequívocas, não houve, uma forma do capitalismo que “de fato existiu” sem o componente racial. Em todas as suas encarnações até hoje, a sociedade capitalista sempre esteve entrelaçada com a opressão racial. Qual é a natureza desse entrelaçamento? É contingente ou estrutural? Será que a conexão entre capitalismo e racismo surgiu por acaso e as coisas poderiam ter sido, em princípio, diferentes? O capitalismo já estaria preparado, desde o início, para dividir as populações por raça? Como isso se dá hoje? Estaria o racismo inculcado no capitalismo contemporâneo ou seria finalmente possível haver um capitalismo não racial hoje, no século xxi?
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 52)
urgente: seria o capitalismo necessariamente racista? É possível superar a opressão racial dentro da sociedade capitalista?
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 54)
Ao contrário dos proponentes da contingência, que argumentam que o racismo não é necessário ao capitalismo, defendo que existe, sim, uma base estrutural para o entrelaçamento persistente do sistema com a opressão racial. Essa base reside, como vimos, na dependência que o sistema tem de dois processos analiticamente distintos, mas imbricados, na prática da acumulação de capital: a exploração e a expropriação. É a separação dessas duas “ex” e sua atribuição a duas populações diferentes que sustentam a opressão racial na sociedade capitalista.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 54)
Na primeira, defendo a tese de que o capitalismo abriga uma base estrutural de opressão racial, dado que depende da expropriação como condição necessária para a exploração. Em seguida, historicizo essa estrutura, delineando as configurações mutáveis dessas duas “ex” nas principais fases da história do capitalismo. Por fim, considero as perspectivas de superação da opressão racial em uma nova forma de sociedade capitalista que ainda se baseia na exploração e na expropriação, mas não as atribui a duas populações nitidamente demarcadas. Ao longo da explanação, exponho a tendência inerente do sistema de racializar populações para melhor canibalizá- las— e, portanto, porque devemos entender o capitalismo como um glutão que quer empurrá- las goela abaixo.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 55)
Meu argumento é que a expropriação é de fato constitutiva da sociedade capitalista e de seu entrelaçamento com o racismo. Em suma, como explicarei, a sujeição daqueles e daquelas que o capital expropria é uma condição oculta que possibilita a liberdade das pessoas que o sistema explora. Sem uma elaboração sobre a primeira condição, não é possível compreender totalmente a segunda, nem entrever a base estrutural do entrelaçamento histórico do capitalismo com a opressão racial.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 59)
expropriação é a acumulação por outros meios— outros, isto é, que não a exploração. Dispensando a relação contratual pela qual o capital compra “força de trabalho” em troca de salários, a expropriação funciona confiscando capacidades humanas e recursos naturais e convocando- os para circuitos de expansão do capital. O confisco pode ser escancarado e violento, como na escravização no Novo Mundo, ou velado sob o manto do comércio, como nos empréstimos predatórios e nas execuções de dívidas da era atual.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 60)
Por definição, um sistema dedicado à expansão ilimitada e à apropriação privada do valor excedente faz com que os proprietários do capital tenham um interesse profundo em confiscar o trabalho e os meios de produção das populações sujeitadas. A expropriação aumenta seus lucros ao reduzir os custos de produção de duas formas: por um lado, ao fornecer insumos baratos, como energia e matéria- prima; e, por outro, ao oferecer meios de subsistência de baixo custo, como alimentos e produtos têxteis, que permitem o pagamento de baixos salários. Assim, ao confiscar recursos e capacidades de sujeitos dependentes ou não livres, os capitalistas conseguem explorar de forma mais lucrativa os trabalhadores (duplamente) livres. Desse modo, as duas “ex” se entrelaçam. Por trás de Manchester está o Mississippi.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 61)
Dito tudo isso, a expropriação dos “outros” racializados constitui uma condição de fundo necessária para a exploração dos “trabalhadores”.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 62)
Primeiro, “acumulação primitiva” denota o processo sangrento pelo qual o capital se acumulou nos primórdios do sistema. 30 A expropriação, em contraste, designa um processo confiscatório continuado, essencial para sustentar a acumulação em um sistema propenso a crises. Em segundo lugar, Marx introduz a acumulação primitiva para explicar a gênese histórica da divisão de classes entre os trabalhadores desprovidos de propriedade e os proprietários capitalistas dos meios de produção.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 62)
Minha tese é de que as dinâmicas racializantes da sociedade capitalista estão cristalizadas no “marco” estrutural que distingue os alvos livres da exploração dos alvos dependentes da expropriação. Mas defender esse argumento exige uma mudança do foco “econômico” para o “político”, uma vez que apenas ao tematizar as ordens políticas da sociedade capitalista será possível compreender a constituição dessa distinção e, com ela, a invenção de “raça”.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 63)
A distinção entre expropriação e exploração é, ao mesmo tempo, econômica e política. Vistos pelo ponto de vista econômico, esses termos dão nome a mecanismos de acumulação de capital, formas analiticamente distintas, porém entrelaçadas, da expansão do valor. Vistos pela perspectiva política, os termos referem os modos de dominação— sobretudo com hierarquias de status que distinguem cidadãos e indivíduos detentores de direitos de povos sujeitados, escravos sem liberdade e membros dependentes de grupos subordinados.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 63)
a invenção política de sujeitos dependentes dentro do capitalismo sempre ultrapassou, no entanto, as fronteiras dos Estados. Por razões sistêmicas enraizadas nas lógicas entrelaçadas de rivalidade geopolítica e expansionismo econômico, Estados poderosos se mobilizaram para constituir sujeitos expropriáveis ainda mais longe, em zonas periféricas do sistema- mundo capitalista. Saqueando os rincões mais distantes do planeta, as potências coloniais europeias, e depois o Estado imperialista estadunidense, transformaram bilhões de pessoas nesses alvos podados de proteção política, prontos e disponíveis para o confisco. O número de sujeitos expropriáveis que esses Estados criaram excede e muito o número de trabalhadores- cidadãos que foram “emancipados” para a exploração.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 66)
a relação entre capitalismo e racismo não é apenas estrutural, como também histórica.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 67)
o capitalismo comercial ou mercantil entre o século xvi e o xviii. Trata- se da era que Marx tinha em mente quando cunhou o termo “acumulação primitiva”. Com essa expressão, o autor sinalizava que a principal força motriz da acumulação nessa fase do capitalismo não era a exploração, mas a expropriação. O mote era o confisco, expresso tanto nos cercamentos de terras no centro quanto na conquista, pilhagem e “caça comercial de peles negras” em toda a periferia, 33— ambos precedentes a ascensão da indústria moderna.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 68)
capitalismo mercantil deu lugar, no século xix, ao capitalismo colonial liberal. Nesse novo regime, as duas “ex” se tornaram mais equilibradas e interconectadas. Decerto, o confisco de terra e trabalho continuava acelerado, com a consolidação do domínio colonial ultramarino dos Estados europeus, enquanto os Estados Unidos expropriavam as populações originárias no próprio país e perpetuavam a “colônia interna” primeiro pelo prolongamento da escravidão racializada e, após a abolição, pela transformação de homens livres em escravos endividados através do sistema de meação de terras agrícolas. Agora, no entanto, a expropriação continuada na periferia se entrelaçou com a lucrativíssima exploração no centro. A novidade foi a ascensão da produção fabril em larga escala, que forjou o proletariado imaginado por Marx, subvertendo formas de vida tradicionais e desencadeando uma luta de classes generalizada.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 69)
A racialização se fortaleceu ainda mais com a aparente separação entre expropriação e exploração no regime colonial liberal. Nessa fase, as duas “ex” pareciam estar situadas em regiões distintas e atribuídas a populações diferentes— uma escravizada ou colonizada, outra (duplamente) livre. No entanto, na realidade, a divisão nunca foi tão delimitada assim, pois algumas indústrias extrativas empregavam pessoas sujeitadas no trabalho assalariado nas colônias, e somente uma minoria de trabalhadores explorados no centro capitalista conseguiu escapar totalmente da expropriação contínua.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 70)
O endividamento é o maior culpado aqui, pois as instituições financeiras globais pressionam os Estados a tramarem com investidores na canibalização da riqueza de populações indefesas.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 74)
encontramos no atual regime um novo entrelaçamento entre exploração e expropriação, e uma nova lógica de subjetivação política. No lugar da antiga separação nítida entre as pessoas sujeitadas e dependentes expropriáveis e os trabalhadores livres exploráveis, aparece um continuum. De um lado está a massa crescente de pessoas sujeitadas e expropriáveis indefesas; do outro, um número cada vez menor de cidadãos- trabalhadores, sujeitos “apenas” à exploração. No centro disso está uma nova figura, antes livre, mas profundamente vulnerável: o cidadão- trabalhador explorado e expropriado. Não mais restrito às populações periféricas e minorias raciais, essa nova figura está se tornando a regra.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 75)
Não obstante, o continuum entre expropriação e exploração permanece racializado. As pessoas não brancas ainda representam uma parcela desproporcional na ponta expropriativa do espectro, como observamos nos Estados Unidos. As populações negras, indígenas, latinas e asiáticas do país— a quem durante muito tempo foi negado crédito, mantendo- as confinadas em condições inferiores e segregadas de moradia, bem como recebendo remuneração insuficiente para conseguir constituir poupança— foram alvo sistemático de fornecedores de empréstimos de segunda linha [subprime loans] e, consequentemente, sofreram com os maiores índices de execuções de dívidas imobiliárias no país. Do mesmo modo, cidades e bairros onde residem minorias que passaram anos privadas de recursos públicos sofrem os maiores impactos do encerramento de atividades que geram empregos, afetando não só o mercado de trabalho, mas também a receita tributária e, portanto, o financiamento de escolas, hospitais e manutenção de infraestrutura básica— algo que, no limite, levou a desastres em lugares nos Estados Unidos como Flint, no estado de Michigan, e o bairro de Lower Ninth Ward, em Nova Orleans. Por fim, os homens negros, historicamente sujeitos a discriminação na aplicação de sentenças e penas mais duras de prisão, trabalhos forçados e violência tolerada socialmente (inclusive pelas mãos da política), são levados massivamente ao que teóricos críticos raciais chamaram de complexo industrial- prisional ao serem enjaulados em instituições carcerárias lotadas pela “guerra contra as drogas”, que mira na posse de pequenas quantidades de crack, e pelas taxas desproporcionais de desemprego. Apesar da mudança na articulação “ex- ex”, o racismo está vivo e passa bem no capitalismo financeirizado, que é um verdadeiro glutão enfiando castigos goela abaixo.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 76)
devemos perguntar qual poderia ser exatamente o sentido de capitalismo não racial nas atuais condições. Em uma interpretação, seria um regime em que, por um lado, as pessoas não brancas estariam representadas de modo proporcional nos altos comandos do sistema financeiro global e do poder político e, por outro, entre suas vítimas exploradas e expropriadas. Contemplar essa possibilidade não deve confortar muito as pessoas antirracistas, pois significaria a piora contínua das condições de vida da imensa maioria das populações não brancas, entre outras. Direcionado para a paridade dentro de uma desigualdade cada vez mais inflada, um capitalismo não racial desse tipo levaria, na melhor das hipóteses, a oportunidades iguais de canibalização em meio ao aumento da animosidade racial.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 80)
análise desenvolvida aqui sugere a urgência de uma transformação mais radical. Apesar das alegações dos neoliberais progressistas, não é possível derrotar o racismo com oportunidades iguais de canibalização nem, contrariando os liberais comuns, com reformas jurídicas. Do mesmo modo, em discordância com os nacionalistas negros, o antídoto não está nas zonas de empreendimento, no controle comunitário nem na autodeterminação. Também não é possível, como afirmam os socialistas tradicionais, emancipar as pessoas racializadas— e, com efeito, a população trabalhadora de qualquer cor— com um foco exclusivo na exploração. Pelo contrário, como vimos aqui, também é necessário mirar na expropriação com a qual a exploração está sistematicamente atrelada. É necessário, de fato, superar a articulação obstinada entre expropriação e exploração do capitalismo para transformar a matriz como um todo, erradicar as duas “ex” do capitalismo abolindo o sistema mais amplo que gera essa simbiose. Superar o racismo hoje exige a construção de alianças inter- raciais que tenham o objetivo de alcançar essa transformação. Embora estabelecê- las não seja um processo automático, resultado de uma mudança estrutural, elas podem ser construídas com esforço político permanente. A condição sine qua non para isso é uma perspectiva que destaque a simbiose entre exploração e expropriação no capitalismo financeirizado. Ao expor esse imbricamento mútuo, essa perspectiva sugere que nenhuma das “ex” pode ser superada de forma isolada. O destino das duas está atrelado, assim como o das populações que foram divididas de modo tão explícito no passado e agora se aproximam de modo tão incômodo. Hoje, quando os explorados são também os expropriados e vice- versa, talvez seja possível, finalmente, vislumbrar uma aliança entre eles. Talvez ao nublar a linha entre as duas “ex”, o capitalismo financeirizado esteja criando a base material para a abolição conjunta delas. Não obstante, cabe a nós agarrar a oportunidade e transformar uma possibilidade histórica em força histórica real de emancipação.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 80)
Enquanto o capital se alimenta da riqueza de populações racializadas, ele é também um devorador de cuidados. 38 Esse aspecto de sua natureza canibal se manifesta hoje na pobreza de tempo e exaustão social generalizada— experiências que têm uma base estrutural na realidade social. O fato é que nosso sistema social está exaurindo as energias necessárias para cuidar das famílias, manter as casas, sustentar comunidades, nutrir amizades, construir redes políticas e estabelecer solidariedades. Tratada com frequência como trabalho de cuidado, essas atividades são indispensáveis para a sociedade: elas repõem os seres humanos, tanto no cotidiano quanto no âmbito geracional, e ainda mantêm os vínculos sociais. Além disso, nas sociedades capitalistas, garantem o fornecimento de força de trabalho mercantilizada de onde o capital suga mais- valor. Sem esse trabalho de reprodução social, como vou denominá- lo, não haveria produção, nem lucro, nem capital; não haveria economia, nem cultura, nem Estado. Com efeito, é justo afirmar que nenhuma sociedade— capitalista ou não— que canibaliza sistematicamente a reprodução social consegue durar muito tempo. Ainda assim, é exatamente isto que a atual forma de capitalismo está fazendo: desviando os recursos emocionais e materiais que deveriam ser dedicados ao trabalho de cuidado para outras atividades não essenciais que engordam os cofres corporativos enquanto nos deixam à míngua. Disso resulta uma imensa crise, não apenas do cuidado, mas da reprodução social em seu sentido mais amplo.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 86)
O componente do “cuidado” é tão central para a crise mais ampla que nenhum outro pode ser bem compreendido se abstraído dele. No entanto, o inverso também se dá: a crise da reprodução social não existe em isolamento e não pode ser entendida por si só.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 87)
Proponho interpretar o atual estado de “calamidade do cuidado” como uma expressão aguda de uma contradição reprodutiva social inerente ao capitalismo. Essa formulação sugere duas ideias. Primeiro, as atuais tensões sobre o cuidado não são acidentais, mas têm raízes estruturais profundas em nossa atual ordem social, às quais me referi nos capítulos anteriores como capitalismo financeirizado. Não obstante— e esta é a segunda questão—, a presente crise da reprodução social indica que há algo podre não só na atual forma do sistema, como na sociedade capitalista per se. Não só o neoliberalismo, mas o próprio capitalismo precisa ser transformado. Meu argumento, portanto, é que cada forma da sociedade capitalista abriga uma profunda contradição social ou tendência à crise: por um lado, a reprodução social é uma condição de fundo necessária para a acumulação sustentada de capital; por outro, o ímpeto de acumulação ilimitada do capitalismo o leva a canibalizar as próprias atividades reprodutivas sociais de que depende. Essa contradição social do capitalismo está na raiz da nossa chamada crise do cuidado. Embora seja inerente ao capitalismo como tal, ela assume uma aparência diferente e distintiva em cada forma historicamente específica da sociedade capitalista. Os déficits do cuidado que vivenciamos hoje são a forma que essa contradição assume na atual fase financeirizada do desenvolvimento capitalista.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 87)
economia capitalista depende— pode- se dizer, vive à custa— de atividades de provimento, cuidado e interação que produzem e mantêm vínculos sociais, embora não atribua a elas valor monetizado e as trate como se fossem gratuitas. Chamada por diversos nomes, como “cuidado”, “trabalho afetivo” ou “subjetivação”, essa atividade forma os sujeitos humanos do capitalismo sustentando- os como seres naturais encarnados e, ao mesmo tempo, constituindo- os como seres sociais, formando o habitus e o ethos cultural no qual se movimentam. O trabalho de dar à luz e socializar a juventude é central para esse processo, assim como cuidar das pessoas idosas, manter as casas, construir comunidades e sustentar sentidos compartilhados, disposições afetivas e horizontes de valor que sustentam a cooperação social.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 89)
Nem o trabalho assalariado considerado produtivo nem o mais- valor extraído dele poderiam existir na ausência do trabalho de cuidado. É apenas graças ao trabalho doméstico, à criação dos filhos, à educação, ao cuidado afetivo e a uma variedade de atividades relacionadas que o capital obtém uma força de trabalho com qualidade e em quantidade adequada a suas necessidades. A reprodução social é precondição indispensável para a produção econômica em uma sociedade capitalista. 39
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 89)
geral, as sociedades capitalistas separam a reprodução social da produção econômica, associando aquela às mulheres e ofuscando sua importância e valor. Contudo, paradoxalmente tornam suas economias oficiais dependentes dos mesmos processos de reprodução social cujo valor denegam. Essa relação peculiar de divisão- dependência- denegação é a receita para a desestabilização. Com efeito, essas quatro palavras iniciadas em D sintetizam uma contradição: por um lado, a produção econômica capitalista não é autossustentável, mas depende da reprodução social; por outro, seu ímpeto por acumulação ilimitada ameaça desestabilizar as próprias capacidades e os processos reprodutivos de que o capital— e o resto de nós— precisa. O efeito disso ao longo do tempo, como veremos, é o comprometimento periódico das condições sociais necessárias da economia capitalista.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 90)
Assim como as contradições econômicas destacadas por marxistas, tal contradição também fundamenta uma tendência à crise. Neste caso, contudo, o problema não está localizado “dentro” da economia capitalista, mas na margem que separa (e conecta) produção e reprodução.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 91)
assegurado. A separação das esferas se provou igualmente problemática.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 96)
Um estrato das elites esclarecidas passou a acreditar que o interesse do capital de extrair o máximo de lucro a curto prazo deveria ser subordinado às exigências de longo prazo para a acumulação sustentada ao longo do tempo. A criação do regime administrado pelo Estado foi uma questão de salvar o sistema capitalista de suas próprias propensões à autodesestabilização— e do espectro da revolução em uma era de mobilizações de massa. Produtividade e lucratividade exigiam o cultivo biopolítico de uma força de trabalho saudável e instruída, que tivesse interesse direto no sistema, em oposição a uma plebe maltrapilha e revolucionária. 53 O investimento público em saúde, educação, creches e aposentadorias, complementado pelo provimento corporativo, foi percebido como necessidade em um momento em que as relações capitalistas haviam penetrado a vida social a tal ponto que as classes trabalhadoras não possuíam mais os meios para se reproduzir por conta própria. Nessa conjuntura, a reprodução social precisou ser internalizada, trazida para dentro do domínio oficialmente administrado da ordem capitalista. Esse projeto se encaixou com a nova problemática da “demanda” econômica. Com o objetivo de mitigar os ciclos endêmicos de expansão e quebra do capitalismo, os reformistas econômicos buscaram garantir o crescimento contínuo permitindo que os trabalhadores do centro do capitalismo cumprissem uma dupla função como consumidores. Aceitando a sindicalização (que levou a salários mais altos) e gastos no setor público (que geraram empregos), os formuladores de políticas agora reiventavam a casa como um espaço privado para o consumo doméstico de objetos de uso cotidiano produzidos em massa. 54 Relacionando, de um lado, a linha de montagem ao consumo familiar da classe trabalhadora e, de outro, à reprodução apoiada pelo Estado, esse modelo fordista forjou uma nova síntese de mercadorização e proteção social— projetos que Polanyi havia considerado antitéticos. Mas foram sobretudo as classes trabalhadoras— mulheres e homens— que lideraram a luta pelo provimento público, e havia motivos para isso. Para elas, a questão era alcançar a participação plena na sociedade enquanto cidadãs democráticas e, portanto, com dignidade, direitos e respeitabilidade, além de segurança e bem- estar material— coisas que, compreendia- se, exigiam uma vida familiar estável. Assim, ao acolher a social- democracia, as classes trabalhadoras estavam também valorando a reprodução social contra o dinamismo desmedido da produção econômica. Com efeito, estavam elegendo a família, o país e a subjetividade contra a fábrica, o sistema e a máquina. Ao contrário da legislação protetiva do regime anterior, o arranjo capitalista de Estado foi resultado de uma conciliação de classes e representou um avanço democrático.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 99)
aspectos. Em todos esses sentidos, a social- democracia sacrificou a emancipação por uma aliança de proteção social e mercadorização, mesmo mitigando a contradição social do capitalismo durante várias décadas. Mas o regime do capitalismo de Estado começou a desmoronar— primeiro, politicamente, na década de 1960, quando a Nova Esquerda global irrompeu para contestar as exclusões imperiais, raciais e de gênero e o paternalismo burocrático promovidas em nome da emancipação. Depois, economicamente, nos anos 1970, quando a estagflação, a “crise da produtividade” e a queda das taxas de lucro na indústria estimularam os esforços neoliberais de soltar as amarras da mercadorização. Se essas duas partes unissem forças, o que seria sacrificado seria a proteção social.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 103)
Assim como no regime colonial liberal anterior, a ordem capitalista administrada pelo Estado se dissolveu em uma crise prolongada. Nos anos 1980, quem observasse com boa projeção de futuro poderia identificar o surgimento das linhas gerais de um novo regime, que se tornaria o capitalismo financeirizado da atualidade. Globalizante e neoliberal, esse regime promove o desinvestimento estatal e corporativo no bem- estar social e, ao mesmo tempo, recruta um imenso contingente de mulheres para a força de trabalho remunerado, externalizando o trabalho de cuidado para as famílias e comunidades e reduzindo sua capacidade de realizá- lo. Disso resulta uma nova organização dualizada da reprodução social, mercantilizada para quem tem condições de pagar por ela e privatizada para quem não tem, pois algumas das pessoas na segunda categoria oferecem trabalho de cuidado em troca de salários (baixos) para quem faz parte da primeira. Enquanto isso, o duplo golpe da crítica feminista e da desindustrialização tirou definitivamente toda a credibilidade do salário familiar. Aquele ideal social- democrata deu lugar à atual norma neoliberal da “família de dois provedores”. A maior força motriz desses desdobramentos— e característica definidora desse regime— é a nova centralidade do endividamento. Como veremos no capítulo 5, a dívida é o instrumento pelo qual as instituições financeiras globais pressionam os Estados para cortar gastos sociais, impor medidas de austeridade e, em geral, conspirar com investidores para extrair valor de populações indefesas.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 103)
é cada vez mais pelo endividamento que o capital agora canibaliza o trabalho, disciplina os Estados, transfere a riqueza da periferia para o centro e suga o valor dos lares, das famílias, das comunidades e da natureza. O efeito disso é a intensificação da contradição, inerente ao capitalismo, entre produção econômica e reprodução social. Enquanto o regime anterior fortaleceu os Estados para subordinarem os interesses de curto prazo das empresas privadas ao objetivo de longo prazo da acumulação sustentada, em parte ao estabilizar a reprodução por meio do provimento público, este regime autoriza o capital financeiro a disciplinar os Estados de acordo com os interesses imediatos de investidores privados, exigindo sobretudo desinvestimento público na área da reprodução social. E enquanto o regime anterior aliou mercadorização e proteção social contra a emancipação, este produziu uma configuração ainda mais perversa, na qual a emancipação se une à mercadorização para solapar a proteção social.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 104)
Um deles colocou uma parte ascendente dos defensores do livre- mercado determinados a promover a liberalização e globalização da economia capitalista contra os movimentos de trabalhadores e trabalhadoras em declínio nos países do centro.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 105)
outro conjunto de lutas colocou os “novos movimentos sociais” progressistas, que desafiavam as hierarquias de gênero, sexo, “raça”, etnia e religião, contra populações que buscavam defender mundos da vida estabelecidos e privilégios (modestos) agora ameaçados pelo “cosmopolitismo” da nova economia. Da colisão desses dois conjuntos de lutas surgiu um resultado surpreendente: um neoliberalismo progressista, que celebra a “diversidade”, a meritocracia e a “emancipação” enquanto desmantela proteções sociais e re- externaliza a reprodução social. Disso decorre não só o abandono de populações indefesas às predações do capital, como também a redefinição da emancipação em termos mercadológicos. 61
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 105)
o imaginário dominante aqui é individualista liberal e igualitário de gênero: as mulheres devem ser iguais aos homens em todas as esferas, merecedoras de oportunidades iguais para concretizar seus talentos, incluindo— talvez especialmente— na esfera da produção. A reprodução, em contrapartida, aparece como um resíduo retrógrado,
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 106)
Apesar ou talvez por causa de sua aura feminista, essa ideologia liberal sintetiza a forma atual da contradição social do capitalismo, que assume nova intensidade. Além de diminuir o provimento público e recrutar as mulheres para o trabalho assalariado, o capitalismo financeirizado reduziu os salários reais, aumentando as jornadas de trabalho remunerado necessárias para sustentar uma família e levando a uma corrida desesperada para transferir o trabalho de cuidado para outras pessoas. 62 Para suprir a escassez de cuidado, o regime importa trabalhadoras migrantes dos países mais pobres para os mais ricos. Tipicamente, são as mulheres racializadas, muitas vezes de zonas rurais de regiões pobres, que assumem o trabalho reprodutivo e de cuidado antes realizado pelas mulheres mais privilegiadas. Mas, para isso, as migrantes precisam transferir suas próprias responsabilidades familiares e comunitárias para outras cuidadoras ainda mais pobres que, por sua vez, precisam fazer o mesmo— e assim por diante, em cadeias globais de cuidado cada vez maiores.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 106)
As lutas de fronteira em torno da reprodução social são tão centrais para a atual conjuntura quanto as lutas de classes (definidas de forma estrita) em torno da produção econômica. Elas respondem, acima de tudo, a uma “crise do cuidado” enraizada na dinâmica estrutural do capitalismo financeirizado. Globalizado e impulsionado pelo endividamento, esse capitalismo canibaliza sistematicamente as capacidades disponíveis para a sustentação de conexões sociais. Proclamando o novo ideal da família com dois provedores de renda, recupera movimentos por emancipação que se unem aos proponentes da mercadorização para se opor a quem toma partido da proteção social, agora de forma cada vez mais ressentida e chauvinista.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 108)
Mas ao preparar o terreno que nos permite fazê- las, busquei elucidar os alicerces estruturais e históricos da atual conjuntura. Sugeri, especificamente, que as raízes da “crise do cuidado” da atualidade estão na contradição social inerente do capitalismo— ou melhor, na forma aguda que essa contradição assume hoje, no capitalismo financeirizado. Se essa análise estiver correta, essa crise não será resolvida mexendo- se na política social. O caminho para sua resolução só pode passar por uma profunda transformação estrutural dessa ordem social. É necessário, acima de tudo, superar a subjugação gananciosa da reprodução à produção no capitalismo financeirizado— mas, desta vez, sem sacrificar nem a emancipação e nem a proteção social. E isso significa reinventar a distinção produção- reprodução e reimaginar a ordem de gênero.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 110)
resta saber se e como conseguiremos vislumbrar uma nova ordem social que cultive a reprodução social sem canibalizar a natureza.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 110)
Nessa conjuntura, proteger o planeta exige a construção de uma contra- hegemonia. Em outras palavras, é necessário solucionar a atual cacofonia de opiniões para chegar a uma lógica que possa orientar um projeto de transformação amplamente compartilhado.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 118)
Mas a nova lógica deve evitar o “ecologismo” reducionista. Longe de tratar o aquecimento global como um trunfo que passa por cima de todo o resto, é preciso localizar as dinâmicas sociais subjacentes a essa ameaça que também impulsionam outras partes da crise da atualidade. Será apenas enfrentando todas as grandes facetas dessa crise— tanto “ambientais” quanto “não ambientais”— e expondo as conexões entre elas que poderemos vislumbrar um bloco contra- hegemônico que apoie um projeto comum e tenha peso político para efetivamente levá- lo adiante.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 118)
caminhos levam a uma ideia— a saber, ao capitalismo. O capitalismo, no sentido definido nos capítulos anteriores e ampliado neste, representa o fator sócio- histórico que impulsiona as mudanças climáticas e, logo, a principal dinâmica institucionalizada que deve ser desmantelada para combatê- las. Mas o capitalismo, assim definido, também está profundamente implicado em formas de injustiça social de aparência não ecológica, da exploração de classe à opressão racial- imperial e à dominação de gênero e sexo. E o capitalismo também é central nos impasses sociais que aparentam não ser ecológicos: nas crises do cuidado e da reprodução social; do setor financeiro, das cadeias de suprimento, dos salários e do trabalho; da governança e da desdemocratização.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 119)
anticapitalismo pode— e com efeito deve— se tornar o motivo organizador central de uma nova lógica. Expondo as relações entre diversos aspectos da injustiça e da irracionalidade, ele representa a chave para o desenvolvimento de um poderoso projeto contra- hegemônico de transformação ecossocial.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 119)
O que significa afirmar que o capitalismo é o principal fator sócio- histórico que impulsiona o aquecimento global? Em um nível, esse argumento é empírico, uma afirmação de causa e efeito. Ao contrário das usuais referências vagas a “mudanças climáticas antropogênicas”, a culpa é atribuída não à “humanidade” em geral, mas à classe de empresários que, movidos pelo lucro, arquitetaram o sistema de produção e transporte por combustíveis fósseis liberando uma enxurrada de gases do efeito estufa na atmosfera. Trata- se de um argumento que defenderei empiricamente mais adiante, quando passar à parte histórica de minha argumentação.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 120)
dizer o mesmo de sociedades capitalistas. Elas são distintas dos outros sistemas sociais conhecidos por imbuírem uma profunda tendência à crise ecológica em seu próprio cerne.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 122)
precisamos revisitar o conceito de capitalismo. Como vimos nos capítulos anteriores, o capitalismo não é um sistema econômico, mas algo maior. Mais do que uma forma de organizar a produção e a troca econômica, é também uma forma de organizar a relação de produção e troca com suas condições não econômicas de possibilidade. Compreende- se bem em muitos setores que as sociedades capitalistas institucionalizam um campo econômico dedicado— o campo de uma abstração conhecida como “valor”—, onde as mercadorias são produzidas em meios de produção privados com a exploração de trabalhadores e trabalhadoras
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 122)
devemos entender o capitalismo de modo mais amplo: como uma ordem social institucionalizada que compreende não somente a “economia”, mas também as atividades, as relações e os processos definidos como não econômicos que possibilitam a economia.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 123)
expropriação também serviu como método para o capital acessar energia e matéria- prima a baixo custo, quando não de graça. O sistema se desenvolve, em parte, anexando fatias da natureza sem pagar por sua reprodução. No entanto, ao se apropriar da natureza, o capital expropria, ao mesmo tempo, as comunidades humanas para as quais a matéria confiscada e as cercanias conspurcadas constituem habitat, meios de vida e matéria base de sua reprodução social.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 132)
Começo pelo capitalismo mercantil e a questão energética. Nessa fase, assim como antes dela, o vento movia veleiros enquanto moinhos de vento e água moíam grãos em algumas localidades. Mas a agricultura e a manufatura funcionavam principalmente graças ao músculo animal— humano e não humano (bovino, equino, etc.), como já acontecia há milênios. Sendo nesse sentido uma continuação das sociedades pré- capitalistas, o capitalismo mercantil era o que o historiador ambiental j. r. McNeill chama de regime “somático”: a conversão de energia química em mecânica ocorria sobretudo dentro do corpo de seres vivos ao digerirem alimentos, originados na biomassa. 72 E isso significava que, assim como em eras anteriores, a principal forma de aumentar a energia disponível era por meio da conquista. Apenas pela anexação de terras e convocação de mais ofertas de mão de obra os poderes capitalistas mercantis podiam aumentar suas forças de produção.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 137)
Só agora o estudo teórico e histórico do ecoimperialismo começa a estimar a dimensão dessa transferência de custo82, revelando, ao mesmo tempo, a conexão próxima entre anticolonialismo e protoambientalismo. As lutas rurais contra a predação colonial liberal eram também “ecologismos dos pobres”, lutas por justiça ambiental avant la lettre. 83 Eram também lutas pelo sentido e valor da natureza, pois os imperialistas europeus criados em concepções científicas distanciadas buscavam subjugar comunidades que não faziam uma distinção nítida entre natureza e cultura.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 142)
É claro que o principal legado do capitalismo colonial liberal não foi o ambientalismo, mas, sem dúvida, a fatídica guinada para a energia exossomática, que transformou o mundo e “liberou” os estoques fossilizados de carbono que tinham passado milênios sendo sequestrados em segurança para debaixo da crosta terrestre. Esse legado, que nos trouxe o aquecimento global, foi acolhido e ampliado na era seguinte do capitalismo administrado pelo Estado, conforme uma nova hegemonia global arquitetava uma ampla expansão das emissões de gases do efeito estufa. Os Estados Unidos, tendo suplantado o Reino Unido, construíram um novo complexo industrial exossomático em torno do motor de combustão interna e do petróleo refinado. O resultado disso foi a era do automóvel: ícone da liberdade consumista, catalisadora da construção de rodovias, possibilitadora da suburbanização, despejadora de dióxido de carbono e remodeladora da geopolítica. Assim, a “democracia do carbono” alimentada a carvão deu lugar a uma variante alimentada pelo petróleo, cortesia estadunidense. 86
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 143)
Até aqui, apresentei argumentos estruturais e reflexões históricas para apoiar duas proposições: a primeira, de que o capitalismo abriga uma contradição ecológica profunda que o inclina, de forma não acidental, à crise ambiental; a segunda, de que essas dinâmicas estão intricadas com outras tendências a crises “não ambientais” e não podem ser resolvidas se isoladas delas. As implicações políticas são conceitualmente simples, ainda que desafiadoras na prática: uma ecopolítica capaz de salvar o planeta deve ser tanto anticapitalista quanto transambiental.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 151)
um impasse socioecológico originado no centro provoca uma rodada de pilhagem na periferia (incluindo na periferia do centro), que mira na riqueza natural de populações privadas dos meios políticos para se defender. Em cada caso, também, a solução envolve a conjuração e apropriação de uma nova natureza histórica, antes uma impureza que, de repente, torna- se ouro— uma mercadoria mundial indispensável, convenientemente vista como algo sem dono, disponível e pronta para ser tomada. O que se segue em cada caso, por fim, são efeitos descontrolados que desencadeiam novos impasses socioecológicos, provocando mais iterações do ciclo. E assim por diante.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 151)
Falar de uma crise histórica não é, no entanto, proclamar um colapso iminente. Também não se descarta o advento de um novo regime de acumulação que pode administrar provisoriamente ou adiar temporariamente a crise atual. A verdade é que não podemos saber, com certeza, se o capitalismo tem mais cartas na sua engenhosíssima manga capazes de protelar o aquecimento global, ao menos por algum tempo; nem, se for o caso, por quanto tempo. Também não sabemos se os partidários do sistema poderiam inventar, vender e implantar esses truques com agilidade suficiente, considerando que eles— e nós— estão em uma corrida pelo tempo com a Natureza i. Mas o seguinte é bem nítido: qualquer coisa mais que um quebra- galho temporário exigiria uma reordenação profunda da articulação entre economia e natureza com uma imensa restrição— ou abolição total— das prerrogativas do capital.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 153)
uma ecopolítica que busque evitar a catástrofe precisa ser anticapitalista e transambiental. Se o raciocínio para o primeiro desses adjetivos já está evidente, a justificativa para o segundo está na relação próxima, demonstrada aqui, entre depredação ecológica e outras formas de disfunção e dominação inerentes à sociedade capitalista. Considere, primeiro, as ligações internas entre espoliação natural e expropriação racial/ imperial. Ao contrário das alegações de terra nullius, as parcelas de natureza que o capital apropria são quase sempre as condições de vida de algum grupo humano: seu habitat e espaço de interação social carregado de sentido; seus meios de vida e a base material de sua reprodução social. Além disso, os grupos humanos na mira do capital são quase sempre aqueles que foram privados do poder de se defender e muitas vezes aqueles relegados ao lado errado da linha de cor global. Esse aspecto foi evidenciado inúmeras vezes ao longo da sequência de regimes e mostra, por um lado, que as questões ecológicas não podem ser separadas das questões de poder político e, por outro, daquelas que se referem a opressão racial, dominação imperial e despossessão e genocídio indígena.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 153)
elucidar de onde vieram e para onde podem ir juntas. O anticapitalismo é a peça que dá direção política e força crítica para o transambientalismo. Enquanto este último abre a ecopolítica para um mundo mais amplo, o primeiro treina o foco contra o principal inimigo. O anticapitalismo é, desse modo, o que determina a linha necessária para cada bloco histórico entre “nós” e “eles”. Desmascarando o comércio de carbono como o golpe que é, impulsiona cada corrente potencialmente emancipatória da ecopolítica a se desfiliar publicamente do “capitalismo verde”. Impulsiona cada corrente também a prestar atenção ao seu próprio calcanhar de Aquiles— sua inclinação a evitar confrontar o capital—, seja buscando uma desvinculação (ilusória), uma conciliação de classes (assimétrica) ou uma paridade (trágica) na extrema vulnerabilidade. Além disso, ao insistir no inimigo comum, a peça do anticapitalismo no quebra- cabeça indica um caminho que partidários e partidárias do decrescimento, da justiça ambiental e do Green New Deal podem percorrer juntos, mesmo que agora não consigam vislumbrar— quanto mais chegar a um acordo sobre— seu destino exato. Ainda resta saber, naturalmente, se algum destino será de fato alcançado, ou se o planeta continuará aquecendo até o ponto de ebulição. O melhor que podemos esperar para evitar esse destino é, repito, construir um bloco contra- hegemônico que seja transambiental e transcapitalista. Para onde esse bloco deve apontar para nos guiar ainda é uma questão obscura. Mas se eu tivesse que dar um nome ao objetivo, optaria por “ecossocialismo”.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 159)
Um exemplo, explorado no capítulo 3, é a contradição da reprodução social da sociedade capitalista. O segredo da acumulação já foi localizado corretamente por marxistas como o “terreno oculto” da produção da mercadoria, onde o capital explora o trabalho assalariado. Mas nem sempre esses autores tiveram uma compreensão completa de que esse processo depende do terreno ainda mais oculto do trabalho de cuidado não assalariado, em geral realizado por mulheres, que forma e repõe os sujeitos humanos que constituem a “mão de obra”. Mesmo tendo uma dependência profunda dessas atividades de reprodução social, o capital ainda assim não concede a elas nenhum valor (monetizado), tratando- as como gratuitas, de disponibilidade infinita e fazendo pouco ou nenhum esforço para sustentá- las. Sem controle, portanto, e dado seu ímpeto implacável de acumulação ilimitada, o capitalismo corre sempre o risco de desestabilizar os mesmos processos de reprodução social de que depende. Outro exemplo, formulado no capítulo 4, é a sua contradição ecológica. Por um lado, a acumulação do capital depende da natureza— tanto como “fonte”, que fornece os insumos materiais e energéticos para a produção de mercadorias, quanto como “escoadouro” para absorver os resíduos desta última. Por outro lado, o capital denega os custos ecológicos que gera, presumindo, com efeito, que a natureza pode se repor de forma autônoma e infinita. Também nessas circunstâncias a serpente tende a devorar a própria cauda, canibalizando as condições naturais de que depende. Nos dois casos, uma contradição entre campos sustenta uma predisposição a um tipo de crise capitalista que transcende a econômica: a crise da reprodução social, no primeiro, e crise ecológica, no segundo.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 167)
entre os imperativos da acumulação de capital e a manutenção dos poderes públicos de que a acumulação também depende. O nó do problema pode ser colocado da seguinte forma: o poder público legítimo e eficaz é uma condição de possibilidade para a acumulação sustentada do capital; no entanto, o ímpeto de acumulação infinita do capital tende, ao longo do tempo, a desestabilizar os mesmos poderes públicos de que depende. Essa contradição, como argumentarei aqui, está na raiz de nossa atual crise democrática. Mas, como também sustentarei, essa crise está inextricavelmente intricada com os outros impasses do sistema e não pode ser resolvida por si só.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 168)
capital depende de poderes públicos para estabelecer e fazer valer suas normas constitutivas. Afinal, a acumulação seria inconcebível na ausência de um marco legal que sustentasse a iniciativa privada e a troca mercadológica. Ela tem uma dependência crucial dos poderes públicos para garantir direitos de propriedade, fazer cumprir contratos e julgar controvérsias; reprimir rebeliões, manter a ordem e administrar a divergência; sustentar os regimes monetários que constituem a força vital do capital; realizar esforços para prevenir ou gerir crises; e sistematizar e impor tanto hierarquias de status oficiais, como aquelas que distinguem cidadãos de “estrangeiros”, quanto aquelas não oficiais, como as que distinguem trabalhadores livres explorados, autorizados a vender sua força de trabalho dos “outros” dependentes expropriáveis, cujos ativos e pessoas podem simplesmente ser confiscados.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 169)
Constitutiva do capitalismo como ordem social institucionalizada, essa separação impõe limitações severas ao escopo do político dentro dessa ordem. Delegando amplos aspectos da vida social ao domínio do “mercado” (na verdade, de grandes corporações), tal separação declara que esses aspectos estão fora dos limites da tomada de decisões democráticas, da ação coletiva e do controle público. O arranjo nos priva da capacidade de decidir coletivamente o que e quanto queremos produzir, com qual base energética e por meio de quais tipos de relações sociais. Também nos priva da capacidade de determinar como queremos utilizar o excedente social que produzimos coletivamente; como queremos nos relacionar com a natureza e as futuras gerações; como queremos organizar o trabalho da reprodução social e sua relação com aquela da produção. Assim, graças a sua estrutura inerente, o capitalismo é fundamentalmente antidemocrático. Mesmo no melhor dos casos, a democracia em uma sociedade capitalista deve ser forçosamente fraca e limitada.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 172)
praticamente desde seu início esse regime foi assolado pela instabilidade, tanto econômica quanto política. Nos países democratizantes do centro, a igualdade política manteve uma relação tensa com a desigualdade socioeconômica; e os direitos políticos ampliados ali incomodavam as mentes de alguns com a sujeição brutal que acontecia na periferia. Igualmente corrosiva foi a contradição, diagnosticada pela pensadora política Hannah Arendt, entre o impulso ilimitado e transterritorializante da lógica do capitalismo colonial liberal e o caráter limitado e territorialmente restrito de suas políticas democráticas. 104 Portanto, não surpreende, como destacou Karl Polanyi em A grande transformação, que essa configuração economia- política tenha provado ser dominada por crises crônicas. Pelo lado econômico, o capitalismo “liberal” enfrentou crises, colapsos e pânicos periódicos; pelo lado político, gerou intensas lutas de classes, lutas de fronteira e revoluções— tudo incitando e sendo incitado pelo caos financeiro internacional, por rebeliões anticoloniais e guerras anti- imperialistas.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 176)
o capitalismo administrado pelo Estado também enfrentou suas próprias contradições, tanto econômicas quanto políticas. O aumento dos salários e a generalização dos ganhos de produtividade se combinaram com uma redução nas taxas de lucro da produção no centro, provocando novos esforços por parte do capital para libertar as forças do mercado da regulação política.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 178)
De modo geral, o capitalismo financeirizado é a era da “governança sem governo”— ou seja, a era da dominação sem a dissimulação do consentimento. Nesse regime, não são os Estados, mas as estruturas transnacionais de governança, como a União Europeia, a Organização Mundial do Comércio, o nafta e os trips, que criam a maioria das regras levadas a cabo à força e que hoje regem imensas parcelas da interação social em todo o mundo. Sem responder a ninguém e atuando de forma descomunal pelos interesses do capital, esses órgãos estão “constitucionalizando” as noções neoliberais de “livre- comércio” e “propriedade intelectual”, inculcando- as no regime global e se antecipando para suplantar a legislação trabalhista e ambiental democrática. Por fim, esse regime promoveu a captura do poder público pelo poder privado (corporativo) com uma variedade de meios ao mesmo tempo em que colonizou o anterior internamente, moldando seu modus operandi a partir daquele das empresas privadas.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 181)
É certo que essa dinâmica deverá se intensificar até alguém puxar a cortina e expor a farsa. E é exatamente isso que a oposição progressista convencional não conseguiu fazer. Longe de desmascarar os poderes atrás da cortina, as correntes dominantes da “resistência” estão há muito entrelaçadas com eles. Esse é o caso das alas meritocráticas liberais de movimentos sociais de popularidade, como o feminismo, o antirracismo, os direitos lgbtq + e o ambientalismo. Operando na hegemonia liberal, há anos esses grupos funcionam como sócios minoritários de um bloco progressista neoliberal que também inclui setores “de pensamento vanguardista” do capital global (ti, setor financeiro, mídia, entretenimento). Assim, os progressistas também serviram como frontmen, embora de modo diferente: lançando uma aparência de carisma emancipatório sobre a economia política predatória do neoliberalismo. O resultado disso— que não haja dúvida— ficou longe de ser emancipatório. Não foi “só” que essa aliança profana arruinou as condições de vida da imensa maioria e, assim, criou o solo que cultivou a direita. Além disso, ela associou o feminismo, o antirracismo etc. ao neoliberalismo, garantindo que, quando a barragem finalmente rompesse e as massas da população rejeitassem este último, grande parte dela também rejeitaria aqueles primeiros. E é por isso que o principal beneficiário, ao menos até aqui, foi o populismo da direita reacionária. Também é por isso que estamos agora em um impasse político, como presas de uma batalha de distração fraudulenta entre dois grupos de frontmen rivais, um retrógrado, outro progressista, enquanto os poderes atrás da cortina riem no caminho até o banco.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 188)
Longe de desmascarar os poderes atrás da cortina, as correntes dominantes da “resistência” estão há muito entrelaçadas com eles. Esse é o caso das alas meritocráticas liberais de movimentos sociais de popularidade, como o feminismo, o antirracismo, os direitos lgbtq + e o ambientalismo. Operando na hegemonia liberal, há anos esses grupos funcionam como sócios minoritários de um bloco progressista neoliberal que também inclui setores “de pensamento vanguardista” do capital global (ti, setor financeiro, mídia, entretenimento). Assim, os progressistas também serviram como frontmen, embora de modo diferente: lançando uma aparência de carisma emancipatório sobre a economia política predatória do neoliberalismo. O resultado disso— que não haja dúvida— ficou longe de ser emancipatório. Não foi “só” que essa aliança profana arruinou as condições de vida da imensa maioria e, assim, criou o solo que cultivou a direita. Além disso, ela associou o feminismo, o antirracismo etc. ao neoliberalismo, garantindo que, quando a barragem finalmente rompesse e as massas da população rejeitassem este último, grande parte dela também rejeitaria aqueles primeiros. E é por isso que o principal beneficiário, ao menos até aqui, foi o populismo da direita reacionária. Também é por isso que estamos agora em um impasse político, como presas de uma batalha de distração fraudulenta entre dois grupos de frontmen rivais, um retrógrado, outro progressista, enquanto os poderes atrás da cortina riem no caminho até o banco.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 188)
Na ausência de novos realinhamentos, enfrentamos um terreno agitado sem bloco dominante hegemônico de ampla legitimidade nem qualquer adversário contra- hegemônico plausível evidente. Nessa situação, o cenário mais provável a curto prazo apresenta uma série de movimentos pendulares, em que os governos oscilam de um lado a outro entre o abertamente neoliberal (progressista ou retrógrado, favorável à diversidade ou excludente, liberal democrático ou protofascista) e o dito antineoliberal (populista de esquerda ou de direita, social- democrata ou comunitarista), e onde a combinação precisa será determinada em cada caso por especificidades nacionais.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 189)
quem o sucederá na construção de uma contra- hegemonia viável, e com qual base? Quem, em outras palavras, guiará o processo de transformação social, no interesse de quem e para qual finalidade?
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 190)
resposta depende, em parte, de como compreendemos a crise atual. Se ficarmos nas interpretações politicistas conhecidas, faremos uma leitura das agruras da democracia como uma espécie isolada de problema político. Atribuiremos valores morais à necessidade de civilidade, bipartidarismo e respeito à verdade e, ao mesmo tempo, ignoraremos as profundas fontes estruturais do problema. Navegaremos magnânimos sobre as preocupações dos “deploráveis” incivilizados, desconsideraremos as reivindicações daquelas massas críticas ao redor do planeta que estão rejeitando o neoliberalismo e exigindo mudanças fundamentais. Ao não reconhecer suas queixas legítimas (por mais equivocadas que sejam suas interpretações e orientações), nós nos tornaremos irrelevantes na construção de uma contra- hegemonia na luta
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 191)
A alternativa, como esbocei aqui, é ver as agruras atuais da democracia como expressões de contradições profundas inculcadas na estrutura institucional do capitalismo financeirizado— ou seja, como um componente de uma crise geral turbulenta de nossa ordem social. Afora suas forças substantivas, essa interpretação tem ainda o mérito de oferecer algum direcionamento prático. Apontando a direção correta para nós, ela nos desafia a arrancar a cortina, identificar o verdadeiro culpado e desmantelar a ordem antidemocrática disfuncional que é o capitalismo.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 192)
o “socialismo” também está de volta!
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 195)
A concepção ampliada de capitalismo delineada neles implica que precisamos de uma concepção ampliada de socialismo também. Afinal, uma vez abandonada a visão de capitalismo como uma economia, não podemos mais compreender o socialismo como um sistema econômico alternativo. Se o capital está programado para canibalizar os apoios “não econômicos” da produção de mercadorias, então uma alternativa desejável deve ir além de socializar a propriedade dos meios de produção. Para além desse desiderato— que eu apoio de todo o coração—, ela também deve transformar a relação da produção com suas condições de possibilidade de fundo: a saber, a reprodução social, o poder público, a natureza não humana e as formas de riqueza que estão fora dos circuitos oficiais do capital, mas ainda a seu alcance. Em outras palavras, como explicarei, um socialismo para nosso tempo deve superar não apenas a exploração do trabalho assalariado pelo capital, mas também seu parasitismo sobre o trabalho de cuidado não remunerado, os poderes públicos e as riquezas expropriadas dos povos sujeitados e racializados e da natureza não humana.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 196)
O socialismo, afinal, não deve ser um “mero dever” ou sonho utópico. Se vale a pena discuti- lo agora, é porque ele sintetiza possibilidades reais historicamente emergentes: potenciais para a liberdade, o bem- estar e a felicidade humana que o capitalismo trouxe para perto do alcance, mas não pode realizar.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 197)
o capitalismo como uma ordem social institucionalizada que inclui quatro condições não econômicas para a possibilidade de uma economia capitalista. A primeira, formulada no capítulo 2, é um grande fundo de riqueza expropriada de povos subjugados, sobretudo racializados, consistindo, acima de tudo, em terra, recursos naturais e trabalho dependente mal remunerado ou não remunerado.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 197)
Uma segunda precondição não econômica para uma economia capitalista foi exposta no capítulo 3: a saber, um fundo considerável de trabalho não remunerado e mal remunerado dedicado à reprodução social, em sua maioria realizado por mulheres. Esse trabalho de cuidado, que “faz” seres humanos, é indispensável para o que o sistema chama de produção, que faz coisas para produzir lucro.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 198)
Uma terceira precondição não econômica para a economia capitalista, discutida no capítulo 4, é um grande fundo de insumos gratuitos ou muito baratos advindos da natureza não humana.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 198)
capital trata a natureza como um depósito de tesouros de que pode se servir livremente ad infinitum e que não precisa repor nem reparar.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 199)
resposta heterodoxa para nossa pergunta inicial— o que é o capitalismo? O capitalismo não é uma economia, mas um tipo de sociedade em que uma arena de atividades e relações economicizadas é demarcada e separada de outras zonas não economicizadas, das quais aquelas primeiras dependem, mas denegam.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 200)
Primeiro, identificam a injustiça central do sistema na exploração, pelo capital, da classe de trabalhadores e trabalhadoras livres sem propriedade.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 200)
segundo lugar, na visão estreita a principal irracionalidade do capitalismo é sua tendência intrínseca à crise econômica. Um sistema econômico orientado à acumulação ilimitada de mais- valor, apropriado de forma privada por empresas que visam o lucro é inerentemente autodesestabilizante.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 201)
visão estreita propõe que o capitalismo é profunda e constitutivamente antidemocrático.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 201)
a visão do capitalismo como canibal revela um catálogo ampliado de injustiças. Longe de habitar exclusivamente dentro da economia do sistema, elas estão enraizadas nas relações entre a economia capitalista e suas condições não econômicas de possibilidade.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 202)
as sociedades capitalistas instituem uma divisão estrutural entre trabalhadores e trabalhadoras (duplamente) livres, que podem trocar sua força de trabalho pelos custos de sua reprodução, e os “outros” dependentes, cujos indivíduos,
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 202)
as sociedades capitalistas instituem uma divisão profunda entre seres humanos e natureza não humana, que deixam de pertencer ao mesmo universo ontológico. Reduzida a fonte e escoadouro, a natureza não humana fica aberta à brutalidade do extrativismo e da instrumentalização.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 203)
Assim, de modo geral, uma visão ampliada de sociedade capitalista visibiliza um catálogo ampliado de injustiças estruturais, que inclui a exploração de classe, mas vai muito além dela. Uma alternativa socialista deve corrigir essas outras injustiças também. Longe de “simplesmente” transformar a organização da produção econômica, deve também transformar a relação desta com a reprodução social e, com ela, as ordens sexual e de gênero. Do mesmo modo, deve também eliminar o parasitismo do capital contra a natureza e sua expropriação da riqueza de povos subjugados e, com isso, a opressão racial- imperial. Em suma, se é para o socialismo corrigir as injustiças do capitalismo, deve- se transformar não “apenas” a economia capitalista, mas toda a ordem institucionalizada que constitui a sociedade capitalista.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 203)
Há, primeiro, uma tendência sistêmica de canibalizar a reprodução social e, portanto, provocar crises do cuidado.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 204)
A atual forma financeirizada da sociedade capitalista está gerando exatamente uma crise dessas hoje, ao exigir a redução dos custos da provisão pública de serviços sociais e, ao mesmo tempo, o aumento das jornadas de trabalho assalariado por família, incluindo das mulheres.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 204)
visão ampliada do capitalismo expõe uma tendência estrutural à crise política.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 205)
a visão ampliada nos mostra que o capitalismo abriga múltiplas tendências à crise para além da econômica. Como explicado no capítulo 5, acompanho Karl Polanyi (e James O’Connor) na compreensão dessas tendências como contradições “entre campos”, alojadas nas juntas que separam— e conectam— a economia capitalista e suas condições não econômicas de possibilidade de fundo. Atrelado à lógica dos quatro Ds, que expliquei nos capítulos anteriores, o capital apresenta uma tendência intrínseca de corroer, destruir e exaurir— mas, de qualquer modo, desestabilizar— suas próprias pressuposições. Assim como o Ouroboros, devora a própria cauda. A autocanibalização também faz parte do que há de errado na sociedade capitalista e do que o socialismo precisa superar.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 205)
Os investidores determinados a alcançar a acumulação máxima tomam essas decisões pelas nossas costas. Assim, longe de se canibalizar sozinho, o capitalismo também nos canibaliza devorando nossa liberdade coletiva de decidir em conjunto como vamos viver. Para superar essa forma de canibalização, o socialismo deve ampliar o escopo do autogoverno político democrático para muito além de seus atuais limites esquálidos.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 206)
Se o socialismo tem o objetivo de corrigir todos os males do capitalismo, a empreitada é grande. É preciso inventar uma nova ordem social que supere não “apenas” a dominação de classe, mas também as assimetrias de sexo e gênero, a opressão imperial, étnica, racial e a dominação política em todos os sentidos. Do mesmo modo, deve desinstitucionalizar múltiplas tendências de crise: não “só” a econômica e financeira, mas também a ecológica, a da reprodução social e a política. Por fim, um socialismo para o século xxi deve alargar amplamente o alcance da democracia— e não “só” democratizando a tomada de decisões dentro da zona “política” predefinida. Mais fundamentalmente, deve democratizar a própria definição e demarcação, os próprios enquadramentos que constituem “o político”.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 207)
Em vez de se concentrar apenas de um lado, na organização interna da economia (ou, enfim, da natureza, da família ou do Estado), as pessoas socialistas precisam pensar sobre a relação da economia com suas condições de possibilidade de fundo: a reprodução social, a natureza não humana, as formas não capitalizadas de riqueza e o poder público. Se o socialismo deve superar todas as formas institucionalizadas da irracionalidade, da injustiça e da ausência de liberdade capitalista, deve reimaginar as relações entre produção e reprodução, sociedade e natureza, entre o econômico e o político.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 208)
Ao passo que as sociedades capitalistas subordinam os imperativos da reprodução ecológica, política e social àqueles da produção de mercadorias— ela em si orientada à acumulação—, os e as socialistas precisam colocar as coisas do lado certo: estabelecer o cuidado das pessoas, a proteção da natureza e o autogoverno democrático como as maiores prioridades da sociedade, acima da eficiência e do crescimento. Com efeito, o socialismo deve colocar diretamente em primeiro plano essas questões que o capital relega a seu plano de fundo denegado.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 208)
o que o capitalismo decidiu para nós pelas nossas costas deve agora ser decidido por nós em decisões democráticas tomadas pelo coletivo. Portanto, nós é que devemos nos engajar no que teóricos e teóricas do direito chamam de “reconfiguração de domínios” (“ redomaining”): redesenhar as fronteiras que demarcam as arenas sociais e decidir o que incluir dentro de seus limites.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 209)
Pode chamar de “esquema pré- pago”. Evitando todas as formas de parasitismo e da chamada acumulação primitiva, o socialismo do século xxi deve garantir a sustentabilidade de todas aquelas condições de produção que o capitalismo destruiu de forma tão insensível. Em outras palavras: uma sociedade socialista deve se encarregar de reabastecer, reparar e repor toda a riqueza que utiliza na produção e na reprodução. Primeiro, deve reabastecer o trabalho que produz valores de uso (incluindo o trabalho de cuidado que sustenta as pessoas), bem como o trabalho que produz mercadorias. Além disso, deve repor toda a riqueza que toma “de fora”— dos povos e sociedades periféricos e também da natureza não humana. Por fim, deve reabastecer as capacidades políticas e os bens públicos de que se vale para atender outras necessidades. Em outras palavras: não deve haver parasitismo do tipo que o capitalismo ao mesmo tempo incentiva e denega.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 210)
Uma sociedade socialista deve democratizar o controle sobre o excedente social. Deve distribuir o excedente democraticamente, decidindo, de forma coletiva, exatamente o que fazer com as capacidades e recursos que existem em excesso— assim como quanta capacidade em excesso deseja produzir no futuro e, de fato, se deseja produzir algum excedente diante do aquecimento global. Assim, o socialismo deve desinstitucionalizar o imperativo do crescimento incutido na sociedade capitalista.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 210)
nenhum mercado no topo, nenhum mercado na base, mas possivelmente alguns mercados no meio.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 212)
Assim, de modo geral, a Covid é uma verdadeira orgia de irracionalidade e injustiça capitalista. Ao amplificar os defeitos inerentes do sistema até o ponto da ruptura, ilumina com um raio intenso todos os terrenos ocultos de nossa sociedade.
Nancy Fraser, em Capitalismo Canibal (p. 222)

Pablo Neruda

Se Me Esqueceres Quero que saibas uma coisa. Sabes como é: se olho a lua de cristal, o ramo vermelho do lento outono à minha janela, se toco junto do lume a impalpável cinza ou o enrugado corpo da lenha, tudo me leva para ti, como se tudo o que existe, aromas, luz, metais, fosse pequenos barcos que navegam até às tuas ilhas que me esperam. Mas agora, se pouco a pouco me deixas de amar deixarei de te amar pouco a pouco. Se de súbito me esqueceres não me procures, porque já te terei esquecido. Se julgas que é vasto e louco o vento de bandeiras que passa pela minha vida e te resolves a deixar-me na margem do coração em que tenho raízes, pensa que nesse dia, a essa hora levantarei os braços e as minhas raízes sairão em busca de outra terra. Porém se todos os dias, a toda a hora, te sentes destinada a mim com doçura implacável, se todos os dias uma flor uma flor te sobe aos lábios à minha procura, ai meu amor, ai minha amada, em mim todo esse fogo se repete, em mim nada se apaga nem se esquece, o meu amor alimenta-se do teu amor, e enquanto viveres estará nos teus braços sem sair dos meus.
Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"

Paulo Freire

A educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.
Paulo Freire
A leitura do mundo precede a leitura da palavra.
Paulo Freire
Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.
Paulo Freire
Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.
Paulo Freire

Renato Noguera

As deusas são representações coletivas do passado que retratam as ambiguidades e disputas humanas protagonizadas pelas mulheres em contextos sociais e culturais diferentes, mas que se mantêm atuais.
Renato Noguera, em Mulheres e deusas
Héstia é o arquétipo da mulher que assumiu ou introduziu visão e perspectiva femininas do cuidado do espaço. Por isso, Héstia rege a arquitetura.
Renato Noguera, em Mulheres e deusas
Héstia é a naturalização de que o caráter de gestão doméstica e a organização do lar pertencem à mulher.
Renato Noguera, em Mulheres e deusas
O mito de Héstia é um símbolo de um estereótipo de gênero, uma ideia padronizada que circula com frequência nas mais diversas instâncias da sociedade: a ideia de que as mulheres são naturalmente donas de casa.
Renato Noguera, em Mulheres e deusas
Ora, existe em Héstia, patrona da arquitetura, a capacidade de construir um lar em que a casa seja vivenciada por todas as pessoas e em que os homens deixem de ser hóspedes de sua própria casa.
Renato Noguera, em Mulheres e deusas
Ártemis é um arquétipo feminino. Ela é um tipo de “mulher- maravilha”, uma guerreira, uma caçadora fenomenal que maneja arco e flecha com habilidade extraordinária. Uma mulher atlética que se relaciona com firmeza, amiga de outras mulheres e do tipo que não leva desaforo para casa.
Renato Noguera, em Mulheres e deusas
Hera nos revela a mulher que, mesmo poderosa, se submete ao homem abusador. Hera e Zeus formam um casal que sintetiza um modelo de casamento que ainda parece válido para as mentalidades mais conservadoras. O homem é quem pode tudo no mundo exterior; a mulher é a dona de casa, isto é, a senhora do mundo privado. Denominamos essa construção de gênero por duas expressões complementares: masculinidade tóxica e feminilidade em desvalia.
Renato Noguera, em Mulheres e deusas
Inferno é a face oculta de Perséfone, que, sem passar por essa dimensão, não estaria consciente de seus desejos. Daí se infere que só é possível que uma mulher floresça com a doçura da primavera e o vigor do verão após mergulhar no outono e no inverno de si mesma, banhados sempre por seus infernos mais inconfessáveis.
Renato Noguera, em Mulheres e deusas
capacidade de modificar situações graves e desagradáveis começam cultivando o solo mais óbvio: elas mesmas. Talvez seja este o ensinamento mais precioso de Deméter: cultiva- se a terra ao mesmo tempo que se promove uma “agricultura” de si mesma.
Renato Noguera, em Mulheres e deusas
Orixás são as forças da natureza, potências vivas e divinas que simbolizam a tempestade, a cachoeira, o trovão, o entardecer, o amanhecer, a lua, o sol, a mata, a floresta e todos os inúmeros fenômenos do meio ambiente. Os orixás também simbolizam atributos humanos: a maternidade, a paternidade, a vaidade, a capacidade de fazer guerra, a habilidade de firmar e manter a paz, o desejo de amar, o ciúme, a perspicácia, a inteligência, a inveja, a malícia, a astúcia e a sabedoria, entre outros. O povo iorubá classifica os quatrocentos
Renato Noguera, em Mulheres e deusas
Existe uma perspectiva interessante neste mito. Iara renasce como mulher-peixe, uma imagem similar à sereia dos europeus. Neste ponto, é preciso uma ressalva: apesar das mais diversas leituras que apontam Iara como uma releitura dos mitos ocidentais de sereias, há outra via de interpretação alicerçada por escritos indígenas, como os de Sandra Benite Ara Ete (guarani), Daniel Munduruku (munduruku) e Davi Kopenawa (yanomami), entre outros. Essa via é do conceito de animalismo. Ou, simplesmente, Iara é aquela que salva os homens de sua humanidade. O que isso significa? Os homens tenderiam a se distanciar de sua condição, separando razão de emoção. À primeira vista, os homens atraídos por Iara são levados pela sedução ao inescapável labirinto de um rio sem fundo. Uma leitura mais enriquecedora apresenta, entretanto, outra perspectiva: a mulher-peixe resgata o homem, recolocando-o em contato consigo mesmo. Iara funciona como uma salvadora, o que está distante da interpretação corrente das sereias dos mitos gregos, as quais arrastam os navegantes para o esquecimento. Em certa medida, o mito guarani coloca a mulher e todo o universo feminino em uma potência bem distinta: a mulher-peixe é justamente o reconhecimento de que somos natureza. O mito diz que a natureza não é algo dissociado da cultura. Por isso, Iara torna-se metade humana e metade peixe.
Renato Noguera, em Mulheres e deusas
O mito de Iara traz uma novidade. O aparente afogamento é justamente a possibilidade que o homem e a mulher têm de mergulhar em sua própria alma. Por isso, o rabo de peixe é a assunção de que a humanidade faz parte do reino animal. A “salvação” humana está em mergulhar naquilo que esquecemos e queremos eliminar, algo que só a mulher pode acessar sem mediação e, invariavelmente, mediar para o homem. Esse mito consagra certa supremacia feminina que já estaria impressa na própria natureza.
Renato Noguera, em Mulheres e deusas
O que o mito de Jaci e Naiá diz a respeito das mulheres? Seria o caso de uma relação afetiva entre duas mulheres? Sim, uma vez que a lua é uma deusa. Existem versões que descrevem Jaci como uma divindade masculina, mas isso não é consenso e, na maioria dos casos, nas narrativas mais populares, o sol é masculino e a lua, feminina. A beleza do encontro entre Jaci e Naiá produz uma “novidade”, a vitória-régia. O que essa flor significa? Como já dissemos, ela dança com os corpos celestes, o que quer dizer uma ligação radical e profunda. Por um lado, o poder lunar, visto como feminino, pode ser compreendido como uma dimensão que caracteriza um encontro privilegiado entre duas mulheres. Mais que um castigo ou morte, o episódio de Naiá simboliza o arquétipo de uma relação amorosa equânime, preservando diferenças e sem dominações. Os papéis são diferentes, o status de uma das amantes é divino e da outra, mortal. Mas ambas brilham, reconhecem seu valor e são reconhecidas por assim dizer publicamente como igualmente importantes. O arquétipo alforria e liberta do que seria um tabu: a relação afetivo-sexual entre duas mulheres. O pecado é uma categoria que passa ao largo da cosmossensação guarani. Por isso, o mito de Naiá parece ensinar algo que, no mundo contemporâneo, com as conquistas de direitos, é irreversível. O direito de amar é irrestrito e não é reduzível a critérios como atração pelo sexo oposto. Interessante notar que o povo guarani traz esse retrato isento de discriminação em uma narrativa que, à primeira vista, parece um encontro entre a lua e uma flor, mas se trata somente de mais uma história de amor. Uma metáfora para um encontro entre duas mulheres. Afinal, o amor não tem gênero.
Renato Noguera, em Mulheres e deusas
Mais do que a mitologia de uma cultura em si, o que interessa são os usos que podemos fazer dos mitos. Por exemplo, em um dado momento da guerra entre orixás femininos e masculinos, narrada pela mitologia iorubá, Exu e Orunmilá tramam juntos um roteiro para que as deusas sejam incitadas a lutar, usando a beleza como arma. Os dois colocam Oxum para disputar a atenção de Xangô com Obá e Iansã. Já o povo grego tem a Guerra de Troia como pano de fundo para um “concurso de beleza” em que Afrodite vence Hera e Atena. A intenção de recontar as narrativas não foi fazer um estudo comparado entre os mitos, embora, entre outros temas comuns, a hipervalorização da beleza seja um ponto que atravessa todo o livro como uma arma contra as mulheres. O concurso de beleza no mito grego tratado no primeiro capítulo tem semelhanças com a estratégia dos deuses masculinos africanos no segundo capítulo: a beleza feminina como forma de controle e dominação. A beleza pode ser uma armadilha. No caso de Medusa, a górgona, a beleza é um perigo. Ela despertou o desejo de Hades e, depois de violada, ainda foi alvo da vingança de Atena. Por isso, a sororidade parece ser a resposta buscada pelas mulheres. A palavra “sororidade”, tal como “fraternidade”, vem do latim: frater (“irmão”) e soror (“irmã”). Daí o significado de que sororidade é um tipo de “fraternidade” entre mulheres. Em geral, na cultura contemporânea ocidental só circula a ideia de fraternidade. O elemento masculino embutido no conceito de fraternidade dá margem aos ditados populares de que mulheres não nutrem entre si amizade verdadeira porque estão sempre disputando. Como se só os homens pudessem erguer confrarias, disputar, divergir e, ainda assim, se manter amigos. Só a sororidade poderia reconciliar as deusas Afrodite, Hera e Atena no Olimpo ou unir Oxum, Iansã e Obá no Orun. Pela sororidade, Eva poderia ter resgatado Lilith. Pela sororidade, a mãe de Iara poderia combater filhos e esposo em nome da filha. Nesse sentido, os mitos são exemplos de como a ausência de sororidade prejudica as mulheres e, aparentemente, favorece os homens.
Renato Noguera, em Mulheres e deusas
Sororidade é justamente o desenvolvimento dessa capacidade de colaborar. Não significa que uma mulher precisa ser amiga de todas as mulheres, mas que o respeito vai organizar as relações. A sororidade fortalece a empatia mesmo diante das diferenças — existem mulheres heterossexuais, lésbicas, transgênero, negras, pardas, indígenas, brancas, amarelas, ricas, pobres, de classe média, com deficiências físicas, intelectuais, jovens e velhas, entre uma infinidade de tipos. O mais importante é procurar a conciliação por meio de agendas comuns. A sororidade é uma maneira eficaz de recusar que o homem seja visto como símbolo universal da humanidade, recusando a supremacia e a centralidade masculina. Também nos convida a compreender que a mulher não é responsável pelo pecado, pela malícia, pela inveja e pela mentira. Tampouco Pandora, a personagem mítica grega, foi a culpada por prender a esperança. A sororidade reinventa esse mito ao dizer que foi por causa de Pandora que a esperança não se afastou de nós e permanece guardada em sua caixa — o coração de todas as pessoas do mundo —, enquanto os males foram embora.
Renato Noguera, em Mulheres e deusas

Rub

Quando eu contava estórias para minha filha — ela era bem pequena ainda —, tinha uma pergunta que ela sempre me fazia: "Esta estória aconteceu de verdade?". Eu não tinha jeito de responder. Se fosse o Peter Pan adulto, tal como aparece no Hook — A volta do Capitão Gancho, eu diria logo que tudo era só uma mentirinha sem importância que eu estava inventando para que ela dormisse logo e eu pudesse voltar a me ocupar das coisas importantes do mundo real do dinheiro, da política, do trabalho, das rotinas da casa. Diria a ela que o livro que me importava, aquele que eu realmente lia, livro de cabeceira, era a agenda de capa verde. Nas suas páginas se escrevia a realidade. Mas ela era ainda muito criança — com o tempo cresceria e aprenderia a ler a literatura do real que só pode ser lida nas agendas. Por enquanto, ela podia se entregar às palavras mentirosas das estórias, só para que o sono viesse mais depressa... Mas eu não era o Peter Pan adulto e o que eu tinha para dizer eu não dizia, pois achava complicado demais para a cabecinha dela. O que eu gostaria de dizer a ela e não disse é que as estórias que eu contava não aconteceram nunca para que acontecessem sempre. A Terra do Nunca é a Terra do Sempre, que existe eternamente dentro da gente. Já o que aconteceu de fato, documentado, fotografado, comprovado pela ciência e escrito com o nome de História — isso aconteceu do lado de fora da gente e, por isso, não acontece nunca mais. Está morto e enterrado no passado, e não há feitiço que faça ressuscitar. Mas aquilo que não aconteceu nunca, aquilo que só foi sonhado, é aquilo que sempre existiu e que sempre existirá, que nem nasceu nem morrerá, e a cada vez que se conta acontece de novo... Se ela me tivesse feito a pergunta de um jeito diferente, se me tivesse perguntado se acreditava na estória, ah!, eu teria respondido fácil: "Mas é claro que acredito!". Pois eu só acredito no que não aconteceu nunca, no que é sonho, pois de sonhos, é disso que somos feitos. A estória da Branca de Neve não aconteceu nunca, mas todos nós somos, sempre, uma Madrasta que se vê triste diante do espelho e manda a menina, nós também, para ser morta na floresta. A estória de João e Maria não aconteceu nunca, mas em toda criança existe a fantasia terrível do abandono. A estória de Romeu e Julieta não aconteceu nunca, mas queremos ouvi-la de novo, pois dentro de nós existe o sonho do amor puro, belo e imortal. E é por isso que sou incuravelmente religioso, porque nas estórias da religião, que não aconteceram nunca, os sonhos e pesadelos da alma se acham refletidos. Acredito porque sei que são mentira. Se fossem verdade, não me interessariam. As estórias são contadas como espelhos, para que a gente se descubra nelas. Os orientais são os grandes mestres nessa arte, esquecida dos ocidentais porque cresceram, como o Peter Pan do filme Hook, e passaram a acreditar somente naquilo que a agenda conta, sem perceber que, porque ela diz a verdade, mente. Quero contar para você a estória que mais tenho contado — não aconteceu nunca, acontece sempre. Um homem muito rico, ao morrer, deixou suas terras para os seus filhos. Todos eles receberam terras férteis e belas, com exceção do mais novo, para quem sobrou um charco inútil para a agricultura. Seus amigos se entristeceram com isso e o visitaram, lamentando a injustiça que lhe havia sido feita. Mas ele só lhes disse uma coisa: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá". No ano seguinte, uma seca terrível se abateu sobre o país, e as terras dos seus irmãos foram devastadas: as fontes secaram, os pastos ficaram esturricados, o gado morreu. Mas o charco do irmão mais novo se transformou num oásis fértil e belo. Ele ficou rico e comprou um lindo cavalo branco por um preço altíssimo. Seus amigos organizaram uma festa porque coisa tão maravilhosa lhe tinha acontecido. Mas dele só ouviram uma coisa: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá". No dia seguinte seu cavalo de raça fugiu e foi grande a tristeza. Seus amigos vieram e lamentaram o acontecido. Mas o que o homem lhes disse foi: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá". Passados sete dias o cavalo voltou trazendo consigo dez lindos cavalos selvagens. Vieram os amigos para celebrar essa nova riqueza, mas o que ouviram foram as palavras de sempre: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá". No dia seguinte o seu filho, sem juízo, montou um cavalo selvagem. O cavalo corcoveou e o lançou longe. O moço quebrou uma perna. Voltaram os amigos para lamentar a desgraça. "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá", o pai repetiu. Passados poucos dias, vieram os soldados do rei para levar os jovens para a guerra. Todos os moços tiveram de partir, menos o seu filho de perna quebrada. Os amigos se alegraram e vieram festejar. O pai viu tudo e só disse uma coisa: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá...". Assim termina a estória, sem um fim, com reticências... Ela poderá ser continuada, indefinidamente. E, ao contá-la, é como se contasse a estória de minha vida. Tanto os meus fracassos quanto as minhas vitórias duraram pouco. Não há nenhuma vitória profissional ou amorosa que garanta que a vida finalmente se arranjou e nenhuma derrota que seja uma condenação final. As vitórias se desfazem como castelos de areia atingidos pelas ondas, e as derrotas se transformam em momentos que prenunciam um começo novo. Enquanto a morte não nos tocar, pois só ela é definitiva, a sabedoria nos diz que vivemos sempre à mercê do imprevisível dos acidentes. "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá."
Rubem Alves
Quando o meu nome é pronunciado, eu sou imediatamente informado do que fiz no passado. E, ao ser informado, pelo som enfeitiçador do meu nome, daquilo que fiz no passado, sou também informado do meu ser e daquilo que se espera de mim no futuro. O nome, assim, obriga-me a ser de um jeito que se espera. O nome contém o programa do meu ser.
Rubem Alves

Stephen Hawking

Somos todos viajantes do tempo em uma jornada rumo ao amanhã.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 38)
Poderíamos definir deus como a encarnação das leis da natureza.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 43)
Uso a palavra “deus” em sentido impessoal, como Einstein fez para as leis da natureza; assim, conhecer a mente de deus é conhecer as leis da natureza.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 43)
Sou da opinião de que o universo foi criado espontaneamente, do nada, segundo as leis da ciência. O pressuposto básico da ciência é o determinismo científico. As leis da ciência determinam a evolução do universo dado seu estado a um dado momento. Essas leis podem ou não ter sido determinadas por deus, mas ele não pode intervir para infringi- las, pois então elas não seriam leis. Isso dá a deus a liberdade de escolher o estado inicial do universo, mas mesmo aí parece que deve haver leis. Assim deus não teria liberdade alguma.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 43)
Quais são os três ingredientes necessários? O primeiro é a matéria— coisas que tenham massa. A matéria está a nossa volta, por toda a parte, no chão sob nossos pés e no espaço sideral acima. Poeira, rocha, gelo, líquidos. Vastas nuvens de gás, espirais massivas de estrelas com bilhões de sóis, espalhados por distâncias inacreditáveis. A segunda coisa de que vamos precisar é energia. Mesmo que você nunca tenha pensado a respeito, todo mundo sabe o que é energia. Algo que encontramos diariamente. Vire para o Sol e você pode senti- la no rosto: a energia produzida por uma estrela a 150 milhões de quilômetros de distância. A energia permeia o universo e impulsiona os processos que fazem dele um lugar dinâmico, mudando infinitamente. Assim, temos matéria e temos energia. A terceira coisa de que precisamos é espaço. Espaço aos montes.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 44)
No momento do Big Bang, um universo inteiro passou a existir e, com ele, o espaço. Tudo inchou, como uma bexiga sendo soprada. Então de onde vem toda essa energia e espaço? Como pode um universo inteiro repleto de energia, da espantosa vastidão do espaço e de tudo que há nele simplesmente surgir do nada? Para alguns, é aí que deus volta a entrar em cena. Deus criou a energia e o espaço. O Big Bang foi o momento da criação. Mas a ciência conta uma história diferente.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 45)
Quando o Big Bang produziu uma quantidade massiva de energia positiva, simultaneamente produziu a mesma quantidade de energia negativa. Dessa forma, o positivo e o negativo resultam em zero, sempre. É outra lei da natureza.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 46)
O universo é uma enorme bateria armazenando energia negativa. O lado positivo das coisas— a massa e a energia que vemos hoje em dia— é como a colina. O buraco correspondente, ou a porção negativa das coisas, esparrama- se por todo o espaço.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 46)
Como sabemos que a soma do positivo e do negativo resulta em zero, tudo que precisamos fazer é descobrir o que— ou quem, se preferir— deu origem ao processo todo. O que pode ter causado o surgimento espontâneo de um universo? Inicialmente, parece um problema desconcertante— afinal, as coisas não se materializam do nada. Não podemos estalar os dedos e esperar que uma xícara de café apareça quando temos vontade.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 47)
o espaço e o tempo no universo estão fundamentalmente entrelaçados. Algo incrivelmente maravilhoso aconteceu com o tempo no instante do Big Bang. O próprio tempo começou.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 48)
Acredito que o papel desempenhado pelo tempo no começo do universo é a chave final para eliminar a necessidade de um grande projetista e revelar como o universo criou a si mesmo.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 49)
À medida que viajamos de volta no tempo em direção ao momento do Big Bang, o universo fica cada vez menor e continua diminuindo até finalmente chegar a um ponto em que se torna um espaço tão ínfimo que na verdade se trata de um único buraco negro infinitesimalmente pequeno e denso. E, assim como acontece com os buracos negros que hoje flutuam pelo espaço, as leis da natureza ditam algo verdadeiramente extraordinário. Elas nos dizem que aí também o próprio tempo tem que parar. Não podemos voltar a um tempo anterior ao Big Bang porque não havia tempo antes do Big Bang. Finalmente encontramos algo que não possui uma causa, porque não havia tempo para permitir a existência de uma. Para mim, isso significa que não existe a possibilidade de um criador, porque ainda não existia o tempo para que nele houvesse um criador.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 50)
Se eu tenho fé? Cada um é livre para acreditar no que quiser. Na minha opinião, a explicação mais simples é que deus não existe. Ninguém criou o universo e ninguém governa nosso destino. Isso me levou a perceber uma implicação profunda: provavelmente não há céu nem um além- túmulo. Acho que acreditar em vida após a morte não passa de ilusão. Não existe evidência confiável disso e a ideia vai contra tudo que sabemos em ciência. Acho que, quando morremos, voltamos ao pó. Mas, em certo sentido, continuamos a viver: na influência que deixamos, nos genes que passamos adiante para nossos filhos. Temos apenas esta vida para apreciar o grande plano do universo, e sou extremamente grato por isso.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 50)
Einstein introduziu sua revolucionária teoria geral de relatividade. Nela, espaço e tempo não eram mais absolutos, não eram mais um cenário fixo para os eventos. Antes, eram quantidades dinâmicas moldadas pela matéria e energia do universo. Elas eram definíveis apenas dentro do universo, assim não tinha sentido falar em um tempo anterior ao nascimento do universo.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 55)
Em outras palavras o universo está se expandindo. As galáxias estão se afastando umas das outras.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 57)
princípio da incerteza, proposto em 1927 pelo cientista alemão Werner Heisenberg. É impossível alcançar a exatidão ao se prever simultaneamente a posição e a velocidade da partícula.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 61)
Einstein repudiou veementemente a ideia de que o universo é governado pelo acaso. Seu ponto de vista ficou sintetizado na máxima “Deus não joga dados”. Mas toda evidência aponta o contrário: deus é um tremendo apostador. O universo é como um cassino gigante com os dados rolando ou a roleta girando a todo momento. A casa corre o risco de perder dinheiro a cada lançamento de dados ou giro de roleta. Mas com uma grande quantidade de apostas, as probabilidades ficam na média e o dono do cassino se certifica de que essa média opere em seu favor. Por isso donos de cassino são tão ricos. A única chance de ganhar contra eles é apostar todo seu dinheiro em alguns poucos lances de dados ou giros da roleta. O mesmo se dá com o universo. Quando ele é grande, há uma quantidade numerosa de lances de dados, e os resultados correspondem a uma média que pode ser prevista. Porém, quando ele é muito pequeno, próximo ao Big Bang, há apenas uma pequena quantidade de lances de dados e o princípio da incerteza é muito importante. Portanto, a fim de compreender a origem do universo, devemos incorporar o princípio da incerteza à teoria da relatividade geral de Einstein. Esse
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 61)
O princípio antrópico diz que o universo tem que ser mais ou menos como o vemos porque, se fosse diferente, não haveria ninguém para observá- lo.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 64)
A teoria- M, nossa melhor candidata para uma teoria unificada completa, admite um número muito grande de histórias possíveis para o universo.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 64)
mente humana é uma coisa incrível. Ela pode conceber a magnificência do firmamento e as complexidades dos componentes básicos da matéria. Porém, toda mente necessita de uma fagulha para atingir seu pleno potencial. A centelha da curiosidade e da dúvida.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 170)
Muitas vezes essa centelha vem de um professor. Deixe que me explique. Não fui um aluno exemplar, demorei para aprender a ler e minha caligrafia era ruim. Mas quando estava com quatorze anos, meu professor em St. Albans, Dikran Tahta, mostrou- me como aproveitar minha energia e me encorajou a pensar criativamente em termos matemáticos. Ele abriu meus olhos para as matemáticas como o projeto de construção do próprio universo. Por trás de toda pessoa excepcional, há um professor excepcional. Quando pensamos nas coisas que sabemos fazer na vida, há grandes chances de que as saibamos graças a um professor.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 170)
A base para o futuro da educação deve residir em escolas e professores inspiradores.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 171)
Alguns acham que o atual estado da humanidade é o pináculo da evolução e que não iremos mais longe do que isso. Discordo. Deve haver algo muito especial acerca das condições de contorno do nosso universo— e o que pode ser mais especial do que não haver contorno algum? Igualmente, a diligência humana não deve se deixar limitar por nenhuma fronteira. Do modo como vejo, há duas opções para o futuro da humanidade. Primeiro: a exploração do espaço para encontrar planetas alternativos onde viver. Segundo: o uso positivo da inteligência artificial para melhorar nosso mundo.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 173)
Deixe- me explicar melhor. Não estou promovendo a ideia de que todo mundo deve ser cientista quando crescer. Não vejo isso como uma situação ideal, já que o planeta precisa de gente com as mais variadas habilidades. Mas defendo que todos os jovens deveriam estar familiarizados e à vontade com os temas da ciência, independentemente da carreira que seguirem. Esses indivíduos não devem crescer como analfabetos científicos e precisam ser inspirados a se envolver com os acontecimentos em ciência e tecnologia para aprender mais. Um mundo onde apenas uma minúscula superelite é capaz de compreender os avanços científicos e tecnológicos e suas aplicações seria, a meu ver, um lugar perigoso e limitado. Duvido seriamente que projetos com benefícios de longo prazo, como limpar os oceanos ou curar doenças no mundo em desenvolvimento, receberiam prioridade. Pior ainda, poderíamos descobrir que a tecnologia é usada contra nós e que talvez não tenhamos poder para impedi- la.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 176)
saber de fato de onde virá a próxima grande descoberta científica, tampouco quem a fará. Proporcionar acesso à emoção e ao espanto da revelação científica, criando maneiras inovadoras e acessíveis de atingir o maior público jovem possível, aumentará em muito nossas chances de encontrar e inspirar um novo Einstein. Esteja ele ou ela onde estiver.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 177)
Assim, lembre- se de olhar para as estrelas, não para os próprios pés. Tente compreender o que vê e questione o que faz o universo existir. Seja curioso. E por mais que a vida pareça difícil, sempre há algo que você pode e consegue fazer. Nunca desista. Deixe sua imaginação correr solta. Molde o futuro.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões (p. 178)

Valter Hugo Mãe

Deus é exactamente como as mães. Liberta Seus filhos e haverá de buscá-los eternamente. Passará todo o tempo de coração pequeno à espera, espiando todos os sinais que Lhe anunciem a presença, o regresso dos filhos. Deus é exactamente como são as mães, que criam e depois vão ficando para trás, à distância, numa distância que parece significar que não são mais precisas, e Ele, como elas, só sabe amar acima de qualquer defeito e qualquer falha, com cada vez maior saudade, mas não sabe o caminho, não sabe por onde os filhos foram, só pode suplicar que não se percam e não se percam da vontade de voltar. Espalha por toda a parte Seus sinais. Avisa contra tudo e cria memórias, para que os filhos se lembrem d'Ele mesmo em lugares onde nunca haviam estado antes e estabeleçam sempre um mapa que os esclareça para fora de qualquer labirinto. Deus está na escuridão, e tacteia por toda a parte na vontade intensa de um toque, do aconchego do corpo dos filhos, um gentil toque ou um abraço. E os filhos distraem-se e são incautos ou tornam-se impuros e fogem, atarefados com suas paixões e incertezas, e pensam menos no quanto Deus pode sofrer do que no sofrimento que haverão eles de sentir pela mais pequena contrariedade. Os filhos partem sem saberem que o sentido da vida é chegar à origem. Dispersos na paisagem de Deus, os filhos lembram, por vezes, do amor, como é primordial e lhes foi colocado no peito com generosidade. Contudo, os filhos julgam que o amor é o consumo da vida, o imediato que observam, a evidência de se verem acompanhados quando a verdadeira companhia encontra sempre um modo de chegar a casa. Eles partem para mais longe. Os filhos partem para mais longe buscando o que, afinal, tanto ficara lá atrás. Deus, como as mães, corre os dias inteiros à janela e escuta. Qualquer bulício Lhe acelera o coração. Se existem passos em redor de Sua casa, se alguma voz O chama, palpita como doido de alegria na esperança de ter um filho em visita. Deus pisa até de leve, quer tudo em sossego, sem sobressalto, porque sabe apenas estar à espera por tão grande esperança de ser correspondido no amor. Como as mães, Ele arruma Sua casa, tem sempre as camas prontas, alguma fruta na mesa, de onde enxota as moscas barafustando, até indignado, porque aquelas frutas podem ser para oferecer à boca de um filho. E a fome de um filho é prioritária, contra leões e tempestades. A casa de Deus tem a chave do lado de fora, debaixo de um vaso. Toda a gente o sabe. É tique de todas as mães que dormem lá dentro vulneráveis a qualquer ladrão em troca da oportunidade de, ao menos uma vez, um filho voltar, tomar a chave e entrar, mesmo que a meio da noite, no descanso profundo, entre os sonhos, porque, de todo o modo, o maior sonho possível é esse mesmo, que o filho volte e ocupe sua cama, ocupe seu lugar. Esteja nem que por um instante ali. Para que o veja, o ouça e sinta. E Deus preocupa-se com ver como engordou ou emagreceu, como está a cor em torno das pupilas dos olhos, como entorta a boca ao falar, se os cabelos lhe ficam brancos e caem mais cedo, que ferida traz no ombro, que ferida tem no coração, quem lha fez. E Deus escuta suas queixas e avalia suas mazelas e nunca culpa o filho, mesmo que toda a gente lúcida o fizesse, porque quer que os filhos sejam impunes, justos para que sejam sempre impunes. Sonhou-lhes a justiça e não quer ver mais nada. Ensinou assim. Exactamente como as mães, Deus cozinha seus pratos favoritos e acredita que agora ficarão para sempre ou, ao menos, regressarão todos os fins de semana, todos os meses, que não vão ficar separados sem notícias por tanto tempo, porque dói demasiado. Deus confessa que os buscou no escuro. Passando as mãos pelas ruas do mundo, a descer o nariz para buscar seu cheiro, e tantas vezes pode ter feito ruído, por ter entornado algo pelo chão, talvez até por ter partido um canto de vidro. Não era a intenção. Fica ansioso, em certas buscas. Procura sem pressa, mas apressa-se sem noção. Deus, como são as mães, tem a impressão de que vai morrer se não voltar a ver os filhos. Depois, ouve pacientemente o filho a repreendê-lo, porque não devia andar à sua procura, porque não é mais criança, porque se sente demasiado comprometido, vigiado, cansado, ocupado, aflito com assuntos que Deus, como as mães, não haveria de entender ou aceitar. E Deus aceita Sua culpa e procura ser amado acima de toda a Sua precipitação. Está sempre à míngua de ser amado, porque nenhum amor dos filhos Lhe será o bastante. Terá um eterno medo do abandono. Se os filhos repararem na casa de Deus, verão como conserva as fotografias expostas por todos os móveis, mesmo as mais velhinhas e descoloradas, a irem embora da luz, sem prata, evaporando. Ele convive com essas imagens e lembra cada instante como se não permitisse que nenhum instante terminasse. As lembranças dos filhos são sempre nascentes e não haverão jamais de terminar. Por causa disso, se Lhe perguntarem, verificam que Deus sabe tudo, lembra aquilo de que ninguém mais lembra. Guarda como um tesouro o passado. Sente tanto orgulho e tanta saudade que nunca deixará de lembrar e de contar a quem se abeirar como foi, como foram, como deverão estar felizes Seus filhos algures. Ainda que tenha criado Céu e Terra, ainda que deitasse aos bichos uma infinidade de sentimentos para avanços e recuos, juízo de toda a ordem, inteligência e génio no ofício da sobrevivência e da multiplicação, Deus só entendeu o medo quando criou Seus filhos. Nunca imaginaria. Com o nascimento do primeiro filho comparou a felicidade ao medo. Tão grandes coisas, iguais de tamanho, agora irrevogáveis em Sua bravura de seguir em frente. Irremediáveis. Deus passou a dormir suave. Mais parecido a dormir do que verdadeiramente. E decidiu que o tempo se suspende à distância dos filhos. Vale de muito pouco ou quase nada. Deixa água à Sua cabeceira porque teme morrer de sede. Teme morrer sem acabar Sua tarefa e teme que Sua tarefa termine e O deixem morrer. Quando Se levanta, ainda muito cedo, arriscando que as últimas raposas lhe subam às varandas e saltem janelas adentro, Deus deixa as portadas para trás e recebe o primeiro sol, outra vez acreditando que ainda vai acontecer de cada um de Seus filhos e cada uma de Suas filhas dizerem Seu nome inequívoca e alegremente. De pensar nisso, Deus chora e, distraído, chega a cantar. Quem passa perto, bem escuta. Se Ele se dá conta, como as mães, canta ainda mais alto, desimportado de desafinar. A casa de Deus precisa de obras porque espera que os filhos venham para ajudar. Tem manchas de humidade nas quais Ele já nem repara. E andam por ali aranhas e até um escaravelho verde pequenino que deve ter vindo numas folhas de alface para a salada, e fustigam os ventos sempre a entortar uma telha ou a fazer tombar as árvores mais infantis. Deus repõe o que pode sem reparar que tudo vai ficando mais velho. Não repara porque a medida de Seus olhos são as memórias. Para Ele, tudo aquilo é feito da muita alegria que lembra, é feito do muito esforço de outrora, e a família ainda reverbera pelos cómodos, ainda é capaz de comer uma fatia de bolo e julgar que em seu redor reparte pelos filhos aquele pouco de açúcar e que toda a gente regozija tão feliz, como se não fossem necessárias outras felicidades, porque, na verdade, nenhuma é maior. Como se não fosse necessário que os filhos cresçam, porque até os filhos, se pudessem, escolheriam estar para sempre naquele instante, em redor de suas mães perfeitas, porque é o amor que aperfeiçoa. É aquilo que se sente que aperfeiçoa, eliminando qualquer capacidade de prestar atenção ao erro ou ao defeito. Se Deus pudesse, escreveria a cada filho uma carta de amor para o convencer a vir em visita. Mas o paradeiro do filho só se descortina pela prece. Sem isso, Deus guarda as cartas que escreve sem ter para onde as enviar. Espera. No que à visão de Seus filhos se refere, Deus espera na escuridão. Seu candeeiro é Seu nome à boca do filho. Cantando por uma manhã, a passarada chilreando para comparar afinações, Deus assume Suas dores. Mas quer apenas entregar alegrias. Quando encontrado, Deus apenas promete a alegria. Tudo o mais é falso. Desdém de quem não quis voltar a casa. De quem se perdeu e envergonhou.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (Cap. 10)
Amamos mais o que vemos em perigo. Amamos mais quem vemos em
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 24)
perigo. Somos feitos para aumentar de coração perante a família que sofre. Por vezes, nem tripas levamos dentro, nem estômago ou rins. Somos tão ocupados por amar alguém que nenhuma função desempenhamos senão a de amar, e todo nosso interior é o coração dilatado, esforçado como um touro jovem que se disfarça em nosso aspecto mais frágil.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 24)
Os irmãos, haviam- me explicado, são uma companhia para sempre, para depois da morte de todos os mais velhos.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 26)
Quando eu houver de ser velho também, quando tudo se houver de tornar desconhecido, meu irmão perdurará. Por meu sangue e por afecto. Perduraremos e saberemos lembrar e honrar as mesmas pessoas e as mesmas coisas. E teremos a glória de haver superado o que nos quis abater. Carregaremos a dignidade de nossa família, seremos tudo quanto houver de nossos pais e diremos cada palavra como corais, esse colectivo de gente que conterá sempre Mariinha e Julinho dos Pardieiros. Para onde formos, seremos muitos. Orgulhosos e muitos. Nossa boca dirá por todos.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 26)
Certamente ficou demorado a ver para dentro, sim, antes da contingência de ver para fora e cegar para o interior, como acontece com todas as pessoas, uma a uma.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 34)
procurava aquietar- me, igual a parar o próprio coração de bater. Minha natureza era a do movimento. Quase sempre me movia antes de saber para onde ou por que razão. A cabeça nunca era mais rápida do que os nervos no corpo. A cabeça esperava razões e explicações, o corpo seguia a vertigem. Era um animal ativado pela simples evidência de pulsar.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 35)
As mães pressentem as contas perfeitas. Mesmo que não saibam escrever. Elas pesam o mundo só com o olhar, percebem como falta cor ao mato, como estardalham menos pássaros. Elas sabem que desceram as águas das levadas, que os dias encolheram nem que três minutos. As mães escutam mesmo que de noite, durante o sono, e percebem que alguém partiu e a ilha está mais sozinha.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 46)
Quando minha mãe puser as mãos neste dinheiro, vai levá- lo onde adube, onde cubra, onde cure, onde faça justiça. Este dinheiro, minha senhora, vai ser inteligente à força da minha mãe. Vai aprender uma lição de vida. Vai ser como um doutor. E eu ficarei feliz.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 47)
Que horror que as pessoas se pusessem a chorar nos caminhos, atravancando a normalidade, impedindo o dia impune dos outros.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 71)
Nós, que éramos tão urgentes em milagres, não conseguíamos repartir milagre algum com quem necessitava. Ainda que tão bem entendêssemos como se sofria, não éramos valentes para o sofrimento dos outros.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 73)
O medo sempre pergunta sobre a culpa, porque a coragem constrói a partir da convicção de se merecer, ou não, vencer o obstáculo.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 86)
irmãs. Eu acho que Deus guarda para as mulheres um pedaço muito maior de ternura.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 88)
A solidão é sempre uma espécie de fim. O fim de um lugar. Como se não houvesse mais para onde caminhar. Caminhar daqui embora. Eu pensava. Quando sentia estar só, aquilo de ser por dentro do peito, onde se dizia mais doer, pelo coração, ou pelas veias que forneciam o sangue ao coração, eu pensava que o mais importante era caminhar dali embora.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 90)
Naquele silêncio que se fez, o santo sorriu. E eu disse: mãe, vigie como sorri. Vigie sua paz. Mariinha, certamente exausta, desmaiou sobre o meu ombro, abandonada depois do primeiro sorriso de Pouquinho. A paz de minha mãe era depois da paz dos filhos. Jamais antes.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 94)
Deus é exactamente como as mães. Liberta Seus filhos e haverá de buscá- los eternamente. Passará todo o tempo de coração pequeno à espera, espiando todos os sinais que Lhe anunciem a presença, o regresso dos filhos.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 100)
Deus é exactamente como são as mães, que criam e depois vão ficando para trás, à distância, numa distância que parece significar que não são mais precisas, e Ele, como elas, só sabe amar acima de qualquer defeito e qualquer falha, com cada vez maior saudade, mas não sabe o caminho, não sabe por onde os filhos foram, só pode suplicar que não se percam e não se percam da vontade de voltar. Espalha por toda a parte Seus sinais. Avisa contra tudo e cria memórias, para que os filhos se lembrem d’Ele mesmo em lugares onde nunca haviam estado antes e estabeleçam sempre um mapa que os esclareça para fora de qualquer labirinto. Deus está na escuridão, e tacteia por toda a parte na vontade intensa de um toque, do aconchego do corpo dos filhos, um gentil toque ou um abraço. E os filhos distraem- se e são incautos ou tornam- se impuros e fogem, atarefados com suas paixões e incertezas, e pensam menos no quanto Deus pode sofrer do que no sofrimento que haverão eles de sentir pela mais pequena contrariedade. Os filhos partem sem saberem que o sentido da vida é chegar à origem. Dispersos na paisagem de Deus, os filhos lembram, por vezes, do amor, como é primordial e lhes foi colocado no peito com generosidade. Contudo, os filhos julgam que o amor é o consumo da vida, o imediato que observam, a evidência de se verem acompanhados quando a verdadeira companhia encontra sempre um modo de chegar a casa. Eles partem para mais longe. Os filhos partem para mais longe buscando o que, afinal, tanto ficara lá atrás.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 100)
Deus, como as mães, corre os dias inteiros à janela e escuta. Qualquer bulício Lhe acelera o coração. Se existem passos em redor de Sua casa, se alguma voz O chama, palpita como doido de alegria na esperança de ter um filho em visita. Deus pisa até de leve, quer tudo em sossego, sem sobressalto, porque sabe apenas estar à espera por tão grande esperança de ser correspondido no amor. Como as mães, Ele arruma Sua casa, tem sempre as camas prontas, alguma fruta na mesa, de onde enxota as moscas barafustando, até indignado, porque aquelas frutas podem ser para oferecer à boca de um filho. E a fome de um filho é prioritária, contra leões e tempestades.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 101)
A casa de Deus tem a chave do lado de fora, debaixo de um vaso. Toda a gente o sabe. É tique de todas as mães que dormem lá dentro vulneráveis a qualquer ladrão em troca da oportunidade de, ao menos uma vez, um filho voltar, tomar a chave e entrar, mesmo que a meio da noite, no descanso profundo, entre os sonhos, porque, de todo o modo, o maior sonho possível é esse mesmo, que o filho volte e ocupe sua cama, ocupe seu lugar. Esteja nem que por um instante ali. Para que o veja, o ouça e sinta. E Deus preocupa- se com ver como engordou ou emagreceu, como está a cor em torno das pupilas dos olhos, como entorta a boca ao falar, se os cabelos lhe ficam brancos e caem mais cedo, que ferida traz no ombro, que ferida tem no coração, quem lha fez. E Deus escuta suas queixas e avalia suas mazelas e nunca culpa o filho, mesmo que toda a gente lúcida o fizesse, porque quer que os filhos sejam impunes, justos para que sejam sempre impunes. Sonhou- lhes a justiça e não quer ver mais nada. Ensinou assim.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 101)
Se Deus pudesse, escreveria a cada filho uma carta de amor para o convencer a vir em visita. Mas o paradeiro do filho só se descortina pela prece. Sem isso, Deus guarda as cartas que escreve sem ter para onde as enviar. Espera. No que à visão de Seus filhos se refere, Deus espera na escuridão. Seu candeeiro é Seu nome à boca do filho. Cantando por uma manhã, a passarada chilreando para comparar afinações, Deus assume Suas dores. Mas quer apenas entregar alegrias. Quando encontrado, Deus apenas promete a alegria. Tudo o mais é falso. Desdém de quem não quis voltar a casa. De quem se perdeu e envergonhou.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 104)
Pouquinho dizia que Deus era como as mães, criava os filhos e deixava- os partir. Passaria, depois, a vida à espera de os rever, como se vivesse na escuridão, afinal incapaz de nos detectar no périplo de nossas decisões e esconderijos. Pouquinho explicava que a oração nos assinalava em seu mapa. Se evocássemos Seu nome Lhe abriríamos os olhos sobre nosso corpo, nosso lugar. E eu aprendera minhas orações e julgava cumprir a melhor promessa. Pouquinho ensinara que não se prometem a Deus sofrimentos nem sacrifícios porque, como as mães, Ele não nos quer ver sofrer. Nunca prometas a Deus o teu sofrimento. Ajuda Seus filhos a reencontrar o caminho para casa. Devemos prometer cantar- Lhe, alimentar- Lhe os filhos, salvar- Lhe os animais, regar as plantas, semear pela terra toda, proteger os livros. Caminhar em visita. Ele dizia: quero que prometas, Felicíssimo. Eu quero que tu prometas que O ajudas, mas que não te provocarás a dor. Quem se vicia na dor desumaniza- se.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 142)
Se Deus houvesse de estar na escuridão, seu mundo acendia constantemente e suas dádivas persistiam, como as mães faziam. Suspeitando da presença dos filhos, as mães dispõem aqui e ali alimentos e cuidam da segurança. Enxotam os predadores, calam a vizinhança, deixam as portas apenas no trinco, baixam a televisão, não querem desaperceber nada. Como as mães, Deus fertilizava a paisagem superpotente, incansável, amoroso. Como as mães, Deus guardava a esperança terna de haver educado seus filhos para se lembrarem sempre de que jamais os abandonaria.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 174)
não sabemos nada e estaremos sempre sem saber. A única ciência que nos assiste é a de preferirmos amar. Quem prefere o amor vive no milagre, e o milagre é em toda a parte.
Valter Hugo Mãe, em Deus na escuridão (p. 184)
Um deus só ocorre para os que necessitam. Deuses são por mérito dos que não desistem.
Valter Hugo Mãe, em As doenças do Brasil (p. 45)
onde dois guerreiros tardios haviam capturado a língua do branco e a mantinham sob feitiço dentro de suas bocas.
Valter Hugo Mãe, em As doenças do Brasil (p. 57)
O negro era um animal manso, desiluminado. Existia assimétrico nas preguiças e abusos do branco. Fazia pelo branco e morria sumário, tantas vezes sem razão e muito raro sonho. O negro era um animal sem guerra e defendia nada. A comunidade abaeté desperdiçava os negros. Passavam rarissimamente nas ilhas do órgão vital, mal orientados para encontrar um mocambo que juravam haver muito depois do quarto mar. Para os abaeté, depois do quarto mar era fim do mundo, queda das pedras, vegetação imatura em acordos ainda primitivos. O que habitasse para lá do quarto mar teria vocação de breve ou nenhuma vida. Sopraria apenas na poeira do vento.
Valter Hugo Mãe, em As doenças do Brasil (p. 70)
serei teu amigo até que saibas ser meu amigo também.
Valter Hugo Mãe, em As doenças do Brasil (p. 95)
Sermos daqui ou dali não obedece ao lugar do corpo. A cultura naturaliza- nos de outro modo e é mestiça. É identidade de um pouco de cada coisa e quem é só de um lugar é pobre porque nenhum lugar é inteiro.
Valter Hugo Mãe, em As doenças do Brasil (p. 173)

Xavier de Maistre

Não há nada mais atrativo, a meu ver, que seguir o rastro das próprias ideias, como o caçador persegue a caça, sem se preocupar em seguir nenhuma rota. De
Xavier de Maistre, em Viagem ao redor do meu quarto (p. 30)
Nas longas noites de inverno, às vezes é agradável e sempre é prudente se refestelar com languidez numa poltrona, longe do tumulto das multidões.— Uma boa lareira, livros, penas; que belos recursos contra o tédio!
Xavier de Maistre, em Viagem ao redor do meu quarto (p. 30)
Confesso que adoro desfrutar desses doces instantes e que sempre prolongo, na medida do possível, o prazer que sinto em meditar no suave calor da minha cama.—
Xavier de Maistre, em Viagem ao redor do meu quarto (p. 33)
Enfim, é nesse móvel encantador que nos esquecemos, durante metade da vida, dos desgostos da outra metade.
Xavier de Maistre, em Viagem ao redor do meu quarto (p. 33)
A cama nos vê nascer e nos vê morrer; é o palco efêmero onde a humanidade representa, alternadamente, dramas interessantes, farsas risíveis e tragédias medonhas.— É um berço guarnecido de flores;— é o trono do amor;— é um sepulcro.
Xavier de Maistre, em Viagem ao redor do meu quarto (p. 33)
A grande arte do homem de gênio é saber educar bem a sua besta, para que ela possa caminhar sozinha, enquanto a alma, livre da penosa convivência, consegue se elevar até o céu.
Xavier de Maistre, em Viagem ao redor do meu quarto (p. 39)
Que raio de luz! Pobre amante! Enquanto você definha longe da sua amada, junto à qual talvez já tenha sido substituído; enquanto fixa os olhos avidamente em seu retrato e imagina (pelo menos no que concerne à pintura) ser o único que ela encara, a pérfida efígie, tão infiel quanto a original, dirige seus olhares a tudo que a cerca e sorri para todo mundo.
Xavier de Maistre, em Viagem ao redor do meu quarto (p. 41)
Feliz aquele que encontra um amigo cujo coração e espírito lhe agradam; um amigo com quem se une por conformidade de gostos, sentimentos e saberes; um amigo que não seja atormentado pela ambição nem pelo interesse;— que prefira a sombra de uma árvore à pompa de uma corte!— Feliz aquele que tem um amigo!
Xavier de Maistre, em Viagem ao redor do meu quarto (p. 91)
O espelho apresenta ao viajante sedentário mil reflexões interessantes, mil observações que o tornam um objeto útil e precioso.
Xavier de Maistre, em Viagem ao redor do meu quarto (p. 115)
Sempre imparcial e verdadeiro, o espelho devolve aos olhos do espectador as rosas da juventude e as rugas da idade, sem caluniar nem bajular ninguém.— É o único, entre os conselheiros dos grandes homens, que lhes diz sempre a verdade.
Xavier de Maistre, em Viagem ao redor do meu quarto (p. 116)
Essa vantagem me fez desejar a invenção de um espelho moral, diante do qual todos os homens pudessem se enxergar com seus vícios e suas virtudes. Considerei inclusive propor a alguma academia um prêmio por essa descoberta, mas certas reflexões maduras me provaram sua inutilidade.
Xavier de Maistre, em Viagem ao redor do meu quarto (p. 116)
Ah, é tão raro que a feiura se reconheça e quebre o espelho! Em vão os espelhos se multiplicam em nosso entorno e refletem com exatidão geométrica a luz e a verdade; porém, no momento em que os raios penetram nossos olhos e nos pintam tal como somos, o amor- próprio se intromete com seu prisma enganador entre nós e nossa imagem e nos apresenta uma divindade. E de todos os prismas que já existiram, desde o primeiro que saiu das mãos do imortal Newton, nenhum jamais possuiu uma força de refração tão poderosa e produziu cores tão agradáveis e vibrantes como o prisma do amor- próprio.
Xavier de Maistre, em Viagem ao redor do meu quarto (p. 116)
botem na cabeça que em dia de baile a amante dos senhores não lhes pertence. No momento em que têm início os preparativos, o amante não passa de um marido, e o baile se transforma no único amante.
Xavier de Maistre, em Viagem ao redor do meu quarto (p. 151)